Matheus Brum Matheus Brum 5/07/2016

Da rodagem em Juiz de Fora à estabilidade na Bélgica

Depois de passar por quase todos os clubes de Juiz de Fora, Léo Aleixo recebeu uma proposta da Bélgica. Se transferir para a Europa com 26 anos não é algo muito comum. O que era para ser seis meses, se transformou em nove anos e meio. Numa conversa com o Portal ACESSA.com, ele contou seu início na cidade, a vida no Velho Continente, e ainda revelou porque ainda não se naturalizou.

Matheus Brum - Faça uma breve apresentação sobre você
Leonardo Aleixo - Meu nome é Leonardo Carello Aleixo, tenho 36 anos, sou destro, jogo de ala, e estou na Bélgica há 9 anos e meio.

MB - Qual foi seu início aqui em Juiz de Fora?

LA - Então, eu rodei bastante pela cidade. Joguei por praticamente todos os clubes (risos). Comecei jogando no colégio que eu estudava, a Academia de Comércio. Depois rodei pelo Bom Pastor, Sport, Tupi, Olímpico, Tupynambás, até chegar na AABB, na época que eles estavam com um projeto, tentando a Lei de Incentivo ao Esporte.

MB - Chegou a ter experiências no futebol de campo?

LA - Sim. Sempre fui fominha (risos). Sempre quis jogar o máximo que dava. Como toda criança tinha o sonho de ser um jogador de futebol, por isso me aventurei no campo, na época que estudava no Academia. Treinava campo de manhã no Sport, estudava a tarde, e a noite jogava futsal. Só que minhas notas começaram a cair e meu pai pediu para que eu escolhesse entre futsal e futebol. Acabei ficando com a quadra.

MB - Você se define como um ala mais defensivo ou ofensivo?

LA - Olha, com a chegada da idade, fico mais atrás (risos). Quando cheguei aqui, ficava mais na frente, buscava mais o gol. Com o tempo, fui recuando um pouco mais. Ainda chego na frente, mas se for preciso guardar um fôlego, prefiro guardar para defender do que para atacar.

MB - E como você chegou ao futsal europeu?

LA - Então, foi engraçado. Eu disputei um campeonato com o Sport, chamado Rio-São Paulo-Minas, e joguei com um cara chamado Liliu. Depois desse torneio ele acabou indo para a Bélgica. Anos depois, ele acabou me indicando a um treinador brasileiro (Pedro Medina) para jogar no Morlanwelz. O contrato era de apenas seis meses. Vim para cá com a ideia de ficar esse tempo, e já estou há 9 anos e meio (risos).

MB - Como foi essa chegada à Bélgica?

LA - Cara, foi meio complicado. Eu já era mais velho, estava com 27 anos. Por mais que eu jogasse futsal há anos, não vivia só disso. Eu me formei em Fisioterapia, e na época estava trabalhando na Prefeitura de Juiz de Fora. Quem me deu muita força para ir foi minha mulher (Renata). Na época minha filha (Luisa) tinha acabado de nascer, estava com apenas 1 ano, e a gente sabe que mudar de país é muito complicado. Tinha receio de ficar apenas seis meses e ter que voltar. Mas ela me deu muita força. Acabamos indo, e não me arrependo da escolha.

MB - Como foi o período de adaptação?

LA - Não tive tanta dificuldade como muita gente. É óbvio que ir para outro país, conviver com pessoas e culturas diferentes é difícil. Mas, a culinária daqui é parecida com a do Brasil. Tinha problemas com a língua, porque não falava nada de francês. Tanto que no avião, vindo para cá, eu estava com um dicionário, estudando algumas palavras, para não chegar sem saber nada (risos). O maior problema para mim é o clima. Aqui é muito frio. Costumo brincar que a Bélgica é o país do "céu cinzento". Sou uma pessoa que gosta muito de litoral, de praia, então, até hoje essa temperatura mais baixa me incomoda.

MB - E como é o futsal belga?

LA - Olha, não é um dos melhores da Europa. Muitos times que atuam aqui são amadores. A maioria dos jogadores trabalham de dia e treinam a noite. Têm times que treinam apenas 2 vezes na semana. A seleção não passa por um bom momento também, estão havendo dificuldades para classificação em competições internacionais. Temos aqui dois campeonatos de maior relevância. A Copa da Bélgica e o Campeonato Belga. A Copa é disputada num sistema parecido com a Copa do Brasil, sendo formada por muitas equipes, de diversas divisões do futsal belga, se enfrentando em partidas de mata a mata até a final. Já o Campeonato é formado por 12 times, onde todos enfrentam todos em turno e returno. Até ano passado os 4 primeiros se classificavam e rolava os playoffs até decidir o campeão, com o primeiro pegando o quarto e o segundo o terceiro, com vantagem de decidir em casa o time de melhor classificação. Já nesse ano, houve uma mudança. Continua tendo 12 equipes se enfrentando em turno e returno. Continua se classificando 4 equipes, mas, ao invés de playoffs, agora rola um mini campeonato. Os quatro primeiros têm sua pontuação dividida, e se enfrentam de novo, num quadrangular final, todos contra todos, em turno e returno, até sair o campeão.

MB - Você disse que muitos times são amadores, e que muitos jogadores precisam trabalhar além do futsal. Desde sua chegada, vive apenas do futsal?

LA - Sim, vivo do futsal. Minha mulher veio comigo, e ela depois de um tempo aqui resolveu arrumar um emprego. Hoje, nós temos um negócio, um café. Ela que cuida de quase tudo. Dou uma força na parte administrativa, mas vivo mesmo do futsal.

MB - São 9 anos de Bélgica. Nunca teve vontade de sair daí não?

LA - Olha, não vou mentir, tive propostas para atuar em outros países. Já recebi ofertas da Itália, mas eles têm fama de não pagarem os jogadores, por isso não animei me transferir. Quando você vem com a família, tudo precisa ser muito pensado. Minha filha já é adaptada a escola, fala a língua, possui suas amigas e tudo mais. Mudar de país é muito drástico, porque muda tudo, principalmente a cultura. Se tiver que mudar de país é apenas para voltar ao Brasil.

MB - Você já chegou a atuar com o Léo Santana e o Ramon Pavão?

LA - Sim, sim. Conheço eles de longa data. Mesmo sendo mais velho, vi o crescimento deles nas categorias abaixo da minha. chegamos a jogar juntos no Sport onde fomos campeões da fase final do JIMI. São grandes parceiros

MB - E como é ver eles fazendo história no futsal?

LA - Olha, vou mentir não, é muito gratificante. Juiz de Fora tem muito talento. E ver eles conseguindo vencer as barreiras que o esporte possuí é muito bom. Torço para eles irem ainda mais longe na carreira.

MB - Ao contrário dos dois, você foi para a Europa mais velho. Você acha que a maturidade que tinha foi fundamental para se adaptar tão bem?

LA - Sim, com certeza. Família é a base de tudo. A família te sustenta na hora que precisa. Ter vindo com a minha mulher e minha filha me ajudou nisso. Me fez pensar em estabilidade, em realmente fixar alguma coisa por aqui. Isso é muito bom. Óbvio que quando você está solteiro tem aquele sentimento de aventura, de desbravar novos lugares. Mas não me arrependo de não ter saído da Bélgica. Faria tudo de novo.

MB - Quais os principais títulos da sua carreira aí na Bélgica?

LA - Fui contratado para jogar pelo Morlanwels. Fiquei quatro temporadas na equipe e conquistei uma Copa da Bélgica. Depois, me transferi para o Chatelineau, onde ganhei três Copas e três Campeonatos belgas, em cinco anos. Nessa temporada, vim para o Halle-Gooik, onde venci o "doblete", que é a Copa e o Campeonato.

MB - Você conquistou vários títulos em equipe, teve algum individual?

LA - Chegar a ser eleito melhor jogador, nunca fui. Já fiquei em terceiro, quarto, quinto, por aí. Tirando um ano que tive uma lesão no joelho e acabei perdendo a temporada quase toda, sempre terminei no top cinco de melhor jogador.

MB - E as experiências europeias?

LA - Olha, o futsal belga não é tão desenvolvido. Como disse, muitos times são amadores, então não almejamos tantas coisas em termos de UEFA Champions League. Normalmente a gente luta para ficar entre os 16 melhores. Porque é assim, há várias fases na Champions, até a hora que chega o Tour de Elite, onde sobram 16 equipes e elas são divididas em 4 grupos de 4. Todas enfrentam todas em turno e returno, e apenas o primeiro de cada se classifica para o final four. Nesse ano ficamos no Tour de Elite. É o local onde mais ficamos e o nível que o futsal belga nos permite chegar.

MB - Nunca pensou em se naturalizar não?

LA - Cara, essa situação é complicada. O treinador é doido comigo, eu conheço toda a comissão técnica. Mas, pelo fato do time não estar passando por uma boa fase, me desanima. Além disso, eu posso me naturalizar, só que é uma burocracia danada. A Bélgica tá fechando as portas para documentação a estrangeiros, então tudo é mais difícil. Eu já tentei uma vez e não conseguiu. Te falo que tudo isso me fez perder o tesão que tinha de 3 anos atrás, quando veio a primeira chamada. Mas, é um sonho vestir a camisa de uma seleção. Vamos ver como vai ficar essa situação daqui pra frente

MB - Você já está com 36 anos, numa idade que se aproxima do final da carreira. Já fixou uma idade para parar ou vai levar até onde o corpo aguentar?

LA - Vou até onde o corpo aguentar. É difícil ficar pensando nisso e vendo a idade chegar. Sou um cara que me cuido, que preservo meu corpo. Acabei de renovar meu contrato por mais 2 anos. Então, no mínimo até os 38 eu continuo jogando aqui.

MB - E quais seus planos para o futuro?

LA - Já estou de férias (risos). Agora quero descansar, me preparar para a próxima temporada, onde iremos defender o título Belga e disputar a Champions. Espero cumprir todo meu contrato, até 2018, e depois voltar para o Brasil. Quem sabe não volto a jogar em Juiz de Fora, se o projeto do Tupi for para frente? Torço muito por eles, para dar certo. Vai ser muito importante para Juiz de Fora.

MB - O que acredita que falta para que Juiz de Fora seja considerada um celeiro de atletas?

LA - É uma pergunta que hoje em dia não saberia te responder. A cidade têm vários atletas em diversas modalidades. Tivemos uma época boa no vôlei, em que vários atletas de Juiz de Fora se destacaram no cenário nacional e internacional. Hoje, temos casos no futsal, no futebol de campo e até mesmo na seleção paralímpica (Alexandre Ank ). Então você vê que Juiz de Fora é uma cidade que tem atletas de alto nível. Por que Juiz de Fora não é considerada um celeiro? Acredito que é porque não temos uma equipe de ponta em nada na cidade, então tudo fica mais difícil. 


Matheus Brum nascido e criado em Juiz de Fora, jornalista em formação pela Universidade Federal de Juiz de Fora, e desde criança, apaixonado pelo Flamengo e por esportes. Já foi estagiário na Rádio CBN Juiz de Fora. Atualmente é escritor do blog "Entre Ternos e Chuteiras"; colaborador da Web Rádio Nac, apresentando uma coluna de opinião diariamente; editor e apresentador do programa Mosaico, que vai ao ar semanalmente na TVE, canal 12, e é membro da Acesso Comunicação Júnior, Empresa Júnior da Faculdade de Comunicação da UFJF, trabalhando no Departamento de Projetos e no núcleo de Jornalismo.

Os autores dos artigos assumem inteira responsabilidade pelo conteúdo dos textos de sua autoria. A opinião dos autores não necessariamente expressa a linha editorial e a visão do Portal ACESSA.com

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Matheus Brum Matheus Brum 5/07/2016

Da rodagem em Juiz de Fora à estabilidade na Bélgica

Depois de passar por quase todos os clubes de Juiz de Fora, Léo Aleixo recebeu uma proposta da Bélgica. Se transferir para a Europa com 26 anos não é algo muito comum. O que era para ser seis meses, se transformou em nove anos e meio. Numa conversa com o Portal ACESSA.com, ele contou seu início na cidade, a vida no Velho Continente, e ainda revelou porque ainda não se naturalizou.

Matheus Brum - Faça uma breve apresentação sobre você
Leonardo Aleixo - Meu nome é Leonardo Carello Aleixo, tenho 36 anos, sou destro, jogo de ala, e estou na Bélgica há 9 anos e meio.

MB - Qual foi seu início aqui em Juiz de Fora?

LA - Então, eu rodei bastante pela cidade. Joguei por praticamente todos os clubes (risos). Comecei jogando no colégio que eu estudava, a Academia de Comércio. Depois rodei pelo Bom Pastor, Sport, Tupi, Olímpico, Tupynambás, até chegar na AABB, na época que eles estavam com um projeto, tentando a Lei de Incentivo ao Esporte.

MB - Chegou a ter experiências no futebol de campo?

LA - Sim. Sempre fui fominha (risos). Sempre quis jogar o máximo que dava. Como toda criança tinha o sonho de ser um jogador de futebol, por isso me aventurei no campo, na época que estudava no Academia. Treinava campo de manhã no Sport, estudava a tarde, e a noite jogava futsal. Só que minhas notas começaram a cair e meu pai pediu para que eu escolhesse entre futsal e futebol. Acabei ficando com a quadra.

MB - Você se define como um ala mais defensivo ou ofensivo?

LA - Olha, com a chegada da idade, fico mais atrás (risos). Quando cheguei aqui, ficava mais na frente, buscava mais o gol. Com o tempo, fui recuando um pouco mais. Ainda chego na frente, mas se for preciso guardar um fôlego, prefiro guardar para defender do que para atacar.

MB - E como você chegou ao futsal europeu?

LA - Então, foi engraçado. Eu disputei um campeonato com o Sport, chamado Rio-São Paulo-Minas, e joguei com um cara chamado Liliu. Depois desse torneio ele acabou indo para a Bélgica. Anos depois, ele acabou me indicando a um treinador brasileiro (Pedro Medina) para jogar no Morlanwelz. O contrato era de apenas seis meses. Vim para cá com a ideia de ficar esse tempo, e já estou há 9 anos e meio (risos).

MB - Como foi essa chegada à Bélgica?

LA - Cara, foi meio complicado. Eu já era mais velho, estava com 27 anos. Por mais que eu jogasse futsal há anos, não vivia só disso. Eu me formei em Fisioterapia, e na época estava trabalhando na Prefeitura de Juiz de Fora. Quem me deu muita força para ir foi minha mulher (Renata). Na época minha filha (Luisa) tinha acabado de nascer, estava com apenas 1 ano, e a gente sabe que mudar de país é muito complicado. Tinha receio de ficar apenas seis meses e ter que voltar. Mas ela me deu muita força. Acabamos indo, e não me arrependo da escolha.

MB - Como foi o período de adaptação?

LA - Não tive tanta dificuldade como muita gente. É óbvio que ir para outro país, conviver com pessoas e culturas diferentes é difícil. Mas, a culinária daqui é parecida com a do Brasil. Tinha problemas com a língua, porque não falava nada de francês. Tanto que no avião, vindo para cá, eu estava com um dicionário, estudando algumas palavras, para não chegar sem saber nada (risos). O maior problema para mim é o clima. Aqui é muito frio. Costumo brincar que a Bélgica é o país do "céu cinzento". Sou uma pessoa que gosta muito de litoral, de praia, então, até hoje essa temperatura mais baixa me incomoda.

MB - E como é o futsal belga?

LA - Olha, não é um dos melhores da Europa. Muitos times que atuam aqui são amadores. A maioria dos jogadores trabalham de dia e treinam a noite. Têm times que treinam apenas 2 vezes na semana. A seleção não passa por um bom momento também, estão havendo dificuldades para classificação em competições internacionais. Temos aqui dois campeonatos de maior relevância. A Copa da Bélgica e o Campeonato Belga. A Copa é disputada num sistema parecido com a Copa do Brasil, sendo formada por muitas equipes, de diversas divisões do futsal belga, se enfrentando em partidas de mata a mata até a final. Já o Campeonato é formado por 12 times, onde todos enfrentam todos em turno e returno. Até ano passado os 4 primeiros se classificavam e rolava os playoffs até decidir o campeão, com o primeiro pegando o quarto e o segundo o terceiro, com vantagem de decidir em casa o time de melhor classificação. Já nesse ano, houve uma mudança. Continua tendo 12 equipes se enfrentando em turno e returno. Continua se classificando 4 equipes, mas, ao invés de playoffs, agora rola um mini campeonato. Os quatro primeiros têm sua pontuação dividida, e se enfrentam de novo, num quadrangular final, todos contra todos, em turno e returno, até sair o campeão.

MB - Você disse que muitos times são amadores, e que muitos jogadores precisam trabalhar além do futsal. Desde sua chegada, vive apenas do futsal?

LA - Sim, vivo do futsal. Minha mulher veio comigo, e ela depois de um tempo aqui resolveu arrumar um emprego. Hoje, nós temos um negócio, um café. Ela que cuida de quase tudo. Dou uma força na parte administrativa, mas vivo mesmo do futsal.

MB - São 9 anos de Bélgica. Nunca teve vontade de sair daí não?

LA - Olha, não vou mentir, tive propostas para atuar em outros países. Já recebi ofertas da Itália, mas eles têm fama de não pagarem os jogadores, por isso não animei me transferir. Quando você vem com a família, tudo precisa ser muito pensado. Minha filha já é adaptada a escola, fala a língua, possui suas amigas e tudo mais. Mudar de país é muito drástico, porque muda tudo, principalmente a cultura. Se tiver que mudar de país é apenas para voltar ao Brasil.

MB - Você já chegou a atuar com o Léo Santana e o Ramon Pavão?

LA - Sim, sim. Conheço eles de longa data. Mesmo sendo mais velho, vi o crescimento deles nas categorias abaixo da minha. chegamos a jogar juntos no Sport onde fomos campeões da fase final do JIMI. São grandes parceiros

MB - E como é ver eles fazendo história no futsal?

LA - Olha, vou mentir não, é muito gratificante. Juiz de Fora tem muito talento. E ver eles conseguindo vencer as barreiras que o esporte possuí é muito bom. Torço para eles irem ainda mais longe na carreira.

MB - Ao contrário dos dois, você foi para a Europa mais velho. Você acha que a maturidade que tinha foi fundamental para se adaptar tão bem?

LA - Sim, com certeza. Família é a base de tudo. A família te sustenta na hora que precisa. Ter vindo com a minha mulher e minha filha me ajudou nisso. Me fez pensar em estabilidade, em realmente fixar alguma coisa por aqui. Isso é muito bom. Óbvio que quando você está solteiro tem aquele sentimento de aventura, de desbravar novos lugares. Mas não me arrependo de não ter saído da Bélgica. Faria tudo de novo.

MB - Quais os principais títulos da sua carreira aí na Bélgica?

LA - Fui contratado para jogar pelo Morlanwels. Fiquei quatro temporadas na equipe e conquistei uma Copa da Bélgica. Depois, me transferi para o Chatelineau, onde ganhei três Copas e três Campeonatos belgas, em cinco anos. Nessa temporada, vim para o Halle-Gooik, onde venci o "doblete", que é a Copa e o Campeonato.

MB - Você conquistou vários títulos em equipe, teve algum individual?

LA - Chegar a ser eleito melhor jogador, nunca fui. Já fiquei em terceiro, quarto, quinto, por aí. Tirando um ano que tive uma lesão no joelho e acabei perdendo a temporada quase toda, sempre terminei no top cinco de melhor jogador.

MB - E as experiências europeias?

LA - Olha, o futsal belga não é tão desenvolvido. Como disse, muitos times são amadores, então não almejamos tantas coisas em termos de UEFA Champions League. Normalmente a gente luta para ficar entre os 16 melhores. Porque é assim, há várias fases na Champions, até a hora que chega o Tour de Elite, onde sobram 16 equipes e elas são divididas em 4 grupos de 4. Todas enfrentam todas em turno e returno, e apenas o primeiro de cada se classifica para o final four. Nesse ano ficamos no Tour de Elite. É o local onde mais ficamos e o nível que o futsal belga nos permite chegar.

MB - Nunca pensou em se naturalizar não?

LA - Cara, essa situação é complicada. O treinador é doido comigo, eu conheço toda a comissão técnica. Mas, pelo fato do time não estar passando por uma boa fase, me desanima. Além disso, eu posso me naturalizar, só que é uma burocracia danada. A Bélgica tá fechando as portas para documentação a estrangeiros, então tudo é mais difícil. Eu já tentei uma vez e não conseguiu. Te falo que tudo isso me fez perder o tesão que tinha de 3 anos atrás, quando veio a primeira chamada. Mas, é um sonho vestir a camisa de uma seleção. Vamos ver como vai ficar essa situação daqui pra frente

MB - Você já está com 36 anos, numa idade que se aproxima do final da carreira. Já fixou uma idade para parar ou vai levar até onde o corpo aguentar?

LA - Vou até onde o corpo aguentar. É difícil ficar pensando nisso e vendo a idade chegar. Sou um cara que me cuido, que preservo meu corpo. Acabei de renovar meu contrato por mais 2 anos. Então, no mínimo até os 38 eu continuo jogando aqui.

MB - E quais seus planos para o futuro?

LA - Já estou de férias (risos). Agora quero descansar, me preparar para a próxima temporada, onde iremos defender o título Belga e disputar a Champions. Espero cumprir todo meu contrato, até 2018, e depois voltar para o Brasil. Quem sabe não volto a jogar em Juiz de Fora, se o projeto do Tupi for para frente? Torço muito por eles, para dar certo. Vai ser muito importante para Juiz de Fora.

MB - O que acredita que falta para que Juiz de Fora seja considerada um celeiro de atletas?

LA - É uma pergunta que hoje em dia não saberia te responder. A cidade têm vários atletas em diversas modalidades. Tivemos uma época boa no vôlei, em que vários atletas de Juiz de Fora se destacaram no cenário nacional e internacional. Hoje, temos casos no futsal, no futebol de campo e até mesmo na seleção paralímpica (Alexandre Ank ). Então você vê que Juiz de Fora é uma cidade que tem atletas de alto nível. Por que Juiz de Fora não é considerada um celeiro? Acredito que é porque não temos uma equipe de ponta em nada na cidade, então tudo fica mais difícil. 


Matheus Brum nascido e criado em Juiz de Fora, jornalista em formação pela Universidade Federal de Juiz de Fora, e desde criança, apaixonado pelo Flamengo e por esportes. Já foi estagiário na Rádio CBN Juiz de Fora. Atualmente é escritor do blog "Entre Ternos e Chuteiras"; colaborador da Web Rádio Nac, apresentando uma coluna de opinião diariamente; editor e apresentador do programa Mosaico, que vai ao ar semanalmente na TVE, canal 12, e é membro da Acesso Comunicação Júnior, Empresa Júnior da Faculdade de Comunicação da UFJF, trabalhando no Departamento de Projetos e no núcleo de Jornalismo.

Os autores dos artigos assumem inteira responsabilidade pelo conteúdo dos textos de sua autoria. A opinião dos autores não necessariamente expressa a linha editorial e a visão do Portal ACESSA.com

Matheus Brum Matheus Brum 5/07/2016

Da rodagem em Juiz de Fora à estabilidade na Bélgica

Depois de passar por quase todos os clubes de Juiz de Fora, Léo Aleixo recebeu uma proposta da Bélgica. Se transferir para a Europa com 26 anos não é algo muito comum. O que era para ser seis meses, se transformou em nove anos e meio. Numa conversa com o Portal ACESSA.com, ele contou seu início na cidade, a vida no Velho Continente, e ainda revelou porque ainda não se naturalizou.

Matheus Brum - Faça uma breve apresentação sobre você
Leonardo Aleixo - Meu nome é Leonardo Carello Aleixo, tenho 36 anos, sou destro, jogo de ala, e estou na Bélgica há 9 anos e meio.

MB - Qual foi seu início aqui em Juiz de Fora?

LA - Então, eu rodei bastante pela cidade. Joguei por praticamente todos os clubes (risos). Comecei jogando no colégio que eu estudava, a Academia de Comércio. Depois rodei pelo Bom Pastor, Sport, Tupi, Olímpico, Tupynambás, até chegar na AABB, na época que eles estavam com um projeto, tentando a Lei de Incentivo ao Esporte.

MB - Chegou a ter experiências no futebol de campo?

LA - Sim. Sempre fui fominha (risos). Sempre quis jogar o máximo que dava. Como toda criança tinha o sonho de ser um jogador de futebol, por isso me aventurei no campo, na época que estudava no Academia. Treinava campo de manhã no Sport, estudava a tarde, e a noite jogava futsal. Só que minhas notas começaram a cair e meu pai pediu para que eu escolhesse entre futsal e futebol. Acabei ficando com a quadra.

MB - Você se define como um ala mais defensivo ou ofensivo?

LA - Olha, com a chegada da idade, fico mais atrás (risos). Quando cheguei aqui, ficava mais na frente, buscava mais o gol. Com o tempo, fui recuando um pouco mais. Ainda chego na frente, mas se for preciso guardar um fôlego, prefiro guardar para defender do que para atacar.

MB - E como você chegou ao futsal europeu?

LA - Então, foi engraçado. Eu disputei um campeonato com o Sport, chamado Rio-São Paulo-Minas, e joguei com um cara chamado Liliu. Depois desse torneio ele acabou indo para a Bélgica. Anos depois, ele acabou me indicando a um treinador brasileiro (Pedro Medina) para jogar no Morlanwelz. O contrato era de apenas seis meses. Vim para cá com a ideia de ficar esse tempo, e já estou há 9 anos e meio (risos).

MB - Como foi essa chegada à Bélgica?

LA - Cara, foi meio complicado. Eu já era mais velho, estava com 27 anos. Por mais que eu jogasse futsal há anos, não vivia só disso. Eu me formei em Fisioterapia, e na época estava trabalhando na Prefeitura de Juiz de Fora. Quem me deu muita força para ir foi minha mulher (Renata). Na época minha filha (Luisa) tinha acabado de nascer, estava com apenas 1 ano, e a gente sabe que mudar de país é muito complicado. Tinha receio de ficar apenas seis meses e ter que voltar. Mas ela me deu muita força. Acabamos indo, e não me arrependo da escolha.

MB - Como foi o período de adaptação?

LA - Não tive tanta dificuldade como muita gente. É óbvio que ir para outro país, conviver com pessoas e culturas diferentes é difícil. Mas, a culinária daqui é parecida com a do Brasil. Tinha problemas com a língua, porque não falava nada de francês. Tanto que no avião, vindo para cá, eu estava com um dicionário, estudando algumas palavras, para não chegar sem saber nada (risos). O maior problema para mim é o clima. Aqui é muito frio. Costumo brincar que a Bélgica é o país do "céu cinzento". Sou uma pessoa que gosta muito de litoral, de praia, então, até hoje essa temperatura mais baixa me incomoda.

MB - E como é o futsal belga?

LA - Olha, não é um dos melhores da Europa. Muitos times que atuam aqui são amadores. A maioria dos jogadores trabalham de dia e treinam a noite. Têm times que treinam apenas 2 vezes na semana. A seleção não passa por um bom momento também, estão havendo dificuldades para classificação em competições internacionais. Temos aqui dois campeonatos de maior relevância. A Copa da Bélgica e o Campeonato Belga. A Copa é disputada num sistema parecido com a Copa do Brasil, sendo formada por muitas equipes, de diversas divisões do futsal belga, se enfrentando em partidas de mata a mata até a final. Já o Campeonato é formado por 12 times, onde todos enfrentam todos em turno e returno. Até ano passado os 4 primeiros se classificavam e rolava os playoffs até decidir o campeão, com o primeiro pegando o quarto e o segundo o terceiro, com vantagem de decidir em casa o time de melhor classificação. Já nesse ano, houve uma mudança. Continua tendo 12 equipes se enfrentando em turno e returno. Continua se classificando 4 equipes, mas, ao invés de playoffs, agora rola um mini campeonato. Os quatro primeiros têm sua pontuação dividida, e se enfrentam de novo, num quadrangular final, todos contra todos, em turno e returno, até sair o campeão.

MB - Você disse que muitos times são amadores, e que muitos jogadores precisam trabalhar além do futsal. Desde sua chegada, vive apenas do futsal?

LA - Sim, vivo do futsal. Minha mulher veio comigo, e ela depois de um tempo aqui resolveu arrumar um emprego. Hoje, nós temos um negócio, um café. Ela que cuida de quase tudo. Dou uma força na parte administrativa, mas vivo mesmo do futsal.

MB - São 9 anos de Bélgica. Nunca teve vontade de sair daí não?

LA - Olha, não vou mentir, tive propostas para atuar em outros países. Já recebi ofertas da Itália, mas eles têm fama de não pagarem os jogadores, por isso não animei me transferir. Quando você vem com a família, tudo precisa ser muito pensado. Minha filha já é adaptada a escola, fala a língua, possui suas amigas e tudo mais. Mudar de país é muito drástico, porque muda tudo, principalmente a cultura. Se tiver que mudar de país é apenas para voltar ao Brasil.

MB - Você já chegou a atuar com o Léo Santana e o Ramon Pavão?

LA - Sim, sim. Conheço eles de longa data. Mesmo sendo mais velho, vi o crescimento deles nas categorias abaixo da minha. chegamos a jogar juntos no Sport onde fomos campeões da fase final do JIMI. São grandes parceiros

MB - E como é ver eles fazendo história no futsal?

LA - Olha, vou mentir não, é muito gratificante. Juiz de Fora tem muito talento. E ver eles conseguindo vencer as barreiras que o esporte possuí é muito bom. Torço para eles irem ainda mais longe na carreira.

MB - Ao contrário dos dois, você foi para a Europa mais velho. Você acha que a maturidade que tinha foi fundamental para se adaptar tão bem?

LA - Sim, com certeza. Família é a base de tudo. A família te sustenta na hora que precisa. Ter vindo com a minha mulher e minha filha me ajudou nisso. Me fez pensar em estabilidade, em realmente fixar alguma coisa por aqui. Isso é muito bom. Óbvio que quando você está solteiro tem aquele sentimento de aventura, de desbravar novos lugares. Mas não me arrependo de não ter saído da Bélgica. Faria tudo de novo.

MB - Quais os principais títulos da sua carreira aí na Bélgica?

LA - Fui contratado para jogar pelo Morlanwels. Fiquei quatro temporadas na equipe e conquistei uma Copa da Bélgica. Depois, me transferi para o Chatelineau, onde ganhei três Copas e três Campeonatos belgas, em cinco anos. Nessa temporada, vim para o Halle-Gooik, onde venci o "doblete", que é a Copa e o Campeonato.

MB - Você conquistou vários títulos em equipe, teve algum individual?

LA - Chegar a ser eleito melhor jogador, nunca fui. Já fiquei em terceiro, quarto, quinto, por aí. Tirando um ano que tive uma lesão no joelho e acabei perdendo a temporada quase toda, sempre terminei no top cinco de melhor jogador.

MB - E as experiências europeias?

LA - Olha, o futsal belga não é tão desenvolvido. Como disse, muitos times são amadores, então não almejamos tantas coisas em termos de UEFA Champions League. Normalmente a gente luta para ficar entre os 16 melhores. Porque é assim, há várias fases na Champions, até a hora que chega o Tour de Elite, onde sobram 16 equipes e elas são divididas em 4 grupos de 4. Todas enfrentam todas em turno e returno, e apenas o primeiro de cada se classifica para o final four. Nesse ano ficamos no Tour de Elite. É o local onde mais ficamos e o nível que o futsal belga nos permite chegar.

MB - Nunca pensou em se naturalizar não?

LA - Cara, essa situação é complicada. O treinador é doido comigo, eu conheço toda a comissão técnica. Mas, pelo fato do time não estar passando por uma boa fase, me desanima. Além disso, eu posso me naturalizar, só que é uma burocracia danada. A Bélgica tá fechando as portas para documentação a estrangeiros, então tudo é mais difícil. Eu já tentei uma vez e não conseguiu. Te falo que tudo isso me fez perder o tesão que tinha de 3 anos atrás, quando veio a primeira chamada. Mas, é um sonho vestir a camisa de uma seleção. Vamos ver como vai ficar essa situação daqui pra frente

MB - Você já está com 36 anos, numa idade que se aproxima do final da carreira. Já fixou uma idade para parar ou vai levar até onde o corpo aguentar?

LA - Vou até onde o corpo aguentar. É difícil ficar pensando nisso e vendo a idade chegar. Sou um cara que me cuido, que preservo meu corpo. Acabei de renovar meu contrato por mais 2 anos. Então, no mínimo até os 38 eu continuo jogando aqui.

MB - E quais seus planos para o futuro?

LA - Já estou de férias (risos). Agora quero descansar, me preparar para a próxima temporada, onde iremos defender o título Belga e disputar a Champions. Espero cumprir todo meu contrato, até 2018, e depois voltar para o Brasil. Quem sabe não volto a jogar em Juiz de Fora, se o projeto do Tupi for para frente? Torço muito por eles, para dar certo. Vai ser muito importante para Juiz de Fora.

MB - O que acredita que falta para que Juiz de Fora seja considerada um celeiro de atletas?

LA - É uma pergunta que hoje em dia não saberia te responder. A cidade têm vários atletas em diversas modalidades. Tivemos uma época boa no vôlei, em que vários atletas de Juiz de Fora se destacaram no cenário nacional e internacional. Hoje, temos casos no futsal, no futebol de campo e até mesmo na seleção paralímpica (Alexandre Ank ). Então você vê que Juiz de Fora é uma cidade que tem atletas de alto nível. Por que Juiz de Fora não é considerada um celeiro? Acredito que é porque não temos uma equipe de ponta em nada na cidade, então tudo fica mais difícil. 


Matheus Brum nascido e criado em Juiz de Fora, jornalista em formação pela Universidade Federal de Juiz de Fora, e desde criança, apaixonado pelo Flamengo e por esportes. Já foi estagiário na Rádio CBN Juiz de Fora. Atualmente é escritor do blog "Entre Ternos e Chuteiras"; colaborador da Web Rádio Nac, apresentando uma coluna de opinião diariamente; editor e apresentador do programa Mosaico, que vai ao ar semanalmente na TVE, canal 12, e é membro da Acesso Comunicação Júnior, Empresa Júnior da Faculdade de Comunicação da UFJF, trabalhando no Departamento de Projetos e no núcleo de Jornalismo.

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