ACESSA.com

Busca:     


As luzes do príncipe, a escuridão do sertão

Lúcio Flávio Pinto - Junho 2010
 

Reproduzo a seguir o texto, ligeiramente adaptado, do texto que escrevi para ser um dos capítulos (“FHC e a Amazônia”) do livro Democracia, crise e reforma – Estudos sobre a era Fernando Henrique Cardoso (Paz e Terra, 2010, 524 p.).

Quem é o príncipe da história na Amazônia? Para Gramsci, autor da mais rica releitura de Maquiavel, ajustada à Itália do início do século XX, o príncipe, que comandaria as transformações, seria o partido comunista. O PCI era a representação política do proletariado, a classe social sem amarras ao mundo dominante — capaz, por isso, de substituí-lo por um mundo sem classes.

E na fronteira amazônica? Quando ainda era apenas intelectual, 30 anos atrás, o sociólogo (e também príncipe simbólico desse ramo do saber no Brasil) Fernando Henrique Cardoso sugeriu que o príncipe era o capital. O dinheiro acumulado no centro dinâmico do país, sobretudo em São Paulo, iria promover a mudança. Permitiria à região — isolada e atrasada nos confins do Brasil — queimar etapas e se modernizar para poder falar de igual para iguais. Transformada num lugar capaz de receber o capitalismo de além-fronteiras, seria fecundada por esse agente por excelência da dinâmica social.

Assim, poderia se libertar das amarras seculares do rústico extrativismo vegetal, que demarcava sua vida até então, da mesma maneira como uma cobra se desprende de sua pele velha e inútil para continuar sua trajetória rejuvenescida. Mas não para o triunfo do capitalismo e sim para sua crise e superação, já que suas contradições não teriam solução salvadora. O príncipe da história era também seu demiurgo.

Como um típico intelectual metropolitano, Fernando Henrique Cardoso desenvolveu raciocínios que conduziam nessa direção em Amazônia, a expansão do capitalismo. O livro foi escrito em parceria com Gastão Muller, também pesquisador do Cebrap, e publicado em 1977 (com dados levantados em 1973) pela então afluente Brasiliense.

Tudo — autores, instituição de pesquisa e editora, de um quatrocentão, Caio Graco Júnior — estava estabelecido na época na capital paulistana. Como o alvo dessa empreitada encontrava-se a três mil quilômetros de distância da terra dos bandeirantes, abridores de fronteiras, escravizadores de índios e destruidores de biomas, a situação podia ser comparada (na escala devida, é claro) ao feito de um século antes de Karl Marx, que escreveu sobre as colônias asiáticas do capitalismo britânico sentado — por longuíssimas jornadas — nas confortáveis cadeiras do Museu Britânico, em Londres.

O trem que levava o colonizador inglês à Índia seria o mesmo no qual ele fugiria, quando o nativo, posto na vestimenta (ou camisa-de-força) da contemporaneidade, tomasse consciência de si (e para si) e colocasse o espoliador para correr, assumindo a direção da sua história.

O marxismo se mostrou um método de análise primoroso, capaz de fazer a anatomia e a taxonomia do ser coletivo com rara pontaria (o ser individual ficaria para o ajuste posterior com Sigmund Freud). Já como teoria da revolução (ou, mais exatamente, da pós-revolução, o tal do day after), se desnudou como um fracasso. No primeiro momento, ele é como ciência (ou “quase-ciência”). No segundo, mero profetismo, milenarismo (uma “quase-religião”). O componente trágico — e irônico — da personalidade de Marx é sua aspiração profética, uma herança familiar (ou uma alienação) que identificou e considerou nociva, sem conseguir, entretanto, imobilizá-la e se livrar dela.

Refletindo a partir de São Paulo, terra dos bandeirantes e capitães do mato (que, depois deles, não voltaria a crescer), sobre a exótica e longínqua fronteira amazônica, Fernando Henrique arrematava a incorporação do marxismo ortodoxo, com um agravante: ele não queria fazer a revolução, como Marx, mas explicá-la.

Ainda que cronologicamente isso significasse cancelar a evolução que Marx representou em relação a Hegel, fazendo o pensamento retroagir no tempo (ao menos na perspectiva da esquerda), para o acadêmico FHC esse era o modelo justo, coerente consigo mesmo. Tanto quanto Marx, ele parecia seduzido pelo “sistema” sobre o qual lançou suas armas críticas. Diferentemente de Marx, porém, o que pretendia mesmo era mudar o capitalismo, não destruí-lo.

Modernizá-lo podia torná-lo mais justo, mais coerente com o devir histórico no sentido do progresso. Sob essa ótica estrita, foi muito mais bem-sucedido do que “o pai fundador da dialética da práxis”, conforme um dos tratamentos diversionistas que Gramsci lhe deu para escapar aos tentáculos da censura fascista, exercida sobre as cartas e cadernos que escrevia para fora dos cárceres de Mussolini. Marx não foi além de uma inconstante consultoria a associações de trabalhadores.

Fernando Henrique se tornou o primeiro presidente a exercer, por dois mandatos consecutivos, durante oito anos, a presidência de um dos maiores países do mundo, eterno candidato a potência emergente no concerto das nações, como não se cansa de recitar o estribilho ufanista. Dezoito anos depois de ter teorizado sobre a expansão do capitalismo na fronteira primitiva, ele tinha a rara oportunidade de testar a exatidão do seu diagnóstico e colocar em prática suas profecias. Descia do plano hegeliano das ideias para o nível da realidade, sempre com o cajado de conduzir rebanho nas mãos, mas com uma diferença vital: no nirvana da teoria o cajado é simbólico; no rés-do-chão dos fatos, ele é uma ferramenta — ou uma arma.

Já sob a forma de uma sigla, a indicar a institucionalização do seu poder, FHC se cansou de repetir: jamais dissera para esquecerem, na apreciação do que já então fazia, o que outrora dissera. E tinha razão: porque ele realmente cumpriu, como presidente, o que dissera como intelectual. Havia diferença de tom e de retórica, que antes possibilitava sua classificação como pensador de esquerda. Mas a leitura atenta das suas numerosas obras era a prova dos nove: ele foi coerente nos dois momentos. A maior realização dos seus oito anos como presidente foi a modernização do capitalismo brasileiro, estendido a todas as periferias do país, que ele buscou transformar em espelhos do modelo, irradiado a partir do centro do poder, com o toque do comando às suas partes: “Avança, Brasil!”.

Por consequência, a Amazônia se tornou mais São Paulo e menos Amazônia. O bastão conduzido pelo príncipe nessa passagem de comando foi o desmatamento, a extirpação da cobertura vegetal da maior floresta tropical do planeta. Se o bandeirante paulista, atendendo inicialmente pelo nome de Raposo Tavares ou Borba Gato, e agora, indiferentemente da nacionalidade, por Ermírio de Moraes ou Nippon Aluminium, é o fazedor de desertos, nada mais natural que na paisagem amazônica as árvores de 40 ou 50 metros de altura fossem substituídas por pastos, campos de soja, fábricas, hidrelétricas, ferrovias ou minas.

A cada ano, durante o governo de Fernando Henrique, o que veio abaixo de floresta na Amazônia equivaleu, na melhor das hipóteses (a média dos anos de desmatamento menos intenso), a todo o território de Chipre, onde vivem 800 mil pessoas. A área já alterada na região, se constituísse um país, se tornaria o maior país da Europa Ocidental, com seus quase 800 mil quilômetros quadrados. Se considerada a Amazônia Legal, um conceito administrativo para efeito de incentivos fiscais, que inclui partes do Centro-Oeste e do Meio-Norte, o desmatamento já alcançou 18% do total.

Tomada como referência apenas a floresta densa, a hileia, a área submetida a desmatamento chegou a 20% dessa região, que resulta da rara combinação de floresta com água. Sua integridade já está sujeita a uma alta taxa de risco, quase mortal. Além do mais, como a legislação em vigor só admite a exploração de 20% dos imóveis rurais estabelecidos em área de floresta amazônica, a região já pode ser considerada ilegal em termos florestais.

É interessante observar que essa tendência a destruir o bem mais nobre da Amazônia, que é a sua floresta, consumando em três décadas uma destruição que jamais povo algum cometeu, não foi alterada nem um pouco pela medida que o governo FHC adotou em agosto de 1996: através de uma das inefáveis medidas provisórias, elevou de 50% para 80% a área de proteção legal em cada imóvel rural situado na Amazônia.

Foi um “projeto de impacto”, como aqueles que o regime militar concebia em seus laboratórios tecnocráticos e só revelava para o distinto público já como fato consumado. Junto com essa MP, que alterou o Código Florestal, de 1965 (da época do reformismo autoritário dos militares, ainda comprometidos com a doutrina da modernização espada à mão), veio uma portaria suspendendo por dois anos as autorizações e concessões para a exploração de mogno e virola, as duas espécies florestais mais valiosas da Amazônia, e determinando a vistoria, no prazo de 60 dias, das autorizações e concessões em vigor, cancelando-se aquelas encontradas em situação irregular.

Os empresários logo reagiram. Acusaram o governo de ceder a pressões internacionais para “engessar” a Amazônia, impedindo o pleno desenvolvimento das atividades produtivas, que competiam com os países travestidos de defensores da natureza amazônica.

Se os atores acreditavam no papel que desempenhavam no palco, o resultado prático é que o cenário foi apenas redecorado: o enredo continuou o mesmo. Depois de declinar entre 1987 e 1991, a curva do desmatamento voltou a subir a partir de 1992, disparando um sinal de alerta sobre a imagem que um governo social-democrata devia cultivar no Primeiro Mundo. Cada vez mais o que conta é a imagem, materializada na tela de computador, ocupada por imagens de satélite e combinação de dados extraídos de sofisticados softwares. Esse é o mundo virtual, dos especialistas digitais em Amazônia, armados com suas teorias brilhantes. Outro é o terreno real, onde prosseguiram a ação de centenas de serrarias, milhares de propriedades rurais, de extratores, de grileiros, de especuladores. Essa realidade é refratária aos comandos das mouses. Criou um caos que as tábuas das leis baixadas de Brasília não conseguem dissolver.

Quando fez suas épicas viagens pelo Pantanal matogrossense, no início do século XX, a Comissão Rondon calculou que 500 mil quilômetros quadrados desse paraíso bastariam, no futuro, para alimentar todos os brasileiros. É provável que o positivismo, a matriz mental desses militares pioneiros, cheios de otimismo, os tenha impedido de atentar devidamente para a fragilidade daquele ecossistema se exposto a um esforço produtivo mais intenso, como aquele que propunham.

A Amazônia, contudo, já oferece (não voluntariamente, é claro, mas em função de um processo de ocupação compulsória, imposta de fora para dentro) uma área despojada de sua cobertura vegetal original 20% maior do que aquela que sustentaria uma produção agropecuária suficiente para matar a fome de uma população continental. Numa das ondas de interesse intelectual sobre a região, a proposta de “recuperação de áreas degradadas” se tornou um refrão, da mesma maneira como, antes, na época da “ocupação pela pata do boi”, com a qual os colonizadores se armaram para pôr abaixo floresta e em seu lugar formar pastagens para incertos bois, a ladainha era de que o desmatamento não ia fazer mal porque se fazia em áreas de “cerrado, cerradão e mata fina”.

Aproveitar áreas já desmatadas para a produção de gêneros pecuários e agrícolas, em vez de continuar a desmatar, parecia o óbvio. Mas só parecia. Os pioneiros, estimulados ou constrangidos a integrar as frentes de penetração para “amansar a terra” (não só destruindo-a, mas também expulsando o habitante nativo), contavam com generosos e permissivos incentivos fiscais do governo para “abrir fazendas”, a primeira atitude do bandeirante.

Hoje, não há mais desses recursos, mal aplicados ou simplesmente desviados a rodo, como prova a triste história da extinta — e já renascida — Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). Há, em contrapartida, a crescente consciência ecológica, nacional e internacional, profunda ou superficial, mas que se trata de um dado inexistente ou desprezível nos tempos pioneiros.

Quem queria fazer avançar sua atividade econômica tinha que continuar a usar a floresta como um estoque de capital. Para que o pasto ou a lavoura crescessem, a reserva florestal encurtava. Os que tentaram voltar sobre os próprios passos constataram que a tal de “recuperação de áreas degradadas” saía mais caro do que a formação da área desmatada original. Às vezes, muito mais caro. Então, depois de ligeira hesitação, todos voltaram a pôr a mata abaixo para conquistar novos espaços ou fazer capital. É o que estamos a assistir neste momento: o incremento do desmatamento, tanto em valores absolutos quanto relativos. Mais espécies nativas desaparecerem antes de serem satisfatoriamente conhecidas, ou mesmo identificadas.

Não é melhor o destino que se dá ao outro elemento fundador da Amazônia real: sua imensa rede de drenagem fluvial. Um dos grandes rios da região, o Tocantins, o 25º maior do mundo, já sustenta com suas águas aquela que é a quarta maior hidrelétrica do mundo. Se dependesse apenas do governo, o Xingu — rio que está a oeste do Tocantins, na bacia seguinte — estaria cedendo águas para uma usina ainda maior, a de Belo Monte, que desbancaria Tucuruí da sua posição atual no ranking mundial. Mesmo com a pressão crescente sobre as águas da região, apenas um comitê de bacia (de mais de uma centena em funcionamento em todo país) foi criado até hoje na Amazônia. A visão que predomina sobre eles é compartimentada: os barragistas só pensam em água na forma de energia; os armadores, enquanto meio de transporte; e os agricultores, querem usar o rio para irrigação.

Não há um planejamento global e integrador dos diferentes usos, muito menos de antecipação de situações e de prevenção dos problemas. Por incrível que possa parecer, em alguns pontos da Amazônia a água já é problema, e em outros seu uso está se aproximando da saturação. Quem circular na região de influência da Belém-Brasília, a primeira estrada que ligou por terra a Amazônia ao restante do país, poderá perceber essa nova e assustadora realidade, sem precisar ir além de 300 quilômetros a partir de Belém.

Assim, se, no futuro, graças a políticas públicas competentes e a uma campanha nacional de conscientização, o cidadão for capaz de associar água e floresta à razão de ser da Amazônia, ele estará repetindo a lição aprendida nos bancos escolares de forma tão imediata e espontânea: que o Egito é um produto do Nilo. Por que não se percebe a mesma dependência na Amazônia? Essa percepção podia resultar em mais do que uma grande conquista do ponto de vista museológico, paisagístico ou espiritual. Para a Amazônia real, essa utopia, por ser longínqua, não servirá como consolo. Quando descobrir a verdade, talvez só reste ao cidadão apreciá-la no papel, em gravuras, em fotografias ou num filme de sabor arqueológico. A Amazônia viva e verdadeira já será um doloroso retrato na parede.

Foi assim na Inglaterra, na Índia, em São Paulo. Será também assim na Amazônia, porque tem que ser, quase como uma fatalidade. Se os ingleses saíram da Índia pelos trilhos que assentaram no solo nativo, voltaram — eles ou seus sucessores e substitutos — por outras vias, até mais eficientes, porque geralmente eram invisíveis. Os mecanismos financeiros, por exemplo. E os satélites.

Um ano antes de sair o livro de Fernando Henrique, aliás, travou-se um lance seminal nos sertões amazônicos. Foi num local vizinho à fazenda do empresário, ministro e amigo (igualmente paulista) Severo Gomes, no sul do Pará, onde — diz a lenda — o intelectual Fernando Henrique fez a única incursão in situ ao seu objeto de estudo (e por uma única noite). Ali ao lado, ao invés de estar montando veículos automotores, que era sua única especialidade, a Volkswagen estava criando boi. Para tanto, pondo fogo na floresta. O fogaréu foi fotografado pelo satélite americano Skylab e essa imagem documentou o maior incêndio com DNA, definido pela mais sofisticada máquina fabricada pelo homem.

Se houve alguma queimada maior antes na história do homo sapiens (e também agrícola, mas não florestal), não se sabe, por falta de registro. É pouco provável que tenha havido, considerando-se a tecnologia do fogo de hoje. Com prova verificável, o incêndio na fazenda Vale do Rio Cristalino, da Volkswagen, que atingiu de uma só vez 10 mil dos 139 mil hectares da propriedade, no município de Santana do Araguaia, é o maior de todos os tempos. E se Deus existe, ele pode ter fulminando a Volkswagen como castigo: o projeto nunca deu certo. E a multinacional alemã nunca mais tentou criar boi.

Na véspera do lançamento do livro de Fernando Henrique, por conta do trauma que a imagem do incêndio da Volks provocou mundo afora, o governo desviou para a Amazônia parte considerável do programa de monitoramento de satélites que o país começava a desenvolver em São José dos Campos, no interior de São Paulo. Como resultado do primeiro levantamento global da alteração da cobertura vegetal da região, com base em imagens de satélite, foi constado que o desmatamento ainda não chegara a 1% da superfície de cinco milhões de hectares da Amazônia Legal. Hoje, essa área desflorestada chega a 18% (ou 800 mil quilômetros quadrados), quase três vezes a extensão do Estado de São Paulo, ponto de origem de muitos desses desmatadores.

Os oito anos (1995-2003) de FHC coincidiram com o maior período de destruição de florestas na Amazônia, só comparável ao quinquênio de José Sarney (1985-1990). Não se pode dizer, no entanto, que os dois governos descurassem a questão ecológica. Com pompa e circunstância, Sarney lançou o programa “Nossa Natureza” e FHC deixou ao seu sucessor, um paulista adotivo, o ex-metalúrgico (e ex-aliado) Lula da Silva, o programa de Áreas Protegidas da Amazônia, proclamado como “o maior programa de conservação de florestas tropicais do mundo”, seu título de batismo.

O ARPA, um investimento de 395 milhões de dólares, destinado a beneficiar uma área de 500 mil quilômetros quadrados. E, no entanto, a média do desmatamento nos 8 anos de FHC esteve próxima dos “anos de fogo” de Sarney, ao redor de 25 mil quilômetros quadrados ao ano.

Como explicar a contradição de tanta retórica em defesa da natureza e tanta dilapidação de recursos naturais, como jamais houve numa fronteira colonial? Como explicar que esta é realmente a condição da Amazônia, integrante de uma genealogia que causou tantos danos no passado — e ainda no presente — aos países africanos e asiáticos?

Talvez, inadvertidamente, a explicação esteja contida num elucidativo documento produzido no auge do regime militar, a matriz de tudo que acontece até hoje. O II Plano de Desenvolvimento da Amazônia (II PDA), que vigoraria entre 1975 e 1979 (no consulado do general — e suposto déspota esclarecido — Ernesto Geisel, o terceiro dos generais-presidentes pós-1964) admitia que o modelo de desenvolvimento regional era desequilibrado.

Entre seus efeitos estavam a concentração da renda, os conflitos fundiários, a agressão à natureza, a dizimação dos índios. Essas distorções, entretanto, que eram um dado natural do modelo, inevitável, seriam devidamente corrigidas, por um ato de vontade do Estado, através de suas políticas públicas (o jargão ainda não tinha o uso corrente nos nossos dias, mas era isso que então se dizia). Daí o esquema atender pelo título de “modelo de desenvolvimento desequilibrado corrigido”.

O problema estava — e continua a estar — no fato de que a mão que apoia o investimento é pesada, por ter que carregar o tal do principesco capital, enquanto a mão da correção é leve, por ser destituída do mesmo “epifenomênico” capital, autorizando-se o neologismo a Guimarães Rosa, autor bem-vindo quando se trata de fazer alegorias com o grande sertão, ao qual o Brasil cada vez mais se reduz (se Deus quiser entrar, que venha armado, alertou o escritor das minas gerais, antevendo a guerra civil não declarada e caótica em vigor no país).

É assim que o sonho da fronteira se consumando: depois de quatro décadas de avanço das frentes econômicas, a Amazônia ficou exatamente igual ao Brasil mais antigo, ou pior. A última edição do Atlas do Desenvolvimento Humano mostra que a região cresce menos do que as outras regiões brasileiras, que a buscam como área de expansão, e o produto da atividade produtiva é partilhado por um número cada vez menor de pessoas.

Se a concentração econômica é a grande e estigmatizante marca do Brasil do século XXI, em sua maior fronteira de recursos naturais esse sinete se tornou ainda mais forte. Deixando de ser a ilusão do paraíso perdido, como Euclides da Cunha a viu no início do século XX, ela chegou ao limiar do novo século mais próxima do inferno humano e ecológico, ainda passível de atenuação, mas já visível no horizonte da rotina. Para que pudesse render economicamente para o país, cumprindo uma agenda que já veio fechada, com uma pauta previamente estabelecida, a Amazônia perdeu nessas quatro décadas 18% do seu bem mais nobre e valioso, a floresta. De promessa de futuro, a Amazônia está sendo despejada para o clube dos mais pobres estados da federação, o Brasil nº 3, o enjeitado.

Conforme os dados do Atlas, elaborado em conjunto pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) e Fundação João Pinheiro, todos os estados da Amazônia (tanto a Clássica como a Legal) tiveram desenvolvimento — entre 1991 e 2000 — abaixo da média nacional.

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil na última década do século XX (na maior parte dela sob o comando de Fernando Henrique) cresceu de 0,696 para 0,766 (o máximo é 1). Todos os 27 Estados também cresceram, mas o ritmo amazônico foi menor do que o desempenho médio. O Nordeste acompanhou-o. Os Estados nordestinos mais assolados pelas secas se fundiram com os estados amazônicos mais pobres nesse Brasil de terceira classe.

O Pará, Amazonas, Acre e Tocantins estão nessa faixa mais pobre, na companhia de (pela ordem) Pernambuco, Sergipe, Ceará, Bahia, Piauí, Paraíba, Alagoas e Maranhão. No segmento intermediário de desenvolvimento estão, também em escala decrescente, Amapá, Roraima, Mato Grosso e Rondônia. O mapa da evolução espacial do desenvolvimento explica a razão da melhoria do IDH em todo o território amazônico: atividades produtivas em áreas pioneiras exerceram um efeito exponencial que se irradiou pela vizinhança, antes destituída de fontes de renda.

No entanto, é cada vez menor o número de pessoas que se beneficia desse rendimento. Em 1991 apenas Roraima apresentava um índice de Gini (de concentração de renda) acima de 0,65 ou mais (o máximo de concentração é 1). Em 2000 aconteceu exatamente o inverno na Amazônia.

Roraima, o único Estado (da região e de todo país) que registrou melhoria da concentração, tinha Gini entre 0,61 e 0,62, igual ao de Rondônia, enquanto todos os demais estados passaram para a faixa mais grave, a mesma da qual faziam parte apenas os estados nordestinos. O Pará, o estado com a maior população, o maior PIB, o segundo maior território e a mais diversificada pauta de recursos (e de produtos) econômicos, é o caso mais grave de concentração de renda (como da maioria dos demais sub-indicadores do IDH). O Estado apresenta, ao mesmo tempo, os maiores índices nos dois extremos da pirâmide: o dos mais ricos e o dos mais pobres. Era o 10º em concentração de riqueza em 1991; 10% dos mais ricos detinham 51,7% da riqueza estadual. Tornou-se o 9º pior em 2000; esses mesmos 10% já abocanhavam 54,7% da renda do estado. Os 20% mais pobres, que só tinham acesso a 2,6% da renda total em 1991, no ano 2000 ficaram com tão somente 1,5% (o Estado passou do 8º para o 7º lugar entre os de maior pobreza).

A deterioração, porém, não era apenas de renda. O que os técnicos chamam de vulnerabilidade, com base no IDH (que mede a expectativa de vida, as condições de trabalho e o nível de escolaridade), se alastrou pela região junto com as cunhas migratórias. Excetuado o Amazonas (que tem metade da sua população enquistada em Manaus), em todos os demais Estados amazônicos cresceu o trabalho infantil, em níveis que só têm paralelo com os nordestinos.

A região é líder na quantidade de crianças fora da escola (sendo a educação, em geral, a razão principal para o crescimento constante do IDH, mais do que renda e expectativa de vida, embora haja fundados motivos para se recear pela qualidade desse ensino). O Pará era responsável pelo quinto índice mais grave em todo país, passando à frente de Alagoas, que havia sido o Estado campeão do trabalho infantil em 1991.

O abandono e o isolamento eram causas de desempenhos sofríveis de certos municípios da Amazônia. Jordão, no Acre, tinha o segundo pior índice de desenvolvimento humano (0,475) em 2000, abaixo apenas de Manari, em Pernambuco (0,467), e o maior percentual de analfabetos (60,66%), acima apenas de Itamarati, no Amazonas (59,95%). Centro do Guilherme, no Maranhão, ficou em quinto lugar nesse item, mas ocupava constrangedora primeira posição em matéria de renda per capita (cada um de seus moradores recebia, em média, R$ 28,38, para um salário mínimo de R$ 150).

Problema apenas do sertão? Ledo engano. Belém, a metrópole da Amazônia (hoje com 1,5 milhão de habitantes), foi a que mais perdeu posições na relação do IDH metropolitano: ocupava o 13º lugar entre as regiões metropolitanas brasileiras em 1991; despencou para a 25ª posição em 2000.

Se o modelo de ocupação da Amazônia é colonial, espoliativo e concentrador (e é realmente), as elites o agravam ainda mais com sua inação ou sua participação predatória, como abutres na carcaça. O Maranhão do ex-presidente e senador José Sarney tinha o menor IDH em 1991 (0,543) e continuou a ter o menor IDH (0,636) em 2000, enquanto a média nacional nesses dois anos foi de 0,696 e 0,766.

A Zona Franca de Manaus, beneficiada pela maior renúncia fiscal do país, não deu retorno proporcional: o Amazonas perdeu três posições entre 1991 e 2000, caindo do 13º IDH para o 16º. Seu índice cresceu, de qualquer maneira, mas a uma taxa inferior ao da média regional. E os péssimos indicadores no interior fazem pensar nos estragos que resultarão de uma crise maior da Zona Franca de Manaus, ou da insuficiência de seu dinamismo como fator de dispersão de efeitos.

Fariam bem as elites em refletir sobre o distorcido espelho que colocaram diante de si — e o povo, em geral, em sair da resignação. Melhorar o perfil da Amazônia ainda está ao alcance de todos, mas se o desafio for assumido logo. Não há muito tempo para começar. A correção da distorção tarda e, quando chega, já encontra Inês morta e o leite derramado. A solidez das numerosas e portentosas áreas de proteção e conservação da natureza, delimitadas com financiamento internacional, se desmancha quando o ar fica carregado de interesses capitalistas. Brincar de ecologismo é terapia entre os gonzos chamando para ganhar dinheiro rapidamente na fronteira, na qual há tantos bandidos e tão poucos mocinhos (claro: só bandidos “amansam” a terra áspera).

O intelectual-político FHC considera esse ar tão criador quanto o operário- político Lula. Sob prismas distintos, eles têm um ponto em comum: a modernidade inoculada na área primitiva pelo príncipe da transformação não chegou para ser transitória; ao contrário, se tornou perene, aparentando ser definitiva. E não resultou numa mudança para melhor entre os nativos.

É portador de algum significado, com as características daquilo que os teólogos chamam de “sinal dos tempos”, o fato de os três personagens-chave da democratização gravitem de alguma maneira em torno do planeta São Paulo, em relação ao qual — com maior ou menor intensidade — os demais integrantes da federação brasileira se “satelitizaram”. Mesmo que, em casos crescentes, São Paulo apenas seja um satélite maior e mais brilhante a ofuscar a visão dos cidadãos sobre os planetas mais ou menos ocultos.

Sarney é um maranhense clientelista, empenhado em fazer a política paroquial a partir do trono de Brasília, mas seus maiores interesses políticos e econômicos se deslocaram para a capital do estado que ainda concentra um terço da riqueza nacional. FHC e Lula são paulistas adotivos e convictos (“orgânicos”, na linguagem gramsciana). Seus pontos de identidade são maiores do que a aparência sugere. As distinções e diferenças são mais de ênfase e de forma. No modo de ver de um intelectual e de um trabalhador metropolitanos (e cosmopolitas), as especificidades locais da fronteira, como florestas e índios, são coisas supérfluas, ociosas ou mesmo nocivas à modernidade que o capitalismo lhes proporcionou. Por que uma mata fechada não pode ser substituída por um panorâmico campo de soja ou um pasto? Por que um índio não pode ser incorporado à cultura dominante como um cidadão comum, quem sabe, urbanizado, “civilizado”?

Eliminadas as diferenças, aí, sim, a unidade nacional será mais do que bordão no hino. Todos, no país continental, terão as mesmas condições, a mesma linguagem, interesses convergentes, um padrão de referência para decidirem o que fazer da própria vida e da vida do país. Um Brasil finalmente com grandeza real no concerto internacional das nações.

A profecia contida nas confabulações do intelectual e nas bravatas do líder sindical e político, enfim, se realizará. O Brasil como Brasil verdadeiro. E a Amazônia, como seu espelho. O bruxo Guimarães Rosa já previa: o sertão estará em todo lugar.

P.S.: Um exemplar do livro de Fernando Henrique Cardoso me chegou, em Belém, logo em seguida ao seu lançamento em São Paulo. O volume me foi mandado pelo correio pelo amigo jornalista José Casado, um capixaba na então reluzente redação da Gazeta Mercantil na capital paulistana. Casado destacava que o livro fizera um uso tão intenso das reportagens do Estadão que várias outras informações foram citadas sem referência à fonte.

Talvez para não parecer que os distintos acadêmicos, mais do que empreender excursão para coleta de material in loco, como fizera o futuro FHC no seu passado de autor de substanciosas monografias sobre o Brasil moderno, obtiveram a maior parte da sua matéria prima nos arquivos do jornal da tradicional família Mesquita. E recorrendo a um tipo de referência que os seus pares costumam desdenhar: textos escritos por jornalistas.

Um trabalho acadêmico com reportagens na bibliografia corre o risco de ser mal avaliado por bancas examinadoras e inter pares. Mas como escrever sobre a Amazônia, que começou a ruir ao ser “integrada” ao Brasil pelas grandes rodovias, sem recorrer às páginas do Estadão desse período? Funcionando quase como consciência crítica da plutocracia que lhe deu vida, o jornal documentou como ninguém (seja jornal ou qualquer outra fonte de informações) a “expansão do capitalismo na Amazônia”.

A razão? Ter decidido colocar, manter e espicaçar bons profissionais na área onde os fatos ocorriam, fazendo-os ver com os próprios olhos — e imediatamente repassar suas anotações para os olhos coletivos — os acontecimentos relevantes da história contemporânea da Amazônia, ainda em seu estado de cotidiano, de história-em-processo.

O intelectual Fernando Henrique Cardoso tinha instrumentos para aferir a relevância desse material, que o dispensou da “ida a campo”, essencial no rito metodológico da sua sociologia. O método funcionou, tanto que seu livro é uma das referências constantes nos trabalhos de outros intelectuais que escreveram sobre a Amazônia a partir de 1977. Mas não foi uma fórmula perfeita, por impossibilidade de resolver a equação incompleta: é uma interpretação sobre estudo de caso que não houve. A fecundidade da teoria foi afetada pela falta de domínio sobre os complexos elementos da realidade por parte do poderoso teórico. O modelo intelectual não podia dar conta de explicar satisfatoriamente a realidade amazônica, um erro conceitual que FHC não cometeria se tivesse aplicado, ao seu estudo sobre a Amazônia, os procedimentos metodológicos que apresentou com profundidade na introdução de seu livro anterior, O capitalismo no Brasil meridional.

Em vez de ser o príncipe libertador, o capitalismo está sendo um senhor colonial na Amazônia. Isto, FHC não percebeu, tanto ao escrever o livro quanto ao assumir as rédeas do Estado para executar suas ideias. Mesmo porque estava — e ainda está — do lado do vencedor, que não é o do colonizado.

Uma curiosidade: do levantamento de dados para o livro participou, além dos autores, Tereza Martha Smith Vasconcelos, casada desde nove anos antes com o futuro senador Eduardo Suplicy. Seu nome de casada — que mantém até hoje — não foi registrado no crédito do livro. Em 1973 Martha Suplicy fazia pós-graduação em Stanford, nos Estados Unidos.

----------

Lúcio Flávio Pinto é o editor do Jornal Pessoal, de Belém, e autor, entre outros, de O jornalismo na linha de tiro (2006), Contra o poder. 20 anos de Jornal Pessoal: uma paixão amazônica (2007), Memória do cotidiano (2008) e A agressão (imprensa e violência na Amazônia) (2008).



Fonte: Jornal Pessoal & Gramsci e o Brasil.

  •  
Av. Barão do Rio Branco, 2390/601 - Centro - 36.016-310 - Juiz de Fora - MG - Fone: (32)2101-2000 | (32)3691-7000 | (32) 3512-0000