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Montaigne, nosso contemporâneo

Fernando da Mota Lima - Março 2011
 

Penso que poucos autores clássicos comunicam ao leitor um tão vivo e envolvente sentido de contemporaneidade quanto Montaigne. E no entanto, como bem sabemos, mais de quatro séculos nos separam da sua obra que justamente figura no cerne do cânone da cultura ocidental. Quantos dos seus contemporâneos e pósteros resistem ao teste de leitura aqui sugerido? Se penso, em contraste, em muitos dos clássicos ibéricos e brasileiros, o que de ordinário sobressai é uma sensação de tédio ou anacronismo. Montaigne, no entanto, como Shakespeare, permanece vivo e extraordinariamente atual.

Montaigne foi um cético entre fiéis. Sei que forço um pouco a nota, como adiante demonstrarei, mas confesso não resistir à tentação da frase que muito diz da sua singularidade na contracorrente da intolerância religiosa e cultural que tanto vincou o seu tempo. Montaigne viveu durante grande parte de um século, o XVI, dilacerado por duas experiências históricas terríveis: as guerras religiosas, que na França foram de extrema ferocidade, e a descoberta do Novo Mundo, da qual resultou o extermínio ou escravização das culturas indígenas notadamente por portugueses, espanhóis e ingleses.

Montaigne é no geral reconhecido como filósofo, embora um historiador da filosofia como Bertrand Russell mal cite seu nome num volume abrangente que de forma espantosa dedica um capítulo inteiro a Byron. Se entretanto o leitor figura um filósofo ou um escritor de alcance e interesse filosófico, como é o seu caso, supondo nele encontrar uma filosofia concebida como um sistema coerente e integrado de explicação do mundo, certamente lhe recusará essa designação. Sua obra capital, Os Ensaios, é antes de tudo fundadora de um gênero literário de catalogação imprecisa: o ensaio.

O termo essai no original francês, assim como em português, significa ensaio, experiência, prova, tentativa. Nele, assim como nos seus correspondentes que acabo de registrar, sobressai o sentido associado a um gênero de exposição fundado na imprecisão do seu alcance e características. A imprecisão do termo fica evidente em diferentes línguas que preservam essa imprecisão semântica como nota distintiva, ao ponto de designar tanto uma dissertação acadêmica ou uma mera redação escolar — é o caso do essay inglês —, quanto livros das proporções de Casa-Grande & Senzala e Sobrados e Mucambos, como Gilberto Freyre idiossincraticamente designa suas duas obras fundamentais.

O ideal de Montaigne, como apropriadamente observa Peter Burke num livrinho precioso de introdução à sua vida e obra, era o do amador, o do diletante. A generalização da cultura utilitária e mercantilista imposta pelo desenvolvimento do capitalismo levou ao descrédito estes termos que originalmente traduziam uma vinculação profunda — amador é aquele que ama — entre o sujeito e seu objeto, o apreciador e a coisa apreciada. Noutros termos, a profissionalização e a especialização decorrentes da mentalidade capitalista e do acúmulo assombroso das técnicas e saberes humanos tornaram o amador e o diletante figuras anacrônicas, dignas até de desprezo.

É difícil justificar integralmente o título que conferi a este artigo. Mas é possível anotar algumas características de Montaigne e de sua obra que me parecem plenamente justificar sua contemporaneidade. Como acima assinalei, ele foi um cético entre fiéis que em nome da fé entregaram-se cegamente à intolerância religiosa mais sanguinária e feroz. O episódio da guerra civil francesa conhecido como a noite de São Bartolomeu, recentemente representado em dois filmes de época, ambos de produção francesa (A Rainha Margot e Henrique IV), sugere a brutalidade da guerra religiosa na qual católicos e huguenotes (como eram designados os calvinistas franceses) se entredevoraram. Embora católico confesso, Montaigne não aderiu ao espírito beligerantemente intolerante que marcou o clima espiritual da época.

Convém todavia ressaltar que Montaigne foi também um homem do seu tempo. Preciso repisar esta trivialidade num artigo que visa salientar sua singularidade e contemporaneidade. Do ponto de vista religioso, por exemplo, ele endossa muito do pensamento católico ortodoxo. Vivendo numa época cruamente dividida entre católicos e protestantes, opôs-se à tradução da Bíblia para o vernáculo. Enquanto o espírito da Reforma introduziu a instauração da livre interpretação do texto sagrado, fato que concorreu para a disseminação de muitas seitas e conflitos, o clero ortodoxo, nesse ponto apoiado por Montaigne, manteve com severidade ainda maior o monopólio da interpretação da Bíblia. Acrescentaria que o princípio da livre interpretação da Bíblia instituído pelos protestantes também concorreu para difundir a alfabetização, bem tão retardatariamente introduzido na política educacional brasileira, e fortaleceu as bases da subjetividade moderna, da qual Montaigne constitui, aliás, uma de suas mais altas e singulares manifestações.

Montaigne chegou mesmo ao extremo de afirmar: “Acredito que o objeto branco que vejo é preto se esta deve ser a decisão da hierarquia da Igreja” (apud Peter Burke, Montaigne, p. 37). Ora, como compreender tamanha sujeição ao poder religioso num homem notável por seu ceticismo, pela liberdade excepcional com que expressou sua subjetividade crítica? Peter Burke sugere uma explicação curta e irônica: “Afinal de contas, os céticos sabiam que não se podia confiar nos sentidos” (idem, ibidem). Ao mesmo tempo, considerando-se o poder exercido pela religião, notadamente dentro do clima de guerra civil desencadeado por católicos e protestantes, teve ele a audácia de questionar determinadas formas de milagre sancionadas pela Igreja, o sentido religioso da providência e da bruxaria, além da autenticidade da oração praticada por muitos fiéis (ver o ensaio LVI: “Das Orações, Livro Primeiro”). Estas e muitas outras questões perigosas e controvertidas foram examinadas por Montaigne nos seus ensaios com um senso de originalidade e heterodoxia somente concebíveis num espírito extraordinariamente livre.

Diante disso, como decidir se Montaigne era cético ou católico, ou mais uma coisa que outra? A própria natureza do gênero que fundou, o ensaio, já contém uma dose substancial de ambiguidade. Ensaiar algo, como acima ressaltei, é proceder a uma tentativa, a uma experiência aberta, portanto incompatível com argumentos e conceitos fechados, por definição impermeáveis à dúvida e à controvérsia. O ensaio, em contrapartida, é por definição avesso à fé dogmática, à verdade inquestionável e definitiva. A esses sentidos do termo acrescentam-se expressões chave empregadas por ele que acentuam ainda mais o caráter deslizante, a indeterminação semântica de muitos dos seus juízos atinentes à religião, aos costumes, ao poder, à condição humana... Como todo espírito excepcional, Montaigne não deve nunca ser lido literalmente, nunca seguido ou interpretado de forma unilinear ou absoluta. Assim como Machado de Assis, outro ambíguo sumamente astuto, afirmava ter por princípio nunca ser ludibriado, ou empulhado, para usar seu termo próprio, também deve o leitor prevenir-se para nunca ser traído pelo caminho mais fácil, a interpretação mais convencional ao ler os ensaios de Montaigne.

A obra de Montaigne é em muitos sentidos única e pioneira na história da filosofia e da literatura. Cada ensaio varia na extensão e na temática permeada de digressões que não raro desnorteiam as expectativas do leitor. Falando antes de tudo de si próprio, como frisa no breve prefácio da obra, Montaigne ilumina nossa condição humana com um senso de propriedade, argúcia e bom senso inusitados no conjunto da tradição filosófica. Para ele, nenhum assunto era em si irrelevante ou indigno do crivo de seu escrutínio sempre agudo. Por isso variava das observações referentes a trivialidades, como a limpeza dos dentes e a defecação disciplinada dos seus intestinos, às reflexões sobre a morte e o suicídio, da ereção e do medo da impotência sexual ao refinado senso com que descrevia a desconcertante diversidade dos costumes humanos. Como agudamente ressaltou, o que há de mais universal na espécie humana é precisamente sua diversidade. Embora nesse ponto por vezes bordejasse o relativismo tão corrente no nosso tempo, Montaigne era universalista ao ponto de saber que a justa apreciação de si próprio condensava em escala individual as características fundamentais do gênero humano.

Afinal, que voz é essa que atravessa as camadas inapreensíveis dos séculos que delas nos separam para iluminar as linhas turvas e atordoantes do presente? Ela afirma e confirma a possibilidade da subjetividade autônoma mesmo em tempos adversos. A voz de Montaigne é uma evidência de que é possível preservar nossa liberdade última em face da guerra civil e da intolerância religiosa, como sucedeu no seu tempo. É também possível preservá-la sob um Estado autocrático, como foi o caso da Rússia anterior à Revolução de 1917, e também sob um Estado totalitário como o soviético fruto da revolução que destruiu a autocracia czarista. Ela é também possível na democracia da sociedade de massas como a que regula nossas vidas manobradas por um capitalismo que tudo converte em mercadoria. Tudo que precisamos para afirmar nossa liberdade contra todas essas formas de opressão é de um quarto de fundo apenas para nós (une arrière boutique toute nostre, como ele escreve) onde se instale nossa subjetividade.

O quarto ocupado por Montaigne era a torre circular que abrigava sua biblioteca cujo repertório do humanismo clássico alimentou sua singularidade. Em certas circunstâncias, como um pouco anotei neste artigo, Montaigne precisou negociar com os poderes do mundo, poderes bem maiores que os da sua consciência. Mas cedia resguardado pela astúcia e a clarividência que lhe preservavam o fundo subjetivo irredutível ao comércio compulsivo imposto pelas regras do convívio humano. Lá dentro, no recesso da sua subjetividade inacessível aos poderes do mundo, ele continuava dizendo não.

Os contemporâneos de Montaigne são, diria agora concluindo, os que preservam a autonomia do seu quarto inacessível ao som e à fúria do mundo do Big Brother Brasil e todo o lixo cultural que avilta e aliena as massas colonizadas por esse capitalismo sem alma, que é tudo que logramos construir como forma sustentável de organização do sistema produtivo nas sociedades humanas. Isso diz muito, talvez o bastante, sobre o cerne incivilizável da nossa condição humana. Montaigne, como Freud, Machado de Assis e outros céticos impenitentes, não se enganava sobre essa verdade crua que o humanismo de tons amenos e idealizadores intenta empurrar para debaixo do tapete.

Os contemporâneos de Montaigne são aqueles investidos da consciência e da lucidez de viverem au-dessus de la mêlée, diria recorrendo ao seu idioma. Traduzindo a expressão no tom digno da barbárie que sitia nossa liberdade sempre ameaçada: os contemporâneos de Montaigne são os que aprenderam a viver acima da lama.

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Fernando da Mota Lima é professor da Universidade Federal de Pernambuco.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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