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A vertigem visionária de Caetano

Fernando Perlatto - Novembro 2012
 

Vejo uma trilha clara pro meu Brasil, apesar da dor
Vertigem visionária que não carece de seguidor
Nu com a minha música, afora isso somente amor
Vislumbro certas coisas de onde estou.
 

          Nu com a minha música
As celebrações em torno da data de nascimento de um artista constituem sempre momentos propícios para a reflexão sobre sua obra. Quando ele está morto, o debate em volta do seu legado tende a ser mais consensual — inclusive, no caso de artistas pouco afeitos à unanimidade como é o caso de Nelson Rodrigues. Contudo, quando ele está vivo, as celebrações costumam ser menos festivas e o debate acurado acerca de sua fortuna crítica muitas vezes cede espaço a discussões exacerbadas, sendo seu trabalho analisado praticamente como um embate entre torcedores. Se o artista objeto de celebração, então, for uma figura tão controversa e polêmica quanto Caetano Veloso, aí, sim, as paixões tendem a ser ainda mais extremadas. O caso se agrava quando a comemoração dos seus setenta anos coincide com a publicação de um polêmico artigo sobre sua trajetória e obra elaborado por um dos mais importantes críticos literários do país. Estamos, obviamente, a falar do ensaio de Roberto Schwarz, “Verdade tropical: um percurso do nosso tempo”, publicado em seu recente livro Martinha versus Lucrécia.

De forma geral, pode-se dizer que neste ensaio, Schwarz retoma elementos de outro artigo intitulado “Cultura e política: 1964-1969”. Porém, o foco desloca-se do Grupo Oficina para a análise do livro Verdade tropical, de Caetano Veloso, que, publicado somente em 1997, consiste em uma das mais bem realizadas obras voltadas para a compreensão da cena cultural brasileira na segunda metade do século XX. Se, por um lado, Schwarz valoriza as contribuições e a prosa do escritor, por outro, ele se opõe às transformações ocorridas na trajetória de Caetano, que, segundo ele, teria passado de uma postura crítica ao sistema capitalista — com um experimentalismo artístico sem fronteiras nacionais, articulado diretamente à radicalização política e à tomada do socialismo enquanto horizonte normativo — para uma posição legitimadora do status quo, obliteradora das diferenças entre esquerda e direita e plenamente adaptada aos imperativos do mercado. Para Schwarz, essa transformação ocorrida quando da emergência do Tropicalismo, teria levado Caetano — com seu “patriotismo fantasioso” e “supersticioso” — a assumir uma postura, que perduraria até hoje, pouco afeita ao antagonismo.

Alguns elementos do ensaio foram posteriormente respondidos por Caetano, sobretudo em entrevista publicada no suplemento Ilustríssima, da Folha de S. Paulo, na qual critica os “elegantes uspianos”, como Schwarz e Marilena Chauí, por terem muito a falar contra o Tropicalismo, mas pouco a dizer acerca de ditaduras que se autodenominam de esquerda. Não se trata aqui de resenhar pormenorizadamente a polêmica Schwarz-Caetano. Isso já foi realizado, ainda que de forma breve, por alguns analistas, como José Miguel Wisnik e Francisco Bosco, em artigos publicados no jornal O Globo, respectivamente intitulados “Versus” e “Esquerda x esquerda”. Também não objetivamos, é claro, fazer uma análise da obra de Caetano, algo que já foi bem realizado por Wisnik em Folha explica Caetano. Procurarei brevemente apenas chamar a atenção para um aspecto que perpassa o debate Schwarz-Caetano, mas que tem sido pouco explorado e que resumo da seguinte forma: concorde-se ou não com as críticas desferidas a Caetano, sua interpretação do Brasil tem muito o que dizer para todos aqueles da esquerda democrática que desejam pensar o país.

Parto, portanto, de dois pressupostos. O primeiro, mais consensual, afirma Caetano Veloso como um intérprete do Brasil. Esse pressuposto dialoga com diversos pesquisadores que vêm a música popular urbana brasileira como portadora de diferentes narrativas acerca da experiência nacional. Para uma análise desse ponto sugiro uma olhada nos três volumes da excelente coletânea Decantando a República: inventário histórico e político da canção popular moderna brasileira, organizada por José Eisenberg, Heloísa Starling e Berenice Cavalcanti. O segundo pressuposto é menos consensual, na medida em que afirma que a esquerda, embora majoritariamente muito crítica a Caetano, pode partir de sua interpretação do Brasil para pensar um projeto que avance na democratização política e social do país. Não se está a dizer que Caetano é de esquerda. Isso não é relevante para o ponto em questão. O que se sugere é que sua “vertigem visionária” deve ser encarada com maior atenção por uma esquerda que queira pensar um projeto democrático de país, tomando como fonte de inspiração a tradição brasileira.

Para sustentar esta ideia, mais do que analisar as canções de Caetano — um exercício para o qual não tenho a competência necessária —, gostaria de partir de um trecho de uma entrevista dada por ele ao programa Roda Viva, em 1996:
Na verdade, a minha ambição seria de fazer com que uma cultura como a nossa, que está — sob todos os pontos de vista — como que jogada fora da área de dominação, das vantagens da civilização moderna, porque está no hemisfério sul, porque é mestiça, porque fala português, não apenas uma língua latina do sul da Europa, mas justamente o português, a menos prestigiada de todas elas, entendeu? Enfim… Um país pobre e, sobretudo, injusto socialmente. Então, todas essas desvantagens, de uma certa forma, deveriam criar em nós uma mera depressão em relação à perspectiva histórica, em relação a prospecções. E, no entanto, a gente tem alguma coisa de alegria e de entendimento da vida, alguma riqueza no modo de ser […]. E isso, que é um dado cultural, que não é […] um valor universal, abstrato. […]. Acho que o que desejo mesmo é que esse nosso modo de ser tome conta, tome em suas mãos os dados abstratos, universais da civilização e faça deles algo que não tenham feito ainda.

Esse trecho da entrevista sintetiza com clareza a vertigem visionária de Caetano: um país pobre e injusto socialmente, incapaz de gerar grandes riquezas materiais, possui uma outra forma de fortuna que não pode ser mensurada por critérios utilitaristas, e que está associada principalmente à ideia de alegria. Esta riqueza, que “não é um valor universal, abstrato”, mas um “dado cultural”, é valorizada não enquanto elemento autossuficiente capaz de proporcionar a construção de uma nova sociedade, mas como algo que, quando posto em conjunção com os “dados abstratos, universais da civilização”, pode resultar em um projeto civilizacional diferenciado. Ao buscar conciliar em uma mesma equação estes dados da civilização com a alegria enquanto elemento particularmente brasileiro, a utopia de Caetano aponta para a superação tanto de uma perspectiva universalista focada exclusivamente na chave do interesse e da razão abstrata, quanto de uma visão culturalista simplista que acredita na autossuficiência cultural como elemento satisfatório para produzir uma alternativa política civilizacional.

Obviamente, esta vertigem visionária de Caetano não se construiu sozinha e esteve na base do movimento tropicalista, que eclodiu com força no final dos anos 1960 na cena cultural brasileira. Ela está fortemente presente no Grupo Oficina, no Cinema Novo de Glauber Rocha — em especial, seu Terra em transe, fonte principal para o tournant político de Caetano, como ele bem descreve em Verdade tropical —, nos Mutantes, nas artes plásticas de Hélio Oiticica e no antropofagismo oswaldiano. O encontro entre esses movimentos com “a cultura pop do Ocidente, filha direta do pensamento aristotélico”, somados ao “aprendizado do interior, a herança dos árabes, a tradição oral” — no dizer de Tom Zé, em entrevista à Bravo, referente ao seu último disco Tropicália. Lixo lógico — criou o terreno propício para a formulação da interpretação do Brasil de Caetano. Nesta interpretação, a ideia de alegria é central — não à toa a música chave do movimento se chama “Alegria, Alegria”, em diálogo direto com o mote de Chacrinha —, como destacado por Caetano em artigo intitulado “Carmen Miranda Da Da”, publicado no New York Times, em 1991. Em texto recente no jornal O Globo, “Moral da história”, Caetano reafirma que grande parte das excitações tropicalistas teve origem na contestação de um sentimento adorniano segundo o qual a alegria seria suspeita e a felicidade criminosa.

O diálogo forte, ainda que não sem tensões, de Caetano com a bossa nova é, nesse sentido, essencial, na medida em que esta seria, nos dizeres de Lorenzo Mammì, em clássico ensaio sobre João Gilberto publicado na Novos Estudos Cebrap, em 1992, a “promessa de felicidade”, enquanto o jazz seria a “vontade de potência”. A narrativa segundo a qual, a despeito da violência e da corrupção, teríamos constituído no país uma tradição cultural baseada na noção de alegria e em uma sociabilidade mais aberta, com potenciais de oferecer novas possibilidades para o desenvolvimento civilizacional está presente em outros textos de Caetano, como “Diferentemente dos americanos do norte”, em seu livro O mundo não é chato. Essa perspectiva dialoga, ainda que não diretamente, com as concepções de Richard Morse, em seu Espelho de Próspero, que aponta justamente para as potencialidades civilizatórias da “opção ibérica” com suas conotações organicistas e comunitárias, quando comparada com o mundo anglo-saxão, sobretudo por sua porosidade à diversidade do gênero humano, bem como por sua crença em uma realidade social transcendente ao indivíduo e a vitalidade do elemento lúdico, fundamental para o desenvolvimento cultural e a improvisação social. De certa forma, esta é uma perspectiva também presente no ensaio de José Miguel Wisnik, Veneno remédio. Futebol e o Brasil, no qual a “vocação não linear do futebol brasileiro” é tomada como ponto de partida de uma análise preocupada em compreender questões relacionadas à nossa identidade nacional.

A vertigem visionária de Caetano — que busca conjugar alegria com princípios universais civilizacionais — adquiriu novas nuances nos últimos anos, sobretudo a partir do diálogo que sua reflexão passou a estabelecer com a obra de Mangabeira Unger. Este diálogo se vincula principalmente à ênfase dada por Unger à originalidade da experiência brasileira. Para Caetano, isso “é fatal: somos originais, seremos originais ou desapareceremos”. Em artigo publicado no jornal O Globo, intitulado “Roda Viva”, Caetano mobiliza trechos da entrevista de Mangabeira Unger dada recentemente ao programa Roda Viva, para reafirmar a necessidade do aprofundamento da tradição brasileira. O ponto central do diálogo Caetano-Unger insere-se na percepção no país de uma energia, um afã, um impulso, uma rebeldia fortemente presente no povo brasileiro, mas pouco refletida nas elites governantes e pensantes do país, que seria justamente a fonte mais pujante dessa tradição.

Eis aí o ponto que estou buscando sustentar: este aspecto da vertigem visionária de Caetano é aquele no qual a esquerda deveria dedicar maior atenção. Sua interpretação do Brasil, em diálogo com as formulações de Unger, é capaz de diagnosticar algo que a ciência social brasileira e o senso comum muitas vezes não percebem: antes de imobilizado, apático e bestializado, o povo brasileiro possui uma energia pujante, que o impele à movimentação, à organização e à mobilização de diferentes maneiras, portando um enorme impulso criativo. Esta mobilização não se dá, na maior parte das vezes, por meio dos canais da política institucional. Ela se manifesta nas redes tecidas no mundo subalterno, através de festas populares, círculos, rodas e bailes musicais, eventos religiosos, que explodem pelas periferias do país. Vale destacar que esse movimento foi fortemente percebido por autores da nossa literatura, como Jorge Amado, por exemplo, em obras como Tenda dos milagres. A despeito da opressão cotidiana, da violência permanente, das desigualdades que grassam no cotidiano dessas pessoas, elas conseguem transformar a alegria em uma energia transformadora a partir de esferas públicas subalternas.

O projeto de Caetano, ao colocar como horizonte normativo a conjunção desta alegria com os dados universais da civilização, mostra-se profundamente sofisticado. Ele chama a atenção para a necessidade de um aprofundamento da experiência civilizacional, com seus dados abstratos e universais — o que implica o fortalecimento das instituições democráticas do país —, mas não confere a isso a capacidade mágica de resolver as mazelas existentes. Se quisermos situar a formulação de Caetano no âmbito das reflexões da teoria política contemporânea, poderíamos dizer que sua vertigem visionária capta as limitações de um procedimentalismo universalista, essencialmente focado no ideal de justo e racional, para lidar com a questão dos valores e da necessidade da vida democrática também se ancorar na ideia de bem. Ao mesmo tempo, percebe o limitado alcance de uma perspectiva que se fie exclusivamente nos valores, desprezando as conquistas civilizacionais do Ocidente, traduzidas no Estado democrático de Direito. A conjugação da alegria com os elementos universalistas pode oferecer, segundo a vertigem visionária de Caetano, uma perspectiva de rota civilizacional alternativa e potencialmente mais democrática.

Obviamente, muitos dos posicionamentos políticos de Caetano obstaculizam uma percepção maior da riqueza de suas formulações. Sobretudo quando mobiliza sua verve polemista para criticar a esquerda por sua obsessão com a ideia de totalidade, Caetano acaba por pesar muito seu argumento em favor da valorização das diferenças em contraposição a formulações mais universalistas. Esta postura, que está na base do Tropicalismo das décadas de 1960 e 1970, conduz, em diversas ocasiões, a um relativismo sem peias que se mostra pouco aberto para lidar com quaisquer formulações que tenham pretensões de universalidade. Nesse sentido, as observações que Vladimir Safatle faz à obra de Caetano em texto intitulado “Indiferença”, publicado na Folha de S, Paulo — no qual responde às críticas realizadas pelo cantor ao seu livro A esquerda que não teme dizer seu nome e à afirmação do mesmo segundo a qual o filósofo paulista teria uma “cabeça de concreto armado” — são mais do que pertinentes; elas são precisas. Safatle tem o mérito de enfatizar a importância de a esquerda retomar preocupações universalistas — em especial, o igualitarismo e a centralidade da soberania popular — que foram enfraquecidas frente à hegemonia das demandas multiculturalistas, das quais o Tropicalismo foi um grande vocalizador.

A avaliação crítica frente ao relativismo polemista de Caetano, contudo, não deve turvar a avaliação positiva de sua vertigem visionária. Sua intepretação acerca da nossa originalidade logra perceber elementos da nossa tradição associados às ideias de alegria, diferença e solidariedade, que teriam como portadores principais os segmentos subalternos da sociedade e que ofereceriam uma possibilidade alternativa civilizacional. Essa perspectiva rompe, obviamente, com as análises, seja à direita ou à esquerda, que assumem uma visão pessimista do Brasil e dos brasileiros. Não se trata, é claro, de cair no outro extremo que perca de vista as mazelas nacionais. O que se trata é de problematizar de que forma essa alegria se institucionaliza pela esquerda. Ou dito de outra forma: trata-se de pensar se os partidos de esquerda se mostrarão capazes de dialogar e transformar essa energia potencial que nasce das redes de sociabilidade tecidas na parte de baixo da nossa sociedade em política.

Mas, como diz Caetano, na entrevista ao programa Roda Viva anteriormente mencionada, “o Brasil poderá ou não seguir essa trilha, mas para mim é absolutamente inegável que ela existe e é dele”.

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Fernando Perlatto é professor de Ciências Sociais da UFJF.

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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