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O detestável e desconhecido Hugo Borghi

Lúcio Flávio Pinto - Março 2015
 

Hugo Borghi. A força de um destino. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995. 413p.

Na maioria dos livros sobre o “ciclo de Vargas” (1930-1954), o nome de Hugo Borghi, um descendente de italianos, é associado a oportunismo, práticas escusas, manipulação. Os adjetivos depreciativos gravitam em torno do “queremismo”, movimento que ele liderou querendo prolongar a sobrevida de Getúlio Vargas no poder, pouco antes da sua deposição por um golpe militar, em 1945. Os “queremistas” defendiam a eleição de Vargas, o ditador do Estado Novo ao longo de sete anos, junto com a retomada da democracia com uma nova Constituição (“Constituinte com Getúlio” era a palavra de ordem).

Finalmente consegui ler A força de um destino, sua autobiografia. Seu depoimento devia modular, se não alterar, nos casos extremos, os juízos que são feitos dele. Certamente ele escondeu alguma coisa, mas abordou todas as acusações que lhe foram feitas e deu-lhes respostas convincentes.

Borghi é a figura rara de empresário e político. Foi primeiro empresário, mas a intensa carreira política não o desligou completamente dos seus negócios, que nunca foram poucos, graças à sua vivacidade, criatividade, persistência e virtudes comerciais. Foi o catalisador do “queremismo” sem conhecer pessoalmente o presidente da república.

Só teve um contato com ele, na noite do golpe que o derrubou. Borghi se apresentou armado no palácio Guanabara, residência oficial, para defender Vargas, se ele assim o quisesse. Mas não foi necessário. Dessa vez, Getúlio preferiu renunciar. Nove anos depois seria diferente: ameaçado pelos mesmos golpistas, deu um tiro no peito para não ser humilhado.

Borghi foi ao exílio voluntário do ex-presidente, na fazenda Santos Reis, no Rio Grande do Sul, para estimulá-lo a voltar à presidência na eleição de 1950. Colocou a serviço da candidatura as três emissoras de rádio, na época de grande audiência, das quais era dono. Aplicou energia e dinheiro para organizar o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) para sustentar a campanha eleitoral, afinal vitoriosa.

Credenciou-se a uma posição de prestígio quando convenceu o presidente Eurico Gaspar Dutra, que fora ministro da guerra durante o Estado Novo, a desfazer um plano dos inimigos para sequestrar Getúlio e mandá-lo para o exterior. Não só protegeu Getúlio como abriu uma ponte para Dutra, transitando com desenvoltura entre os dois. Mas diz (e parece ser verdade) que não fez qualquer indicação para o novo governo.

A grande sacada de Borghi, que certamente custou aos adversários de Getúlio e ao seu candidato a perda de uma enxurrada de votos, foi destacar a frase infeliz do brigadeiro Eduardo Gomes, candidato da UDN (União Democrática Nacional) a declaração de que dispensava o apoio dos “marmiteiros”, trabalhadores humildes que guardavam sua comida em marmitas para ir ao trabalho. O estigma não saiu mais, apesar de tantos esforços dos udenistas, que imaginavam ser fácil a vitória do herói da rebelião dos “22 do forte de Copacabana”.

Borghi estabeleceu sua base em São Paulo. Por duas vezes foi candidato ao governo do Estado. Teve boa votação, mas foi derrotado nas duas tentativas. Elegeu-se deputado federal, porém, por três legislaturas, já então por um partido menor, o PTN, depois de se desentender com a cúpula do trabalhismo — segundo alega, por tramas tecidas por Alzira Vargas, a filha do presidente, e seu marido, Amaral Peixoto, um dos caciques do PSD (Partido Social Democrático).

Borghi desistiu da política desencantado com João Goulart, a quem critica muito, inclusive por motivos pessoais: Francisco Julião, criador das Ligas Camponesas no Nordeste, com apoio de Jango, teria insuflado a invasão das terras em que Borghi desenvolvia um moderno projeto agroindustrial, no cerrado de Goiás. Ele reivindica para si o título de pioneiro no desbravamento dos cerrados brasileiros, revalorizados e utilizados mais intensamente depois.

Muitos outros títulos ele pode querer numa vida agitada, intensa e muito interessante. Borghi detalha manobras, transações e iniciativas de bastidores políticos nos quais poucos penetram e os que estão dentro preferem nada falar. Mesmo declarando-se vítima de golpes políticos que lhe abalaram as finanças, conseguiu se recuperar e partir para novas empreitadas, mesmo quando já não tinha com a política senão a posição de observador atento e muito interessado.

Seus negócios começaram pelo plantio e refino de algodão em São Paulo (lutando contra as multinacionais do setor), armazenagem, fábrica de óleo de babaçu no Maranhão, projeto turístico em Portugal, transporte de carga através do Lóide Aéreo Nacional. Por isso seu livro, rico e ilustrativo dos intestinos do poder no Brasil a partir da revolução de 1930, merece ser lido. Talvez por isso, ele seja tão criticado — ou caluniado.

Ao encerrar sua atividade política, em 1968, ele admitiu que só então percebera o que até então não soubera avaliar devidamente: “a circunstância de ter sido sempre um estranho no ninho, uma presença nova, incômoda e perigosa entre os profissionais da política. Daí os ódios que atraí, a inveja que provoquei, os boicotes e retaliações que sofri”.

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Lúcio Flávio Pinto é o editor do Jornal Pessoal, de Belém, e autor, entre outros, de O jornalismo na linha de tiro (2006), Contra o poder. 20 anos de Jornal Pessoal: uma paixão amazônica (2007), Memória do cotidiano (2008) e A agressão (imprensa e violência na Amazônia) (2008).

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Revelações

Para os que quiserem ter uma visão por dentro da história desse período, reproduzo alguns dos trechos do livro, que provavelmente só é encontrável em sebos. Eles mostram a política anelada aos negócios e a um submundo de interesses poderoso — naquela época como hoje. Entre colchetes, os acréscimos do autor desta resenha.

* [...] voltei ao Ministério da Fazenda e dei conta a Souza Costa [o ministro] dos passos dados [em 1945] para socorrer o governo Vargas no campo da comunicação, que além da aquisição das emissoras [de rádio] de [Alberto] Byington, também incluíam um acordo político-financeiro com Georges Galvão, dono do popular jornal O Radical, que circulava no Rio, para que o veículo ampliasse a defesa que vinha fazendo do governo Vargas. Antes de me despedir, também entreguei ao ministro um cheque de Cr$ [cruzeiros] 3 milhões, montante da contribuição que pensara oferecer antes que me fosse sugerida a com a compra das três emissoras de Byington.

* O grande erro dos líderes udenistas, assim como dos jornais que apoiavam o Brigadeiro Eduardo Gomes, foi a avaliação pretensiosa que os levou a julgar o queremismo como um movimento assentado em bases artificiais, quando na realidade tratava-se de um fenômeno político de raízes profundas.

* Caio Dias Batista ficaria famoso por ser o homem que manipulava a não menos famosa “caixinha” do governo estadual [de Ademar de Barros], subsidiada por fornecedores e empreiteiros. Sua fama aumentou mais ainda quando resolveu sumir com a “caixinha” e seus recursos, para irritação de Ademar.

* [...] Vargas recebeu a visita do nosso embaixador na Argentina, Orlando Leite Ribeiro, figura singular na vida pública brasileira, que desde a agitada década revolucionária de 20 [1920] [final dos anos 1940] conseguira o quase milagre de merecer a confiança simultânea de Luís Carlos Prestes e Getúlio Vargas. (Leite Ribeiro, exilado em Buenos Aires, fora gerente e testemunha da única passagem de Prestes pelo capitalismo empresarial, na firma Luís Carlos Prestes – Importación y Exportácion, na qual o líder comunista revelou-se um eficiente negociante de café.

* Pela combinação feita, a carta-compromisso [que o Partido Comunista Brasileiro endossaria em apoio à candidatura de Borghi ao governo de São Paulo] seria assinada na minha residência, na ocasião em que seria entregue o cheque de Cr$ 500 mil cruzeiros. [Do acerto participaram os dirigentes comunistas Cayres de Brito, Diógenes Arruda Câmara, Pedro Pomar e José Maria Crispim.]

* Quanto à aura de honestidade que ele [Jânio Quadros] capitalizou às custas dos dotes histriônicos, o passar do tempo se encarregou de desmoralizá-la, ante a discrepância entre seus gastos e as ridículas explicações sobre as fontes que os financiavam, alquimia definitivamente desmascarada após o seu falecimento, quando disputas judiciais entre os herdeiros desvendaram o grande patrimônio de Jânio: imóveis diversos, moeda estrangeira na Suíça, na Inglaterra e até no Japão, títulos, obras de arte, etc., no montante de uma invejável fortuna.



Fonte: Jornal Pessoal & Gramsci e o Brasil.

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