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A sociologia indignada de Werneck Vianna

Manuel Palácios - Abril 2012
 

Rubem Barboza Filho e Fernando Perlatto (Orgs.). Uma sociologia indignada. Diálogos com Luiz Werneck Vianna. Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2012. 483p.

Toda sociedade é um enigma, nunca integralmente resolvido. Há construções intelectuais, entretanto, que nos auxiliam com algumas pistas sobre o significado da experiência comum e a continuidade possível com as realizações dos que nos antecederam. Coube no Brasil à ciência social, sob a pressão dos fatos que no tempo curto de uma geração transformaram o país, colocar em cena um repertório reflexivo sobre a nossa história que por muito tempo ainda deve dotar de sentido os nossos desafios coletivos. Nesta coleção de intérpretes, Luiz Werneck Vianna ocupa uma posição de relevo singular, o que os artigos que compõem esta sociologia indignada demonstram de modo definitivo. O livro reúne as contribuições dos intelectuais que participaram do seminário organizado em sua homenagem pela Universidade Federal de Juiz de Fora, em 2010, atividade inaugural da cátedra que leva o seu nome.

A obra de Werneck é um esforço, ininterrupto por mais de três décadas, de interpretação da sociedade brasileira, às voltas com a sua modernização e o difícil itinerário da democracia entre nós, que veio encontrando forma no ensaio, na pesquisa empírica, no estudo acadêmico, no artigo jornalístico. De Liberalismo e sindicato no Brasil, obra seminal de 1976, à sua última coletânea de artigos de conjuntura, publicada em 2011, são muitos os possíveis caminhos para se acercar de sua produção intelectual.

O inventário da obra, intentado de diferentes modos nos artigos publicados, coloca o seu pensamento em perspectiva, ora no contexto das lutas políticas de que participou — Werneck esteve presente em todas as lutas da democracia —, ora no contraponto de outros pensadores, proporcionando a oportunidade de o leitor percorrer com suas próprias experiências e indagações o longo caminho que se estende dos anos 1970 aos tempos democráticos de hoje. Vista em seu conjunto, é uma construção que impressiona pela unidade de método, o rigor do pensamento e a eleição de temas que sempre encontram um modo de se juntar à reflexão sobre os percalços da civilização brasileira. Pois é bom lembrar que essa trajetória tem início com uma esquerda ainda dominada pela questão nacional e uma interpretação de nossa história fixada nas impossibilidades, ou como lembrou o próprio Werneck em uma das passagens do livro “na falta daquilo que jamais fomos”.

O livro também explora com competência uma outra dimensão da obra de Werneck Vianna, estreitamente associada às vicissitudes da democracia e da modernização, isto é, a sua importância no processo de institucionalização das ciências sociais no país. Autor de uma produção que se estendeu por diversos objetos de pesquisa empírica, também extensamente tratados no livro, Werneck dedicou-se muito ao estudo dos intelectuais e suas instituições, entre os quais os próprios cientistas sociais. Em diversos trabalhos, observa-se a intenção de inscrever a nossa sociologia na história do pensamento social brasileiro, combatendo a percepção ingênua de que os problemas não possuem história anterior aos métodos e artigos da ciência institucionalizada. Não à toa as duas conferências programadas para o Seminário colocaram sob foco as ideias sociais e políticas brasileiras: Francisco Weffort, com “Origens do Brasil: nossas heranças ibéricas”, e José Murilo de Carvalho, com “República, democracia e federalismo: Brasil, 1870-1891”.

Enfim, Rubem Barboza e Fernando Perlatto produziram um livro excepcional, de leitura obrigatória a todos os interessados em uma sociologia comprometida com a vida pública e a mudança social.

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Manuel Palácios da Cunha e Melo é professor da Faculdade de Pedagogia da UFJF.

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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