Psicologia
Faculdades modificam currículos para atender
às novas oportunidades do mercado

Flávia Machado
12/04/2001

A Psicologia já não é mais a mesma. A afirmação pode parecer estranha, mas o fato é que os cursos de Psicologia no Brasil vêm sofrendo modificações para tentar se adequar às transformações sociais e aos anseios do mercado. Há alguns anos, o curso tinha uma abordagem exclusivamente clínica, mais voltada para terapias individuais. Atualmente, existem muitas possibilidades de atuação deste profissional num mercado cada vez mais promissor. Lidar com instituições, empresas, hospitais e escolas também pode ser papel de um psicólogo. É o que está sendo chamado de curso generalista.

A formação plural, ou seja, com uma visão mais ampla das especialidades da Psicologia, começou a ser implantada no Brasil há pouco mais de dois anos, como explica o coordenador do curso na Universidade Federal de Juiz de Fora e Doutor em Psicologia Clínica pela PUC de São Paulo, Rogério Lustosa Bastos. “O objetivo desta reformulação é justamente atender a uma demanda crescente no mercado e mostrar mais possibilidades de atuação para aqueles que ainda estão na Faculdade”, explica.

O curso de Psicologia da UFJF estimulou esta reformulação curricular, apesar de manter como ênfase a psicanálise, e hoje acredita neste potencial. Para isso, exige que os dois estágios curriculares de conclusão do curso sejam voltados para especialidades distintas, como por exemplo, clínica e organizacional.

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Pulga atrás da orelha

A primeira noção que muitos têm do curso de Psicologia é achar que a profissão se resume a uma clínica. “Esta é uma visão muito preconceituosa em relação à profissão, mas até mesmo os vestibulandos se confundem na hora de descrever o que este profissional faz”, acredita a estudante de Psicologia da UFJF, Heluane Peters, que está no 10º período.

Hoje, um psicólogo pode, além de clinicar, atuar em diversas áreas, como na psicologia organizacional, na escolar ou do desenvolvimento, na hospitalar, na jurídica e por aí vai. Em cada uma dessas especialidades, o profissional vai atuar no desenvolvimento das empresas ou instituições, monitorando o potencial humano e aprimorando as relações, ajudando o convívio em grupo.

Para muitos ainda, Psicologia é sinônimo de um curso fácil. Mas os estudantes afirmam que não é bem assim. “Se você não gostar muito, não vai conseguir enfrentar Lacan, Freud, Piaget. O curso exige muita leitura e os trabalhos em grupo são constantes”, diz a estudante do 3º período de Psicologia do CES (Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora), Cristiane Berrieh Veroneze (foto ao lado). Ela acrescenta que não pensava em fazer Psicologia, mas que acabou começando o curso porque não passou para Fisioterapia na UFJF. Hoje, não se arrepende e adora a faculdade. “A Psicologia possibilita a auto análise e uma compreensão do mundo ao nosso redor.”

O curso em si

A grade curricular da faculdade de Psicologia é bastante diversificada e abrange matérias de Biologia, Antropologia, Sociologia e até mesmo Anatomia. O curso tem duração média de cinco anos, dependendo da habilitação e também da faculdade. Em Juiz de Fora, a UFJF oferece formação de psicólogo e bacharelado, com duração de 4 e 5 anos, respectivamente. O CES oferece habilitação em formação profissional, licenciatura e bacharelado e a duração chega a cinco anos e meio para a formação de psicólogo.

O estágio é obrigatório no currículo e é feito no último ano de curso. Nada impede que seja feito antes, pelo contrário, acrescenta mais conhecimento da profissão e mais experiência na bagagem, como afirma Heluane Peters (foto ao lado), que atualmente está fazendo estágio na Prefeitura Municipal de Juiz de Fora. “Acho até que o estágio deveria começar mais cedo, logo nos primeiros períodos. É lógico que não seria um estágio mais complexo, mas algo que nos aproximasse mais do dia a dia do profissional. Isto poderia ampliar a visão que o estudante tem da profissão.” A estudante do CES, Cristiane, também concorda, apesar de ainda estar começando a faculdade. “Sinto falta da prática”, esclarece.

Tanto o curso da Federal quanto o do CES oferecem atendimento à população mais carente através de clínicas integradas às faculdades e estágios supervisionados. “Os estudantes têm a oportunidade de conhecer o mercado em que vão atuar, além de estarem realizando um benefício para a comunidade”, explica o coordenador, Rogério Lustosa. O curso da UFJF mantém a publicação de uma revista eletrônica na Internet, a PsiBrasil, que tem a colaboração dos alunos.

A Universidade oferece 40 vagas por ano, todas para o primeiro semestre. O curso funciona à noite, de segunda a sexta, das 18h às 22h e também aos sábados, das 8h às 12h. O CES, que é uma instituição particular, disponibiliza 50 vagas e são realizados dois vestibulares por ano, um em janeiro e outro em julho. O curso também é noturno, de segunda a sexta, das 18h50 às 22h30. A mensalidade é, em média de R$300.

Como anda o mercado de trabalho

Emprego não está fácil para ninguém; e para os psicólogos não seria diferente. No entanto, a Psicologia tem aberto diversas possibilidades de trabalho, como em hospitais e instituições. O mercado está meio saturado em relação à Psicologia clínica, basta prestar atenção na quantidade de consultórios espalhados pela cidade. Isso, claro, levando-se em consideração a realidade de Juiz de Fora. A psicóloga Denise Melo também concorda com a farta concorrência. Para ela, isso é conseqüência da falta de oportunidades locais. “Você se forma e quer arrumar um emprego. O psicólogo tem essa vantagem de poder abrir sua própria clínica. É o imediatismo da profissão e também um lugar assegurado no mercado de trabalho”, alega a profissional.

Além disso, Denise acredita que ainda existe uma certa resistência por parte das empresas em contratar um psicólogo. “As grandes empresas são obrigadas a contratar um profissional a partir de um certo número de funcionários. Mas as pequenas muitas vezes não têm condições financeiras para isto.”

O salário de um psicólogo em início de carreira vai depender de vários fatores, tais como em qual área ele vai atuar e, principalmente, onde. Um profissional que trabalha com psicologia hospitalar em Juiz de Fora ganha em média R$ 800, com carga horária integral. Já um que tenha optado pela clínica, cobra cerca de R$ 44, por sessão de análise, de acordo com a tabela do Conselho Regional de Psicologia. Mas isso também vai ser ditado pelo mercado, como explica Denise Melo. Segundo ela, o profissional muitas vezes é obrigado a cobrar quantias mais baixas para conseguir competir ou mesmo sobreviver.

Para melhorar a situação, a boa notícia é que o campo da psicologia está se expandindo e ter um psicólogo por perto, em uma empresa ou escola, daqui a pouco pode se tornar uma rotina. Além disso, existem muitas especializações, dentro desta profissão, como a formação Reichiana, Freudiana, Lacaniana, comportamental, etc.

Links:
CES: www.cesjf.br
UFJF: www.ufjf.br
Revista PsiBrasil: www.uol.com.br/cutvox/.

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