Artigo de Ailton Alves Ronaldo e as meninas
Ronaldo e as meninas
Elas, as marias-chuteiras, mo?as formosas ou nem tanto, existem desde que os sal?rios dos jogadores subiram de forma inversamente proporcional ao futebol que apresentavam em campo. S?o espertas e farejam, com a destreza s? compar?vel aos c?es da Scotland Yard, a boa presa, aqueles que tem potencial para ganhar dinheiro ou que foram esnobados por elas mesmas quando n?o eram nada na vida.
No tempo do futebol rom?ntico, n?o havia isso n?o. Namorar boleiro era coisa para mulher de verdade. Nunca esque?o uma foto que vi certa vez de Dona Guiomar, no port?o de casa, recepcionando o marido, o craque Didi do Botafogo, que chegava uniformizado do Maracan?, ap?s uma decis?o de campeonato (e n?o havia ali nenhum sinal de submiss?o ao "chefe do lar"). E n?o se esquece nunca o inferno ao qual Elza Soares teve que se submeter para ficar com Garrincha (e n?o havia ali nenhum centavo envolvido ou qualquer tipo de explora??o de prest?gio).
N?o acredito que Ronaldo tenha pensado em executar uma jogada diferente. Acho mesmo que ele percebeu a bola fora e tirou o time de campo. A quest?o n?o ? essa e na verdade nem interessa. Com o dinheiro e a fama que tem, o fen?meno poderia, por exemplo, se instalar em um hotel de luxo em Paris e pedir, pelo servi?o de quarto, a, digamos, companhia de uma russa, uma et?ope, uma australiana ruiva e 25 brasileiras, de capa da Playboy a ... travestis.
Por?m, Ronaldo estava no Rio, a sua cidade, com a camisa do Flamengo e rec?m-sa?do do Maracan?. Talvez quisesse t?o somente reescrever o tempo em que era apenas um jogador do S?o Crist?v?o e, naquela condi??o, nem as prostitutas lhe davam bola.
Cometeu um grande erro, que ser? lembrado para todo o sempre. A tragicom?dia de Ronaldo Fen?meno, no entanto, ? outra: ele n?o consegue definir se quer ser Heleno de Freitas ou George Best. Heleno sa?a do Maracan? bem vestido, com cabelo engomado e ia paquerar no Cassino da Urca. Em nenhum momento, nas palavras e no jogo de sedu??o, usava a sua condi??o de jogador de futebol. Best, pelo contr?rio, abusava de sua fama de melhor atacante da Inglaterra. Em sua ?ltima entrevista, pouco antes de morrer, ele confessou: "70% do que ganhei com o futebol gastei com cerveja e mulheres. Os outros 30% eu desperdicei".
Al?m de na??o de hip?critas e de sermos cordiais, somos a terra de campe?es. O Brasil ? o ?nico pa?s do mundo onde se disputa campeonatos estaduais. L? fora, o m?ximo de fuga dos torneios nacional ? as copas da Liga. Em alguns pa?ses, Argentina por exemplo, s?o promovidos dois turnos da competi??o nacional, com dois vencedores distintos.
A f?rmula brasileira agrada, ativa a rivalidade regional e n?o raro provoca muitas emo?es e incr?veis vencedores: o ABC, de Natal (RN), recordista nacional, conquistou este ano seu 50? trof?u de campe?o potiguar. E h? nuances interessantes, que servem de papo no boteco por horas a fio: aqui em Minas, o Cruzeiro levantou sua 34? ta?a de dono das Gerais, contra 39 do Atl?tico. Acontece que os cruzeirenses, cobertos de boa inten??o, s? querem considerar a Era Mineir?o (a partir de 1965). Nesse caso, o placar a favor dos azuis ? de 22 a 17. Os atleticanos, com uma grande dose de nostalgia, evocam o passado, quando o atual est?dio era apenas uma miragem e ganham: 22 a 12.
Est?o, as duas torcidas, certas. Em casas onde sobram trof?us todo mundo fala e todos t?m raz?o.
Ailton Alves ? jornalista e cronista esportivo
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