ACESSA.com

Busca:     


As desventuras da dialética

Antonio Ianni Segatto - Janeiro 2010
 

Konder, Leandro. A derrota da dialética: a recepção das ideias de Marx no Brasil, até o começo dos anos 30. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2009.

Há pouco mais de trinta anos, Roberto Schwarz introduzia a tese das “ideias fora do lugar” em nosso debate acadêmico. Reeditando a tese marxiana acerca da ideologia alemã, ele formulava uma equação que combinava uma certa interpretação do capitalismo no Brasil — elaborada no quadro do conhecido “Seminário Marx”, do qual ele participara —, a vigência do escravismo e o influxo do ideário liberal [1]. Dez anos depois, Leandro Konder publicava sua tese de doutorado, intitulada A derrota da dialética, em que assumia a tarefa contrária à de Schwarz, mas cujo resultado seria complementar ao dele. Embora se referisse ao crítico literário apenas nos agradecimentos, Leandro dava um sentido novo e insuspeitado para a expressão “ideias fora do lugar”. Ele procurava explicar a relação entre o influxo das ideias marxistas no Brasil, a história mundial do socialismo e o cenário cultural e social brasileiro. A tese que defendia era mais ou menos simples de ser colocada, mas difícil de ser explicada: tratava-se de mostrar que, ao aportar por aqui, o pensamento de Marx sofrera uma perda em sua dimensão dialética, determinada por “fatores ligados à história do socialismo como movimento mundial em conjunção com fatores característicos da vida social e cultural do nosso país” (p. 75). Para tanto, ele fazia, como anunciava o subtítulo, um balanço da “recepção das ideias de Marx no Brasil, até o começo dos anos 30”, não sem antes determinar, em uma nota preliminar, o que seria o sentido próprio da dialética, e examinar as aventuras, ou melhor, as desventuras da dialética desde sua versão marxiana até o chamado “marxismo-leninismo”. Já pela ousadia do empreendimento, o livro merece um lugar de destaque no debate sobre o marxismo. Mas as qualidades desta obra, que agora vem a lume em sua segunda edição, vão além dessa ousadia. Seus méritos devem muito à vasta pesquisa feita pelo autor, à análise das inúmeras fontes e à conclusão a que chega.

Da Rússia ao Brasil, Leandro examina as várias figuras que assume a derrota da dialética. A primeira delas culmina na versão leninista do marxismo. Conforme seu diagnóstico, a apropriação do pensamento de Marx por Lenin aconteceu ao preço da anulação de seu teor filosófico e, consequentemente, do esvaziamento de sua dimensão dialética. Mas não devemos nos apressar no juízo. Ele indica que isso se devia ao fato de que “Lenin era um teórico-político: seu pensamento se movia, em geral, num plano mais comprometido com as condições empíricas da ação” (p. 70). A derrota da dialética que se colocava aí ainda podia ser desculpada. O que parece mais grave são os efeitos que tal derrota assumia com a ascensão de Stalin. A práxis ficava despojada de qualquer liberdade, “a liberdade fica reduzida à pura e simples constatação do necessário”, “a consciência se recusa a abrir-se para o novo” (p. 71), “o acaso se tornou, por assim dizer, ‘clandestino’: ele não podia ser visto, só a direção do partido devia ter a prerrogativa de discerni-lo e explorá-lo, através de manobras e golpes improvisados” (p. 72-3).

A segunda figura da derrota da dialética examinada por Leandro é a de sua recepção na América do Sul. Sua constatação é a de que havia um descompasso entre, de um lado, as condições históricas pensadas por Marx, juntamente com os níveis de experiência política e de organização do movimento operário exigidos para a assimilação de seu pensamento, e, de outro lado, as condições precárias em que foram recebidas no contexto sul-americano. A conclusão geral é, pois, a seguinte: “Na medida em que não encontram seus destinatários ‘naturais’, as concepções de Marx ficam mais ou menos ‘desarmadas’ para enfrentar a erosão que lhes é imposta por um uso ‘escolástico’ ou retórico-especulativo, estranho às preocupações centrais com que foram engendradas” (p. 81).

Ao examinar a feição específica que essa figura da derrota da dialética assume no contexto brasileiro, Leandro mostra que não foi apenas o movimento operário que deixou escapar o potencial crítico das ideias de Marx. Dois de nossos mais importantes escritores, embora tenham se referido ao autor alemão, também deixaram escapar aquele potencial. Machado de Assis mostra sua desconfiança em relação ao socialismo em uma crônica em que narra a visita de um certo russo chamado Petroff ao Brasil. O quiproquó montado por Machado é o pretexto para o exercício de sua fina ironia. O jogo de mal-entendidos faz com que Petroff tome um grito carnavalesco por um brado revolucionário. Euclides da Cunha, por sua vez, embora tenha sido “o primeiro intelectual importante a ter tido uma ideia da perspectiva global de Marx”, tendo se referido a ele em um artigo sobre o “velho problema” da propriedade, oscilava entre a compreensão efetiva do real e a recaída nas ideias prontas (leia-se “positivismo”). Não surpreende, pois, que sua recepção das ideias de Marx não tenha significado a adesão a elas. No que tange à classe operária, a sorte de tais ideias e do ideário socialista em geral não foi melhor. Permanecia um enigma aos olhos de nossos social-democratas a resistência do povo às ideias que deveriam corresponder a seus anseios. Não surpreendem as palavras decepcionadas de Estevam Estrella: “‘Acho que Marx errou quando disse que as reformas em favor dos operários devem ser feitas por eles mesmos’. Por quê? ‘O operário, por si, devido ao ambiente que respira, jamais conseguirá fazer nada que preste em favor de sua emancipação’” (p. 131). Se não faltava a nossos intelectuais o discernimento crítico para a compreensão de nossa realidade — como mostram, por exemplo, os romances da fase madura de Machado [2] —, faltava-lhes informação para a devida apropriação de Marx. Se não faltava a nossos operários a experiência da opressão sofrida na carne, faltava-lhes o conhecimento da realidade social, bem como os meios para tal conhecimento. A conclusão sobre esses últimos só poderia ser uma: “revoltavam-se, mas não conseguiam se organizar revolucionariamente” (p. 133).

Ainda examinando a feição da derrota da dialética no Brasil, Leandro mostra que o PCB, fundado em 1922, apesar de poder representar um centro difusor das ideias de Marx, acabou relegando-as a um segundo plano. Antes de tudo, o que interessava era a discussão sobre o próprio partido recém-criado e sobre a matriz russa: “as pessoas foram se inclinando a debater menos sobre as doutrinas do pensador alemão do que sobre os acontecimentos da Revolução Russa, sobre Lenin e sobre a realidade do novo Estado soviético [...]. Começou a se generalizar a convicção de que não tinha sentido procurar em Marx algo que não tivesse sido genialmente traduzido na ação pelo leninismo” (p. 151-2). Esse desvio de interesses deveu-se, em certa medida, à própria deficiência na difusão das concepções de Marx. Isso porque os dirigentes do partido conheciam mal o pensamento do autor alemão e porque eram escassos os recursos, os quais eram sempre investidos na agitação e não no estudo. Leandro lembra, ainda, que houve uma deficiência grave na aplicação do marxismo à interpretação da realidade brasileira. Octávio Brandão, por exemplo, que se colocava como adepto da “dialética marxista”, a reduz à tríade “tese-antítese-síntese” e aplica-a sem mais à revolta de 1924: “Arthur Bernardes é a tese (o agrarismo feudal); Isidoro Dias Lopes é a antítese (pequena burguesia rebelada, por trás da qual se acha o capital industrial); e a síntese — ainda por vir — é a revolução proletária, comunista” (p. 183). Os mal-entendidos se sucedem e culminam na conclusão disparatada de que estávamos prestes a assistir a uma “guerra formidável na América do Sul e no mundo inteiro”, que resultaria do conflito entre o imperialismo inglês e o imperialismo norte-americano.

Cerca de uma década mais tarde, o PCB sucumbia à versão estalinista do marxismo. A partir de 1931, começam a ser publicadas por aqui obras do dirigente russo. O resultado era uma combinação do estalinismo com o positivismo, o qual já vigorava desde a campanha republicana no século 19. Essa combinação, aliás, não era totalmente arbitrária, já que o marxismo estalinista entendia a evolução da humanidade como um processo linear que deveria atravessar cinco estágios, correspondentes a cinco modos de produção (o “comunismo primitivo”, o “escravismo”, o “feudalismo”, o “capitalismo e o “socialismo”). A derrota da dialética se completa com a ofensiva conservadora anticomunista e antissoviética: a difusão do marxismo, ainda que em sua versão deturpada, é diretamente proporcional ao crescimento da literatura anticomunista.

Mas por que, afinal, fazer a história de um fracasso? Por que examinar as figuras em que se desdobra essa grande derrota da dialética? A resposta a essas perguntas é dada pelo próprio Leandro em uma entrevista. Perguntado sobre a possibilidade de se ler o livro como um exercício de história a contrapelo, no sentido de Walter Benjamin, ele respondia: “Acho que sim, acho que há aquela ideia de que, se eu reconstruir uma história desagradável mas necessária, estou de alguma forma advertindo as pessoas para o risco de que ela se repita e para a conveniência de elas tomarem certas iniciativas que evitem a repetição. A minha ideia era evitar uma nova derrota da dialética, porque a dialética já sofreu bastante. Quem sabe a gente a revigora! Aliás, a minha concepção de dialética não é exatamente igual à do Carlito [Carlos Nelson Coutinho]. O Carlito já me confessou que, se ele não fosse um lukacsiano-gramsciano, seria adorniano. Adorno seria a alternativa para ele. Já eu, se não existisse nem Lukács, nem Gramsci, ficaria com o Benjamin, seria benjaminiano” [3]. Essa tripla filiação confessada pelo autor, aliás, dá a chave para compreender três aspectos fundamentais do livro: 1) embora não se refira a Lukács, ele se aproxima bastante da concepção de dialética de História e consciência de classe, aproximação esta que se mostra na recusa intransigente da compreensão das ideias de Marx como um conjunto de dogmas; 2) o diagnóstico final sobre a derrota da dialética baseia-se em uma tese de Gramsci: o apego ao determinismo serve de refúgio àquele que se vê momentaneamente derrotado ou, como escreve Leandro, “o revolucionário que não consegue confiar suficientemente em si mesmo é naturalmente levado a confiar demais na ‘força das coisas’ ou na dinâmica ‘inexorável’ de uma história-destino” (p. 240); 3) a conclusão retoma as palavras de Benjamin, segundo as quais se a vitória pode entorpecer o espírito autocrítico, a derrota nos desafia a nos revitalizarmos e nos renovarmos, “com a derrota, podemos ‘aprender todas as fintas da ascensão e podemos nos banhar na vergonha como no sangue de um dragão’” (p. 253). É com essas palavras de Benjamin que se encerra o livro. A confirmação do otimismo dessa conclusão já havia sido dada por Leandro em sua atuação prática. Não é preciso lembrar aqui a enorme importância que teve na história da luta política e na defesa do marxismo no Brasil.

O livro confirma as palavras de Hegel segundo as quais a filosofia é como a ave de Minerva, que levanta voo ao entardecer: A derrota da dialética foi publicado pela primeira vez no momento em que Leandro já havia lutado por sua revanche. Sua vasta obra, cujas linhas mestras já estavam postas nos primeiros ensaios que publicou no início da década de 1960, representa uma contribuição decisiva para o fortalecimento do marxismo verdadeiramente dialético entre nós. Não é exagerado ver sua obra como o desmentido de uma certa história do marxismo no Brasil. Em primeiro lugar, ela se coloca como um contraponto às análises que fazem tabula rasa do marxismo difundido pelo PCB [4]. Se é verdade que esse marxismo era deficiente de um ponto de vista teórico, é verdade também que há uma explicação para isso, como bem mostra o livro resenhado aqui. Por outro lado, ao historiar nosso marxismo, não se pode esquecer a figura de Leandro. Como nota Carlos Nelson Coutinho no prefácio a esta segunda edição de A derrota da dialética, dois livros que publicou na década de 1960 (Marxismo e alienação e Os marxistas e a arte), juntamente com Origens da dialética do trabalho de José Arthur Giannotti, representam “um radical ponto de inflexão na história do marxismo brasileiro”. Quem quiser fazer a história do “capítulo brasileiro do marxismo ocidental”, conforme a expressão de Paulo Arantes, deve certamente incluir Leandro Konder.

----------

Antonio Ianni Segatto é doutorando em Filosofia na Universidade de São Paulo.

----------

[1] Cf. Schwarz, Roberto. “As ideias fora do lugar”. In: Ao vencedor as batatas. São Paulo: Duas Cidades, 1977.

[2] Cf. Schwarz, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis. São Paulo: Duas Cidades, 1990.

[3] Nobre, Marcos; Rego, José Márcio. Conversas com filósofos brasileiros. São Paulo: Ed. 34, 2000, p. 195-6.

[4] Paulo Arantes, examinando a versão uspiana do marxismo, limita-se a condenar o marxismo pecebista sem explicar o porquê de sua “regressão teórica”: “Em resumo, da plataforma da nova geração uspiana constava: repúdio ostensivo do marxismo dito soviético, inclusive por uma questão de política cultural, saneando a cultura marxista local, cuja independência, a ser preservada, construía-se no entanto à base de falsas analogias e muita regressão teórica” (Arantes, Paulo Eduardo. Um departamento francês de Ultramar: estudos sobre a formação da cultura filosófica uspiana. São Paulo: Paz e Terra, 1994, p. 238).



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

  •  
Av. Barão do Rio Branco, 2390/601 - Centro - 36.016-310 - Juiz de Fora - MG - Fone: (32)2101-2000 | (32)3691-7000