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A luta pela terra na Baixada Fluminense

Leonilde Medeiros - Março 2008
 

Bráulio Rodrigues da Silva. Memórias da luta pela terra na Baixada Fluminense. Organização, apresentação e notas de Leonilde Servolo de Medeiros. “Orelha” de Raimundo Santos [*]. Rio de Janeiro: Mauad & Edur, 2008. 99p.

Conheci Bráulio Rodrigues da Silva no início dos anos 80, quando vim morar no Rio de Janeiro para me incorporar à equipe do então Curso de Pós-graduação em Desenvolvimento Agrícola, hoje Programa de Pós-graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

Sempre o encontrava em eventos realizados pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Rio de Janeiro (Fetag/RJ) e em diversas manifestações públicas que marcaram o período de busca por liberdades que antecedeu o fim do regime militar. Em alguns desses momentos, o vi narrando as lutas por terra de que participou na região de Pedra Lisa, em Nova Iguaçu.

Em 1999, um grupo de pesquisadores, de cuja equipe de coordenação eu fazia parte, iniciou uma investigação sobre assentamentos rurais no estado do Rio de Janeiro. Uma das unidades escolhidas foi Cachoeira Grande, um assentamento sob responsabilidade do governo estadual situado na estrada das Andorinhas, que liga Piabetá a Magé.

Para minha surpresa, num dos dias de trabalho de campo, encontrei Bráulio Rodrigues nas proximidades da Vila Brasília, ponto central do assentamento. Apesar da idade já avançada, ele estava muito disposto e percorrendo o assentamento de bicicleta. Conversamos um pouco e ele me informou que agora morava em Cachoeira Grande, mas trabalhava em Nova Iguaçu. Disse ainda que estava ajudando os assentados a organizarem uma cooperativa. Fiquei impressionada com sua vitalidade, não só física, como mental.

Numa outra visita a Cachoeira Grande, novamente nos encontramos e, na ocasião, ele me indagou se eu não gostaria de fazer um livro que narrasse a sua história. Dispus-me imediatamente à tarefa, mas a conclusão da pesquisa e a redação do relatório final adiaram o projeto.

No ano de 2004, engajei-me em uma iniciativa que visava recuperar a memória das lutas camponesas em alguns estados do país. A proposta era encabeçada pelo professor Moacir Palmeira, do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e dela participavam também Elisa Guaraná, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, e Marcelo Ernandez Macedo, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

A primeira experiência, um encontro que durou dois dias, com participantes das lutas por terra que ocorreram no estado do Rio de Janeiro nos anos 1950, 1960 e 1970, aconteceu em outubro de 2004, num clima de muita emoção. Para o evento foram convidadas algumas lideranças que conseguimos localizar, a começar por Bráulio Rodrigues, que, prontamente, aceitou o convite para dar seu depoimento e ajudou a encontrar outros antigos companheiros seus.

Logo depois iniciamos as entrevistas, que, editadas, deram origem ao presente livro de memórias. A primeira delas foi feita por mim e por Marcelo Ernandes Macedo, na casa de um antigo líder das lutas por terra em Magé, Antonio Ernesto, que também havia participado do encontro. Essa entrevista foi gravada em vídeo e compunha parte do material que Marcelo estava recolhendo para fazer um documentário sobre José Pureza da Silva, outra expressiva liderança das lutas por terra no estado do Rio nos anos 1950 e 1960, falecido no início dos anos 1980.

Depois dessa entrevista inicial, realizei mais cinco entrevistas com Bráulio Rodrigues, sempre em sua residência. Em todas as ocasiões, encontrava-o trabalhando em algum conserto da casa, em seu lote ou mesmo recebendo algum vizinho que tinha vindo lhe pedir alguma informação.

A partir de uma revisão de documentos já utilizados em pesquisas anteriores e de leituras de teses e artigos sobre os conflitos fundiários no estado, eu o questionava sobre alguns fatos não mencionados e pedia complementação de informações que não estavam claras, como locais e datas. Também foi bastante útil uma caixa de documentos que ele me emprestou e que correspondia a um dossiê, produzido pelos organismos de repressão, sobre suas atividades e que ele havia obtido no Arquivo Público para instruir seu pedido de indenização pelas prisões que sofreu durante o regime militar.

Na medida do possível, procurei, no trabalho de edição e de adequação da linguagem falada à escrita, manter o tom coloquial dos depoimentos, uma vez que, desde o início, havia sido acertado que o relato seria feito em primeira pessoa. Antes da última visita, enviei-lhe uma primeira versão da edição que eu fizera de seus relatos para que ele lesse, opinasse, corrigisse ou completasse as informações. O texto resultante foi revisado com ele ponto a ponto e, a seu pedido, diversas passagens foram retiradas, na maior parte dos casos por envolver outras pessoas que ele dizia não querer comprometer ou envolver em seu depoimento. A versão final foi novamente submetida a ele, antes do envio para a Mauad Editora.

Nas diversas visitas que fiz à sua casa, sempre fui carinhosamente recebida por Bráulio e Luci, sua esposa. Nunca consegui sair de lá sem partilhar um delicioso almoço e sem trazer para casa acerolas recém colhidas ou ovos frescos. Agradeço a eles pela receptividade, carinho, atenção e confiança dados a mim, bem como pelas horas de agradáveis conversas na varanda.

As iniciativas de resgate das memórias de lideranças das lutas no campo vêm se multiplicando nos últimos 20 anos e hoje já constituem um rico material que pode ser consultado por pesquisadores e também servir de estímulo e de testemunho para militantes mais jovens. Ao longo desses anos, foram publicadas as memórias de José Pureza da Silva, Gregório Bezerra, Elizabeth Teixeira, Manoel da Conceição, Lyndolpho Silva, Nazareno Ciavatta, Irineu Luis de Moraes, Joaquim de Poté, Chico Silva, entre outros.

Também foram realizados os seminários Memória Camponesa, abrindo espaço para a narrativa das lutas dos anos 60 e 70 por seus participantes. Esses seminários ocorreram, além da primeira iniciativa no Rio de Janeiro, também em Pernambuco (2006), Rio Grande do Norte (2006), Paraíba (2006), Ceará (2006), Rio Grande do Sul (2007) e Paraná (2007). Em 2008, pretende-se realizar encontros semelhantes em São Paulo e em Goiás. Esses eventos, todos filmados, estão sendo editados em DVD para ficarem à disposição de um público mais amplo. No seu conjunto, eles esboçam um rico panorama das lutas no campo, tal como percebidas por alguns de seus principais participantes, sejam eles dirigentes locais ou aqueles que se dedicaram a realizar mediações políticas no plano das organizações nacionais.

O presente texto é mais uma contribuição nessa direção. Como um relato que tem por base a memória de um importante personagem das lutas por terra no estado do Rio de Janeiro por quatro décadas, ele é atravessado por silêncios, mas também por ilustrações que jogam luz sobre os processos organizativos de um período sobre o qual se sabe muito pouco.

Como aponta Pollack, a memória não é um conjunto uniforme e compacto de lembranças. Ela incorpora disputas, busca de legitimidade e de reconhecimento. Sob essa perspectiva, é seletiva, no sentido de que é produto de um processo social e de uma forma de percepção sobre o passado que também é marcada pelo presente. Desse modo, o relato sempre volta para alguns pontos, marcos da narrativa, e deixa outros de lado. Assim, na fala de Bráulio Rodrigues há situações relatadas com detalhe, outras de forma sintética, outras ainda silenciadas.

O relato da experiência dessa liderança ilustra determinados modos de agir dos trabalhadores envolvidos em conflitos fundiários: as formas como chegavam à terra, a presença de mediações e sua importância, a violência tanto dos jagunços quanto a policial que se voltava sobre determinadas iniciativas, as formas da repressão que se abateram em especial sobre as lideranças, a partir do golpe de 1964, os caminhos pelos quais as lutas por terra e por moradia se aproximaram na Baixada Fluminense. São indicativos que mostram que, apesar da riqueza da bibliografia existente, ainda há muito espaço para a pesquisa sobre a história de um segmento social, também ele vítima do esquecimento. Dessa perspectiva, o resgate da memória revela sua força como capaz de devolver a determinados grupos sociais um passado de lutas que tende a ser silenciado.

Merece destaque o papel de algumas mediações que, em contextos adversos, puderam dar voz aos trabalhadores e não só balizar como também dar suporte a certas formas de luta. Assim, o relato de Bráulio Rodrigues aponta para a importância de se perceber melhor a presença do Partido Comunista nos anos 50 e 60 e também da Igreja, tanto por meio dos Círculos Operários Católicos, que se opunham às iniciativas da “esquerda” no período que antecede o regime militar, como, já nos anos 70, por meio da Comissão Pastoral da Terra (CPT), apoiando e mesmo estimulando as ocupações de terra e avalizando as iniciativas dos trabalhadores.

É interessante observar que é esse setor da Igreja que abrirá espaço para a atuação de Bráulio a partir da segunda metade dos anos 70 em Nova Iguaçu, permitindo que ele se constituísse em uma destacada liderança local. Mostra ainda diversas facetas das relações entre os que demandavam terra e o Estado, por meio de uma interlocução tensa com os governos estadual (principalmente no período que antecedeu o golpe) e federal.

O leitor terá neste relato um interessante panorama da ainda pouco conhecida e continuada conflitualidade em torno do acesso à terra que marcou a história do Rio de Janeiro, em particular da Baixada Fluminense.

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Leonilde Servolo de Medeiros é professora do CPDA/UFRRJ.

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[*] “Orelha” do livro, escrita por Raimundo Santos, também professor do CPDA/UFRRJ. 

A trajetória de um militante pode reconstituir a história dos movimentos do grupo social a que pertence? As memórias de Bráulio Rodrigues — uma saga desde os anos 40 do século XX — trazem-nos, com todas as suas descontinuidades, signos dos nossos dois agrarismos. O de tipo político — com o qual o PCB construiu a rede sindical no país — emerge em Minas Gerais no ocaso do Estado Novo, indo depois o narrador para o Rio de Janeiro.

Andanças e intenso associativismo sindical pela terra. Alguns lugares/trajetórias: Pedra Lisa e Imbé; a Falerj e o Congresso Camponês de Belo Horizonte. Caxias e Cachoeiras de Macacu. E a aliança “operário-camponesa” no apoio sindical citadino de Benedito Cerqueira e Roberto Morena. Tempos de Jango e da Supra, até 1964.

Sem democracia no país, a fala do militante se fratura. Com a vitória do MDB de Ulysses Guimarães em 1974, tem curso o segundo agrarismo. Bráulio vai estar na construção da CPT de Dom Adriano Hipólito. A luta pela terra se move com outros personagens parecidos. Um único nome: a Irmã Josefina, o quadro de Dom Adriano.

Esta mobilização religiosa também se faz presente na resistência aos despejos dos conjuntos do BNH, em Nova Iguaçu, em 1978. Mais dois personagens: a Fetag e o Incra. O relato vem aos anos 90, época construtiva nos assentamentos, o militante engajando-se na Secretaria de Assuntos Fundiários. A memorialística se dilui como reconstituição da atividade camponesa.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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