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A questão Gramsci-Togliatti em Moscou (1938-1941)

Silvio Pons - Janeiro 2015
Tradução: Luiz Sérgio Henriques
 

Há dez anos Giuseppe Vacca escrevia que, sobre o tema da “linha de sombra” nas relações entre Gramsci, o Komintern e o partido, parte essencial de uma investigação ainda a ser feita era constituída pela “questão Gramsci” post-mortem [1]. No período subsequente, as possibilidades de acesso aos arquivos ex-soviéticos se restringiram progressivamente, e esta investigação se revelou muito mais limitada, tortuosa e difícil do que então podia parecer. Todavia, hoje temos em mãos alguns documentos que nos permitem aprofundar nossos conhecimentos. É bom esclarecer que se trata de documentação circunscrita e seguramente incompleta. Ela provém exclusivamente dos arquivos do Komintern, ao passo que é extremamente problemático o acesso ao Arquivo de Política Exterior da Federação Russa e continuam inacessíveis arquivos de crucial importância, como o Arquivo do Presidente da Federação Russa (ex-Arquivo do Kremlin) e os Arquivos do Serviço Federal para a Segurança (ex-KGB). Mas até nos arquivos do Komintern, dada a persistente indisponibilidade de uma série de fundos, é bastante plausível que a investigação esteja longe de ser concluída, mesmo depois destas descobertas recentes. Os documentos principais provêm dos papéis da secretaria de Georgi Dimitrov e daqueles produzidos pela Seção de Quadros da IKKI [Comissão Executiva do Komintern], referindo-se aos anos compreendidos entre 1938 e 1941. O presente ensaio se propõe apresentá-los e fornecer uma primeira avaliação de seu significado. Tal significado apresenta duplo aspecto: por um lado, a dimensão retrospectiva que se refere às percepções e suspeitas de Gramsci quanto às tentativas fracassadas para sua libertação e ao comportamento tido por seus companheiros de partido, tais como foram levadas pelas irmãs Schucht a Moscou depois da morte dele; por outro lado, as consequências das denúncias apresentadas pelas irmãs Schucht às autoridades soviéticas contra os comunistas italianos e, em particular, contra Togliatti, que deram vida a uma autêntica “questão” de natureza política e policial. Estes dois aspectos nem sempre podem facilmente ser separados, mas é oportuno distingui-los desde agora. Nossa reconstrução se concentrará nos acontecimentos “moscovitas” e só se dirigirá ao período anterior quando isso for imposto pelo próprio caráter da documentação examinada.

Na crise do PCd’I

Sabe-se que, logo depois da morte de Gramsci, Tatiana Schucht solicitou a Piero Sraffa (o homem que representou o trâmite principal entre Gramsci e o partido) um esclarecimento sobre o episódio que esteve na origem da tormentosa suspeita de ter sido traído por seus próprios companheiros, nutrida pelo prisioneiro até o fim: a carta que lhe foi enviada por Ruggiero Grieco em 1928. Tatiana se fazia, assim, porta-voz das convicções de Gramsci e indicava como principal elemento de apoio a carta que este lhe escrevera em 5 de dezembro de 1932. É oportuno recordar que nesta carta Gramsci não se limitava a citar as palavras pronunciadas pelo juiz instrutor, evidentemente destinadas a gerar seu tormento (“Deputado Gramsci, o senhor tem alguns amigos que certamente querem que passe uma boa temporada na prisão”). Ele também expressava a convicção de que a “estranha” carta de 1928 (que continha afirmação de seu papel de líder justamente no momento em que as eventuais condições para uma libertação teriam aconselhado o contrário) tivesse sido “um ato celerado” ou “uma leviandade irresponsável”, e formulava a hipótese de que ambas as coisas fossem verdadeiras, caso em que a responsabilidade não devia ser atribuída só ao autor material (“pode ser que quem escreveu fosse só irresponsavelmente estúpido e um outro, menos estúpido, o tenha induzido a escrever”) [2]. A tentativa de Tatiana deu em nada: as respostas de Sraffa foram elusivas, e sua insuficiente sugestão de que Tatiana se dirigisse a Paris para encontrar Grieco não foi aceita por ela [3]. Provavelmente, Sraffa subestimou a determinação de Tatiana, tal como transparecia na indignação, que ela manifestou ao economista, só com a ideia de ser a questão abandonada. A troca de cartas entre os dois ocorreu entre julho e setembro de 1937. As primeiras notícias sobre a questão surgiram em Moscou, pelo que sabemos, na primavera de 1938: não podemos excluir que antes ainda haja vestígios dela nas cartas de Tatiana aos familiares, mas a este respeito não temos nenhuma documentação.

Como se depreende de uma nota de 3 de junho de 1938, escrita e assinada por Stella Blagoeva, funcionária da Seção de Quadros da IKKI, e endereçada a Georgi Dimitrov, secretário do Komintern, a questão foi trazida ao conhecimento dos órgãos do Komintern pelo próprio Grieco, que dela fora informado por Sraffa (denominado no documento “o amigo”). Grieco protestava porque Tatiana Schucht, que ainda se encontrava na Itália, tornara-se artífice de “um trabalho contra ele” que consistia em repetir “as palavras que, afirma, teriam sido pronunciadas por Gramsci a propósito das provocações por parte de Garlandi [Grieco], em relação ao fato de que Garlandi então enviara cartões de Moscou a ele e a outros dois prisioneiros”. Grieco requeria que Tatiana fosse convocada assim que voltasse a Moscou a fim de se “investigar” a questão, bem como aludia “ao fato de que é suspeito que ela não tenha voltado”. Precisava-se que a declaração de Grieco fora feita em 28 de abril de 1938 [4]. O documento é conhecido [5].

A ele deve se somar outro, sem data e assinatura, mas que parece escrito com a mesma grafia e, por isso, pode ser atribuído a Blagoeva [6]. No final de uma série de pontos relativos aos comunistas italianos, o documento trazia o que se segue:

10. Em 1927, a mulher de [Umberto] Terracini chegou e disse que Umberto escreve queixas contra o partido, porque não escrevem. Garl[andi] escreveu 3 cartas (a Gramsci, Terracini, Scoccimarro), enviou-as a Germ[anetto] em Moscou, a fim de que fossem expedidas daqui. Em 1928-29, quando o irmão de Gramsci foi vê-lo [7], este disse, por que Garl[andi] me escreveu um tal [palavra ilegível]. Concluía com um até breve. Gramsci considerava que fosse uma leviandade. Em 1934, o Amigo viu Gramsci [8], ele de novo lembrou a carta, que seu juiz havia usado.

Depois da morte de Gramsci, sua cunhada disse ao Amigo que, em relação a esta carta, Gramsci declarou pensar que por ela fosse responsável Grieco, mas que outro o havia obrigado a escrevê-la. O Amigo propôs que fosse a Paris e esclarecesse, mas ela declarou que não fará isso com aqueles que fizeram [sic].

Schucht: a terceira irmã ainda não voltou da Itália, está ligada à embaixada soviética. Deve voltar depois da remessa de todas as coisas de Gramsci, mas ainda não está aqui. Este fato suscita suspeitas em Garl[andi] [9].

As outras anotações contidas no documento não ajudam a datá-lo mais precisamente. Mas um documento subsequente de 1939, da lavra de Blagoeva (que examinaremos mais adiante), refere-se a uma declaração dada por Grieco em 27 de junho de 1938, na qual ele sustentava ter escrito a carta de 1928 em Paris, “sob a influência da mulher de Terracini”, que havia descrito o mau humor dos “companheiros na prisão” porque o partido não lhes escrevia, e tê-la mandado a Germanetto em Moscou [10]. Esta referência, por isso, nos permite, segundo toda a evidência, identificar o texto supracitado e datar de 27 de junho de 1938 o documento anônimo que estamos examinando.

Deve-se observar que esta datação nos leva a confirmar a substancial credibilidade do testemunho de Vincenzo Bianco a Paolo Spriano, segundo o qual os papéis gramscianos do cárcere teriam chegado a Moscou em junho-julho de 1938 [11]. Outro ponto (o primeiro) do documento se referia à família Schucht, introduzindo novo motivo de tensão: “A família não fornece os materiais de Gramsci – fotografar ou requisitar” [12]. Encarregado de recolher os materiais de Gramsci, Bianco poderia até ser a fonte desta anotação. Fica por isso desmentida a recordação de Giuliano Gramsci, da qual se depreende que os papéis de Gramsci só teriam chegado da Itália a Moscou depois da volta de Tatiana [13]. Também a afirmação contida no documento, pela qual Tatiana “deve voltar depois da remessa de todas as coisas de Gramsci, mas ainda não está aqui”, significa provavelmente que os papéis de Gramsci se encontravam em Moscou já antes de seu retorno, confirmando a recordação de Bianco (depurada, no entanto, da tensão existente entre a família Schucht e o partido). Como veremos, o mesmo documento escrito por Blagoeva em 1939, que nos permite atribuir a data de 27 de junho de 1938 ao documento anônimo supracitado, também contém indicação que faz retroceder um pouco, até maio de 1938, a chegada a Moscou dos “manuscritos (rukopisi)” gramscianos do cárcere: porém, não podemos afirmar com absoluta certeza de que também se tratava dos Cadernos [14].

Os dois documentos até aqui examinados por nós, o de 3 de junho e o de 27 de junho de 1938, parecem coerentes entre si: ambos se referiam às suspeitas de Gramsci acerca da carta de Grieco (no segundo não se falava mais de “cartões”, otkrytki, mas de “cartas”, pisma) e registravam as supeitas (não bem precisadas) apresentadas por este último sobre a permanência de Tatiana na Itália. No entanto, não pode escapar à atenção que o segundo documento contém importante elemento que o diferencia do primeiro: de fato, precisava-se que Gramsci não suspeitara só e nem mesmo predominantemente de Grieco. Isso ampliava efetivamente o caso para outras figuras do grupo dirigente do partido e implicava as relações políticas e de confiança entre Gramsci e o partido em seu conjunto. Portanto, podemos considerar que as palavras pronunciadas por Grieco em 28 de abril de 1938 não tinham deixado indiferente a Seção de Quadros da IKKI e que Blagoeva havia recolhido novas informações a respeito. Talvez precisamente a chegada dos papéis gramscianos do cárcere a Moscou e a atitude de não colaboração da família com o partido tenham representado um impulso neste sentido. O documento de 27 de junho de 1938 era evidentemente o resultado de um segundo interrogatório de Grieco: dele se deduz que a informação a ele prestada por Sraffa não se referia só a sua pessoa (como se depreende da declaração de 28 de abril), mas o advertia do fato de que as suspeitas de Gramsci que Tatiana pretendia investigar também se relacionavam a outros. À diferença daquele de 3 de junho, o segundo documento não está conservado entre os papéis da secretaria de Dimitrov, mas entre os relativos aos quadros do partido italiano: isso faz supor uma atenção colateral à investigação que Blagoeva estava a instruir sobre o PCd’I.

Na primavera de 1938, a grave crise que acossava fazia tempo o grupo dirigente do PCd’I chegou ao ápice. Posto sob tutela desde março de 1937 pelos organismos dirigentes do Komintern, por meio do envio a Paris de Giuseppe Berti na qualidade de plenipotenciário, o PCd’I enviou a Moscou uma delegação composta de seus principais dirigentes em abril de 1938. Eles deviam responder a acusações muito semelhantes às que já haviam provocado nos meses anteriores a detenção e a repressão violenta dos dirigentes de outros partidos comunistas: violação das regras de conspiração, falta de “vigilância revolucionária” e ineficácia dolosa na luta contra o “trotskismo” [15]. A periculosidade de tais acusações na URSS do Grande Terror staliniano não podia escapar a ninguém. Completando a própria obra inquisitória, Berti apresentou relatório final que continha juízos extremamente pesados sobre a ação de todo o grupo parisiense, em particular Grieco [16].

A primeira declaração feita por Grieco a Blagoeva, aquela transcrita no documento de 3 de junho de 1938 e dada em 28 de abril, fora prestada, na presença também de Furini (Dozza), no curso de uma das primeiras entrevistas destinadas a preparar o encontro da delegação italiana com os dirigentes políticos do Komintern. O conteúdo principal do documento se referia ao envio a Dimitrov de perfis preparados por funcionários da seção de quadros e de materiais de Berti, até então só conhecidos por Manuilski [17]. Consciente de se encontrar em situação já bastante delicada, Grieco pretendeu evidentemente prevenir novas acusações. Um dos aspectos centrais da investigação já aberta em Moscou sobre os dirigentes italianos era constituído pela análise de seu passado político, e qualquer aspecto duvidoso a respeito podia constituir um sério tópico de acusação [18]. Blagoeva era um trâmite inevitável e significativo. Figura chave da Seção de Quadros, responsável pelos países latinos, teve nesta condição relações diretas com Dmitri Manuilski, chefe da “delegação soviética” na IKKI e responsável político pela atividade da Seção de Quadros. Mas era também colaboradora muito estreita de Dimitrov [19]. Pelo que se deduz dos papéis da secretaria de Dimitrov, foi ela quem escreveu materialmente parte essencial dos documentos que fundamentaram o juízo do líder do Komintern sobre a “questão italiana” na primavera-verão de 1938. Assim, através da primeira declaração de Grieco, criou-se efetivamente um nexo entre o surgimento da “questão Gramsci” em Moscou e a investigação sobre o PCd’I.

O requisitório pronunciado por Manuilski sobre as insuficiências do partido italiano em 14 de junho de 1938 não prefigurava repressão violenta [20]. Grieco voltou a Paris no final de julho. Todavia, o grupo dirigente do PCd’I permaneceu no olho do furacão, inclusive por causa das duras divisões pessoais que explodiram rumorosamente em seu interior. A investigação de Blagoeva seguiu adiante. Em 4 de agosto de 1938, o PCd’I foi oficialmente acusado por uma resolução da IKKI [21]. Isso levou à dissolução do Centro Exterior e à constituição de novo grupo dirigente sob a tutela de Togliatti, que voltou temporariamente da Espanha a Moscou na segunda metade de agosto de 1938: uma medida dura, mas de alcance negligenciável em face das possíveis consequências cruentas da crise do PCd’I. Diferentemente do que acontecera ao grupo dirigente do partido polonês, o grupo dirigente do partido italiano evitou a eliminação: um desfecho que não correspondeu à salvação dos ambientes mais amplos da emigração italiana na URSS e que, antes, se verificou ao preço de agravar o trágico destino desta [22]. Não está em nossos objetivos reconstruir os acontecimentos [23]. Interessa-nos, em vez disso, delinear o contexto no qual a “questão Gramsci” emergiu em Moscou.

Mesmo partindo das limitadas informações em nosso poder, não é difícil ver que tal questão se apresentou como um aspecto da pesada sombra que recaía sobre o PCd’I. Um aspecto claramente secundário no verão de 1938, mas com potencialidades bastante sérias. O nome de Gramsci evocava, no clima da segunda metade dos anos 1930, perigosos motivos de ambiguidade em relação à oposição trotskista dos anos 1920. Pesava como uma rocha a carta do birô político do PCd’I com a qual Gramsci, em 1926, apoiara a maioria staliniana, exortando-a, no entanto, a evitar empregar contra os opositores medidas repressivas e persecutórias, que a seu juízo implicavam o risco de comprometer a missão e a própria identidade do centro do comunismo internacional [24]. A tal precedente devia se acrescentar a circunstância agravante das “oscilações” conhecidas pelos comunistas italianos antes de aceitar a virada para o “social-fascismo” no final dos anos 1920: por sua vez, Gramsci manteve sobre a questão sérias perplexidades inclusive após o alinhamento do PCd’I, ganhando fama negativa adicional e também impiedosa, cruel marginalização por parte de seu próprio partido [23]. Ainda que aquela linha tivesse sido de fato renegada em nome da política antifascista promovida por Dimitrov a partir de 1934, a marca dos anos precedentes não podia ser cancelada na liturgia comunista. As críticas de fraqueza dirigidas por Manuilski ao PCd’I não pouparam um severo olhar retrospectivo, até recordar, entre outras coisas, a carta de Gramsci de 1926 [26].

Na Moscou de 1938, assim, o giro do fantasma de Gramsci ameaçava contaminações com o demônio do “trotskismo”. Mas não se deve esquecer que esta marca da infâmia já não era mais usada simplesmente contra os ex-opositores, ou contra seus suspeitos simpatizantes dos anos 1920, e que o termo sofrera uma expansão semântica extrema, arbitrária e incontrolável. Os mais díspares itens de acusação, até contraditórios entre si, podiam ser plasmados segundo as circunstâncias, estigmatizando qualquer antecedente que abrisse o flanco à suspeita de intriga, independentemente de suas presumidas ou reais finalidades políticas. A “questão Gramsci” apresentava fáceis possibilidades neste sentido. As declarações feitas por Grieco a Blagoeva podia facilmente redundar em resultado oposto ao desejado pelo dirigente italiano: alimentar a suspeita, em vez de afastá-la.

À luz da documentação em nosso poder, a “questão Gramsci” não figurou nos interrogatórios feitos a Togliatti em Moscou, em agosto de 1938, a propósito da crise do PCd’I [27]. As anotações de Blagoeva relativas à “opinião do comp. Ercoli”, expressa em encontro de 26 de agosto de 1938, trazem seus juízos pessoais e políticos sobre os dirigentes do Centro Exterior. Em substância, Togliatti reconhecia que o Centro se mostrara incapaz de observar as regras de “vigilância” e que as relações pessoais se deterioraram gravemente, mas (à diferença de Berti) evitava extrair conclusões mais gerais, de caráter político e ideológico. Ao mesmo tempo, esquivava-se de passadas ou futuras responsabilidades, precisando que seus conselhos políticos não foram aceitos pelos dirigentes do PCd’I e exortando explicitamente a não contar com ele [28]. Em outras palavras, Togliatti fez a defesa do grupo dirigente contra os perigos mais graves: deve-se notar que sua proteção dirigiu-se, em particular, a Grieco, que, à diferença de Dozza, foi confirmado em suas responsabilidades de dirigente, ao lado de Berti, Ciufoli e Roasio [29]. A linha desta defesa também envolvia, ao mesmo tempo, a pessoa de Togliatti. Sabe-se que nos meses precedentes tinha havido pelo menos um sinistro sinal da possibilidade de que a crise entre Moscou e o PCd’I atingisse não só o Centro parisiense, mas também sua figura: a detenção de seu cunhado, Paolo Robotti, ocorrida em março de 1938. A tal circunstância, entre outras coisas, acenavam, ainda que de passagem, dois documentos escritos por Blagoeva para Dimitrov, aquele, já citado, de 3 de junho [30], e uma nota de 21 de agosto, poucos dias antes do colóquio com Togliatti em 26 de agosto [31]. Embora Togliatti estivesse envolvido nas vicissitudes do PCd’I mais como árbitro e dirigente do Komintern do que como parte em questão, tal situação aconselhava extrema prudência até no plano pessoal.

Entre os aspectos que exigiam o exercício da prudência, ainda que não o principal, estavam sem dúvida as declarações feitas por Grieco a Blagoeva sobre o estado de tensão que recentemente se havia criado entre ele e Tatiana Schucht a propósito da carta de 1928 e do encarceramento de Gramsci. É bastante provável que Togliatti tivesse sido informado disso quando chegou a Moscou em agosto de 1938. Pôde encontrar Grieco antes de ir para Moscou: ele próprio contou o fato a Blagoeva [32]. Talvez também sob esta luz deva ser considerada a atitude de Togliatti quando, ao voltar de Moscou, encontrou os dirigentes do partido em Paris para lhes comunicar as decisões tomadas. Tinha consciência de que a tempestade formada sobre os comunistas italianos fora, naquele momento, contida, mas não ainda superada: antes, apresentou as decisões organizativas adotadas em Moscou como a última chance para evitar danos piores e exortou o grupo dirigente a agir de modo que “a situação mude rapidamente”. Nesta circunstância, Togliatti esforçou-se por dirigir a atenção para os nós de natureza política, além da “vigilância revolucionária”, indicando substancialmente duas orientações características da inspiração comunista antifascista: manter firmemente “a linha do VII C.”; não ignorar “as diferenças no campo da burguesia em política externa” [33]. Vale a pena destacar, para não perder o nexo com a “grande política” da época, que estas posições expressavam muito mais a ligação de Togliatti com Dimitrov do que com Manuilski, o qual havia ignorado os temas antifascistas em seu requisitório contra o PCd’I.

Em tal contexto, enfatizar as questões do passado, ainda que em termos autocríticos, pareceu a Togliatti uma arma de dois gumes, que podia até complicar a situação dos comunistas italianos e também a sua pessoal. A tendência dos comunistas italianos de expiar seu passado culminara na decisão, tomada em reunião de 12 de agosto de 1938, de propor a Togliatti um documento público, voltado para tomar posição sobre a carta de 1926. A proposta nascia do impacto público provocado pela publicação de extratos da carta de 1926, e em seguida de seu texto completo, por obra de Angelo Tasca [34]. A réplica de Togliatti, na reunião de setembro, foi a seguinte: “Não é aconselhável continuar a falar de todas estas coisas do passado com este método. Seria um erro colocar a vida futura do partido sobre esta base. As coisas acontecidas não se apagam, continuam. Mas não se pode ligar a elas as coisas do futuro” [35]. Tais palavras expressavam uma sagacidade muito superior àquela demonstrada até então pelos outros dirigentes do PCd’I. Todavia, as “coisas do passado” não podiam ser facilmente canceladas na cultura política do movimento comunista no final dos anos 1930. Entre elas, a “questão Gramsci” estava destinada a assumir dimensão inquietante em Moscou, justamente quando o pior momento dos comunistas italianos parecia ter ficado para trás, atingindo Togliatti em pessoa.

“A questão Gramsci-T.”

Em 19 de março de 1939, Blagoeva escreveu de próprio punho a Dimitrov as conclusões a que chegara em relação “a seu encargo de 16.II.39 sobre a questão Gramsci-T.” [36]. Infelizmente, não conhecemos os detalhes do encargo dado por Dimitrov à funcionária da Seção de Quadros da IKKI. A resposta de Blagoeva se articulava em três pontos:

1. As suspeitas da família Schucht têm evidente fundamento.

2. Para o fim de esclarecer o fundamento da acusação ou deixá-la sem efeito, não basta o testemunho daquele ao qual Gramsci confiou pessoalmente as próprias dúvidas, Sraffa, que vive no seguinte endereço: Professor Piero Sraffa, King’s College, Cambridge. Proponho convocá-lo.

3. O pleno esclarecimento da questão exige juntar todos os materiais sobre a questão de Gramsci que estão conservados no NKID [Comissariado do Povo para Assuntos Externos] e no NKVD [Comissariado do Povo para Assuntos Internos] com aqueles que foram recolhidos por nós, mas com a condição de tirar o caso das mãos dos que até agora o seguiram no NKVD, à luz da existência de fatos que suscitam dúvidas na família e para garantir a objetividade [37].

A primeira consideração a fazer é que não existem dúvidas sobre a identidade de “T.”: trata-se, obviamente, de Togliatti. O uso da inicial do nome autêntico, em lugar do mais conhecido pseudônimo “Ercoli”, talvez constituísse uma medida de discrição. A informação já chegada a Moscou em 1938, segundo a qual as suspeitas de Gramsci não diziam respeito unicamente a Grieco, mas também a alguém mais, levava agora a uma identificação rumorosa. Isso era o resultado de passos dados, neste meio-tempo, pelas irmãs Schucht: a isso, porém, voltaremos mais adiante. Blagoeva estava fundamentando a necessidade de proceder a uma verdadeira investigação para a qual não se consideravam suficientes os dados existentes na Seção de Quadros da IKKI. Voltemo-nos agora aos elementos que a funcionária fornecia a Dimitrov para basear a própria conclusão.

A comunicação de Blagoeva a Dimitrov está acompanhada de outro documento, que, com toda a probabilidade, constituía um anexo. Trata-se de duas laudas datilografadas assinadas pela mesma Blagoeva, datadas de 17 de março de 1939 e intituladas “O fundamento da questão T.” [38]. Como a supracitada comunicação a Dimitrov, este documento também traz como data do protocolo de entrada na secretaria de Dimitrov o dia 20 de março de 1939. Blagoeva alistava os argumentos que lhe pareciam “o fundamento para acusar T. por parte das três irmãs Schucht”. Estes argumentos tinham diferente peso e significado, mas eram submetidos ao destinatário sem nenhuma escala hierárquica. A autora indicava, por ordem: “a declaração de Sraffa de que Gramsci, em suas suspeitas em relação aos companheiros italianos, pensava em T.”; “a carta de Garl[andi] de 1928 não podia ter sido escrita sem a aprovação de T.”; T. tinha estado “sempre a par das negociações sobre a troca, que fracassaram todas”, assim como também sabia que, “assim que se mencionou o nome de Gramsci [...], as negociações foram interrompidas”; “o próprio T. reconheceu que o rumor suscitado em 1933 em torno da transferência de Gramsci para a clínica foi um erro” [39]; “fazia tempo Gramsci não confiava em T.”; este demonstrou frieza sobre a questão de “tratar da herança literária de Gramsci, das cartas, dos cadernos” e até sobre a questão “da salvação de Gramsci, falando com outros italianos, por exemplo, com Bibolotti” [40].

Como se vê, Blagoeva não apresentava acusações concretas contra Togliatti. Limitava-se a amealhar uma série de suspeitas e de circunstâncias ambíguas, sem sequer especificar qual fosse a formulação da acusação. As referências ao fato de que a carta de 1928 não podia ter sido iniciativa pessoal de Grieco e, sobretudo, à existência de uma “declaração” de Sraffa que indicava Togliatti como a figura no centro das suspeitas de Gramsci eram os únicos tópicos relevantes, por trazerem uma preocupação deste último que devia ser tida em séria consideração: isso bastava para suscitar perguntas e requerer explicações. Em torno destes indícios, no entanto, erguia-se um cenário que sustentava a construção de uma “questão” e parecia constituir o reflexo da mentalidade policial reinante na URSS. Inconfundível sinal desta mentalidade eram os outros argumentos aduzidos por Blagoeva, que desenterravam supostos precedentes históricos e biográficos. Em particular, citava-se uma declaração de Maggi [Gennari], segundo a qual Gramsci teria tido opinião negativa sobre Togliatti desde o início dos anos 1920, e este último teria se mantido, diferentemente de Gramsci, “indeciso sobre a questão das ações contra Bordiga”. Uma conduta que, sempre segundo a funcionária do Komintern, repetira-se a propósito da política do VKP(b) e do Komintern em 1926, quando ele e os delegados italianos “pediram ao comp. Stalin que explicasse a situação partidária interna no VKP(b) [Partido Comunista da União (bolchevique)] em relação às decisões contra a oposição unificada”, e em 1929, quando novamente se verificara “indecisão” [41]. Na realidade, Blagoeva misturava alhos com bugalhos. Em fevereiro de 1926, com efeito, a delegação italiana no VI Pleno da IKKI conseguira um encontro com Stalin, a fim de receber indicações sobre o mérito do conflito com a oposição surgido no XIV Congresso do partido soviético [42]. Mas em outubro de 1926 Togliatti havia começado com Gramsci um sério conflito político sobre a carta deste último ao CC do VKP(b), que se referia exatamente ao juízo sobre a evolução da URSS. Do ponto de vista soviético, a atitude de Togliatti em 1926 fora de total lealdade e não tinha nada a ver com a de 1929, quando foi acusado, com outros dirigentes italianos, no X Pleno da IKKI, por não se alinhar com convicção à virada radical do Komintern relativa ao “social-fascismo” [43]. Mas, evidentemente, tudo isso eram detalhes secundários para Blagoeva.

O documento terminava com um breve tópico que trazia os argumentos que o próprio Togliatti teria aduzido em sua defesa:

Contra as acusações T. diz o que se segue: a declaração de Garlandi, que escreveu a carta de 1928 sob a influência da mulher de Terracini, que naquele tempo estava ligada a elementos fascistas suspeitos, carta escrita com a trotskista Fanny Jezierska; a questão da troca de Gramsci nos anos 1928-1937 foi conduzida por inimigos e espiões, como Kretinski, Vizner e, evidentemente, uma série de outros que trabalhavam naqueles anos no NKID e no NKVD; verossimilmente também sabiam da questão na IKKI Piatnitski e Abramov [44].

É impossível estabelecer o grau de credibilidade que se deve dar a estas palavras que Blagoeva atribuía a Togliatti. Acima de tudo, não está claro quando ele as teria pronunciado, encontrando-se ainda na Espanha em meados de março de 1939. É bastante oportuno guardar reservas, dada a natureza inquisitória do documento e dado o fato de que Blagoeva estava empenhada em mostrar o “fundamento” das acusações, não certamente em atenuar a posição de Togliatti. Limitamo-nos a observar que, sobre a carta de 1928, ele teria simplesmente confirmado a versão de Grieco, por este dada em Moscou com a declaração de 27 de junho de 1938; ao mesmo tempo, sobre a questão da libertação de Gramsci, Togliatti não teria negado a existência de conduta duvidosa, quando não de “sabotagem”, mas a teria atribuído aos funcionários soviéticos e kominternianos expurgados nos anos anteriores, protegendo-se assim com o Leitmotiv do “trotskismo” e indicando responsáveis que não mais estavam em condições de desmentir ninguém.

Sobre o momento em que Togliatti teria pronunciado essas palavras, parece improvável que se possa remontar a sua visita a Moscou em agosto-setembro de 1938: como vimos, não está documentada nenhuma referência à questão em seu encontro com Blagoeva de 26 de agosto, e nada faz pensar que nessa data a questão tivesse assumido aspecto tão avançado e que ele então se encontrasse no banco dos réus. A não ser que Blagoeva se referisse a palavras então pronunciadas por Togliatti em defesa de Grieco e não documentadas em seu encontro: mas a funcionária da IKKI escrevia aqui sobre “acusações” dirigidas a Togliatti, não a Grieco. Por outro lado, não consta que Togliatti tenha voltado à União Soviética no inverno de 1938-1939: sabemos que ele deixou a Espanha em 24 de março [45] e só retornou à URSS em 12 de maio de 1939 [46]. Por isso, devemos considerar ou que Togliatti tenha realizado uma visita a Moscou (por nós desconhecida) no inverno de 1938-1939, ou que haja sido interpelado através de canais reservados enquanto ainda se encontrava na Espanha. Em todo caso, o próprio fato de se transcreverem aquelas palavras atribuídas a Togliatti enfatiza o salto de qualidade que a “questão Gramsci” fizera em Moscou.

A reação de Dimitrov à comunicação de Blagoeva de 19 de março de 1939 foi imediata. De fato, neste documento está escrita uma anotação de seu punho datada de 21 de março de 1939 e assim formulada: “ao c. Manuilski. Peço que dê atenção a este material” [47]. Uma referência deste gênero parecia prenunciar a continuação da investigação segundo o que propusera Blagoeva, ainda que não implicasse nenhum juízo de mérito. Ao contrário, como veremos, não seria assim.

Mas, antes de nos voltarmos para os desdobramentos subsequentes, é preciso perguntar qual a origem do encargo dado por Dimitrov a Blagoeva em 16 de fevereiro de 1939 em relação à “questão Gramsci-T.”, que levou a funcionária da Seção de Quadros a produzir a documentação até aqui examinada. De um documento sucessivo, uma carta enviada em dezembro de 1940 por Eugenia e Julia a Stalin, tomamos conhecimento de que uma das duas irmãs Schucht escrevera sobre as suspeitas de Gramsci uma carta a Nikolai Ejov, na secretaria do VKP(b), e que este a transmitira ao Komintern [48]. Além disso, numa “nota” de Blagoeva sobre Togliatti de setembro de 1940, mencionavam-se uma “acusação da viúva” que, em 1939, “chegou à IKKI” e uma “carta da viúva de Gramsci” que conteria acusações explícitas contra Togliatti: na realidade, trata-se, com toda a probabilidade, do mesmo documento, que podemos identificar com a carta a Ejov supramencionada [49]. Sobre ambos os documentos de 1940, nos deteremos mais adiante.

Portanto, em fevereiro de 1939 Dimitrov agiu com base em pressão bastante poderosa. Naquela data Ejov não era mais o chefe do NKVD, função que desempenhou de novembro de 1936 até novembro de 1938 e que o elevou ao papel de sanguinário executor do Grande Terror. Mantinha, porém, o próprio cargo na secretaria do VKP(b): sua desgraça estava no ar, mas só se tornaria fato consumado por ocasião do XVIII Congresso do VKP(b) (10-11 de março de 1939), quando sua remoção também das funções partidárias mostrou que Stalin decidira definitivamente se livrar dele [50]. É lícito considerar que a carta de Julia a Ejov tenha sido escrita após o retorno de Tatiana a Moscou e que, inclusive, tenha sido justamente este evento, verificado entre o final de novembro e os últimos dez dias de dezembro de 1938 [51], a verdadeira virada destinada a dar vida à denúncia e, em seguida, à “questão”. Neste caso, Schucht se dirigiu a Ejov em sua qualidade de secretário do VKP(b) e não de chefe do NKVD: ele se demitira do NKVD em 23 de novembro de 1938, data na qual Tatiana ainda se encontrava na Itália [52]. Em outras palavras, a iniciativa da família não envolvia, no plano formal, os órgãos de segurança soviéticos: tinha, antes, o significado de ignorar o Komintern e envolver diretamente o partido comunista da URSS. Mas não se deve esquecer que Eugenia e Julia mantiveram no passado colaboração com os organismos de segurança soviéticos, e a figura de Ejov não podia deixar de evocar esta ligação [53]. Por outro lado, Ejov fora ligado aos ambientes do Komintern, como membro da “delegação do VKP(b)” nomeada para a IKKI, no VII Congresso, em 1935 [54]. A questão, pois, foi submetida ao Komintern, com o resultado imediato da abertura de investigação. Infelizmente, não conhecemos o conteúdo da carta de Julia a Ejov. No entanto, estamos em condições de reconstruir o pensamento das Schucht, ainda que indiretamente, por meio de outro documento redigido por Blagoeva.

Trata-se de um documento intitulado “Material sobre a questão Gramsci-T.”, assinado por Blagoeva e datado de 19 de março de 1939. Esta data é a mesma da resposta de Blagoeva a Dimitrov, supracitada, e o protocolo de entrada na secretaria de Dimitrov traz, também neste caso, a data de 20 de março de 1939: isso faz pensar que o documento constituía um segundo anexo [55]. O documento é composto de uma série de extratos, selecionados e transcritos por Blagoeva, cuja proveniência se apontava, alternadamente, nas “cartas” (evidentemente as cartas trocadas entre Gramsci, Julia e Tatiana nos anos do cárcere), em informações e comunicações prestadas por Tatiana ou por Eugenia (provavelmente, pelo menos em grande parte, entre 16 de fevereiro e 19 de março de 1939) e num “texto da Seção de Quadros da IKKI” (zapis v OK IKKI), cujo conteúdo talvez fosse constituído pelo documento que datamos de 27 de junho de 1938. É necessário levar em conta que a seleção das anotações era obra de Blagoeva e que não sabemos quais fossem os critérios adotados para selecioná-las nem em que medida fossem completas. Por certo, eram incompletas, à luz daquilo que a própria Blagoeva afirmou em documento sucessivo (a já citada “nota” de setembro de 1940), no qual se afirmava que, entre as comunicações das irmãs Schucht à Seção de Quadros, figuravam também as de Julia [56], as quais, no entanto, não são citadas no documento que estamos prestes a examinar. Dada a fragmentariedade do documento em questão, é oportuno analisá-lo reagrupando as informações com base em algumas questões chave.

A primeira destas era a carta de 1928. À luz das “palavras de Schucht T.” e das “cartas”, o documento punha em sequência (implicitamente, de causa-efeito) a expedição da carta, sua inclusão no “ato de acusação” contra Gramsci, a interrupção das tratativas sobre a libertação de Gramsci que teriam sido entabuladas entre Litvinov e Grandi [responsáveis pelas relações exteriores de URSS e Itália], o processo e a condenação de Gramsci. Na realidade, a sequência não correspondia ao andamento das coisas (sabemos que a condição de reú já fora determinada antes da chegada da carta de Grieco), mas refletia uma persuasão que se fixou na correspondência do cárcere [57]. Precisava-se que Gramsci não considerava Grieco o verdadeiro responsável pela iniciativa, mas que esta “lhe foi aconselhada” e que ele “teria escrito por ditado”. Registrava-se a declaração de Grieco sobre a influência exercida pela mulher de Terracini e sobre o envio da carta a Moscou, para Germanetto, declaração que se afirmava remontar (como antecipamos acima) a 27 de junho de 1938 [58].

A segunda questão tratada no documento era a história das tentativas de libertar Gramsci nos anos 1930. Uma “comunicação de Schucht Eug.” precisava a importância da figura de Sraffa (“com ele Gramsci conversou por longo tempo e mais abertamente lhe expressou suas preocupações e conjecturas”). Além disso, estigmatizava a “provocação” constituída pela publicidade dada em 1933 à indicação dos médicos acerca da internação de Gramsci [59]. Mas a atenção estava dirigida sobretudo aos anos compreendidos entre 1934 e 1937: como se as suspeitas acumuladas nos últimos anos, os mais sofridos, tivessem a função de corroborar retrospectivamente a suspeita original de 1928. Os elementos mais destacados eram dois: a desconfiança extrema nutrida por Gramsci em relação a seus companheiros de partido; a ambígua conduta mantida por alguns funcionários soviéticos.

Blagoeva anotava que Gramsci protestou, “de 1935 até o fim”, contra a lentidão das negociações sobre sua troca, e extraía das “cartas dos anos 1934-1937” a seguinte anotação [60]: “Gramsci insistentemente diz a Moscou que conduza toda a questão de sua troca sem informar os companheiros italianos e que não lhes dê notícia sobre sua situação. Pede ao NKVD que proíba os companheiros italianos de fazer estardalhaço em torno dele” [61]. Gramsci teria considerado “provocação” o fato de os comunistas italianos passarem a lhe escrever depois de seu internamento na clínica de Formia (“comunicação de Schucht Eug.”) [62]. E avaliara como “provocação”, pedindo que se informasse ao NKVD, a diretriz do PCd’I, a ele contada por Sraffa em 1935, segundo a qual então podia “fazer o que quer, escrever para onde e para quem quer” (“informação de Schucht T.”) [63]. Até em relação à possível evasão, que fora considerada a partir de 1934, a atitude do partido teria sido equívoca. De uma “comunicação de Schucht Eug.” se extraía o seguinte: “no início de 1936 Bibolotti chegou a Moscou, Togliatti o pôs em contato com Schucht, com a qual ele começou uma conversa sobre o sequestro de Gramsci, o que demonstra que sobre este problema se tagarelava entre os companheiros italianos” [64]. Ao contrário, Gramsci continuava a depositar todas as próprias esperanças na ação dos organismos soviéticos, segundo o que ainda anotava Blagoeva a partir de “cartas” de 1937 que não conhecemos: “naquela época Gramsci repetiu algumas vezes que as comunicações do NKVD sobre o fato de que as tratativas sobre a troca seguem adiante, e que há esperanças de realizá-la, definiam toda a sua linha de conduta, de outro modo esta teria sido diferente” [65].

Mas, ao mesmo tempo, a ação dos funcionários do NKVD também era apresentada sob luz suspeita, sempre a partir de 1934. A figura no centro destas suspeitas era o cônsul soviético em Roma, P.M. Dneprov, que não pertencia ao NKID, mas ao NKVD. As outras figuras envolvidas eram Kretinski e Vejnberg (NKID), Ioffe (NKVD), Vizner (SNK, Conselho dos Comissários do Povo). Segundo uma “comunicação de Schucht Eug.”, desde 1934 Dneprov sabotou “a reexpedição de cartas recebidas de Gramsci na prisão”. Além disso, tanto Dneprov quanto o embaixador Stein mostraram comportamento ambíguo em relação à carta de 1928: “Stein recusou o pedido de T. Schucht de enviar por correio reservado a carta de fevereiro de 1928 que Garlandi escreveu a Gramsci. Ela foi expedida por correio diplomático comum, mas Dneprov não a deu à família, declarando que tinha sido recebida só uma cópia e que seu conteúdo não causava espécie. Em relação a isso, T. Schucht enviou um relatório ao NKVD” [66]. Segundo outra “informação de Schucht Eug.”, reproduzida por Blagoeva, Dneprov concentrou em seguida nas próprias mãos a questão da libertação de Gramsci depois de voltar para Moscou em 1936 [67]. Uma “comunicação de Schucht T.” revelava o que se segue: “seja no final de 1936, seja no início de 1937, representantes do NKVD por dois meses propuseram a Gramsci que comunicasse tudo aquilo que sabia sobre os trotskistas italianos. A resposta de Gramsci foi: estabeleçam boas relações com os funcionários italianos na embaixada e saberão tudo. Gramsci suspeitava de nova provocação” [68]. As suspeitas das Schucht se estendiam ao período subsequente à morte de Gramsci. Em maio de 1938, “o NKVD, na pessoa de Dneprov e de seu secretário Zarki, fez uma tentativa de tirar da família todos os manuscritos de Gramsci. Mas a declaração de Eug. Schucht, pela qual ela só os daria por ordem do CC do VKP(b), interrompeu estas tentativas” (“comunicação de Schucht Eug.”) [69]. Ao mesmo tempo, “Dneprov dirigiu a Eug. Schucht, em Moscou, estranhas perguntas sobre sua irmã T. Schucht, que se encontrava na Itália, e fez estranhas observações” (“comunicação de Schucht Eug.”) [70].

O documento também confirmava que a identificação de Togliatti como a figura sobre a qual se concentraram as suspeitas de Gramsci devia ser atribuída a Gramsci. Para tal fim, citava-se uma “informação de Schucht T.”: “em sua viagem à Itália depois da morte de Gramsci, Sraffa disse a T. Schucht que Gramsci considerava T. culpado das provocações: ‘ele pensava em T.’. Mas, quando ela lhe escreveu que era necessário fazer alguma coisa, ele aconselhou que, saindo da Itália, passasse por Paris e perguntasse a Garlandi sobre esta carta. Ela ficou desconcertada com este conselho e não foi a Paris” [71].

Comecemos aqui nossas considerações sobre o documento. Na comunicação de Blagoeva a Dimitrov de 19 de março de 1939, falava-se de um “testemunho” de Sraffa; no documento de 17 de março de 1939, citava-se, em vez disso, uma “declaração” de Sraffa; no documento ora examinado se transcreviam palavras de Sraffa referidas numa “informação” de Tatiana. As diferenças, como se vê, são significativas e nos põem diante de um enigma. Não temos condições de estabelecer se o “testemunho” de Sraffa a que Blagoeva se referia na comunicação a Dimitrov, considerando-o de todo modo insuficiente para os fins da investigação, tinha caráter direto (e estava registrado em documento que não conhecemos), ou se com este termo se indicavam simplesmente as palavras referidas por Tatiana, supracitadas. O termo russo empregado por Blagoeva (pokazanie, que significa “testemunho”, mas também “depoimento”, e não svedenie, “informação”, que foi, em vez disso, o termo empregado para as palavras de Tatiana) levaria a tender pela primeira hipótese. Mas nos documentos em anexo não se fazia referência a nenhum documento que contivesse um “testemunho” de Sraffa.

Se nos ativermos à anotação de Blagoeva supracitada, parecem ser duas as alternativas possíveis. Sraffa poderia ter ido até o ponto, em colóquio ocorrido depois da morte de Gramsci, de fazer Tatiana saber da existência da suspeita de Gramsci dirigida contra Togliatti, e depois recuado, surpreso com a insistência epistolar dela no sentido de fazer aflorar a verdade e temeroso das implicações de tal possibilidade. Ou, então, Tatiana agora atribuía a Sraffa palavras que este na realidade não pronunciara e que eram só fruto de interpretação, servindo-se de sua respeitabilidade para dar crédito a suspeita nutrida por ela. No estado de nossos conhecimentos, a segunda das duas hipóteses parece a menos convincente: Sraffa poderia ter facilmente desmascarado tal manobra, especialmente se convocado a Moscou, como Blagoeva pretendia. É fato que as Schucht não afirmaram ter ouvido diretamente de Gramsci a suspeita contra Togliatti, mas tê-la ouvido de Sraffa: evidentemente daí a ênfase no fato de que Gramsci “mais abertamente lhe expressou suas preocupações e conjecturas”. De resto, era plausível que Gramsci tivesse evitado explicitar todas as próprias dúvidas a Tatiana, que não tinha o perfil político para delas ser depositária, confessando-as, ao contrário, a um homem como Sraffa, encruzilhada de suas relações políticas restantes [72].

Com base nos apontamentos de Blagoeva, somos levados a pensar que a correspondência entre Tatiana e Sraffa nos meses do verão de 1937, que já recordamos, deva ser lida à luz do surgimento da suspeita contra Togliatti nas conversas havidas entre os dois após a morte de Gramsci [73]. Tatiana escreveu mostrando evidente expectativa de apoio que devia advir daqueles encontros, e suas palavras parecem várias vezes aludir a seu conteúdo. Em 7 de julho, exortou Sraffa a esclarecer “o que pretende fazer ou dizer a propósito da carta famosa”, a de Grieco [74]. Irritada pelo fato de que tal apelo tivesse caído no vazio, acusou-o em 16 de setembro de assumir a atitude de quem, por “amor ao quieto viver”, abandona “questões de máxima importância”, e manifestou a intenção de, uma vez retornada a Moscou, “tomar os passos necessários para conseguir apurar a verdade” com a necessária discrição, na eventualidade de haver “realmente algo sério a descobrir” [75]. Depois da resposta de Sraffa, que minimizava o significado da carta de 1928, Tatiana não escondeu uma profunda decepção em sua réplica de 28 de setembro de 1937, que não nos parece simples consequência do próprio imaginário desiludido: insinuou que o raciocínio de Sraffa era um modo de “deixar de lado deliberadamente a questão”, talvez “para não se ver às voltas com problemas” ou “porque não se quer admiti-la no caso específico”, malgrado o fato de que “não seria de se espantar, de modo algum, com a explicitação de uma atividade quase diabólica”. Sobre o conselho de ir a Paris, lembrou-lhe que “Nino sustentava que a intenção não partia de quem escreveu, mas de quem mandou escrever a carta”, e acrescentou que “o argumento sobre uma interpretação errada minha de uma alusão sua [de Sraffa], para querer sustentar a possibilidade de uma interpretação igualmente errada de Nino, também não fica de pé em absoluto”. Em vez disso, o cerne do problema – destacava Tatiana com uma afirmação que parece também uma profecia do que ocorreria mais de um ano mais tarde, depois de sua volta a Moscou – consistia em “verificar com paciência a atividade passada e presente daquele que inspirou a carta”. Na mesma carta, Tatiana se despediu de Sraffa dizendo: “não quero crer que, no fundo, não tenha pensado na coisa de modo muito mais sério do que pretende fazer crer” [76]. De onde podia vir tal convicção senão do fato de que havia uma diferença entre o que Sraffa escrevia e o que deve lhe ter dito?

O papel desempenhado por Sraffa parece bastante opaco e ambíguo. Como sabemos, depois de ter exortado Tatiana a uma conversa esclarecedora com Grieco que era bastante improvável (e que, na realidade, fora inspirada pelo Centro Externo do partido) [77], Sraffa informou o dirigente das suspeitas de Schucht sobre ele e sobre outros. Além disso, considerando o documento que identificamos como a declaração de Grieco de 27 de junho de 1938, Sraffa teria atribuído a Tatiana a suspeita de que outra pessoa havia “obrigado” Grieco a escrever a carta [78]: uma versão contrária à que Tatiana sustentava, isto é, que fora o próprio Sraffa a indicar em Togliatti a pessoa posta sob suspeição por Gramsci. No entanto, é difícil pensar que as irmãs Schucht se empenhassem numa denúncia ao VKP(b) e ao Komintern levadas só por um genérico rancor contra Togliatti e sem amadurecer uma convicção suficientemente sólida. Seu conhecimento das altas esferas do poder soviético (revelado pelo episódio do telefonema de Eugenia à secretaria de Ejov), proveniente de sua história familiar, da experiência de militância de Eugenia e Julia, bem como de sua colaboração com a OGPU [Administração Política do Estado Unificada junto ao Conselho dos Comissários do Povo], que remontava aos anos vinte, tornava-as bem sabedoras de terem iniciado um jogo muito sério e perigoso. Deve-se pensar, aliás, que a convocação de Sraffa a Moscou, sugerida por Blagoeva a Dimitrov, fosse um dos objetivos das Schucht.

Outro aspecto do documento intitulado “Material sobre a questão Gramsci-T.” que suscita atenção é a aparente contradição entre o que se reportava sobre a atitude de Gramsci voltada para privilegiar as relações com os órgãos soviéticos, inclusive os de segurança, eludindo os comunistas italianos, e as suspeitas formuladas também em relação à atividade do NKVD. Vale a pena destacar que estas suspeitas foram, em ampla medida, avalizadas pela própria Blagoeva em sua comunicação a Dimitrov de 19 de março: de fato, a funcionária sugeriu “tirar a questão das mãos daqueles que até agora a seguiram no NKVD”, como “condição” para efetivar o necessário “esclarecimento” [79]. É provável que a questão fosse suscitada à luz dos expurgos em curso na equipe de Ejov. Mas é também possível que se quisesse aludir à existência de cumplicidade entre funcionários ou setores do NKVD e alguns dirigentes do PCd’I. A este propósito assumiam papel central as acusações relativas à tentativa de subtrair da família os materiais gramscianos do cárcere. Vimos que as tensões emergiram justamente sobre isso entre a família e o partido em 1938, quando os materiais de Gramsci chegaram a Moscou. Na realidade, sua origem pode ser retrodatada ao período imediatamente subsequente à morte de Gramsci. A carta escrita por Togliatti a Manuilski em 11 de junho de 1937, para assinalar o problema da recuperação dos manuscritos do cárcere, não é só notável pela tempestiva atenção à “herança literária” do falecido, mas também porque ignorava completamente a família e indicava o PCd’I e o Komintern como os sujeitos que deviam se tornar os depositários [80]. O movimento de Togliatti não parece voltado para coadjuvar, mas, antes, sobrepujar aqueles já dados pela família, dos quais tinha conhecimento: Julia já se dirigira ao NKVD em 3 de maio e, em 11 de maio, recebera garantias de Vejnberg acerca do envolvimento do vice-comissário de Assuntos Exteriores, Vladimir Potemkin [81]. A transformação de Gramsci em ícone do comunismo italiano, realizada pelos dirigentes do PCd’I logo depois de sua morte, deve ter acirrado a irritação da família, obrigada a constatar a distância entre comportamentos reservados e públicos.

À luz de tudo isso, devemos considerar que, entre os objetivos das Schucht em seu ato de denúncia, estava o de controlar e, de seu ponto de vista, salvaguardar a gestão do legado intelectual de Gramsci. Sobre isso, obtiveram resultado imediato, a instituição de uma comissão dedicada à “herança literária do comp. Gramsci”, composta por Bevz, Blagoeva, Maggi, Tuti [Martini], Tatiana Schucht. Deve-se observar que ela se reuniu em 25 de fevereiro de 1939 (poucos dias depois do encargo de Dimitrov a Blagoeva sobre “a questão Gramsci-T.”). Blagoeva indicou como tarefa da comissão “apresentar ao comp. Dimitrov as próprias propostas sobre como usar no futuro a herança literária do comp. Gramsci”. No entanto, só se discutiu o destino da biblioteca de Gramsci [82]. Só mais tarde, em 7 de agosto de 1939, a comissão (na qual Eugenia e Julia substituíram Tatiana) reuniu-se pela segunda vez e examinou também a questão dos manuscritos. Eugenia reconheceu a oportunidade de conservá-los no arquivo da IKKI. Foi o que se decidiu, inclusive em relação à biblioteca [83].

O documento intitulado “Material sobre a questão Gramsci-T.” não continha só as anotações que Blagoeva extraíra das cartas, dos materiais da Seção de Quadros e dos interrogatórios das Schucht. Uma intervenção direta de Blagoeva parece constituída pela observação de que, logo após a morte de Gramsci, Angelo Tasca publicou em Nuovo Avanti extratos da carta de 1926 e de que esta teria mostrado “algumas oscilações de Gramsci naquela época em face da oposição unificada”. Acrescentava-se que o PCd’I replicara com os escritos de Gramsci contra Tasca, “mas contra a questão das oscilações não se escreveu nada” [84]. No arquivo, junto com o documento intitulado “Material sobre a questão Gramsci-T.”, encontra-se uma tradução do italiano para o russo do artigo de Tasca, também datada de 19 de março de 1939 [85]. Em outras palavras, a espada de Dâmocles do “trotskismo” continuava a pender sobre o PCd’I em função da “questão Gramsci”. Um post-scriptum lavrado de próprio punho por Blagoeva precisava que, “sobre o problema da atitude de Gramsci quanto ao trotskismo, Schucht Eug. respondeu citando suas palavras conhecidas de todo o partido e das massas: ‘o trokskismo é a prostituta do fascismo’” [86]. Se esta afirmação servia para afastar da figura de Gramsci a sombra, todo o conteúdo do documento, indiretamente, fazia-a projetar-se sobre os comunistas italianos. Pode-se apreender também neste caso, como naquele do documento intitulado “O fundamento da questão T.”, uma acentuada tendência de Blagoeva a se servir dos motivos oferecidos pelas denúncias das Schucht para construir uma “questão” de contornos mais bem inseridos na tradição inquisitória dos anos precedentes.

O documento se concluía com as opiniões de Blagoeva sobre as Schucht. A autora observava que contra as irmãs Schucht havia “uma série de avaliações negativas por parte dos companheiros dirigentes italianos, como pessoas estranhas, doentes, que não querem dar ao partido a herança literária de Gramsci a ele pertencente”. Blagoeva desmentia tais afirmações, apresentando Eugenia e Julia (que foram verdadeiras militantes do partido soviético) como pessoas politicamente confiáveis e Tatiana (que o fora bem menos) como pessoa respeitável. Tal juízo era reforçado pela circunstância de que o velho bolchevique Korotkov e, sobretudo, Krupskaia, mulher de Lenin, apoiaram Eugenia e Julia “em sua intenção de defender a causa de Gramsci contra os companheiros italianos” [87].

Com o documento que acabamos de examinar, esgota-se a documentação por nós encontrada e datada de 1939. O último vestígio da “questão Gramsci” que temos é a reunião da comissão em agosto de 1939, supracitada. A “questão Gramsci-T.”, da qual Dimitrov encarregou Blagoeva em 16 de fevereiro de 1939, que esta reafirmou em 19 de março, ao exortar Dimitrov a continuar a investigação, e que este transmitiu a Manuilski em 21 de março, parece patinar. Será a consequência de uma lacuna de nossos conhecimentos arquivísticos ou efetivamente a “questão” se deteve, em vez de avançar, por motivos que não conhecemos? Talvez sejam verdadeiras ambas as coisas. Um dado a ter presente é que a denúncia dos “excessos” dos expurgos feita por Stalin no XVIII Congresso (que significou a definitiva liquidação de Ejov) criava ambiente menos propício do que aquele de 1938 à investigação instruída por Blagoeva. O fato de que a pressão originária tivesse vindo de Ejov provocava agora, objetivamente, um enfraquecimento de sua eficácia. O PCd’I continuava desorientado e alvejado pelas críticas de Manuilski [88], mas a repressão maciça contra os partidos comunistas não estava mais na ordem do dia.

No entanto, estas considerações não são suficientes. O clima do Komintern permanecia o de uma organização permeada por espíritos conspirativos e criminosos. Mesmo os dirigentes de primeiro plano continuavam a se sentir inseguros: prova disso é a clamorosa desgraça conhecida por Manuilski junto a Stallin em abril de 1939 [89]. Precisamente Manuilski, talvez também com a intenção de recuperar credibilidade, escreveu uma carta a Stalin em 29 de maio de 1939, acusando Togliatti (recém-chegado a Moscou) de ter ocultado o extravio dos arquivos do partido espanhol: acusação grave, que equivalia a pôr em dúvida a capacidade de “vigilância” de Ercoli em momento delicado como a desmobilização que se seguiu ao fim da guerra civil na Espanha [90]. Assim, um novo item de acusação, não menos relevante do que a “questão Gramsci”, veio a pender sobre a cabeça de Togliatti. Depois de seu retorno a Moscou, ele foi provavelmente interrogado sobre o mérito de ambas as acusações, mas nos arquivos não foi possível encontrar documentos a este propósito [91]. Pode não ser irrelevante observar que, justamente entre abril e junho de 1939, Robotti, detido um ano antes, foi reiteradamente interrogado pelo NKVD [92].

Pouco depois Togliatti viajou para a França em missão confiada por Dimitrov, ficando distante da URSS por quase um ano, predominantemente por causa da detenção em cárceres franceses entre setembro de 1939 e março de 1940. A ausência de Togliatti de Moscou não impedira que se instruísse “a questão Gramsci-T.” na Seção de Quadros do Komintern: sua ausência sucessiva, ao contrário, parece ter correspondido a um bloqueio da questão. Apesar disso, as acusações feitas a ele permaneceram e deixaram marca bastante significativa.

A denúncia a Stalin

Em 21 de setembro de 1940, Blagoeva assinou uma “nota” (spravka) bastante dura contra Togliatti. O documento é conhecido e foi empregado por Aldo Agosti em sua biografia de Togliatti [93]. Ele é aqui relevante porque nos permite compreender, substancialmente, a evolução da “questão Gramsci” em Moscou. Blagoeva a expunha nos seguintes termos:

Em 1939 chegou à IKKI uma acusação da viúva do falecido chefe do PC da Itália, Gramsci, contra T. Consiste no fato de que Gramsci considerava T. um traidor que não merecia confiança. O fundamento disso é que T. não expressava jamais sua opinião antes da decisão sobre um problema e no passado se mostrou indeciso nos momentos mais agudos da luta interna de partido e, além disso, fez fracassar as tentativas de libertar Gramsci mediante troca, e uma série de outros fatos em relação a Gramsci, quando este se encontrava na prisão, que Gramsci avaliou como provocações por parte da direção do PC da Itália com o objetivo de impedir sua libertação. Outro fundamento desta acusação é a falta de ação para o aproveitamento da herança literária de Gramsci e a popularização de seu nome (carta da viúva de Gramsci, carta de Gramsci a sua mulher, comunicações da viúva de Gramsci e de suas irmãs à Seção de Quadros da IKKI [94].

A conclusão de Blagoeva era que “se deve considerar não esclarecido cabalmente o problema de sua atitude sobre a questão Gramsci, é preciso um novo exame” [95]. Em outras palavras, a funcionária do Komintern voltava a propor a substância das notas por ela mesma escritas em março de 1939 e apresentava a mesma conclusão já transmitida a Dimitrov em 19 de março de 1939, ainda que expressa em termos mais moderados. Isso nos faz considerar que “a questão Gramsci-T.” tivesse sido bloqueada por mais de um ano. A “nota” não continha nenhuma novidade em relação ao conjunto de informações amealhado na Seção de Quadros em fevereiro-março de 1939, tal como acima reconstruímos. Nem as fontes indicadas por Blagoeva mostravam qualquer elemento novo: de fato, citavam-se a “carta da viúva de Gramsci” (que não conhecemos) com a qual se dera o impulso original à “questão”; “cartas de Gramsci a sua mulher”; e as comunicações das Schucht à Seção de Quadros (que conhecemos em parte através da colagem composta por Blagoeva no documento de 19 de março de 1939 intitulado “Material sobre a questão Gramsci-T.”).

Por isso, a “nota” escrita por Blagoeva parece se originar não de novos desdobramentos da “questão Gramsci” em Moscou, mas da decisão de reunir informações sobre Togliatti que pusessem sua figura sob luz negativa. A “nota” não omitia referências à carta de Gramsci de 1926 e às “incertezas” de Togliatti em 1929. Não se citavam as acusações de Manuilski a propósito dos arquivos do PC espanhol, mas havia referência à detenção sofrida por Togliatti na França em 1939, observando-se que, em torno das circunstâncias da detenção e mesmo da libertação, restavam “muitas coisas a esclarecer” [96]. Talvez precisamente estas últimas circunstâncias foram motivo de suspeita suficiente para gerar a “nota”: em setembro de 1940, Togliatti voltara a Moscou fazia poucos meses e sabe-se que, nesta sua volta, lhe fora reservada acolhida nada entusiástica [97]. Por outro lado, sabemos que a sombra da suspeita alcançara Togliatti havia tempo, precisamente por causa da “questão Gramsci”. Esta última tinha claramente função central no documento, mesmo sendo só parte de um dossiê mais amplo. Todavia, a “nota” sobre Togliatti, de Blagoeva, era o testemunho de paralisia da “questão Gramsci”, não de avanço. A única evolução sensível referia-se à posição geral de Togliatti na URSS, que então parecia conhecer o prenúncio de verdadeira desgraça. Por certo, sua ligação pessoal com a tradição do antifascismo antes de 1939, renegada pelo Komintern na trilha do pacto Molotov-Ribbentrop, não constituía motivo de força no verão de 1940, em plena aliança entre Stalin e Hitler.

Em 8 de dezembro de 1940, chegou à secretaria de Stalin (Osobyj Sektor CK VKP(b)) uma carta a ele endereçada por Eugenia e Julia Schucht [98]. A cópia em nossas mãos traz apenas a data de entrada da carta na secretaria de Stalin: mas, à luz de nossos conhecimentos atuais, não há motivo para considerar que tal data seja muito distante daquela em que materialmente foi escrita. De qualquer modo, a carta segue-se à “nota” de Blagoeva sobre Togliatti, na qual, como vimos, não se aludia à existência de tal documento. A carta de Eugenia e Julia a Stalin era um duro ato de acusação contra os comunistas italianos e, indiretamente, mas não muito veladamente, contra Togliatti. Os tópicos de acusação eram dois. O primeiro era constituído pelo uso dos manuscritos do cárcere. As duas irmãs declaravam ter “muitas vezes” levantado a questão no Komintern e protestavam contra a “posição dos italianos”, que sempre fora a de considerar os materiais de Gramsci “propriedade do partido comunista italiano” e sustentar que, neste partido, “só o comp. Togliatti seria capaz e saberia prepará-los para publicação”. A opinião das Schucht era que “só um grupo de companheiros não só do partido comunista italiano, mas possivelmente também de outros partidos irmãos e, em particular, do VKP(b) saberá, sem trair o trabalho de Gramsci, dar-lhe toda a vivacidade, sufocada pelo fato de ter escrito na prisão”. Para tal fim, baseavam-se na autoridade de Krupskaia, que, como sabemos pelas notas de Blagoeva intituladas “Material sobre a questão Gramsci-T.”, apoiara as Schucht em sua defesa da “causa de Gramsci contra a ação dos comunistas italianos”: lembrava-se que ela, interpelada a propósito, “condenou decididamente” o ponto de vista dos comunistas italianos. É evidente que nestas palavras estava implícito um juízo retrospectivo extremamente negativo tanto sobre as relações entre a família e o partido, quanto sobre os trabalhos das duas comissões encarregadas, em 1939, da “herança literária” de Gramsci. As Schucht consideravam, em substância, que só se havia perdido tempo – e dolosamente: “os anos passam, anos que subtraem Gramsci à vida de modo muito mais ofensivo do que os onze anos que passou na prisão” [99].

O segundo ato de acusação remetia, nas palavras das próprias autoras, à “coisa mais grave”, vale dizer, à questão do encarceramento de Gramsci e das tentativas fracassadas de libertação. Agora, as Schucht (segundo sabemos, pela primeira vez) falavam abertamente da “mão de um traidor”, que, a seu juízo, seguira Gramsci, odiado pelos “trotskistas de todo tipo”, desde o momento da detenção. As duas irmãs pediam uma entrevista com Stalin ou, pelo menos, a possibilidade de lhe escrever a respeito. Evidentemente, com o objetivo de justificar este pedido e de destacar a seriedade da questão, descreviam sumariamente seus precedentes: informavam ao ditador que o NKVD tinha “em parte” conhecimento do assunto; que “escrevi [sic] sobre isso à secretaria do VKP(b), a Ejov”; e que “daí a carta foi enviada ao Komintern, onde por longo tempo discutiram comigo e, como me disseram, a impressão causada por esta questão foi muito forte” [100]. Apesar de não fazer acusações nominais, a carta esclarecia suficientemente quem eram os destinatários das suspeitas de Gramsci e da denúncia apresentada por sua família:

Até que ponto Gramsci suspeitava que a traição era profunda está atestado pelo fato de que, no curso dos onze anos de seu encarceramento, toda vez que ele levantava o problema das tentativas para salvá-lo, invariavelmente nos dava a indicação de se dirigir ao VKP(b) de modo que nenhum dos italianos ficasse a par do que se tentaria, senão considerava que tudo iria se perder. Não conseguimos fazê-lo e, talvez por isso, Gramsci está morto [101].

A carta das Schucht a Stalin suscita várias perguntas e considerações, antes de mais nada a respeito de suas motivações. Não sabemos até onde as irmãs sabiam dos desdobramentos havidos por sua denúncia originária, aquela feita a Ejov, e em particular dos resultados da investigação instruída por Blagoeva a mando de Dimitrov em fevereiro-março de 1939. Em parte deviam saber, como demonstra a alusão, contida na carta a Stalin, à impressão “muito forte” suscitada no Komintern por sua denúncia. De resto, vimos como Blagoeva havia dado a elas crédito inicial, além da nítida inclinação para investigar a “questão Gramsci” (confirmada na “nota” de setembro de 1940) e até gerar um verdadeiro “caso”: não se pode excluir que entre Blagoeva e as Schucht tenha havido contatos mesmo depois dos interrogatórios de fevereiro-março de 1939. De todo modo, é evidente que a denúncia originária das Schucht não dera resultados relevantes e muito menos correspondentes a suas expectativas. Ao contrário, pelo que sabemos, a investigação estava substancialmente parada.

Por isso, a carta das Schucht a Stalin deve ser interpretada como reação a este estado de coisas e como tentativa de reabrir uma questão que a primeira denúncia pusera, de seu ponto de vista, sem sucesso. Deve ser notado, a propósito, a referência, certamente não ritual, ao nome de Ejov, que em dezembro de 1940 já fora silenciosamente liquidado (detido em junho de 1939, foi condenado à norte em fevereiro de 1940). Conscientes da circunstância, as Schucht não qualificavam Ejov com o apelativo de “companheiro”, como, ao contrário, teria sido indispensável em circunstâncias normais: mas, mesmo assim, consideravam necessário mencionar o nome do renegado (ato arriscado, mas permitido pela ausência de condenação pública), com toda a probabilidade visando a justificar agora seu próprio apelo a Stalin, aludindo à existência de possíveis responsabilidades e cumplicidades no fato de não ter ido adiante sua denúncia originária. Esta insinuação também se estendia ao Komintern, como parece mostrar a frase sibilina (que podia se referir tanto a Grieco quanto a Togliatti) que seguia as palavras relativas à impressão “muito forte” suscitada neste organismo pela denúncia originária: “A partir de qual fonte estas suspeitas chegaram até um dos italianos sob suspeita não sei, mas que chegaram é também fato” [102].

Desde o início, as Schucht revelaram a vontade de se dirigirem a uma autoridade superior ao Komintern: este também era o sentido de sua decisão de apresentar a denúncia ao VKP(b) e não à IKKI. Com o apelo a Stalin, as irmãs repetiam a mesma operação, desta vez voltada para envolver a máxima autoridade do comunismo soviético, como a varrer qualquer surda resistência e obscura cumplicidade. A carta talvez contivesse alusão ao risco de interrupção da investigação, quando sustentava, também neste caso de modo sibilino, que:

Gramsci podia se equivocar sobre os nomes, mas, se só isso for estabelecido pelo Komintern (mas também é possível que isso não seja estabelecido), não será suficiente: se mataram Gramsci, foi com o objetivo de matar a causa do comunismo, e, enquanto este não triunfar em toda a Terra, é preciso conhecer os próprios inimigos e combatê-los. E dessa luta Gramsci ainda pode tomar parte [103].

Em outras palavras, não bastava tomar ciência da existência de culpados, porque estes eram automaticamente inimigos a aniquilar: e, de modo verossímil, o Komintern não era sequer capaz de identificá-los. Se tal leitura estiver correta, ela envolvia diretamente Dimitrov. Podemo-nos perguntar se as Schucht não atribuíam exatamente a ele o não andamento da “questão Gramsci-T.”. O objetivo principal de sua carta a Stalin era claramente forçar Dimitrov a reabrir a “questão Gramsci”.

Em 12 de dezembro de 1940, o secretário de Stalin, Poskrebisev, enviava a Dimitrov cópia da carta de Eugenia e Julia [104]. Em 21 de dezembro, Dimitrov escreveu de próprio punho, sobre a comunicação recebida do secretário de Stalin, a seguinte anotação: “Examinado com a participação dos cc. E. Schucht, Ercoli, Bianco, Blagoeva. Preparar ata para mandar ao c. Poskrebisev” [102]. A ata a que Dimitrov se referia eram a da reunião da secretaria da IKKI, realizada naquele mesmo dia. As decisões tomadas pela secretaria “sobre o fundo arquivístico e a herança literária de Gramsci”, com a data de 23 de dezembro, mostram que as medidas previstas pela comissão de 1939 tinham permanecido, em substância, letra morta, como as Schucht agora de fato denunciavam. Tais decisões previam, em particular, transferir para “fundo especial” do arquivo da IKKI todos os materiais, inclusive os manuscritos, que ainda se encontravam com a família; criar uma comissão (composta por Bianco, Eugenia Schucht e Blagoeva) para o exame da biblioteca de Gramsci, uma “parte” da qual seria incluída no “fundo” supramencionado (enquanto a outra parte restava, evidentemente, com a família, como Eugenia e Julia pediram a Stalin) [106]; colocar a “máscara de gesso de Gramsci” no Museu Lenin (também neste caso acedendo a um pedido das irmãs Schucht a Stalin) [107]; encarregar uma comissão (composta por Kolarov, Togliatti, Bianco, Schucht [sic], Stepanov) de “elaborar propostas concretas sobre o uso da herança literária de Gramsci” até 20 de janeiro de 1941 [108]. Na mesma data da ata que registrava as decisões da secretaria, em 23 de dezembro, Dimitrov escreveu de próprio punho o que se segue, na primeira página da cópia em seu poder da carta de Eugenia e Tatiana a Stalin: “Voltei a falar com a c. Schucht. O problema foi resolvido” [109]. Em 24 de dezembro, Dimitrov enviou a Poskrebisev a decisão da secretaria da IKKI “sobre a carta das cc. Schucht E. e Schucht Ju.” [110].

Devemos deduzir daí que as decisões tomadas pela secretaria da IKKI sobre a “herança literária” de Gramsci representaram uma solução de compromisso, embora não se fizesse nenhuma referência à questão principal por elas levantada, a “traição” de Gramsci por parte dos comunistas italianos. Talvez sobre tal questão se tenha decidido não deixar nada escrito e talvez o próprio procedimento adotado por Poskrebysev induzisse a colocá-la em segundo plano. Se a decisão de Stalin de remeter a carta a Dimitrov era sob muitos aspectos óbvia, ela também podia significar uma negativa do ditador ao pedido de receber as irmãs e ouvir pessoalmente sua versão da “história do encarceramento de Gramsci” [111]. Isso implicava, de fato, recuo e minimização da denúncia de Eugenia e Julia.

A “questão Gramsci” foi assim reaberta, embora só parcialmente. A única via para manter o compromisso aparentemente alcançado sob o patrocínio de Dimitrov, em dezembro de 1940, era a de encetar efetivamente o trabalho sobre a “herança literária” de Gramsci. Desta vez a questão foi mantida sob estrito controle exercido pelo próprio Dimitrov. Em 19 de fevereiro de 1941, Blagoeva o informou de que a família Schucht manifestara descontentamento a Bianco, porque a comissão para a “herança literária” de Gramsci instaurada pela decisão de 23 de dezembro de 1940 ainda não se reunira. Dimitrov pediu ao próprio secretário político, Sergeev, que fizesse o controle [112]. Isso forçou Togliatti, que era seu responsável, a apresentar uma justificação. Em 25 de fevereiro, explicou a Dimitrov, através de Sergeev, que não pudera convocar a comissão por causa da ausência de um de seus membros (Kolarov) e porque era necessário esperar que a primeira comissão terminasse os trabalhos, mas prometeu efetuar a convocação o quanto antes e informar a família através de Bianco. Dimitrov enviou a comunicação de Togliatti a Blagoeva [113].

Em 25 de abril de 1941, Togliatti escreveu a Dimitrov uma carta que prestava conta dos trabalhos da comissão e expressava suas opiniões pessoais [114]. Togliatti informava a Dimitrov ter “estudado cuidadosamente quase todos” os Cadernos. Ele se dizia contrário a deixar com a família uma cópia dos manuscritos de Gramsci, porque estes “contêm materiais que só podem ser utilizados depois de acurada elaboração”, em cuja ausência “o material não pode ser utilizado e, ao contrário, algumas partes, se fossem utilizadas na forma em que se encontram atualmente, poderiam não ser úteis ao partido”. Posta no contexto dos documentos que ora conhecemos, e em particular da carta de Eugenia e Julia a Stalin, esta carta de Togliatti a Dimitrov nos aparece sob luz em boa parte diversa daquela do momento em que foi encontrada [115]. A reserva acerca da oportunidade de dar a conhecer sem “elaboração” algumas passagens dos Cadernos soava como justificativa para o atraso acumulado até então e era índice de preocupação com a margem de tolerância muito exígua do ambiente soviético, que Togliatti mostrava observar diligentemente.

Sob este aspecto, a carta das Schucht a Stalin teve evidentemente resultado. As acusações de premeditada sabotagem do legado gramsciano, por elas dirigidas a Togliatti, parecem amplamente infundadas, até mesmo simplesmente à luz do dado de que este só havia se estabelecido estavelmente na URSS cerca de três anos depois da morte de Gramsci. Deve-se perguntar, porém, se as irmãs não haviam agigantado uma atitude efetivamente presente em Togliatti em relação ao legado gramsciano: uma extrema circunspecção política que podia derivar tanto das suspeitas de “trotskismo” que pesavam sobre o grupo dirigente do PCd’I, quanto da consciência do caráter heterodoxo dos Cadernos na cultura comunista da época (que ele podia ter percebido tempestivamente, até pela leitura parcial de extratos fotocopiados) [116]. O fato é que o primeiro sinal de significativa elaboração da “herança literária” de Gramsci só foi fornecido por Togliatti em observância a uma decisão da secretaria da IKKI, depois da denúncia apresentada pelas Schucht a Stalin.

As consequências do conflito entre a família Schucht e Togliatti não podiam ser sanadas facilmente e estavam forçosamente destinadas a deixar sequelas humanas e políticas. Infelizmente, no entanto, nossos conhecimentos sobre o impacto da carta de Eugenia e Julia a Stalin estão limitados aos documentos até aqui examinados. O que sabemos é que a desgraça de Togliatti, atestada pela “nota” de Blagoeva de setembro de 1940, continuou mesmo na primeira metade de 1941. Demonstra-o uma fonte importante como o Diário de Dimitrov. Em 19 de julho de 1941, pouco depois do início da guerra entre a Alemanha nazista e a União Soviética, Dimitrov anotou no próprio Diário ter acertado com Dolores Ibarruri excluir Togliatti “das questões estritamente secretas” por causa de sua inconfiabilidade política, denunciada pelos comunistas espanhóis. Na mesma anotação, Dimitrov escreveu que “um sinal neste sentido”, vale dizer, no sentido da inconfiabilidade política, também provinha da família de Gramsci [117]. Se Dimitrov, que conduzira até então, verossimilmente, discreta defesa de Togliatti, considerou oportuno registrar este apontamento em seu Diário, isso significa que a questão era bastante séria. O secretário do Komintern bem sabia que pelo menos a suspeita contra Togliatti gerada pelas denúncias das irmãs Schucht chegara até Stalin. Assim, a “questão Gramsci” nos parece no centro da desgraça sofrida por Togliatti entre 1939 e 1941. Mas o apontamento de Dimitrov é o último vestígio que conhecemos. Nos anos da guerra, a “questão Gramsci” submergiria e se modificaria irreversivelmente.

Conclusões

Nossas considerações devem se articular em dois aspectos: quais são os elementos de conhecimento que os documentos por nós examinados nos trazem sobre as vicissitudes carcerárias de Gramsci e, em particular, suas relações com Togliatti e o partido; qual foi a dinâmica e o significado da “questão Gramsci” post-mortem na União Soviética. Sobre o primeiro dos dois aspectos, deve-se antes de mais nada observar que a documentação de 1938-1941 até agora surgida não contém elementos concretos que modifiquem sensivelmente nossos conhecimentos sobre a carta de 1928 e as tentativas de libertar Gramsci. O que contém, no entanto, não deve ser subestimado: ela nos permite ver muito melhor quão grave era a suspeita amadurecida por Gramsci contra o partido e quão desgastada, e mesmo comprometida, era a relação entre Gramsci e sua família, por uma parte, e os comunistas italianos, por outra. Isso corrobora a hipótese formulada por Aldo Natoli, que intuiu dirigir-se a suspeita de Gramsci contra Togliatti [118]. Já não há mais sentido em falar, segundo a expressão cunhada por Paolo Spriano, sobre uma “linha de sombra” nas relações entre Gramsci e o partido ou entre Gramsci e Togliatti. A documentação em nosso poder, ao contrário, nos leva a afirmar que, por parte de Gramsci, consumou-se uma fratura insanável. Vimos que a identificação de Togliatti como o alvo principal da suspeita de Gramsci, da parte da família, se baseava em fonte indireta e controvertida, mas também a mais respeitada, Piero Sraffa. Toda a documentação da “questão” moscovita remete à profundidade de uma ruptura pessoal entre os dois líderes do comunismo italiano.

É evidente que algumas das suspeitas de Gramsci e de sua família não se baseavam em dados verificáveis. É o caso, que já destacamos, do nexo causal estabelecido de modo arbitrário pelo próprio Gramsci e pelas Schucht entre a carta de 1928, a interrupção das negociações para a libertação e a condenação: nexo que já se estabelece na correspondência de 1932, 1933 e 1934 [119]. Não temos nenhuma prova sequer sobre o fato de que tenha efetivamente acontecido uma conversa entre Litvinov e Grandi sobre Gramsci [120]. Restam, de fato, a “estranheza” da carta e as interrogações que ela nos coloca. Mas há uma observação a fazer a propósito. Não pode ser esquecido que, de acordo com os documentos por nós examinados, nenhum dos protagonistas em Moscou, a uma distância de dez anos ou mais, formulou a hipótese de manipulação da carta por parte da polícia fascista, que teria constituído um argumento de defesa e autoabsolvição bastante forte [121]. É evidente que sobre esta consideração pesa uma reserva ligada à natureza mesma da documentação aqui empregada: de fato, trata-se de documentos destinados a acusar ou a inquirir. Já observamos como os argumentos referidos por Blagoeva, que Togliatti teria apresentado em sua defesa, devem ser vistos com extrema cautela. Devemos assinalar, porém, que não consta terem Grieco ou Togliatti apresentado a dúvida da manipulação contra Blagoeva.

A documentação por nós examinada sugere, sobretudo, que o problema não pode ser circunscrito à carta de 1928. Certamente, este foi o episódio desencadeador da suspeita de Gramsci, tendo permanecido um ponto firme até o fim. As irmãs Schucht consideravam sua carta a Tatiana de 5 de dezembro de 1932 como a prova decisiva da suspeita de Gramsci. Esta carta foi elemento constante na “questão” de Moscou e restou entre os papéis de Dimitrov, provavelmente junto com a carta de Eugenia e Julia a Stalin [122]. A centralidade atribuída pelas Schucht à carta de Gramsci a Tatiana de 5 de dezembro de 1932 mostra-se coerente com sua insistência no agravamento da suspeita de Gramsci nos últimos anos de vida, em particular no período 1934-1937. Em outras palavras, a carta de 5 de dezembro de 1932 não parece só um documento voltado para comprovar o juízo de Gramsci sobre a carta de Grieco de 1928, mas também para mostrar a persistência de sua suspeita.

Tal suspeita, pelo contrário, se agravou no curso do tempo. Provavelmente teve papel decisivo o isolamento político ao qual Gramsci, em odor de “trotskismo”, foi reduzido pelo partido depois da “virada” de 1929. A partir de 1930, suas relações com o partido sofreram um eclipse e ele conheceu uma marginalização até entre os companheiros de cárcere. Foi esta gravíssima situação que alimentou seja as dúvidas mais fundamentadas, seja, também, os piores fantasmas que deviam habitar a mente de Gramsci. No verão de 1930, durante a visita a Turi do irmão Gennaro, manifestou a ideia de que “a estranha carta” de Grieco havia constituído, para ele, “o mais grave tópico de acusação” [123].

Os documentos agora em nosso poder nos permitem sustentar que as ações empreendidas pelos comunistas italianos, a partir de 1933, para fins de sua libertação, ou mesmo só para recuperar uma relação com ele depois da virada antifascista, não tiveram para Gramsci nenhum significado. Ele provavelmente via a campanha para sua libertação, em 1933-1934, como instrumento que visava muito mais ao aspecto propagandístico do que ao resultado concreto: este último podia ser até comprometido por tais campanhas. A decisão de Gramsci de excluir os comunistas de suas tentativas de libertação, depois de 1933, já era conhecida [124]. Mas agora ela nos aparece sob luz diversa: não mais a de inoportunidade, mas a de desconfiança e hostilidade. Por isso, parece fundamentada a tese, formulada por Vacca, de que a suspeita de Gramsci contra Togliatti tenha amadurecido nesses anos [125].

Antes de tudo, Gramsci foi “traído” por um costume e uma mentalidade que se desenvolviam na cultura política comunista e cujas raízes certamente não lhe eram desconhecidas. Mas as Schucht não puseram o problema nestes termos, porque isso teria colocado em questão a política do Komintern e a liturgia do movimento comunista: a própria cultura política das irmãs tornava impossível ver assim as coisas. Por isso, seu ato de acusação terminou por apresentar a questão da “traição” na chave conspiratória do complô: e, se bem que os elementos indiciários em seu poder fossem frágeis, não era isso que contava no mundo comunista da época. Sob este aspecto, a passagem da busca de justiça para a vingança não era longa e podia ser instrumentalizada para outros fins, de chantagem e repressão, na URSS do Grande Terror. Voltamo-nos, assim, ao segundo aspecto de nossas conclusões, o das dinâmicas e do significado da “questão”.

Em que medida a ação das irmãs Schucht, na Moscou de 1939-1940, deve ser vista à luz de motivação autônoma, reação à dor e ao dilaceramento conhecidos na década transcorrida, levados ao ápice pelo desfecho fatal da morte de Gramsci? Não é fácil responder a esta pergunta. Certamente, porém, tal ação também apresentou um lado obscuro. Pode-se seriamente duvidar de que Julia, doente, e Tatina, havia muito tempo na Itália, estivessem plenamente conscientes das consequências de uma denúncia de traição apresentada, na URSS da época, primeiro a Ejov e depois a Stalin. É mais difícil pensar o mesmo de Eugenia, que, no âmbito da família, parece ter assumido o papel de liderança depois de fevereiro-março de 1939: foi ela, junto com Julia, quem substituiu Tatiana na comissão sobre a “herança literária” de Gramsci e, sobretudo, foi ela quem participou da reunião com Dimitrov, Togliatti, Bianco e Blagoeva em 21 de dezembro de 1940. Uma segunda pergunta é representada pelos motivos por que a protagonista inicial, Tatiana, desaparece de nossa documentação depois de fevereiro-março de 1939 [126]. Em todo caso, mesmo independentemente das intenções das Schucht, a instrução de Blagoeva se deu segundo as linhas do Grande Terror, no sentido de uso indiscriminado do passado para recolher os elementos necessários a dossiês policiais.

Todas as vicissitudes por nós reconstruídas, por isso, remetem à desgraça conhecida por Togliatti após o fim da guerra da Espanha, constituindo um de seus elementos essenciais. Como sabemos, motivos de preocupação pessoal surgiram, para ele, já em 1938, em paralelo com a crise do PCd’I. Todavia, não temos elementos para fazer remontar a desgraça de Togliatti a 1938. Ele foi até nomeado responsável pelo “centro dirigente de reserva” do Komintern no exterior, criado por Dimitrov em agosto de 1938, talvez na previsão de possível deflagração da guerra na Europa por causa da crise tcheco-eslovaca [127]. O primeiro verdadeiro sinal de declínio sofrido por Togliatti no Komintern esteve representado precisamente pela “questão Gramsci-T.”, em fevereiro-março de 1939. Surgida no contexto da crise do PCd’I, mas destinada a assumir dimensão específica, a “questão Gramsci” nos parece, hoje, ter revestido papel muito mais importante do que nos parecia até há pouco. Em 1940, ela chegou até Stalin, em momento que já registrava o aumento da desgraça de Togliatti.

Provavelmente, a guerra entre a União Soviética e a Alemanha nazista é que pôs uma pedra sobre toda a questão. Os próprios abalos da mudança de época relegaram-na ao passado. A volta do antifascismo contribuiu para a retomada do papel dirigente de Togliatti no comunismo italiano e no internacional. Os resultados políticos do conflito abriram o caminho para uma solução da “questão Gramsci” que os protagonistas de 1938-1941 sequer podiam imaginar. Todas as vicissitudes pré-bélicas que se resumem naquela fórmula permanecem, tanto em suas características humanas dilacedoras e penosas, quanto em suas características políticas ambíguas e dramáticas, como uma história paradigmática do comunismo da época staliniana.

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Silvio Pons, professor da Universidade Tor Vergara, em Roma, e vice-diretor da Fondazione Istituto Gramsci, é autor, entre outros, de A revolução global. História do comunismo internacional, 1917-1991 (Contraponto & Fundação Astrojildo Pereira, 2014). 

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Notas

[1] G. Vacca. Togliatti sconosciuto. Roma: l’Unità, 1994, p. 55. Cf., além disso, G. Vacca. Appuntamenti con Gramsci. Roma: Carocci, 1999, p. 103.

[2] Cf. A. Gramsci-T. Schucht. Lettere 1926-1935. Org. A. Natoli e C. Daniele. Turim: Einaudi, 1997, p. 1137. Para uma reconstrução do debate histórico em torno da carta de Grieco de 1928, remetemos a Vacca, Appuntamenti con Gramsci, cit. Adotamos no presente ensaio a transliteração de uso dominante (Schucht) em lugar da que seria correto usar (Sucht).

[3] Vacca, Appuntamenti con Gramsci, cit., p. 97-101.

[4] Rossijskij Gosudarstvennyj Archiv Socialno-Politiceskoj Istorii (RGASPI), fond 495, opis 74, delo 250, listy 96, 96ob.

[5] Cf. Vacca, Appuntamenti con Gramsci, cit., p. 101-2.

[6] RGASPI, f. 495, op. 137, d. 8, ll. 14-5.

[7] Provavelmente, referência à visita do irmão de Gramsci, Gennaro, ao cárcere de Turi, ocorrida na realidade em julho de 1930: RGASPI, f. 495, op. 221, d. 1826.

[8] Evidentemente, referência à visita de Sraffa a Gramsci ocorrida em Formia, na realidade, em 2 de janeiro de 1935. As datas constam das agendas de Sraffa conservadas em Piero Sraffa papers, Diaries, Cambridge, Trinity College, Wren Library. Agradeço a Chiara Daniele e Giuseppe Vacca por me terem gentilmente fornecido esta informação.

[9] RGASPI, f. 495, op. 137, d. 8, ll. 14ob.-15. O destaque está no original.

[10] RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, l. 16.

[11] P. Spriano. Storia del Partito comunista italiano. III. I fronti popolari, Stalin, la guerra. Turim: Einaudi, 1970, p. 156.

[12] RGASPI, f. 495, op. 137, d. 8, l. 14.

[13] Cf. G. Gramsci. “Ricordo di Tatiana”. Prefácio de T. Schucht. Lettere ai familiari. Introdução e organização de M. Paulesu Quercioli. Roma: Riuniti, p. XIX. O testemunho de Giuliano Gramsci é aceito com reservas por Vacca, Appuntamenti con Gramsci, cit., p. 123.

[14] RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, l. 21.

[15] Cf. W. J. Chase. Enemies Within the Gates? The Comintern and the Stalinist Repression, 1934-1939. New Haven e Londres: Yale University Press, 2001.

[16] RGASPI, f. 495, op. 74, d. 250.

[17] Estes materiais estão conservados em RGASPI, f. 495, op. 74, d. 250.

[18] Cf. E. Dundovich. Tra esilio e castigo. Il Komintern, il Pci e la repressione degli antifascisti italiani in URSS (1936-38) . Roma: Carocci, 1998, p. 84.

[19] Sobre a Seção de Quadros da IKKI nos anos trinta, veja-se P. Hubner. “The Cadre Department, the OMS and the ‘Dimitrov’ and ‘Manuil’sky’ Secretariats during the Phase of the Terror”. In: M. Narinsky e J. Rojahn (eds.). Centre and Periphery. The History of the Comintern in the Light of New Documents. Amsterdã: International Institute of Social History, 1996, p. 122-45.

[20] RGASPI, f. 495, op. 10a, d. 182.

[21] Cf. Komintern protiv fasizma. Dokumenty. Moscou: Nauka, 1999, doc. 120, p. 461-3.

[22] Cf. E. Dundovich, F. Gori, E. Guercetti (eds.). “Italian Emigration in the USSR: History of a Repression”. In: Id. Reflections on the Gulag. With a Documentary Appendix on the Italian Victims of Repression in the USSR. Milão: Fondazione Feltrinelli, Annali, XXXVII (2001), 2003.

[23] A melhor reconstrução é a de Dundovich, Tra esilio e castigo, cit.

[24] Cf. C. Daniele (Org.). Gramsci a Roma, Togliatti a Mosca. Il carteggio del 1926, com ensaio de G. Vacca. Turim: Einaudi, 1999, doc. 42. Os principais dirigentes do partido soviético e alguns dirigentes do Komintern então tiveram conhecimento da carta. Apesar de exprimir desacordo com o conteúdo da carta, Togliatti dela deu notícia a Bukharin, Manuilski e Kuusinen: cf. ib., doc. 44. Como observou Vacca, com base em testemunho prestado por Togliatti muitos anos depois, é provável que, por meio de Bukharin, Stalin também tenha tido conhecimento: cf. ib., p. 6. Agora sabemos que Stalin foi informado da existência da carta também por outra fonte, o embaixador soviético em Roma, por solicitação de Gramsci. Isso se deduz da seguinte carta, enviada por P.M. Kerzentchev em 6 de outubro de 1926: “Caro companheiro, o c. Gramsci, membro do CC e do birô político do partido italiano, me comunicou hoje que o CC enviará a nossa conferência de partido uma carta que contém a indicação de todo o dano causado pela oposição ao trabalho comunista no exterior. Ele pediu minha opinião (na forma de uma conversa privada, amigável). Como membro do VKP(b), disse a ele que o envio de tal carta traria apoio a nosso partido, uma vez que, efetivamente, a oposição destrói a causa do comunismo não só entre nós, mas por toda parte. Gramsci disse que a carta será enviada nos próximos dias. Comunico-lhe para seu conhecimento. Saudações comunistas, Kerzentchev”. A carta está conservada entre os papéis pessoais de Stalin: RGASPI, f. 558, op. 11, d. 753, ll. 104 recto e verso.

[25] P. Spriano. Gramsci in carcere e il partito. Roma: Riuniti, 1977.

[26] RGASPI, f. 495, op. 10a, d. 182.

[27] No Diário de Dimitrov, a presença de Togliatti em Moscou, entre meados de agosto e o início de setembro de 1938, só é citada a propósito de seus encontros com o próprio Dimitrov e outros dirigentes do Komintern para discutir as questões da guerra da Espanha. Cf. G. Dimitrov. Diario. Gli anni di Mosca. Org. Silvio Pons. Turim: Einaudi, 2002, p. 90-5.

[28] RGASPI, f. 495, op. 74, d. 250, ll. 130-40.

[29] Ib., l. 135.

[30] Ib., l. 96.

[31] Ib., ll. 109-10.

[32] Ib., l. 133.

[33] Fondazione Istituto Gramsci, APC, f. 513, fasc. 1494, Ata da Secretaria, 16 set. 1938.

[34] P. Spriano. Gramsci in carcere e il partito, cit., p. 120.

[35] APC, f. 513, fasc. 1494, Ata da Secretaria, 16 set. 1938.

[36] Originalmente conservado entre os papéis da secretaria de Georgi Dimitrov, o documento foi recentemente recolocado pelos arquivistas no fundo pessoal de Antonio Gramsci: RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, l. 13. Na colocação original, o documento (assim como outros documentos que serão citados em seguida) fazia parte de uma pasta que continha materiais relativos à atividade do PCd’I nos anos 1940 e 1941: RGASPI, f. 495, op. 74, d. 253.

[37] RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, l. 13.

[38] “Obosnovanie dela T.”, RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, ll. 14-15. Veja-se a nota 36.

[39] Sobre a campanha para a libertação de Gramsci em 1933, veja-se C. Natoli, “Gramsci in carcere: le campagne per la liberazione, il partito, l’Internazionale (1932-1933)”. Studi storici, 1995 (36), n. 2, p. 295-352.

[40] “Obosnovanie dela T.”, RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, l. 14.

[41] Ib., l. 15.

[42] Cf. Gramsci a Roma, Togliatti a Mosca, cit., doc. 1.

[43] Cf. P. Spriano. Storia del Partito comunista italiano. II. Gli anni della clandestinità. Turim: Einaudi, 1969, p. 210 s.

[44] “Obosnovanie dela T.”, RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, l. 15. Sobre a figura de Fanny Jezierska, veja-se Spriano, Gramsci in carcere e il partito, cit., p. 31-2, e Vacca, Gramsci a Roma, Togliatti a Mosca, cit., p. 155. Nikolai Kretinski, vice-comissário de Relações Exteriores de 1934 a 1936, foi detido em 1937 e condenado à morte no processo de Moscou de março de 1938. Iosif Piatnitski, até 1935 um dos principais dirigentes do Komintern, foi expurgado em 1937. A.L. Abramov, um dos principais colaboradores de Piatnitski como responsável pela Seção para as Relações Internacionais (OMS) da IKKI, foi expurgado em 1936.

[45] Dimitrov, Diario, cit., p. 176.

[46] Ib., p. 174.

[47] RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, l. 13. O destaque está no original.

[48] Ib., l. 29.

[49] RGASPI, f. 495, op. 221, d. 1, ll. 258-61.

[50] Cf. O. Khlevnjuk. Politbjuro. Mechanizmy politiceskoj vlasti v 1930-e gody. Moscou: Rosspen, 1996, p. 215.

[51] O retorno de Tatiana Schucht a Moscou aconteceu entre 25 de novembro de 1938 (Cf. Vacca, Stalin sconosciuto, cit. P. 140) e 21 de dezembro de 1938, quando Manuilski comunicou a Dimitrov que, já se encontrando em Moscou “a irmã da mulher de Gramsci”, não havia mais a necessidade de repassar-lhe dinheiro (RGASPI, f. 495, op. 74, d. 250, l. 155). A data de retorno de Tatiana a Moscou é indicada em dezembro de 1938 numa breve notícia biográfica sobre ela escrita por Blagoeva em outubro de 1940: RGASPI, f. 495, op. 65a, d. 13883.

[52] Cf. Chlevnjuk, Politbjuro, cit., p. 214.

[53] C. Daniele e G. Vacca. Le donne di Gramsci. Turim: Einaudi.

[54] Cf. K. McDermott e J. Agnew. The Comintern. A History of International Communism from Lenin to Stalin. Londres: Macmillan, 1996, p. 150.

[55] “Material po delu Gramsci-T.”, RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, ll. 16-22. Veja-se a nota 36.

[56] RGASPI, f. 495, op. 221, d. 1, l. 260.

[57] Cf. G. Fiori. Gramsci Togliatti Stalin. Roma-Bari: Laterza, 1991, p. 10 s. Vacca, Appuntamenti con Gramsci, cit., p. 73. Veja-se também Daniele e Vacca, Le donne di Gramsci, cit.

[58] “Material po delu Gramsci-T.”, RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, l. 16.

[59] Ib., l. 17.

[60] Não está claro se se referia a cartas de Gramsci, de Tatiana ou de Julia.

[61] “Material po delu Gramsci-T.”, RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, l. 18.

[62] Ib., ll. 17-18. O episódio do discurso de Germanetto no Congresso dos Escritores em Moscou, em 1934, imediatamente registrado nos ambientes diplomáticos italianos como confirmação do papel de líder de Gramsci, corrobora suas suspeitas sobre a conduta irresponsável dos comunistas italianos. Cf. L’ultima ricerca di Paolo Spriano, p. 29-30.

[63] “Material po delu Gramsci-T.”, RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, l. 19.

[64] Ib.

[65] Ib.

[66] Ib., l. 21. B. E. Stein foi embaixador da URSS na Itália de novembro de 1934 a setembro de 1939.

[67] Ib., ll. 18-9.

[68] Ib., l. 20.

[69] Ib., l. 21.

[70] Ib., l. 22.

[71] Ib., l. 20.

[72] Sobre o papel de Sraffa nas relações entre Gramsci, Togliatti e o partido, veja-se agora Daniele e Vacca, Le donne di Gramsci, cit.

[73] Sraffa esteve na Itália antes da morte de Gramsci, de 17 de março a 18 de abril de 1937, e depois, novamente, de 25 de junho a 11 de julho de 1937. As datas constam das agendas de Sraffa conservadas em Piero Sraffa papers, Diaries, Cambridge, Trinity College, Wren Library. Agradeço a Chiara Daniele e Giuseppe Vacca por me terem gentilmente fornecido esta informação.

[74] A. Gramsci-T. Schucht, Lettere, cit., Apêndice I, p. 1468.

[75] Ib., p. 1469.

[76] Ib., p. 1471-2.

[77] Cf. Daniele e Vacca, Le donne di Gramsci, cit.

[78] RGASPI, f. 495, op. 137, d. 8, l. 15.

[79] RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, l. 13.

[80] RGASPI, f. 495, op. 12, d. 152. Cf. Vacca, Appuntamenti con Gramsci, cit., p. 122.

[81] Cf. L’ultima ricerca di Paolo Spriano. Roma: l’Unità, 1988, p. 32-3. Em 1937, F.S. Veinberg era responsável pelo terceiro departamento ocidental do Comissariado de Relações Exteriores da URSS; no início dos anos trinta, fora funcionário da embaixada soviética em Roma. V.P. Potemkin foi embaixador da URSS na Itália de 1932 a novembro de 1934.

[82] RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, l. 1.

[83] Ib., ll. 2-6.

[84] “Material po delu Gramsci-T.”, ib., l. 21.

[85] Ib., ll. 23-5.

[86] Ib., l. 22.

[87] Ib.

[88] Cf. Spriano, Storia del Partito comunista italiano, III, cit., p. 261.

[89] Dimitrov, Diario, cit., p. 170-1.

[90] RGASPI, f. 495, op. 10a, d. 409a, ll. 49-50.

[91] No Diario de Dimitrov, o nome de Togliatti só aparece em maio-junho de 1939 relacionado às questões políticas espanholas: cf. Dimitrov, Diario, cit., p. 174 s. Seja como for, deve-se observar que, também a este propósito, a situação de Togliatti não era nada brilhante: depois da queda de Madri, em conversa com Dimitrov, Manuilski e Diaz, em 7 de abril de 1939, Stalin pessoalmente formulou graves reservas sobre a condução da última fase da guerra civil: cf. ib., p. 166-7.

[92] Veja-se Reflections on the Gulag, cit., Apêndice, p. 528-52.

[93] Cf. A. Agosti. Togliatti. Turim: UTET, 1995, p. 109-10.

[94] RGASPI, f. 495, op. 221, d. 1, l. 260.

[95] Ib., l. 261.

[96] Ib.

[97] Agosti, Togliatti, cit., p. 256-57.

[98] RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, ll. 28-31. Veja-se a nota 36. Em relação à colocação original do documento (os papéis da secretaria de Dimitrov), deve-se observar, como é possível reconstruir a partir da sucessão numérica do protocolo de entrada, que, enquanto os documentos da “questão” relativos a 1939 (segundo a nova colocação, f. 519, op. 1, d. 114, ll. 13-25) se encontravam no início da pasta (f. 495, op. 74, d. 253), a carta de Eugenia e Julia Schucht a Stalin se encontrava quase no final e era o último dos documentos relativos ao ano de 1940.

[99] RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, ll. 28-9.

[100] Ib., l. 29.

[101] Ib., ll. 29-30.

[102] Ib., l. 29.

[103] Ib., l. 30. Os destaques estão no original.

[104] Ib., l. 27. A cópia da carta enviada a Dimitrov é o exemplar de que dispomos.

[105] Ib. O destaque está no original.

[106] Ib., l. 30.

[107] Ib.

[108] Ib., ll. 7-8.

[109] Ib., l. 28.

[110] Ib., l. 26.

[111] A julgar pelo registro das audiências no gabinete de Stalin, não consta que ele tenha alguma vez recebido as irmãs Schucht. Cf. Istoriceskij Archiv, 1998, n. 4.

[112] RGASPI, f. 495, op. 73, d. 104, l. 13g. Aleksandr P. Sergeev (Kolev) desempenhou a função de secretário político de Dimitrov de 1935 até 1941.

[113] Ib., l. 13v.

[114] RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, ll. 9-10.

[115] Cf. Vacca, Togliatti sconosciuto, cit., p. 143-5.

[116] Togliatti teria podido ler extratos fotocopiados dos escritos carcerários de Gramsci desde os últimos meses de sua estada na Espanha. Cf. Spriano, Storia del Partito comunista italiano, III, cit., p. 156.

[117] Dimitrov, Diario, cit., p. 333.

[118] A. Natoli. “Antigone e il prigioniero”. Introdução a A. Gramsci-T. Schucht, Lettere, cit., p. XXXIV.

[119] Cf. Daniele e Vacca, Le donne di Gramsci, cit.

[120] Cf. Vacca, Appuntamenti con Gramsci, cit., p. 75.

[121] A tese é de L. Canfora, Togliatti e i dilemmi della politica. Roma-Bari: Laterza, 1989.

[122] RGASPI, f. 519, op. 1, d. 114, ll. 32-6. Veja-se a nota 36.

[123] RGASPI, f. 495, op. 221, d. 1826.

[124] Cf. Spriano, Gramsci in carcere e il partito, cit., p. 65.

[125] Cf. G. Vacca. “Elementi per una biografia”. Comunicação apresentada à jornada de estudos por ocasião da publicação do verbete Gramsci no 58°. volume do Dizionario Biografico degli italiani, Roma, 21 nov. 2002.

[126] A este respeito, o único indício em nosso poder é o que Tatiana afirmou em autobiografia escrita de próprio punho e datada de 2 de outubro de 1940, vale dizer, que depois da volta a Moscou uma doença a impedira de trabalhar: RGASPI, f. 495, op. 65a, d. 13883.

[127] Dimitrov, Diario, cit., p. 94.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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