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Caetano, Schwarz e o tropicalismo

Francisco Bosco & Jaldes Reis de Meneses - Junho 2012
 

1. Esquerda x esquerda, Francisco Bosco (O Globo, 2 maio 2012)

De saída, um protesto: que alguns tenham estranhado publicamente o fato de Roberto Schwarz ter demorado 15 anos para escrever sobre “verdade tropical” atesta o quão avançada está a lógica jornalística da “ordem do dia”, a ponto de se evocá-la mesmo diante de um acontecimento inequívoco de pensamento. Isso só confirma o diagnóstico do filósofo Christoph Türcke, de que vivemos numa “sociedade excitada”, viciados em estímulos que se exaurem rapidamente e exigem substituição. Ora, o pensamento não obedece a essa lógica. O pensamento não deve chegar a tempo, mas no tempo, cujo sentido ele tem por tarefa revelar (daí a relação estabelecida por Agamben entre o contemporâneo e o inatual). Assim, não apenas Schwarz, com o atraso constitutivo do pensamento (e sua mundialmente reconhecida inteligência), abre e revela o tempo histórico da matéria narrada por seu objeto, como essa abertura se mostra absolutamente contemporânea: as questões em jogo permanecem vivas e irresolvidas.

O ensaio de Schwarz, reunido no livro Martinha versus Lucrecia, divide-se em dois tempos. No primeiro , um Caetano jovem e provinciano alia-se ao desejo das artes de “romper com a herança colonial de segregações sociais e culturais [...] e saltar para a linha de frente da arte moderna, fundindo revolução social e estética”. É o momento, anterior ao golpe de 64, em que se deu o “encontro explosivo” de “experimentalismo artístico sem fronteiras nacionais, subdesenvolvimento, radicalização política, cultura popular onipresente e província, além da hipótese socialista no horizonte”. Esse Caetano, percebido como alinhado às posições da esquerda da época, merece do intérprete elogios em abundância.

O idílio entre o narrador e seu intérprete é quebrado no segundo tempo do ensaio, cujo marco instaurador é a reação crítica de Caetano a uma cena do filme Terra em transe. Nela, o jornalista e revolucionário Paulo Martins cala a boca de um líder sindical servil e interpela o público: “Estão vendo quem é o povo? Um analfabeto, um imbecil, um despolitizado!”. Aí onde Schwarz vê um “beco histórico”, um impasse para a revolução (sem que as condições objetivas estruturais do país tivessem se atenuado; pelo contrário), Caetano viu “a morte do populismo”, com efeitos liberadores para sua interpretação e ação sobre a realidade. Schwarz lê a passagem como uma apostasia, a partir da qual Caetano se opõe ao campo da esquerda revolucionária. O tropicalismo se originaria aí, como primeiro movimento pós-moderno, “nascido já no chão da derrota do socialismo”. O astro pop nasce de uma desobrigação com a dívida social histórica com os desfavorecidos, e daí em diante aliar-se-ia ao mercado.

Discordo da interpretação. A própria divisão nítida entre um Caetano pré e outro pós-64 soa forçada. Caetano foi herdeiro de primeira hora da bossa nova, e sua revolução harmoniosa, capaz de integrar esteticamente o local e o cosmopolita, a modernidade e a tradição, cultura popular e vanguarda, pobres e ricos — foi desde o início seu modelo a ser seguido politicamente, como utopia de civilização (o Brasil precisa estar à altura da bossa nova, ele diria repetidamente). Schwarz não o ignora, mas também não percebe que esse modelo já se coadunava mal com o da esquerda convencional, de revoluções sangrentas e consecutivos regimes totalitários. E no fundo é esse o centro da questão: Caetano foi, antes e depois de 64, e continua sendo, um sujeito de esquerda crítico da esquerda. À altura de 64, os sistemas totalitários em que se tinham transformado todas as experiências do socialismo real já eram conhecidos.

Schwarz insiste, ao longo do ensaio, em afirmar que Caetano se sente à vontade no atrito, mas é avesso ao antagonismo. Nessa afirmação, o termo antagonismo é valorizado, ao mesmo tempo em que é concebido unicamente como sendo aquele a opor esquerda e direita, revolução e conservadorismo. Mas são precisamente esses termos que Caetano questiona, mantendo a negatividade (o tropicalismo, como Schwarz o reconhece, é “francamente negativo”), mas recusando traços da esquerda, tais como: certo paternalismo com a experiência popular (o que ele chama de “populismo”); a obtusidade em estética (tema do célebre discurso no festival de 68); o comportamento; a sexualidade; e o totalitarismo que a experiência histórica mostrou ser um devir provável do espírito revolucionário (no lugar do qual ele deseja uma revolução estrutural que não cobre os mesmo brutais custos em vidas, daí hoje seu interesse por Mangabeira Unger, que procura desenhar um processo nesses termos). Que esse desejo possa ser inviável, ou mesmo ingênuo, não o lança no campo oposto. É de se perguntar se a impossibilidade de Schwarz reconhecer a legitimidade dessa crítica não acaba por confirmar a intolerância histórica da esquerda para com a diferença.

Esse debate me concerne vivamente. Considero-me um sujeito de esquerda, mas com uma forte exigência de respeito por liberdades individuais. Que o liberalismo cada vez mais demonstre o descalibre de sua balança, em que a liberdade de alguns se dá ao custo da grande desigualdade entre todos, isso não anula o fato de que a esquerda não conseguiu dar uma resposta real ao desejo de que a igualdade entre todos não comprometa a liberdade de cada um. Dizer isso não implica sair de seu campo. A recomendação de Schwarz serve a ele mesmo: é preciso distinguir “entre antagonismos secundários e principais, adversários próximos e inimigos propriamente ditos”.

2. Roberto Schwarz versus Caetano Veloso, Jaldes Reis de Meneses

Acabei de ler compulsivamente, a palo seco (comprei o livro no Shopping Center ao meio dia de hoje), o novo livro de Roberto Schwarz, Martinha versus Lucrécia (Cia. das Letras, 2012). Vou ler as teses do livro com mais vagar e escrever um artigo mais circunstanciado a respeito — Schwarz, como Chico de Oliveira, tem por hábito escrever livros de poucas páginas, nos quais, contudo, cada palavra tem a medida precisa, nenhum adjetivo é desnecessário, nenhum substantivo é escolhido ao puro sabor da dança das letras. Trata-se de escritas que, como os melhores vinhos, demoram longo tempo temperando nos odres. Tenho compaixão dos que ainda não aprenderam a sorvê-las.

Li com avidez o ensaio inédito de Schwarz a respeito de um livro que já pode ser considerado um clássico do pensamento brasileiro, Verdade Tropical — à altura das melhores páginas de um Gilberto Freyre ou um Florestan Fernandes —, escrito por Caetano Veloso, e tratado com a reverência dedicada às grandes obras por um dos maiores críticos literários brasileiros vivos. Clássico literário Caetano Veloso, um cantor de MPB, como assim? Foi precisamente esta a impressão que eu também tive ao ler, logo quando lançado, em 1997, o livro de Caetano. Sem dúvida, é um livro extraordinário, o que me faz redobrar a atenção ao texto de polêmica crítica de Schwarz.

O crítico literário paulista demorou 15 anos para amadurecer uma crítica a respeito de Verdade Tropical. Além do respeito e da evidente fascinação faustiana de Schwarz pelo personagem Caetano — sem dúvida, o baiano é um narrador macunaímico, uma espécie de Brás Cubas, em relação ao qual é tomar cautelas (o que faz a graça do livro clássico de Caetano) —, a impressão mais forte que me ocorre na contenda de fato Schwarz versus Caetano é a de um duelo cinematográfico que foi adquirindo conteúdo épico, no estilo de Novecento (1900), o belíssimo filme de Bernardo Bertolucci, no qual dois amigos de infância (o filho do patrão e o apadrinhado), marcados pelas cicatrizes deixadas pela história de seu tempo (o fascismo e o comunismo da primeira metade do século XX), são mostrados, envelhecidos, ao final, como dois duelistas a esgrimir infinitamente as armas do passado.

O embate de Schwarz com o tropicalismo é uma tertúlia dos anos 1960 do século passado. Rigorosamente, data da publicação em 1970, em Paris, na Les Temps Modernes (editada por Jean-Paul Sartre), do brilhante artigo do jovem crítico literário brasileiro “Cultura e política (1964-1969)”. Conheço em detalhe, tantas vezes lido, este artigo. A critica central que ele faz ao tropicalismo — de certa maneira, reiterada hoje por Schwarz — é a de que o tropicalismo configurou uma criação artística (como falam os baianos) esperta, mas frívola: apanhava elementos dispares do fundo do baú do Brasil arcaico e os punha sob a luz branca do ultramoderno das vanguardas artísticas internacionais, bem como, em lance de oportunismo mercantil, da música pop — “não se passa do particular ao universal, mas de uma esfera a outra” (Schwarz, 1970). Travado na passagem do particular ao universal, advém o duro veredito: o tropicalismo não faz a síntese. A especialidade do tropicalismo era o comentário de superfície de uma grande alegoria cafona (a alegoria Brasil). É o caso de voltar atrás e verificar se a síntese foi feita ou não.

Devo observar que o comentário do crítico paulista é completamente calcado nos debates estéticos europeus de Georg Lukács contra Bertolt Brecht e Walter Benjamin, nos antagonismos entre símbolo e alegoria. Criticando os vislumbres elogiosos de Benjamin sobre um recurso típico do barroco — a alegoria —, ou seja, aquilo que Aristóteles chamou de “encadeamento de metáforas” sempre em deslocamento semântico, numa operação continuamente dissimulada de disjunção entre significado (o conteúdo) e significante (a forma), Lukács propugnava, ao contrário, a necessidade de adequar, em arte, forma e conteúdo através do símbolo. Benjamin, audacioso, rememorando a boutade de Marx em O capital sobre as “propriedades metafísicas da mercadoria” chegou a afirmar que a forma literária descritiva da mercadoria só poderia ser a alegoria — o deslocamento incessante do sentido dos valores de troca no mercado.

Gosto muito de Lukács e Benjamin — duas inteligências brilhantes até quando erram —, mas a defesa lukácsiana do realismo é meio barra pesada (é disso que se trata no confronto entre alegoria e símbolo), tem sabor de prescrição, que pode resultar, involuntariamente, em inibidor da liberdade de criação. O velho Lukács, é claro, andou procurando sair das ciladas que ele próprio armou (vide as diferenças com o companheiro Mikhail Lifshitz), mas isso é outra história...

Schwarz estava falando, é claro, do ponto de partida da obra dos tropicalistas, quando sem dúvida o recurso à alegoria (recordemos as letras de “Tropicália” e “Geleia geral”) teve destaque. No caso de Caetano Veloso, podemos dizer de hoje: o conjunto da obra extrapola (e muito) o simples recurso à alegoria. Retorna a pergunta: a síntese — a passagem do particular ao universal — foi feita no tropicalismo? No conjunto da obra total de Caetano, a síntese dialética se apresentou com certeza. Quando falo em síntese, basta um emblema, entre outros possíveis: penso na gravação de “Marinheiro só” — esse belo samba de roda do recôncavo baiano, adaptado por Caetano a partir de um estribilho de domínio popular —, na voz aristocrática de Clementina de Jesus. Gravação de um samba de roda que já nasceu clássico, síntese dialética imersa na eternidade do tempo, nem que seja na forma da “mensagem na garrafa” cruzando o mar-oceano de Adorno.

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A dialética tropical de Roberto Schwarz



Fonte: O Globo & Gramsci e o Brasil.

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