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Risorgimento

Giuseppe Galasso
 

O Risorgimento italiano se apresenta, para Gramsci, como aspecto italiano de um desenvolvimento europeu mais geral, primeiro na época da Reforma, em seguida da Revolução Francesa e, por fim, do liberalismo. Como tal, seu arco cronológico se estende a todo o século XVIII, para captar desde o início “o processo de formação das condições e das relações internacionais que permitirão à Itália unir-se em nação e às forças internas nacionais desenvolverem-se e expandirem-se” com o mesmo fim. Além disso, ele deve ser percebido, no âmbito nacional, por um lado “como retomada de vida italiana, como formação de uma nova burguesia, como consciência crescente de problemas não só municipais e regionais mas nacionais, como sensibilidade a certas exigências ideais”; por outro lado, “como transformação da tradição cultural italiana”, seja segundo o movimento da cultura européia, seja segundo os impulsos para a formação de uma nova consciência histórica e a reconstrução e projeção no presente do passado italiano a partir de Roma.

Também para Gramsci, só a partir da Revolução Francesa, o Risorgimento, assim entendido, adquire efetiva concretude, porque é só a partir de então que ele não é mais apenas uma tendência geral da sociedade e da cultura italianas em sintonia com as tendências européias, mas se transforma em ação “consciente em grupos de cidadãos dispostos à luta e ao sacrifício”, tornando-se assim um impulso histórico efetivo que opera através de forças específicas e consistentes. E é justamente o discurso sobre a natureza e o comportamento destas forças no momento decisivo do Risorgimento, quando a unidade italiana é realizada, que constitui o objeto dominante das reflexões históricas de Gramsci.

Deste ponto de vista, seu juízo é muito claro: o processo risorgimentale foi caracterizado por uma nítida hegemonia das forças moderadas sobre as democráticas. Mas, contrariamente a uma opinião muito difundida, isto não significa de modo algum que Gramsci tenha uma concepção negativa do Risorgimento e condene seus resultados. Ele, ao contrário, polemiza contra aqueles que demonstram não valorizar adequadamente “o esforço realizado pelos homens do Risorgimento, diminuindo sua figura e originalidade, esforço que não foi só dirigido contra os inimigos externos, mas especialmente contra as forças internas conservadoras que se opunham à unificação”.

Lembra, além disso, que “as forças tendentes à unidade eram escassíssimas” na Itália e pouco coordenadas entre si até 1848, enquanto as forças contrárias eram “poderosíssimas, coesas, e, especialmente como Igreja, absorviam a maior parte das capacidades e energias individuais”. E, por fim, Gramsci reconhece no “poder de atração” dos moderados sobre os democratas um caso de atração “espontânea” de uma força social sobre outras, ou seja, a atração de um “grupo social realmente progressista”, porque “faz avançar realmente toda a sociedade, satisfazendo não só suas exigências vitais mas ampliando continuamente os próprios quadros”; logo, e sempre em termos gramscianos, um caso de “hegemonia”, não de “domínio”, e tão forte e eficiente que conseguiu até “suscitar a força católico-liberal” e fazer com que, embora brevemente, até mesmo um papa (Pio IX) se conformasse com o movimento liberal, realizando assim “a obra-prima do Risorgimento” e superando um dos maiores obstáculos ao movimento nacional.

A condição básica para a hegemonia dos moderados reside no fato de que “representavam um grupo social relativamente homogêneo, [...] ao passo que o chamado Partido de Ação não se apoiava especificamente em nenhuma classe histórica”, não dispunha nem mesmo de “um programa concreto de governo” e buscava inspiração - em face dos moderados -, no caso de muitos dos seus homens, em razões “mais de ‘temperamento’ do que de caráter organicamente político”. Isto confirma como é simplista ver em Gramsci o autor de um “processo contra o Risorgimento”, quando, ao contrário, ele parte de uma avaliação sem dúvida positiva da unificação italiana; aquilo que critica é o resultado social daquele processo, mas isto do ponto de vista da consistência histórica e social dos democratas italianos do Risorgimento e da sua ação, bem como do ponto de vista da política do Estado italiano unitário.

Quanto ao Partido de Ação, lançando mão de uma categoria histórica pela qual demonstrou vivo interesse, ou seja, a de “jacobinismo”, Gramsci afirma sobre ele não ter sabido opor à homogeneidade espontânea dos moderados a organização de um grande movimento popular de massas. Nas condições da Itália de então, isto teria significado, em substância, guiar os camponeses para uma luta pela terra, especialmente no Sul. Isto fez com que se resumissem, não erradamente, as opiniões de Gramsci a este respeito com a fórmula do Risorgimento como “revolução agrária frustrada” (a qual, porém, jamais aparece nele). E, com efeito, ainda que considere que talvez não se pudesse ir além de uma certa democratização, “dadas as premissas fundamentais do movimento” risorgimentale no seu todo, a seu ver o fracasso do Partido de Ação impediu que se inserisse “o povo no quadro estatal” da Itália unificada e facilitou a conduta corporativa de classe da burguesia moderada que sustentou o Estado unitário.

Esta linha de julgamento não está imune a oscilações e até mesmo contradições, sobretudo por causa da repetida insistência de Gramsci sobre as condições não só “subjetivas” (programa, homogeneidade social com os moderados, etc.), mas também “objetivas” (situação internacional do tempo, particularidades italianas, etc.), que explicam a sorte da esquerda risorgimentale, em última análise (como ele via em 1860) ligada e subalterna aos moderados. No entanto, a perspectiva que delineia sobre a “possível” ação histórica – que, a seu ver, o Partido de Ação (com Mazzini, Garibaldi, Pisacane, etc.) não conseguira efetivar – ilustra a fundo o projeto não mais histórico, mas atual e político, que Gramsci sentia como problema de democratização da Itália do seu tempo. E, não casualmente, seja aquela ação histórica frustrada, seja este projeto e problema giram amplamente em torno do Sul e dos seus camponeses como sujeito histórico, que, mobilizado em torno do problema da reforma agrária, Gramsci julga destinado, no passado e no presente, a deslocar o equilíbrio político-social da Itália: de fato, aos seus olhos, a questão meridional é uma das conseqüências mais diretas do caráter limitado e classista assumido pela direção moderada do Estado unitário.

No que diz respeito a este último, porém, o juízo de Gramsci é ainda mais complexo. A crítica da natureza burguesa do seu ordenamento e da sua política, que Gramsci desenvolve amplamente, nem mesmo neste caso ignora ou desconhece a positividade e a modernidade da solução risorgimentale. Numa ocasião solene, como o discurso contra o nascente regime fascista, pronunciado na Câmara dos Deputados em 1925, ele iria declarar precisamente que os comunistas se propunham agir como a minoria burguesa do Risorgimento, a qual, mesmo sendo uma minoria, “uma vez que representava os interesses da maioria, ainda que esta não a seguisse, pôde assim manter-se no poder”. Por outro lado, o juízo de Gramsci sobre a Itália unificada é bastante duro sobre problemas essenciais e sobre momentos e homens dos mais relevantes.

Do ponto de vista da sua ótica risorgimentale, a questão mais importante é a do transformismo. Neste, Gramsci vê não só um prosseguimento mas também uma deterioração da “ação hegemônica intelectual, moral e política” exercida pelos moderados sobre os democratas no período que havia levado à unificação. Mas, no Risorgimento, a absorção dos democratas por parte dos moderados tinha um alto conteúdo histórico, porque - como se viu - a burguesia moderada se fizera portadora dos interesses de toda a nação; na Itália unificada, torna-se instrumento da versão mais restrita e mais classista que os governos do período unitário oferecem da sua tarefa nacional. Assim, a hegemonia dos moderados do Risorgimento torna-se seu domínio na Itália unificada, seu “cru 'domínio' ditatorial”. Gramsci distingue, aliás, entre um transformismo “molecular” até 1900 (ou seja, a absorção individual dos elementos melhores e mais ativos da oposição democrática por parte da “classe política” conservador-moderada) e um “transformismo de grupos radicais inteiros, que passam ao campo moderado”, nos anos posteriores a 1900. O resultado do transformismo é a “decapitação” dos grupos progressistas e “seu aniquilamento por um período freqüentemente muito longo”.

O Risorgimento se confirma, pois, para Gramsci, inclusive nos seus efeitos sobre a vida da Itália unificada, tal como ele o define, como “um desenvolvimento histórico complexo e contraditório, que se torna um todo a partir de todos os seus elementos antitéticos”. A solução unitária realizou uma promoção e modernização do país e correspondeu aos interesses relevantes da nação, mas as classes que, primeiro, dirigiram o movimento nacional e, depois, governaram o Estado unitário agiram numa base essencialmente conservadora e moderada, que limitou a positividade do processo e se acentuou com o tempo: pode-se resumir assim o juízo de conjunto, o juízo gramsciano sobre o Risorgimento, no qual, por isso, cabem numa síntese muito complexa as noções de “jacobinismo”, “hegemonia”, “domínio”, “questão meridional”, “transformismo”, “relação entre cidade e campo”, “questão agrária”, que figuram entre as noções centrais do pensamento de Gramsci.



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