Pisando no pedal do sonho

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Pisando no pedal do sonho

Ailton Alves 17/11/2008

O Independ?ncia ? um daqueles est?dios charmosos, que chamam aten??o primeiro pelo nome - tal qual o Aflitos (do N?utico, em Recife), o Mo?a Bonita, tamb?m denominado Prolet?rio (do Bangu, no Rio), o Brinco de Ouro da Princesa (do Guarani, em Campinas), a Ilha do Retiro, do Sport, tamb?m em Recife), o S?o Janu?rio (do Vasco da Gama), o Ressacada (do Ava?, de Florian?polis) e o Est?dio dos Trabalhadores (de Volta Redonda).

O Independ?ncia, por?m, ? mais. Est? localizado ali no Horto da capital mineira, vizinho ao m?tico Bairro de Santa Teresa, outrora zona bo?mia de uma outra BH. No local onde os meninos do Clube da Esquina ficavam bolando as m?sicas que tanto gost?vamos, sonhando com a volta dos Beatles e, nos intervalos, "pedalando, camisa aberta no peito, passeio macio, levando na bicicleta o tesouro da juventude, e esse tesouro os levando pelas ruas de Santa Teresa".

Mas... n?o sei bem porque estou a citar tais prefer?ncias, que isto nada h? de interessar a meus parcos leitores. Talvez porque estou escrevendo ainda sobre o impacto da vit?ria do Tupi sobre o Am?rica, por 3 a 1, no Est?dio Independ?ncia, na primeira partida da final da Ta?a Minas.

O Galo jogou realmente por m?sica e fez hist?ria. ? medida que os gols iam acontecendo (o primeiro de R?bson, o outro de Ademilson e o ?ltimo de Henrique) ia pensando menos em futebol e mais na vida - e na hist?ria.

O Est?dio Independ?ncia pertencia ao glorioso e hoje extinto Sete de Setembro (da? o nome) e foi constru?do para a Copa do Mundo de 1950. E j? nasceu fadado aos grandes jogos, pois foi ali que se deu a maior zebra da hist?ria das competi?es da FIFA: a vit?ria dos Estados Unidos sobre a Inglaterra, na semana das comemora?es da independ?ncia ianque, com um gol de um haitiano, negro e lavador de pratos.

No rastro desse acontecimento antol?gico, outros - de menor porte, ? verdade, mas mesmo assim importantes - foram acontecendo e dando ao Independ?ncia uma aura m?gica. Atleticanos e americanos, por exemplo, n?o esquecem nunca a decis?o de campeonato em que o gol do t?tulo saiu ap?s a bola bater num soldado da Pol?cia Militar, que estava fora de campo mas muito pr?ximo ? linha, e voltar para o atacante do Galo. Os torcedores do Villa Nova guardam com carinho o ?ltimo t?tulo do Le?o do Bonfim, no supercampeonato de 1951 e n?s mineiros sempre vamos lembrar que Minas ganhou seu ?nico Campeonato Brasileiro de Sele?es, em 1963, jogando l? e derrotando com facilidades Paran?, Bahia, S?o Paulo e Rio.

Mas... voltando ao jogo do Tupi, o Galo venceu e cumpriu a segunda parte da m?sica do Beto Guedes: "Ainda que a cidade anoite?a - ou desapare?a -piso no pedal do sonho e a vida ganha mais alegria".

Sei que devemos, n?s carij?s, agora, vestir as sand?lias da humildade e usar as express?es tradicionais dos boleiros: "ainda n?o ganhamos nada", "faltam ainda 90 minutos", "futebol ? uma caixinha de surpresas", e coisas do g?nero. Contudo, ? dif?cil pisar no freio. Afinal falta pouco, muito pouco para o Tupi ganhar seu segundo torneio estadual: at? uma derrota por 2 a 0, ou por dois gols de diferen?a encaminha a ta?a para Santa Terezinha, o bairro que - n?o sei n?o - pelo andar da carruagem, acho que vai ficar t?o m?tico quanto Santa Teresa.

Ailton Alves ? jornalista e cronista esportivo
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