O homem de duas Copas do Mundo Fotógrafo juizforano Benito Madalena conta suas histórias quando cobriu as competições na Argentina, em 1978, e na Itália, em 1990

Ricardo Corrêa
Repórter
abril/2006

Fotógrafo de Juiz de Fora conta a emoção de ter participado de uma Copa do Mundo. Diz das dificuldades e do sonho de conseguir o credenciamento para o maior torneio de futebol

Veja!

Ele tem no currículo duas Copas do Mundo, três Copas América, um Torneio Internacional da França, dezenas de Campeonatos Brasileiros e Taças Libertadores da América. Não é técnico e nem jogador de futebol. Benito Madalena nunca foi convocado. Ele mesmo se convocou. Fotógrafo profissional, o juizforano se orgulha de ter colocado em sua cabeça que iria cobrir o maior torneio de futebol do mundo e, mais do que isso, ter conseguido realizar seu sonho.

A história de Benito Madalena com o esporte começou em 1977. Antes, desde os 17 anos de idade ele já fotografava. Primeiro as paisagens, fotos de família, até que naquele ano ele entrou em campo pela primeira vez. Foi para cobrir a partida entre Serrano e Fluminense, em Petrópolis, válido pelo Campeonato Estadual do Rio de Janeiro. Benito é Fluminense, mas estava lá para cobrir especificamente a participação de um jogador do Serrano. Edu, criado em Juiz de Fora, amigo do fotógrafo e antigo jogador do Sport, pediu que ele fizesse algumas fotos daquele momento de sua carreira. Benito começou a trabalhar próximo do futebol e não parou mais.

Um ano depois, o sonho de cobrir uma Copa do Mundo começava a ficar mais forte. A disputa do torneio mundial era na Argentina, país vizinho e um dos mais próximos. Benito avaliou que, podendo até mesmo ir de ônibus para aquela Copa, era sua chance de ouro. Assim ele fez. Com 1.200 dólares ele embarcou para Buenos Aires, credenciado pela revista Razões, antiga publicação de Juiz de Fora.

Durante a competição na terra de nossos "hermanos", que aliás foram os campeões naquele ano, Benito fazia suas fotos, vendia nas ruas das cidades argentinas e com isso ia recuperando parte do investimento. Chegou a lucrar, um pouco, mas não muito. Mas ganhou o direito de dizer: eu já estive em uma Copa do Mundo.

Em 1990 ele pôde dizer mais. Foi quando viveu o grande momento de sua carreira e, porque não, da sua vida. Filho de pais italianos, tendo falado italiano dentro de casa e sempre lido muito sobre a história daquele povo europeu, Benito via na Copa disputada no país de origem de seus antepassados como a grande oportunidade de realizar de fato um grande sonho.

"Eu queria conhecer a Itália e queria ter experiência internacional tendo feito uma Copa do Mundo na Europa", conta Madalena, que foi patrocinado por uma empresa de turismo. Mas o dinheiro era só para a viagem, nas antigas Linhas Aéreas Paraguaias, que nem existem mais. Para ficar na Itália ele praticamente não tinha dinheiro.

"Levei fotos, trabalhos que eu fiz aqui no Brasil, como paisagens do país, fotos do carnaval, do futebol. Tinha fotos do Flamengo, do Fluminense, o pessoal comprava e eu ia me virando. Não me arrependo. Passei um sufoco danado, dificuldades para arranjar um lugar para dormir, pois estava sem dinheiro como sempre, mas valeu muito à pena", conta Benito, que fala razoavelmente o italiano aprendido em casa.

Com a cara e a coragem

O fotógrafo juizforano foi para a Itália e realizou seu sonho. Mas quando desembarcou não tinha conseguido o mais importante ainda: o credenciamento. Ele até havia tentado, no Rio de Janeiro, junto a Carlos Alberto Pinheiro, assessor da Fifa no Brasil, e homem ligado diretamente a João Havelange, que era presidente da entidade na época. Mas na ocasião, o dirigente disse que não poderia fazer nada por ele.

Só que Benito foi para a Itália assim mesmo. Chegando em Torino, disseram que ele deveria ir tentar o credenciamento em Roma. E foi lá que ele reencontrou Carlos Alberto Pinheiro.

"Quando ele me viu, ficou impressionado com minha determinação e com minha perseverança. Ele não teve como negar e me credenciou. Parabenizou e depois daquilo as portas começaram a se abrir para mim", conta o fotógrafo, que só assim teve a oportunidade de viver um grande momento da sua vida.

"Era um sonho. Eu me emocionei muito. Estar no meio daquele batalhão de jornalistas e fotógrafos do mundo todo. Gente do New York Times, France Press, e eu lá no meio, com minha máquina 200mm e mais duas ou três câmeras mais ou menos", conta o fotógrafo, que mais uma vez montou painéis nas ruas da Itália para vender aos torcedores.

"Eu revelava lá mesmo e ia vender. O pessoal no exterior dá muito mais valor aos fotógrafos brasileiros do que aqui", explica Benito.

A única frustração do fotógrafo de Juiz de Fora foi não ter visto o Brasil vencer aquela Copa do Mundo. Na derrota para a Argentina, de Maradona e Caniggia, ele estava no campo, triste, ao lado do então repórter da TV Globo, Pedro Bial. Junto deles, centenas de jornalistas que viram uma das páginas tristes da história de nosso futebol.

"O Brasil desperta um encantamento e por isso parece que fica todo mundo torcendo para o Brasil ser campeão. O estádio ficou em silêncio e só os argentinos comemoraram. E fiquei triste também porque a Itália não venceu. A Itália é minha segunda pátria e perdeu para a Argentina em um jogo em Nápoles. O Maradona era endeusado em Nápoles porque deu o título daquele ano ao Nápoli. E a torcida napolitana torceu contra a Itália naquele dia. Eles são discriminados pelos outros italianos e por isso naquele dia torceram contra o país, e pelo Maradona", recorda-se Benito, que já cobriu outros eventos importantes em todas as áreas mas deixa claro que sua paixão é o futebol. A visita do Papa João Paulo II, duas edições do Rock in Rio, posse dos presidentes Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso e Lula, além de shows diversos de artistas internacionais como Madonna, ou nacionais como Chico Buarque. Mas nada disso foi mais marcante do que estar no centro do mundo, como na Copa.

"As pessoas não podem deixar de tentar. Não há preço, não há dinheiro que pague conseguir um sonho almejado", encerra Benito, que ainda não desistiu de ir na Copa do Mundo deste ano, mesmo sem credenciamento."Eu não desisti. Sou teimoso, não desisto fácil".

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