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    Ailton Alves Ailton Alves 9/11/2009

    Um retorno em diagonal

    foto da torcida, do escudo do Vasco e uma seta indicando que o time subiu para a série AAo contrário de Dom Sebastião, o rei-menino que desapareceu na Batalha de Alcácer Quibir e é esperado até hoje para liderar Portugal em novas conquistas ultramarinas, o Clube de Regatas Vasco da Gama já voltou. O Vasco da Gama nunca decepciona sua torcida. Sabe que aquela faixa na camisa é nada mais, nada menos que a simbologia da rota de um retorno. O Vasco voltou em linha diagonal – e até nisso é diferente dos outros clubes que também foram e voltaram, a maioria por um trivial percurso reto.

    Pena, porém, que nos dias de hoje não se dá mais a devida importância aos fatos épicos. Ainda agora, as televisões, as emissoras de rádio, os sites, os jornais, todos eles estão ensandecidos falando de uma tal disputa, ponto a ponto, pelo título de uma divisão qualquer do campeonato brasileiro. Os apresentadores de TV, os radialistas, os jornalistas são pessoas estranhas. Diria até que eles “separam o joio do trigo e divulgam o joio”. Nenhum deles ainda atentou para o óbvio: a notícia mais importante, desde que inventaram o futebol, é o retorno do Vasco.

    Deixa estar. Os vascaínos somos democráticos e aceitamos que se fale bobagens ao invés de coisas sérias. Até já perdoamos quem, há um ano, inventou e propagou a mais sórdida das mentiras: o Vasco havia caído. Como se fosse possível, algum dia, o clube da Cruz de Malta, da Ordem de Cristo, cair. E quando, no ano que vem, a caravela cruzmaltina voltar a desfilar nos gramados, todos vão perceber a falta que ela fez neste ano, um período perdido.

    Mas, como disse, já nos livramos da mágoa e as calúnias já não nos atingem mais. E não foi outro o espírito que dominou a reunião de sábado, convocada desde que o mundo é a bola, para comemorar o retorno do Vasco.

    Rubem Fonseca não via mais sinais de conspiração (“coisa de f.”) e Luiz Melodia concordou que parecia um “dia de paz”. Rachel de Queiroz comparou o retorno do Vasco a uma chuva firme e branda que, no devido tempo, poderia apagar todos os flagelos da seca de 1915. E Paulinho da Viola, que andava classificando todas os dias de “noites comuns, de novela”, completou: “foi apenas uma pausa de mil compassos”.

    Por detrás dos óculos, Carlos Drumonnd de Andrade repetia, como se fosse um profeta: “Eu disse que quase perdemos o bonde e a esperança, mas sabia que nenhum time passaria sobre o nosso”. Getúlio Vargas trocou a sisudez da carta-testamento pela adaptação do jingle da sua campanha presidencial de 1950: “Bota o retrato do Vasco outra vez, bota no mesmo lugar. Só esse time nos faz sonhar”.

    Diante de tantas emoções, Roberto e Erasmo Carlos nem se importaram com as buzinas do Chacrinha. Lula disse o óbvio (“Eu estou convencido que nunca na história desse país houve uma justiça tão grande”) e Marta Rocha comeu, bebeu e dançou uma vez na vida despreocupada com as tais duas polegadas a mais.

    Jamelão e Aldir Blanc batucaram numa caixa de fósforos um samba antigo: “Sei que todos choraram, mas minha ausência não foi o fim. Voltei porque sei que a saudade é tão ruim.”

    Quando tudo parecia serenado, trazido por uma bruma do passado mais longínquo, apareceu Jaguaré, aquele goleiro que acabou seus dias num hospício, enlouquecido de tanto amor pelo Vasco. Fausto, Barbosa, Danilo, Ipojucan, Ademir, Chico, Roberto Dinamite, Romário, Edmundo e tanto outros pararam para ouvi-lo. Cantava uma música fora do seu tempo, mas com a lucidez que lhe faltou na sua existência: “Dizem que sou louco por estar feliz. Mas louco é quem me diz que não é feliz”.

     


    Ailton Alves é jornalista e cronista esportivo
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