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Uma nova democracia numa outra Itália

Alfredo Reichlin - Junho 2009
Tradução: A. Veiga Fialho
 

Gramsci e o Brasil associa-se a L’Unità, o jornal fundado por Antonio Gramsci, para comemorar os vinte e cinco anos da morte de Enrico Berlinguer (1923-1984), um dirigente comunista “tão distante e tão perto de nós”. Por ocasião da sua morte, que abalou profundamente os italianos e gerou algumas das maiores manifestações de massas do pós-guerra naquele país, assim se expressou Alberto Moravia: “Compartilho e subscrevo as palavras do presidente da República, Sandro Pertini. Não é justo, não devia ser atingido um justo”. Para além destas palavras de Moravia, que sublinham, sinteticamente, a estatura moral do morto, cabe lembrar que o mundo de Berlinguer era o do comunismo histórico, irremediavelmente terminado. Mas neste mundo Berlinguer introduziu seu pensamento herético e fortemente inovador, baseado no reconhecimento de que o horizonte moderno da política é constituído pelas formas da democracia, para ele, como para nós de Gramsci e o Brasil, um valor universal; um valor que, por definição, não comporta condicionamentos ou restrições de qualquer tipo. Pode não ser condição suficiente, mas certamente é condição necessária para qualquer boa reconstrução do conceito de socialismo ou comunismo.

Desde a morte de Enrico Berlinguer se passou um quarto de século, e desde então tudo mudou: o mundo. Do comunismo empalideceu até a lembrança, e o ethos do país está dominado por ideias, culturas, modos de viver, em relação aos quais aquele homem esquivo, que invocava austeridade e pedia aos jovens do seu partido que se submetessem à dura disciplina do “árido estudo”, pareceria um estrangeiro. Por que, então, voltamos a falar dele? A verdade é que — como sempre, no caso de certos aniversários — são os problemas de hoje que nos interrogam. [...]

Berlinguer foi o emblema de um nó fundamental da história italiana, enfrentado conscientemente (seus amigos podem testemunhá-lo), mas não resolvido: o peculiar sistema italiano tal como fora edificado depois da Resistência e da Constituição e progressivamente se desenvolvera durante a guerra fria num complexo jogo de equilíbrios internos e internacionais. Uma democracia incompleta, a qual, no entanto, garantira o progresso do país. O Berlinguer que hoje volta a ocupar nossos pensamentos assume a responsabilidade pela secretaria comunista como um duro dever e em nome da recusa de todo mito (iniciou citando Maquiavel, que exorta a não fantasiar em torno de “repúblicas que não existem”).

Mas ele estava animado por uma profunda convicção: voltar a pensar a política em função do fato de que os fundamentos do Estado não se haviam consolidado e que, portanto, o que se fazia necessário não eram reformas pelo alto, mas uma segunda etapa daquela autêntica revolução democrática que, entre 1943 e 1946, transformara a Italietta dos Savoia e do fascismo na Itália republicana. Parece-me que aqui está o ponto em torno do qual se deveria voltar a refletir. Porque este não era o sinal do seu anacronismo, mas de um problema italiano ainda crucial: falo da necessidade de uma política concebida como instrumento de um novo protagonismo das massas subalternas.

Não estou falando de movimentos de protesto, mas de um amplo projeto político baseado numa combinação diferente das forças históricas, na formação de um bloco cultural, na ideia de colocar a defesa e o desenvolvimento da democracia em base mais sólida, numa nova relação entre dirigentes e dirigidos. Este era o seu tema. Mas, se se tratava disso, era inteiramente evidente que ele não podia fugir da necessidade de acertar as contas com as ambiguidades e o modo de ser do PCI, tal como a geração de Togliatti nos legara. Era preciso sair da condição de uma oposição ambiguamente colocada entre uma velha cultura comunista alternativa ao sistema e uma visão nacional (não só de classe) dos problemas do país, voltada para tornar possível uma função de governo.

O desbloqueio do sistema político criado pela guerra fria e o fim da democracia atrofiada não podiam mais ser separados da saída do campo soviético. Daí a ruptura. E, coerentemente, a declaração sobre a Otan como instrumento também de garantia para a própria gestão da luta democrática. [...] Penso que Berlinguer deva ser julgado em relação ao seu projeto político, ou seja, ao modo como enfrentou o problema da democracia italiana tal como naqueles anos 1970 volta a se apresentar.

Anos dramáticos, assinalados pelo fracasso da centro-esquerda, pela inflação de dois dígitos, por grandes agitações sociais que alcançavam as escolas e as fábricas; pelo advento, em escala mundial, de uma virada conservadora, que punha fim ao compromisso entre capitalismo e democracia, pelo terrorismo que começava a disparar e a matar. Ressurgia o grande tema da “democracia difícil” (como a chamou Moro), isto é, das frágeis bases do Estado italiano. [...]

Um problema crucial e, sob certos aspectos, análogo ao que ainda nos perturba estava diante de nós. Falo do desaparecimento das condições fundamentais que haviam possibilitado o extraordinário salto da economia italiana que foi o “milagre econômico”, isto é, o regime tipicamente italiano de baixos salários, milhões de camponeses que abandonavam suas aldeias e se ofereciam nos portões das fábricas, câmbio fixo, uma demanda mundial crescente de bens de consumo duráveis (automóveis, geladeiras). Todo este equilíbrio é que desaparecia, com a internacionalização dos mercados, e o sistema político foi abalado por isso desde suas bases.

Tentou-se o caminho da centro-esquerda, e 1968 e o “outono quente” enfunavam nossas velas. Criava-se assim — é verdade — uma situação nova, favorável ao PCI, mas também altamente perigosa, porque, se de um lado grandes forças impeliam no sentido da superação do sistema político bloqueado, de outro ressurgiam todas as fraturas da sociedade italiana: das cegas resistências das forças reacionárias à mobilização do subversivismo dito de esquerda. Enrico Berlinguer teve aguda consciência de tudo isso.

Sua obsessão (posso testemunhar) era que, tendo se rompido algo muito profundo nos velhos equilíbrios italianos, a situação chegara àquele momento crucial em que, se os impulsos do país para a mudança não encontrassem uma saída política, “logo teríamos uma feroz reação do sistema”. Aqui está a razão originária daquilo que tomou o nome de compromisso histórico. A ideia de fundo era que, para sair do dilema, era preciso uma espécie de pacto constituinte, o qual, apoiando-se no entendimento entre os grandes partidos populares, permitiria ao mesmo tempo uma mobilização de velhas e novas potências sociais.

Coisa que ele chamou de uma segunda etapa da revolução democrática. Era um projeto forte. Mas os fatos, os duros fatos, dizem que não chegou a bom termo. Todavia, a prova trágica de que tal hipótese não era irreal está no fato de que Moro foi assassinado. E a contraprova de que a questão em jogo era muito mais séria do que um “conchavo” entre comunistas e democratas cristãos está no fato de que, logo em seguida, termina a república dos partidos. A DC foi decapitada, o PSI sofreu a metamorfose que conhecemos, e o PCI foi levado às cordas, sem mais capacidade de incidir nos grandes processos de reestruturação já em curso (a mundialização, o neoliberismo, a revolução conservadora).

O vazio político que se veio a criar era grande e muito perigoso. Abriu-se a fase da longa transição italiana que não sei se já está concluída: o longo esforço voltado para colocar sobre novas bases o desenvolvimento de um país que se europeizava. Desde então passaram-se vinte e cinco anos. Terminou o século XX. A URSS não existe mais. A história do comunismo italiano é, de fato, história encerrada. Por que, então, ainda falamos de Enrico Berlinguer? Substancialmente, acredito, porque na sua obra ainda existe algo politicamente operante.

Este “algo” — para dizer com poucas palavras e usar o seu léxico — creio que seja a necessidade objetiva de um pensamento mais longo que não se entregue a uma nova filosofia da história, mas seja capaz de ler a nova estrutura do mundo, que resta em grande parte desconhecida nos mapas de que dispomos. Nisso reside o sentido da minha lembrança: na necessidade de um pensamento que produza sentido e que nos diga para onde nos encaminhamos.

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Alfredo Reichlin foi membro da secretaria, da direção e do comitê central do PCI, além de responsável pelo Departamento Econômico e ministro do “governo sombra” daquele partido. Foi também presidente da Direção Nacional dos DS (Democráticos de Esquerda). Esteve à frente da comissão responsável pela redação da “Carta de valores” do PD (Partido Democrático). Dirige a Fondazione Cespe — Centro Studi di Politica Economica, em Roma.



Fonte: L’Unità & Gramsci e o Brasil.

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