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Jean Hébette, o nosso belga

Lúcio Flávio Pinto & Gutemberg Guerra - Maio 2013
 

Jean Hébette. Cruzando a fronteira: 30 anos de estudo do campesinato na Amazônia. Belém: Edufpa, 2004. 4 v.

Dos seus 88 anos de idade, o belga Jean Hébette passou 46 na Amazônia. Chegou a Belém em 1967, já com 42 anos, na condição de missionário da Ordem dos Oblatos de Maria Imaculada. Ordenou-se sacerdote na Bélgica, aos 24 anos, e acumulou doutorados em filosofia e teologia na França. Com esses títulos, partiu para sua primeira missão, na África. Atuou no Zaire, Burundi e Ruanda.

Em Belém, voltou aos bancos escolares para conquistar a graduação em economia. Mal terminou a especialização, em 1973, para iniciar no ano seguinte uma carreira tão fecunda como pesquisador e escritor que se tornou um dos mais prolíficos intelectuais da Amazônia, concentrando sua atenção sobre o mundo rural e, nele, o camponês. Abriu uma nova senda nesses estudos na região, dando-lhes, com sua qualidade acadêmica (de poucos títulos de saber carimbados), projeção internacional.

Nada mais distante desse pesquisador rigoroso do que a assepsia do conhecimento. Jean combinava o rigor da observação científica com a militância pela causa humana, o que o levou a criar instituições de pesquisa no campo do seu trabalho, em Marabá e em Altamira, e a prestar assessoria aos personagens de suas análises.

Via, analisava, interpretava e enunciava suas conclusões ao mesmo tempo em que intervinha no mundo real para transformá-lo, uma combinação rara na sua existência — e ainda mais valiosa pelos seus resultados. Nesse quase meio século de presença entre nós, Jean foi padre, missionário, acadêmico, militante social, orientador e amigo de centenas, talvez milhares de pessoas, de estudantes a posseiros. Sempre falando como igual, mas nunca deixando de se empenhar por mudanças para aquilo que, no seu íntimo e na sua consciência partilhada com outros, considerava o melhor.

Um tanto do muito que produziu foi reunido em quatro grossos volumes sob o título de Cruzando a fronteira. Jean cruzou várias delas: no espaço, no tempo, no universo de interesse. Na semana passada cruzou mais uma, talvez a derradeira, retornando à sua terra natal, a Bélgica, para onde certamente migrará a legião dos seus amigos e admiradores para saudar seus 90 anos, em 2015 (Lúcio Flávio Pinto).

O posseiro da ciência

Reproduzo trecho da resenha de Gutemberg Guerra, professor-adjunto do Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal do Pará, sobre a obra-síntese de Jean Hébette, Cruzando a fronteira: 30 anos de estudo do campesinato na Amazônia. O artigo foi publicado nos Cadernos de Ciência & Tecnologia (Brasília, 2007).

Que elementos de distinção poderiam ser estabelecidos na obra desse pesquisador em relação a de outros intelectuais que produziram reflexões sobre o processo de ocupação da Amazônia?

O primeiro é o de que seu trabalho intelectual está vinculado a uma práxis que estrutura os produtos de sua reflexão, dando resultados concretos, como foi o Setor de Pesquisa do Naea [Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará] no período em que foi seu coordenador, o CAT [Centro Agroecológico do Tocantins], o Laboratório Agroecológico da Transamazônica, e em consequência o Centro de Ciências Agrárias da UFPA, os cursos de especialização em Agricultura Familiar e Sociologia Rural, todas atividades que se constituíram a partir das primeiras reflexões realizadas desde 1985 e seus posteriores desdobramentos.

Essa reflexão se produz na universidade, articulada com os segmentos camponeses interessados na construção de um projeto de desenvolvimento alternativo ao do modelo até então desenvolvido. Para isso, o movimento sindical camponês é fonte de inspiração e interlocutor em permanente interação, em que pese toda a dificuldade de construção de uma aliança, parceria ou diálogo exercitado entre pesquisador e camponês.

A ciência praticada por Hébette é consciente dos seus limites e bloqueios e a crítica que faz de si mesmo permite a linguagem fluente, criativa, O lavrador e posseiro da ciência articulada, sugerindo, pela fluência, o tom de ensaio ou crônica. A imprecisão é eliminada quando se vai para a base de suas construções. São meses, anos, décadas de observação sistemática e crítica, no tecer e aprimorar o método de apreensão e de exposição em revisões que se fazem quantas vezes forem necessárias, para que sejam o mais cristalinas possível.

A preocupação com a precisão conceitual é outra marca de suas abordagens. Comentários sobre o objeto de pesquisa são introduzidos com problematizações que se reportam aos cuidados quanto ao uso preciso dos termos, separando a linguagem do senso comum da leitura qualificada que propõe. A ruptura epistemológica é anunciada desde as primeiras linhas e vai se consolidando ao longo das exposições.

O conceito de classes é presente desde as primeiras abordagens, assim como os de fronteira e camponês, definindo que o ator social preferencial de seus trabalhos está circunscrito a um espaço determinado por um contexto (o da fronteira na Amazônia) e uma posição social que implica confrontos com outras categorias.

A região aparece como um espaço-sujeito que se manifesta construindo-se (inventando-se) para dentro e para fora. Para dentro, por um discurso identitário, em busca de elementos de coesão social. Para fora, por uma insubordinação e crítica ao modelo de desenvolvimento excludente implantado e aos outros modelos gestados sem uma participação efetiva dos atores regionais.

Os textos oferecem uma descrição densa e detalhada das categorias sociais presentes, das localidades e das relações que vão se construindo entre população e meio ambiente. Têm a força da descrição feita simultaneamente à constituição daquela realidade dinâmica. Esse estilo e coerência vão ser guardados em toda a obra, definindo-se como texto sociológico, demarcado historicamente sem que sejam viciados e repetitivos. Eles se atualizam na medida em que avançam no tempo e por isso permanecem com uma fidelidade analítica primorosa.

Uma das dificuldades da análise crítica da obra de Jean Hébette é que a frequente volta aos textos, feitas por ele mesmo, implicou (implica ainda) em alterações por acréscimo de informações ou aprimoramento expositivo, de forma que os mesmos títulos apresentados em lugares diferentes não significavam necessariamente os mesmos textos. O artesanato da construção de seus textos é uma lavra de todos os dias, como a do lavrador que faz capinas das ervas para favorecer a cultura principal, com isso permitindo uma produção de qualidade exemplar.

Esse vigor laboral lhe torna um dos mais produtivos intelectuais da Amazônia e lhe garante uma titulação legitimada pelo volume e qualidade das contribuições teóricas apresentadas. Nesse sentido, ele está no campo científico como um posseiro que ali estabeleceu moradia e que tornou a área produtiva com o seu trabalho e os do que pode considerar sua família. Merece, com propriedade, o título de notório saber e posseiro da ciência.

Os temas abordados são temas essenciais à reflexão do que fazer desse imenso território e contingente humano presente na Amazônia. Influenciam uma significativa quantidade de pesquisadores, jovens ou experientes, no sentido de que avancem e mobilizem seus esforços na produção de conhecimentos sobre a dinâmica da fronteira. Ou seja, Jean Hébette, sempre atento às transformações ocorrentes nesse espaço temático e territorial, inspira novas e ousadas abordagens, mobilizando e formando novos parceiros.

Reconhecida a força de sua autoria, pelos textos assinados individualmente ou com os diversos parceiros que acumulou durante sua trajetória, ela se dá em interação intensa com o dinâmico mundo das ciências. Além da densidade sociológica de seus textos, há uma densidade societal, de sociabilidade e de socialização no processo de produção acadêmico-científica.

A personalidade, autonomia e originalidade dos textos sobre o processo de ocupação recente da Amazônia fazem de Jean Hébette uma referência obrigatória, principalmente quando trata da presença dos camponeses, sua história e suas perspectivas.

A dispersão dos veículos de publicação que favoreceram o seu reconhecimento como intelectual nos meios acadêmicos tornou-se um problema na recuperação do conjunto do seu pensamento para as novas gerações. A reunião e a edição da produção desse homem que dedicou a melhor parte de sua vida aos camponeses brasileiros são responsabilidade dos que puderam acompanhar sua trajetória e usufruir de sua convivência como intelectual e homem de ação. Encurtar-se-ão muitos caminhos na conversa que puder ser continuada com Jean Hébette por meio dos seus escritos.

Quem duvidar que experimente!

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Lúcio Flávio Pinto é o editor do Jornal Pessoal, de Belém, e autor, entre outros, de O jornalismo na linha de tiro (2006), Contra o poder. 20 anos de Jornal Pessoal: uma paixão amazônica (2007), Memória do cotidiano (2008) e A agressão (imprensa e violência na Amazônia) (2008).



Fonte: Jornal Pessoal & Gramsci e o Brasil.

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