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Israel, Palestina e a paz, agora

Dina Lida Kinoshita - Outubro 2011
 

Discutir as possibilidades de paz entre Israel e Palestina é um exercício difícil e doloroso, mas cada vez mais necessário. Conhecer os pontos de vista do “outro” — as suas narrativas, o processo da construção das respectivas identidades — é um pré-requisito do discurso de paz. Não tenho a pretensão de esgotar o assunto ou de apresentar uma narrativa sobre Israel pronta e acabada, mas de oferecer uma ocasião para o debate. “Liberar a fala” é um instrumento poderoso: que todos possam falar livremente de si mesmos, num ambiente plural e democrático. Falo, pois, inicialmente de Israel e me disponho a ler com atenção e espírito aberto outras narrativas, enfatizando convergências e discutindo serenamente as naturais divergências.

Logo após a II Guerra, a URSS era vista como a grande vitoriosa da guerra na Europa. E a maioria dos judeus tinha grande simpatia por esse país. A URSS estava  interessada em meter uma cunha no Oriente Médio contra os países colonialistas, a saber, Grã-Bretanha e França.

Quem defendeu e encaminhou a proposta da partilha da Palestina, que deu ensejo à criação de um Estado judeu — e de um Estado árabe-palestino — na Assembeia Geral da ONU, em  novembro de 1947, foi Andrei Gromyko, embaixador soviético neste organismo. Os Estados Unidos votaram a favor da proposta com muitas reticências, a Grã-Bretanha se absteve. Todos os países árabes rejeitaram a partilha e declararam guerra ao Estado recém-criado, com o apoio tácito dos britânicos.

A República Popular da Checoslováquia forneceu em grande medida as armas utilizadas pela Haganá, embrião do Exército israelense, na Guerra da Independência (1948). Note-se que o processo de descolonização na Ásia e África estava em marcha com o apoio decisivo da URSS.

Este quadro começa a mudar a partir da Guerra Fria, por várias razões.

Em primeiro lugar, porque o novo Estado de Israel era economicamente inviável. Embora a URSS tenha se empenhado na criação de Israel, não tinha condições de prestar ajuda econômico-financeira, dado que necessitava reconstruir o seu próprio país que sofrera perdas humanas e materiais incalculáveis durante a grande guerra.

Ao ser criada a República Federal da Alemanha, seu primeiro chanceler, Konrad Adenauer, firmou um tratado com o Estado de Israel (1951) pelo qual os sobreviventes do Holocausto teriam indenizações vitalícias, e a soma referente aos 6 milhões de assassinados destinar-se-ia ao novo Estado, o que deu um certo alento econômico.

Com o surgimento do macartismo nos Estados Unidos, houve um certo temor de que ocorressem perseguições aos judeus norte-americanos, uma vez que havia manifestações antissemitas e racistas em vastos setores do país. Portanto, não interessava o confronto com esta superpotência.

Em 1951, reorganiza-se a Internacional Socialista (IS), totalmente destroçada com a ascensão do nazismo, uma vez que o Partido Social-Democrata Alemão havia sido o grande sustentáculo desse campo político. Os partidos trabalhista (Mapai) e socialista (Mapam), majoritários na fundação do Estado de Israel, ingressaram na IS.

Mais adiante, num contexto absolutamente polarizado da Guerra Fria, os países europeus, dirigidos por partidos pertencentes à IS, alinharam-se com os Estados Unidos, bem como Israel, enquanto a URSS investia nos países árabes para fincar uma posição estratégica no Oriente Médio rico em petróleo.

Por fim, as denúncias sobre os crimes stalinistas — apresentadas no XX Congresso do PCUS (1956) — dão início a uma ruptura de muitos comunistas e socialistas judeus com a URSS. Os próceres da intelectualidade soviética que se expressavam em iídiche, inclusive os componentes do Comitê Antifascista (Itzik Fefer, Peretz Markish, Solomon Michoels, entre outros), que poucos anos antes, durante a guerra, haviam viajado para os Estados Unidos para pedir a abertura da Segunda Frente na Europa, foram liquidados.

Na Guerra do Sinai (1956), Israel se alia à França e à Grã-Bretanha, enquanto a URSS passa a apoiar Abdel Gamal Nasser do Egito. Apesar da vitória israelense, este é o marco do declínio das potências colonialistas na região. e Israel vai se aproximando cada vez mais dos Estados Unidos. Este processo tem seu ápice logo após a Guerra dos Seis Dias (1967), quando a URSS e as Repúblicas Populares do bloco soviético rompem relações com Israel. Num processo binário de “bandido e mocinho”, dá-se apoio integral aos palestinos e a clivagem torna-se absoluta. Este modelo só sofrerá mudanças durante a Perestroika e a Glasnost de Gorbachev. O mesmo chegou a declarar que a posição soviética havia sido muito unilateral.

Embora todos os países do Oriente Médio e do Norte da África tenham sido peões das duas grandes superpotências durante a Guerra Fria, setores da esquerda passaram a caracterizar Israel como ponta de lança do imperialismo norte americano na região.

Em meio à intensa pressão dos países árabes contra Israel, através do poder dos “petrodólares”, o sionismo chegou a ser caracterizado como racismo. No Brasil, a ditadura militar (“pragmatismo responsável” do chanceler de Geisel, Azeredo da Silveira) vota a favor dessa resolução na ONU, em troca de exportação de serviços, automóveis e armas à Líbia de Kadhafi e ao Iraque de Saddam Hussein.

Pouco a pouco, o antissemitismo clássico é substituído por um antissionismo raivoso. Como exemplos deste antissionismo antissemita, cito material divulgado pelo atual PCB (que nada tem com o PCB original, no qual havia uma grande militância judaica); posições petistas de defesa do Irã ou do Hamas; distribuição nas universidades, pelo PSTU, dos “Protocolos dos Sábios de Sião” (panfleto apócrifo antissemita forjado na Rússia Czarista), etc.

As várias vertentes do antissemitismo, enrustido ou oficial, mesclam-se na lógica aristotélica simplista de que “quem é inimigo dos Estados Unidos é meu amigo”, aliança que comporta desde a “esquerda” radical até os grupos neonazistas, passando por líderes “progressistas” como Ahmadinejad.

Isto não isenta o Estado de  Israel — hoje governado por uma coalizão de extrema-direita nacionalista e fundamentalistas religiosos — de erros políticos e atos extremamente reprováveis com relação aos palestinos.

A centro-esquerda israelense alinhada com a IS, numa Realpolitik, entendeu, a partir do fim do socialismo real, que seria imperioso negociar para acabar com o conflito. Daí decorrem os acordos de Oslo e a Iniciativa de Genebra, apoiados pelo governo democrata americano de Bill Clinton. Do lado judeu, os negociadores de Oslo são Rabin e Shimon Peres, que em conjunto com Arafat mereceram o Prêmio Nobel da Paz.

Não foi um palestino, mas um fundamentalista judeu que assassinou Rabin! Assim como foram fundamentalistas muçulmanos que mataram Anwar Sadat após o líder egípcio ter promovido um corajoso acordo de paz com Israel. Cada vez que se está perto de um acordo, os fundamentalistas de ambos os lados realizam algum ato que acaba atrapalhando as negociações.

Para entender por que a extrema-direita israelense se fortaleceu tanto, é preciso entender a composição da população israelense. Quem vota na direita desde a criação do Estado, multicultural e multiétnico (os judeus da Diáspora que chegaram a Israel de todas as partes do mundo são diferentes em tudo entre si), são os pobres em geral, os menos instruídos, provenientes dos países do Oriente Médio e da África (iemenitas, marroquinos, iraquianos, etíopes, etc.).

Muitos sobreviventes do Holocausto, desprezados pelos fundadores do Estado, sob o discurso de que foram aos crematórios como carneiros, ressentidos, também votam na direita, que faz o discurso da segurança, lembrando sempre que o Holocausto pode repetir-se sob outra forma. Portanto, a lógica é de um país fortaleza que assegure sua sobrevivência física.

Ao contrário do que ocorreu no começo do século XX, quando os judeus provenientes da Europa Oriental eram predominantemente marxistas e socialistas, os que saíram da URSS nos anos 80 e 90, tendo passado pelas experiências stalinista e brejnevista, não querem nem ouvir a palavra trabalhador ou socialismo e  engrossam o caldo da extrema-direita. O ministro de Relações Exteriores, Lieberman, é o representante por excelência desse segmento. Num país com 7 milhões de habitantes, os russos chegados após a queda da URSS são 1 milhão de pessoas, que desequilibram ainda mais a balança para a direita.

Outros 20% do eleitorado são constituídos por cidadãos israelenses palestinos e seus descendentes, que optaram por permanecer no país em 1948. Essa população de cerca de 1,5 milhão de pessoas tem direito de votar e ser votada. Trata-se de cidadãos do país, mas na lógica de que todos os judeus são iguais vêm se abstendo de votar.

Lembram-se do voto nulo durante a ditadura no Brasil? Objetivamente este é um dos mais importantes fatores que fortalecem a direita israelense. Se os palestinos votassem na esquerda e centro-esquerda, a balança penderia para o outro lado. Eles têm direito de lançar candidatos próprios, mas — em função de um alto nível de abstenção nas eleições — sua participação no Parlamento (Knesset) é muito inferior à sua proporção demográfica.

Com este quadro, o diálogo por uma paz negociada justa e duradoura — com dois Estados para dois povos e suas respectivas capitais em Jerusalém — fica cada vez mais difícil. Só uma ampla frente do campo da paz poderia enfrentar a direita, mas os partidos estão muito divididos e não se entendem.

Um fenômeno recente em Israel é a manifestação de centenas de milhares de jovens em praça pública por uma nova ordem econômica mais justa. O neoliberalismo implantado pelos governos de direita acabou com várias conquistas sociais do Welfare State. Israel deixou de ter uma das sociedades mais igualitárias do mundo, ao lado dos países escandinavos, para hoje ter enormes diferenças de renda e crescentes parcelas de população abaixo do nível de pobreza.

No entanto, poucos estão associando estes problemas com os recursos que o governo destina à colonização dos territórios ocupados e à segurança do país. Enquanto Abbas, presidente da Autoridade Palestina, notificava a ONU de que faria um discurso solicitando o reconhecimento pleno da Palestina, o primeiro-ministro israelense, Netanyahu, proferia discursos voltados  para estes jovens, alertando para a possibilidade de uma nova guerra e a necessidade de unir o povo. Ironicamente, ministros da coalizão de governo sugeriam que quem precisasse de moradia acessível se mudasse para a Cisjordânia ocupada...

A esperança hoje é que as massas de jovens que vêm enchendo as ruas e praças de Israel em busca de justiça social sejam conscientizadas de que o que lhes traz mais dificuldades é a ocupação. E que a solução que lhes fará justiça — assim como ao povo palestino — é um acordo de paz baseado na criação de um Estado Palestino ao lado do Estado de Israel.

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Dina Lida Kinoshita é Profa. Dra. da USP, membro do Conselho da Cátedra Unesco de Educação para a Paz, DDHH, Democracia e Tolerância – IEA e membro da Coordenação dos Amigos Brasileiros do Paz Agora.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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