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Tentando entender o presente como história

Ivan Alves Filho - Maio 2013
 

Tudo que muda a vida vem quieto no escuro, sem preparos de avisar.

João Guimarães Rosa

Descobrir as leis que regem os acontecimentos históricos é o grande desafio, a principal motivação da ciência histórica, penso eu. E, para isso, como queria Abelardo no prefácio do seu Sic et Non, é fundamental ter em mente a necessidade da interrogação, ou seja, do espírito crítico.

Tenho me esforçado para entender o que acontece com todos nós no mundo de hoje, preservando meu espírito crítico, justamente. Evidentemente, isso vai muito além da minha capacidade pessoal. Mas cada um tem de fazer o que estiver ao seu alcance. Aprendi o que se segue, com um velho comunista do Ceará, o saudoso José Júlio: “Se um companheiro pode carregar cinco quilos, isso é muito bom. Se outro consegue carregar 50, é bom demais. Se um terceiro é capaz de levar 500 quilos, aí é sensacional. Mas é preciso ver uma coisa, cinco quilos para um podem representar o que 500 quilos significam para outro...” Quer dizer, tem sempre a questão dos limites, na política como na vida em geral.

Então, para onde vamos exatamente? O que podemos carregar? Qual a nossa proposta de intervenção nisso que aí está? Como refazer a cultura de esquerda hoje tão combalida? Quais os novos paradigmas — e o que sobrou dos antigos? Ética, justiça social e democracia são, a meu juízo, intocáveis. A isso devemos acrescentar os novos campos de luta, como o feminismo, o ecologismo, as experiências que resultam do trabalho imaterial e a autonomia reivindicada pela juventude em várias partes do mundo. Pode ser um começo, sempre com o nosso olhar voltado para um programa e os instrumentos que servirão para aplicá-lo.

Vou procurar traçar algumas questões que considero pertinentes no momento atual. Ou que pelo menos me preocupam. Penso ser fundamental nos debruçarmos cada vez mais sobre as opções de que dispomos, as quais devem ir além da política imediata (sempre tão necessária e urgente, reconheço). Em outras palavras, creio que precisamos de uma estratégia, de visar o longo prazo. Unir o conjuntural ao estrutural, digamos. Defendi em algumas intervenções a necessidade de criarmos um campo democrático, onde as forças progressistas pudessem debater suas ideias e, sobretudo, começar a agir em conjunto. Pois o que nos une é sempre mais relevante do que aquilo que nos desune. Isso poderia ter sido feito há muito tempo, ou logo após a derrota eleitoral de 2010, pelo menos. Mas ainda há tempo para isso. Eis o que nos daria mais força numa hora como essa, já que poderíamos evitar a tomada de decisões políticas no afogadilho, no calor da hora. A vida tem pegado a oposição quase sempre de calça curta — e quando um campo político não se prepara de forma adequada, como nós não temos nos preparado, a meu juízo, esse campo enfrenta questões ainda mais difíceis de serem resolvidas, naturalmente.

De toda forma, estamos diante de um novo desafio, isto é, o de contribuir para a criação de um espaço político democrático, reunindo sensibilidades dos mais diferentes horizontes, efetivamente comprometidas com os valores da democracia (sem adjetivos de nenhum tipo, pelo amor de Deus!), da justiça social e da ética pública. Um campo político que se inscreve na linha do antigo MDB, eu diria até. Afinal, alguns perigos rondam a ordem democrática — e não apenas no Brasil.

Prossigamos. Penso que as ideias formuladas por Karl Marx nos fazem ver que os conflitos sociais têm origem na estrutura de classes da sociedade — e não no comportamento deste ou daquele indivíduo. Vale dizer, com Marx o foco se deslocava do exame da natureza humana para o conhecimento da sociedade, a sua constituição. Eis aí uma razão suplementar para que cada um de nós se empenhe em compreender os problemas que atormentaram o socialismo e sua construção no século XX, por exemplo.

Hoje, vejo com maior clareza a necessidade de reconhecer a pluralidade das formas de propriedade e também o imperativo de combinar o espírito de iniciativa individual com uma ordem social mais justa. Evidentemente, reconheço os abalos sérios que o socialismo sofreu e acredito que isso se deveu a diversos fatores. Um deles foi o afastamento do ideário socialista em relação à democracia. Outro pode ser tributado à infiltração que o nacionalismo promoveu nesse mesmo ideário, a ponto de qualquer ditadorzinho, ao se posicionar contra o “imperialismo norte-americano”, merecer o apoio da esquerda comunista no mundo. Os nomes nós conhecemos todos. Houve, é bem verdade, algumas experiências que buscaram fugir desses modelos de corte autoritário, e me refiro aqui aos esforços desenvolvidos pelos austro-marxistas, pelos iugoslavos da época de Tito (com algumas reservas, certamente), pelos partidários da Unidade Popular no Chile de Salvador Allende e também pelos eurocomunistas, sobretudo os italianos, com Enrico Berlinguer à frente. Mas foram experiências laterais, digamos assim.

Todavia, o autoritarismo, ainda que bem real, não explica tudo. Uma questão das mais complicadas tem a ver com o fato de o socialismo de corte soviético não ter forjado uma base material própria, como o capitalismo o fez, historicamente falando. Afinal, o moinho é indispensável ao surgimento de novas relações sociais. E o chamado socialismo real ficou sem base, literalmente. E essa base, ao menos em termos técnicos, eclodiu no chamado capitalismo avançado, com a robótica e outros experimentos nessa mesma linha. Extrair mais-valia de robô é meio difícil.

Outra questão complexa — e que permanece em aberto — concerne à forma de existência social da força de trabalho, isto é, o núcleo de um dado modo de produção. Definimos o modo de produção antigo ou escravista pelo fato dele repousar no trabalho escravo. Essa a sua forma de existência social. Nesse sentido, como ultrapassar o regime assalariado — núcleo do modo de produção capitalista? E convém lembrar aqui que, para o velho Marx, sem salário não há capital. Incentivar o trabalho por conta própria pode ser uma alternativa. Mas é preciso ter em mente que nem todo trabalho pode ser produzido em pequena escala, em escala reduzida. A produção hoje se dá no plano global e se sofistica cada vez mais. E não estamos nos referindo aqui aos métodos de gestão apenas — métodos esses, por sinal, que ajudam a democratizar as relações de trabalho no interior de determinadas unidades produtivas, como é o caso da autogestão nas fábricas e do sistema de cooperativas em vários ramos da produção e da circulação. O que queremos, no fundo, é lembrar algo talvez mais complexo ainda. Qual seja, a necessidade de propagação da alta tecnologia de um modo tal que permita ao trabalhador escapar da lógica que norteia os grandes conglomerados capitalistas. Será que isso é de fato viável? Eu chego a me perguntar, às vezes, se é possível separar civilização industrial e capitalismo. Na realidade, tendo a crer que não, pois o capitalismo, ao gerar a unidade fabril — forjando assim a sua base material por excelência — gerou também a própria sociedade industrial...

Em conversa mantida certa vez com o poeta Ferreira Gullar, um homem de extraordinária lucidez e sensibilidade, ele observou para mim algo que dá o que pensar: a iniciativa pessoal é espontânea, enquanto o planejamento não é. Pior: o planejamento pode limitar as pessoas, já que é feito entre quatro paredes, por meia dúzia de burocratas iluminados. O nosso querido poeta queria dizer com isso que considerava fundamental manter um equilíbrio de fato entre o posicionamento individual e o ambiente social circundante. Além do que, é preciso reconhecer que os trabalhadores manuais e intelectuais foram ampliando seus espaços e conquistas materiais e políticas no interior da ordem capitalista. Ainda que preservando seu caráter espoliador geral, é inegável que as condições de vida dos que trabalham sob o capitalismo mudaram — e para melhor — nas áreas mais desenvolvidas e mesmo fora delas. O autoritarismo tem recuado no mundo, as lutas sociais avançaram e as distribuições de renda têm sido mais efetivas. Negar isso não é muito producente. A classe operária organizada (hoje em declínio numérico) e o conjunto dos trabalhadores assalariados nos países desenvolvidos têm, sim, algo a perder hoje em dia.

E aqui vai a pergunta que não podemos mais calar: o que fazer exatamente com o capital, em uma sociedade que pretende, justamente, romper com o modo de produção capitalista? O que fazer? Como expropriar, por exemplo, centenas de milhares, se não alguns milhões de pequenos produtores e proprietários, tanto na cidade quanto no campo? Como? Mais: qual o sentido, na verdade, de uma tal expropriação em uma economia como a brasileira, por exemplo? Uma vez que, para nós, tal expropriação não parece possível e/ou desejável, a solução talvez se encontre na abertura de zonas mistas na economia. V. I. Lenin percebeu essa questão dos pequenos produtores com a acuidade que lhe era peculiar, já em 1920, nas difíceis condições da Rússia revolucionária. Daí ter criado a NEP, a Nova Política Econômica. Em particular, Lenin queria saber qual a maneira mais adequada de resolver a chamada questão camponesa — questão essa que Stalin encaminhou da forma mais truculenta possível, com a coletivização do campo. Considero, e posso estar equivocado nisso, que somente uma mudança de processo civilizatório — ou seja, algo que vá além da sociedade industrial, em sua versão capitalista ou socialista, pouco importa no caso — é que poderá iniciar de fato o rompimento com determinados impasses históricos que nos desorientam ainda hoje.

Alinharíamos, igualmente, entre as nossas indagações mais prementes, o problema do desenvolvimento das forças produtivas, do amadurecimento das condições objetivas ou materiais para a ultrapassagem de um determinado modo de produção. Mas acredito que seja necessário destacar aqui que os limites do desenvolvimento das forças produtivas variam de um país a outro, pois as regiões muitas vezes não se desenvolvem todas da mesma forma. Nesse sentido, o máximo de capitalismo em uma determinada área pode significar o mínimo em outra — e vice-versa. Não há uma linha tão reta assim na História. E isso também gerou formidáveis confusões, nas tentativas de transição para uma economia capitalista de Estado.

O estatuto da propriedade, estatal, privado ou público, se configura — ao lado de questões envolvendo as mutações no mundo do trabalho, com o alargamento indiscutível do campo do trabalho imaterial e da esfera do conhecimento — como outra questão a ser debatida em profundidade pelos que pretendem influir no processo político atual.

São tantos os problemas e as dúvidas! Eles abrangem dos novos atores sociais às atuais dificuldades vividas pelas forças progressistas no mundo, que perderam seus paradigmas mais caros, como sabemos. De uma coisa apenas eu tenho certeza: a transição será longa. Quase tão longa quanto aquela que construiu o terreno para a ascensão do capitalismo. Vamos ao velho Marx:
A produção capitalista mergulha suas raízes em um terreno preparado por uma longa série de evoluções e de revoluções econômicas. A produtividade do trabalho, que lhe serve de ponto de partida, é obra de um desenvolvimento histórico cujos períodos se contam não por séculos, mas por milhares de anos.
Ao que tudo indica, essa transição já começa contudo a se delinear, ainda que timidamente, com o surgimento da sociedade do conhecimento ou capitalismo cognitivo. Segundo a historiadora Anna Bezançon, citada certa vez por Eric Hobsbawn, o termo revolução industrial só surgiria por volta de 1820, ou seja, quatro décadas após o início desse formidável processo empalmar a Grã-Bretanha e, em seguida, praticamente o mundo todo. É difícil realmente entender, por vezes, o movimento da História.

E o diacho é que nada existe fora dela...

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Ivan Alves Filho é historiador e jornalista, autor de vários livros, entre os quais Brasil, 500 anos em documentos e Memorial dos Palmares.


Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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