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Getulio de corpo e alma: a biografia de Lira Netto

Mércio Gomes - Março 2016
 

Não há inimigos tão fortes que não possam se tornar amigos; nem amigos tão sólidos que não venham a se tornar inimigos.

Talvez a frase desta epígrafe consigne a ideia mais representativa do homem e do político Getúlio Dornelles Vargas, tal como foi retratado, com grande abrangência, percuciência e equilíbrio, pelo jornalista e biógrafo Lira Netto. No trato com as pessoas Getúlio Vargas parecia sempre atenciosíssimo, o mais simpático e cativante, o mais sagaz, o mais aberto a entender o seu interlocutor e a dar-lhe razão pelo que dizia. Cultivar amigo ou cativar inimigo a quem lhe interessava, tanto fazia. Por sua vez, na análise que Getúlio frequentemente fazia de si mesmo, em seus diários ou em suas conversas com a filha Alzira Vargas do Amaral Peixoto, sobre sua visão da política e da sociedade brasileira, bem como de seus atos, especialmente ao final de sua vida, transparece uma visão filosófica em que o homem desponta como um ser maleável, movido pelo interesse próprio, passível de mudar de opinião e atitude, sempre a partir de seu interesse de sobrevivência e busca de sucesso, compreendendo a capacidade desse ser humano de se aferrar a dogmas e, em algum momento, deles se desvencilhar. Se nem todos os homens do mundo são assim, no Brasil, pelo menos, quase todos o eram. E, de tal modo que, para Getúlio, não era de todo mal o ser humano. Tanta habilidade pessoal, tanta intuição sobre o que pensam as pessoas foram fundamentais para os sucessos de Getúlio Vargas e para sua prolongada e atuante passagem pelo panorama político brasileiro como ator de primeira grandeza.

A biografia de Lira Netto sobre Getúlio Vargas totaliza três volumes, cada um com cerca de 700 páginas, com uma boa iconografia, uma vasta bibliografia, muitas notas de rodapé explicativas, e a certeza de um longo tempo de pesquisas originais em arquivos do biografado, dos seus correligionários, dos seus inimigos, e dos seus parentes, especialmente de sua querida filha Alzira.

É uma biografia de peso e de qualidades excepcionais. Sedutora como um romance, o texto flui com facilidade, cria momentos de tensão e expectativa, desce em planícies de explicação e sobe arrebatadoramente em episódios que intensificam a vida, as circunstâncias, o inesperado, enfim, o destino, deixando sempre o leitor com um gostinho de querer saber mais, de se entregar às habilidades literárias do autor. O fio condutor da biografia é, naturalmente, a vida de Getúlio Vargas, 72 anos concluídos, recontados ano após ano, mês a mês, semana a semana, muitas vezes, dia a dia. Tal quantidade de eventos por que passou Getúlio não poderia ser acompanhada de outro modo. E ainda assim falta espaço, falta tempo para contar o tanto mais que nosso personagem viveu. Há lacunas sobre suas grandes obras e as pequenas também. Aí não seriam 2.000 páginas, e sim, 10.000. A principal escolha que o biógrafo fez foi de recontar a vida de Getúlio tal como ele a viveu, ou como a teria vivido, consoante aquilo que o biógrafo pode perceber de suas leituras, pesquisas e entrevistas. Não lhe interessou muito analisar e descrever as teorias sobre as ideologias que Getúlio e seus contemporâneos adotaram, por exemplo; ou como foram pensadas e desenvolvidas as políticas que ele aplicou em determinado tempo; ou as doutrinas e motivações intelectuais ou pessoais que motivaram os inimigos de Getúlio a tentar derrubá-lo tantas vezes. Interessou a Lira Netto, para a satisfação de seus leitores, certamente, recontar as percepções aguçadas de Getúlio sobre os momentos que viveu, suas atitudes perante aquilo que aparecia como problema, e, um tanto, sobre as circunstâncias desses acontecimentos. Nessa biografia Getúlio aparece mais sujeito sensível, sujeito pensante, sujeito reflexivo sobre o que é e sobre o que fazia. Sujeito político, acima de tudo, na medida em que ele compreendia o seu tempo e buscava juntar mais pessoas para seguir ou fazer aquilo que ele achava o certo para o momento. Getúlio é o senhor de seu destino, por assim dizer, até a morte.

Getúlio nasceu em 19 de abril de 1882, de uma família de estancieiros gaúchos, em São Borja, perto da fronteira com a Argentina. Seu pai, Manuel Vargas, natural de Passo Fundo, rapaz quase sem eira nem beira, fez-se soldado na Guerra do Paraguai, de onde saiu com a honrada patente de general e as habilidades para ganhar dinheiro, comprar terras e cuidar de bois. Casou-se com Cândida, “dona Candoca”, da família Dornelles, já há décadas instalada em São Borja, região de antigas missões jesuíticas, de onde se formou a subcultura de gaúchos e estancieiros de fronteiras. Tiveram seis filhos, Getúlio foi o terceiro. A família valia por tudo. Diz Lira Netto que Getúlio jamais deixaria de fazer algo que seu pai quisesse. O mais velho dos filhos, Viriato, era destinado a substituir o pai, mas terminou se incompatibilizando com os caminhos da política ao se envolver numa briga de estudantes em Ouro Preto (onde também estava Getúlio, então com 14 anos) que resultou na morte por tiro de um filho da elite paulista. Fugindo, trazido à justiça muitos anos depois, e libertado por um júri, Viriato ficou sempre com essa fama de valentão e homem passional. Mais tarde ele também teria que fugir de São Borja pela acusação de ter contratado um pistoleiro para matar um prefeito que estava aliado aos Dornelles, na ocasião, seus inimigos. Os outros irmãos de Getúlio iriam ter profissões liberais ou lidar com fazendas, e só pela força consolidada do irmão viriam a se tornar políticos. O mais novo, Benjamim, apelidado Bejo, aprontou poucas e boas na juventude, inclusive arregimentando um bando de capangas de São Borja — entre os quais estava aquele que viria a ser o chefe da guarda do presidente Getúlio, Gregório Fortunato — invadir e saquear uma cidadezinha da Argentina para ajudar numa revolução de amigos argentinos. Na maturidade, contribuiu para levar seu irmão mais famoso ao fim de sua existência, em função de suas estroinices.

A relação de amizades e inimizades que caracteriza o modo de ser de Getúlio começa, para ele, desde o berço. Os Dornelles, seu lado materno, eram da parte mais tradicional da elite mandona local e, em determinado momento, se fizeram adversários dos Vargas, por apoiarem os adversários de Borges de Medeiros. Durou alguns anos essa inimizade. A horrenda guerra entre chimangos e maragatos, entre 1922 e 1923, fruto de uma falsificação das atas eleitorais favoráveis ao incumbente governador, Borges de Medeiros, terminou em empate. Porém, no acordo entre Borges, chimango, e Assis Brasil, maragato, conveniou-se que Borges preservaria seu mandato de governador, conquanto que não se candidatasse mais ao cargo. Dito e feito, quando saiu Borges, entrou Getúlio. Naquele momento de conflito, o patriarca dos Dornelles, pai de Candoca, em seu leito de morte, chamou os filhos e lhes disse: “Daqui para frente, sigam o Getúlio”.

Getúlio, que havia sido o responsável pelas falcatruas nas atas das eleições, saiu não somente ileso, mas já cacifado por sua atuação como deputado federal no Rio de Janeiro, e ministro de Washington Luiz, para ser o candidato natural ao governo do Rio Grande do Sul, após o mandato de Borges de Medeiros. Os gaúchos tinham fama de brigões, porém, bem sabiam traçar tréguas e acordos, e Getúlio é não somente fruto dessa cultura, mas um dos seus maiores protagonistas e incentivadores. Os inimigos tradicionais dos republicanos, como Assis Brasil e Batista Lusardo, se tornariam seus amigos para juntos fazerem a Revolução de 1930. Depois, se tornariam inimigos, mais uma vez, e depois, amigos de novo.

Getúlio militar

Ainda jovem, sem saber bem que rumo tomar, Getúlio, um sujeito mirradinho, mal chegando a 1,60 m, se alistou no Exército e, não conseguindo vaga na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, foi mandado para a Escola de Instrução e Treinamento em Rio Pardo, SP. Lá conheceu colegas que depois fariam parte da história do Brasil: Eurico Dutra, Mascarenhas de Moraes, Bertoldo Klinger. Porém, ficou pouco tempo, foi expulso por se solidarizar com um colega que insultara um tenente e voltou a Porto Alegre, onde sentou praça no 25º Batalhão de Infantaria até ser dispensado como sargento. Sargento Getúlio Vargas, muito pouco para impressionar seu velho pai, veterano da Guerra do Paraguai. Sua única participação militar se deu em Mato Grosso, para onde fora enviado para resguardar um possível enfrentamento com a Bolívia, por conta da disputa sobre o território do Acre. Dessa experiência só aconteceu o terrível desconforto de viver em barracas sob o calor escaldante, as chuvas e os mosquitos. Deu baixa e foi estudar Direito. Entretanto, Getúlio fez amizades com companheiros de armas e, quando necessário, empunhou-as e vestiu-se a caráter, como na Revolução de 1922-23 e na sua própria Revolução de 1930. Pelas armas ele subiu ao poder e por elas foi arriado.

Getúlio na liça política

Getúlio cursou Direito em Porto Alegre e já de cara se tornou um aclamado orador e agitador estudantil. Logo sua oratória e suas atitudes chamaram a atenção de Borges de Medeiros e Pinheiro Machado, e assim ele se alçou na política. Antes porém, abriu uma banca de advogado em sua cidade natal, ganhou um dinheirinho, casou-se com Darcy Sarmanho, filha de uma família aristocrata em decadência econômica, foi eleito deputado estadual, mas abandonou o cargo para voltar a São Borja, e foi fazendo seu caminho. Mais tarde, em 1913, seria eleito deputado estadual (mais uma vez, pois fora eleito em 1908, e renunciado), com a maior votação do Rio Grande do Sul. Porém, no primeiro dia na Assembleia Legislativa, renunciou ao cargo, desta vez dizendo-se solidário a uma injustiça cometida com a votação de amigos, porém, na verdade, porque viu que Borges de Medeiros estava apoiando os adversários dos Vargas em São Borja. Getúlio percebeu as manobras do caudilho, não passou recibo, mas foi enfrentar o problema. Com essa atitude, uma entre tantas, de ousadia ao longo de sua vida, Getúlio, ainda sem cacife algum, peitava o velho caudilho. Dessa época surgiu a fama de Getúlio de não temer, não se acabrunhar, manter-se frio e calculista, e sempre ousar dar um passo à frente. Também a de saber até onde ir, quando disse, “Vencer não é esmagar ou abater pela força todos os obstáculos que encontramos — vencer é adaptar-se,” frase aparentemente fruto de sua leituras da teoria darwiniana da evolução.

A participação de Getúlio na chamada Revolução de 1923 foi de pouco tempo, pois, eleito deputado federal, foi desviado do comando de um destacamento de voluntários de São Borja e enviado por Borges de Medeiros para defender seu governo na capital da República. Aí Getúlio aos poucos ganha fama como orador inflamado, espirituoso e contundente, e logo se torna o líder da bancada do PRR, o partido republicano rio-grandense, numa época em que os partidos eram mais estaduais do que nacionais. Em 1926, eleito presidente Washington Luiz, Getúlio foi inesperadamente convidado para ser ministro da Fazenda. Nesse ofício, além de tratar dos deveres da pasta, abre sua sala para receber pessoas, encaminhar pedidos, arrumar emprego, até dar algum dinheiro, e ganhar notoriedade local. Renuncia pouco mais de um ano depois e volta ao Rio Grande para se candidatar a governador do Estado, quando é eleito quase que por default, já que os adversários do Partido Liberal, de Batista Lusardo e Assis Brasil, praticamente abrem mão de se opor. Algo inacreditável na política gaúcha, depois de mais de 30 anos de lutas encarniçadas, porém sempre com a vitória dos republicanos, orientados originalmente por Júlio de Castilhos e liderados efetivamente por Borges de Medeiros. De um jovem seguidor do republicanismo gaúcho, inspirado numa modalidade muito especial da doutrina positivista, Getúlio herdaria tudo e mais um pouco para se tornar o único e irrefutável líder gaúcho até a sua morte.

O positivismo de Getúlio

Durante muitos anos, da parte de adversários da esquerda e da direita brasileira, Getúlio Vargas foi analisado e projetado pela dupla imagem de ditador brutal e político sagaz, um tradicional caudilho sul-americano que só tinha por objetivo o poder e seu exercício, fazendo qualquer negócio para preservá-lo. A biografia de Lira Netto não aprofunda a visão que Getúlio devia ter sobre política, no sentido aristotélico de buscar o bem comum, sobre o Brasil, como nação em formação, e sobre seu papel como grande político nacional. Não aprofunda porque interessa mais saber do homem Getúlio em confronto com suas circunstâncias; entretanto não deixa escapar os momentos cruciais para se entender Getúlio nesses aspectos, digamos, mais filosóficos ou antropológicos. Com efeito, como um cruel e ambicioso ditador Getúlio já não vem sendo acusado há algum tempo, a partir de uma revisão da política e da história brasileiras feitas por uma geração de estudiosos que não têm compromisso, nem talvez mágoas e rancores, com as desventuras dos tempos em que Getúlio comandou a nação. Até o bastião da intelectualidade paulista antigetulista caiu com o sutil ensaio de Alfredo Bosi, alguns anos atrás, ainda que o governo de Fernando Henrique Cardoso tenha se orientado pela ideia de “acabar com a era Vargas”. Da acusação de ser fascista, apesar de alguns gestos conspícuos nos anos de sua ditadura, Getúlio há muito foi aliviado. Que suas ações nos anos 1930 tenham uma forte tintura de simpatia pela causa fascista, da modalidade italiana, contra o liberalismo inglês ou norte-americano e certamente contra o comunismo soviético, é comprovado inúmeras vezes no segundo volume da biografia de Lira Netto. Que ele programou, costurou com políticos e militares e deu um golpe de estado em novembro de 1937 e instalou uma ditadura a partir de uma aliança com militares simpáticos ao fascismo (e alguns até ao hitlerismo) também é um fato incontestável. Que a constituição do Estado Novo tenha sido elaborado por um simpatizante do fascismo, o jurista e seu ministro da Justiça, Francisco Campos, e com artigos copiados da constituição outorgada pelo governo ditatorial da Polônia também é inegável. Que as leis e políticas trabalhistas, realizadas desde o início da Revolução de 1930 e intensificada após 1937, que resultaram na famosa Consolidação das Leis Trabalhistas, ou CLT, tenham tido por objetivo esvaziar os diversos movimentos operários, de origem anarquista e comunista, e tutelá-los sob a égide do Estado também é fato evidente.

Tudo isso é apresentado serenamente, sem alarde e sem alimentar controvérsias, por Lira Netto. E este é um grande mérito dessa biografia. Porém, o autor dessa copiosa obra também não deixa de explanar aspectos importantes do que foi o positivismo como doutrina política e visão cultural do Brasil e como Getúlio e vários de seus principais conselheiros e ministros professavam convictamente essa doutrina. Naturalmente, Lira Netto não mede palavras para costurar o alinhamento de Getúlio Vargas ao liberalismo, ou, ao menos, ao modo americano do presidente Franklin Roosevelt, via New Deal, com quem Getúlio conversou, em francês, em duas ocasiões especiais. Com efeito, ao final, foi com Roosevelt que Getúlio ficou.

O positivismo, como doutrina política criada por Auguste Comte e difundida em forma mais ortodoxa, chegou ao Brasil com ares de pontificar verdades. De fato, no Rio de Janeiro, na década de 1880, foi criada a Igreja do Apostolado Positivista, a forma mais ortodoxa do positivismo no Brasil. É certo que Getúlio não seguiu essa modalidade, e sim, aquela que foi aplicada no Rio Grande do Sul por Júlio de Castilhos. Entre as características desse positivismo estavam: a concepção da sociedade como uma entidade orgânica em que seus elementos compõem, ou melhor, devem compor, um conjunto coeso, e não conflitivo, e que cabe ao poder público, ao Estado, coordenar suas ações; a crença na evolução das sociedades a partir de políticas de desenvolvimento econômico e social, com possibilidades de dar saltos na escala evolucionista, por meio do conhecimento obtido pela ciência positiva; a descrença na democracia como regime político para operar essa evolução; a valorização da ciência e da técnica como bases da sociedade moderna.

No caso do Brasil, os positivistas consideravam que esse desenvolvimento teria que carregar tintas próprias, como a consolidação de um empresariado nacional, o controle do proletariado, junto com a segurança de seus direitos trabalhistas, a expansão da educação, com ênfase na ciência, e outros temas, como a questão indígena e a ética. Do ponto de vista político, Getúlio e seus companheiros achavam que a liturgia da democracia parlamentar, especialmente na década de 1930, quando se digladiavam, no plano mundial, a esquerda soviética, a direita nazifascista e o liberalismo anglo-saxão, atrapalhava o desenvolvimento do país mais do que o promovia. Com efeito, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, durante o longo período desde Júlio de Castilhos, funcionava por dois meses para carimbar as decisões do Executivo. Porém, no limite, a democracia era um jogo a ser jogado. Assim, ao final da Assembleia Constituinte de 1934, quando muitos queriam Getúlio fora, enquanto outros o queriam abertamente como ditador, ele conseguiu levar seu nome para ser eleito presidente da República pelos constituintes.

Por outro lado, as convicções positivistas de Getúlio não o impediram de, uma vez deposto, em 1945, aplicar-se com desenvoltura ao jogo democrático, elegendo-se senador e deputado federal por diversos estados, em 1946, e voltando à presidência nas eleições de 1950. Por esse tempo, sua experiência durante a 2ª Guerra Mundial, na aliança formada com as Forças Aliadas, em detrimento ao Eixo, como queriam alguns de seus generais e diplomatas, e especialmente com o preço cobrado aos americanos para ajudar na construção da primeira grande usina de aço do Brasil, a Usina de Volta Redonda, alçara Getúlio a uma categoria de líder político para além de sua prévia condição de ditador. Não é por outra que Luiz Carlos Prestes, o líder comunista do levante de 1935, encarcerado de 1936 até 1945, saiu da prisão para conclamar seus correligionários a apoiar a permanência de Getúlio no poder, ou ao menos até a nova assembleia constituinte. A volta de Getúlio pela via eleitoral veio carregada da convicção de que ele tinha que liderar um intenso movimento de nacionalismo e de rápida consolidação de um desenvolvimento industrial pela via do Estado, algo que estava presente em seu positivismo e talvez em seu senso de brasilidade. É evidente que Getúlio encontrou grande resistência às suas ações, pois o mundo se vira tomado por uma nova dicotomia política, desta vez entre o Ocidente liderado pelos Estados Unidos e a União Soviética e seus aliados desde a Europa Oriental até a China, o que criou um ambiente político extremamente tenso, chamado desde 1946 de “Guerra Fria”. Entretanto, e por ironia, a Petrobrás foi criada como estatal por causa da insistência da UDN, pois o projeto original dava o Estado como sócio minoritário. Será que isso foi mais um truque de Getúlio para driblar seus adversários privatistas?

As agruras de Getúlio

O biógrafo Lira Netto não ousa conjecturar por que a imagem política de Getúlio Vargas foi chicoteada por tantas críticas e por um movimento contrário que contava com o apoio implícito, porém silente, de uma boa parte da população brasileira. Há indícios de que havia pressão de fora, especialmente dos Estados Unidos e do Canadá, com notícias de que a Embaixada americana e representantes de empresas estrangeiras no Brasil mantinham contato próximo com o movimento anti-getulista. É certo que a criação da Petrobrás e os passos iniciais para a criação da Eletrobrás provocaram suspeitas de que Getúlio pretendia levar o Brasil para o campo da esquerda, talvez por um modo autoritário e no limite ditatorial, tal como estava acontecendo na Argentina de Domingos Peron (com quem Getúlio se recusou a encontrar-se a ponto de Perón ter reclamado ao embaixador brasileiro, “Será que ele tem nojo de mim?”). É mais do que evidente que os velhos e novos inimigos de Getúlio se juntaram para tirá-lo do poder sob qualquer pretexto, seja ele econômico, político ou moral. É certo que a classe de jornalistas e grande parte da elite estavam enjoados e impacientes ao extremo com o jeito de Getúlio se livrar dos problemas, manipular as situações e sair de boa. É certo ainda que havia uma permanente animosidade, fruto da inveja e do rancor, contra parentes de Getúlio, como seu irmão Bejo, e amigos tradicionais que ocupavam espaço político e benesses econômicas. Havia ainda a agressiva voz do ebuliente Carlos Lacerda, o antigo membro do PC virado reacionário político e toda uma companha política liderada pela UDN, com apoios dos demais partidos políticos, inclusive o PCB, excetuando o PTB e parte do PSD. Enfim, havia também e sobretudo as famigeradas conspirações dos militares, alguns deles velhos amigos tornados amargos inimigos de Getúlio, como Góes Monteiro, outros, sempiternos inimigos, como Eduardo Gomes: foram eles que forçaram o ultimato para a deposição de Getúlio e por isso mesmo motivaram, afinal, o seu suicídio.

O biógrafo Lira Netto não pretende fazer um balanço da obra política de Getúlio Vargas; nem este resenhista. Mas cabem algumas observações sobre a obra e o pensamento de Getúlio, bem como sobre esta biografia. O primeiro é que Getúlio, apesar de fazer parte de uma subcultura localizada da elite brasileira, até certo ponto marginal às subculturas do sudeste e nordeste que dominavam o país, ganhou ao longo de sua vida um senso muito agudo da cultura brasileira em sua totalidade e do modo como vivem e pensam os brasileiros. O alcance de suas palavras e de sua simpatia ia de sul a norte, e deixou uma boa imagem para os gaúchos que vieram a seguir. O segundo é que ele igualmente criou uma afinidade profunda com o quê chamamos de povo brasileiro, um conceito que faz sentido a partir do modo de viver e se comportar da população mais pobre, tradicional e destituída de bem estar e de poder, podendo ainda incluir as classes médias e, com menos participação, até segmentos das classes altas. O terceiro é que ele tinha uma imensa força e ambição para suportar as dificuldades que encontrou ao longo de sua vida política, e nisso se incluem uma fina intuição para entender homens e mulheres e assim recompor relações e desfazer problemas. Quarto, o livro de Lira Netto nos transporta para um mundo que já não é mais o Brasil de hoje, ainda que o reconheçamos como nossa pátria. O cinismo era menor e a imagem de honra pesava um tanto mais sobre os políticos. Para exemplificar, hoje os jornalistas não vivem mais de atacar políticos e envenenar seus leitores sob encomenda de seus patrões — ou diminuiu bastante, não?; o elemento militar, como autonomeado poder moderador, não existe mais em nosso país, desde a nossa redemocratização e, esperamos, para sempre derrotado.

É claro que, numa história da qual já sabemos o final, fica fácil entender como Getúlio se safou de tantas armadilhas urdidas por seus inimigos e pelas circunstâncias. Mesmo assim, por este relato de Lira Netto, assoma imensa a figura de um descomunal político, não só no sentido de habilíssimo no varejo, na negociação, na capacidade de desarmar fusíveis de bombas, de “tirar as meias sem descalçar o sapato”, como diziam dele, mas também no sentido nobilíssimo de buscar o bem da sociedade, pela visão que tinha do Brasil e pela criação de estratégias vencedoras para realizar aquilo que pretendia e planejava. E sabia retomar e refazer situações que não haviam dado certo. Além do mais, havia honra e honestidade no trato com a coisa pública. Getúlio tinha uma visão de Brasil que não fica evidente nessa biografia e talvez em nenhum escrito sobre ele, inclusive seu precioso diário escrito por mais de 15 anos. Há ambiguidades e inconsistências imensas no que podemos chamar de “tempo”, não propriamente obra, getulista, ao mesmo tempo pode-se sentir um fio condutor em sua vida, o qual um hagiógrafo poderia pronunciar como nobre, e que um simples resenhista chamaria de o melhor que o Brasil podia dar sem perder o rumo naqueles momentos.

O tempo de Getúlio passou, quem tentou fazê-lo renascer perdeu e ficou para trás na história. É claro que sem Getúlio não seríamos o que somos, para o bem ou para o mal. Creio que para o bem. Mas não há volta do tempo, o presente não imita o passado, mas o passado continua a nos alertar para o presente.

Concluo com um tema que Lira Netto mal tocou, mas que cala fundo na alma desse resenhista, e que dá ao menos uma pequena amostra do legado de Getúlio - a questão indígena. Getúlio aparece no 2º volume visitando a Ilha do Bananal e tendo uma conversa meio estereotipada com um pajé do povo Karajá, ao tempo em que dava o pontapé inicial ao programa “Marcha para o Oeste”, cujo resultado foi a construção de dezenas de pistas de aviação nas partes mais remotas do Brasil, a criação de muitas vilas que hoje são cidades, e que abriu espaço para a gloriosa expedição dos irmãos Villas-Boas que entrou em contato com os índios do Alto Xingu e, ao final, fez possível a criação do Parque Indígena do Xingu, uma obra maravilhosa do espírito mais generoso do povo brasileiro e de sua visão de que nossos habitantes autóctones devem continuar a existir com seus valores e costumes para assim continuar a contribuir para a formação da nação brasileira. Getúlio, que, por suas tropas, havia feito prisioneiro o General Rondon, o criador do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), em sua jornada vitoriosa para o Rio de Janeiro, em outubro de 1930, e que havia ignorado e desprezado o SPI nos primeiros anos de sua ascensão ao poder, fez as pazes com esse velho engenheiro militar, positivista e indigenista e não só propiciou financeiramente a renovação do SPI, como, mais tarde, na sua fase democrática, recepcionou e aceitou os argumentos apresentados pelo velho marechal, junto com Darcy Ribeiro, Eduardo Galvão e Orlando Villas-Boas, mesmo nos momentos em que estava acossado pelas críticas e pelo agressivo assédio dos golpistas de 1954. O Parque Indígena do Xingu, no plano original de Darcy, Rondon, Galvão e Villas-Boas, compreendia um território de 200.000 km2, onde estariam abrigados quase todos os povos do sul do atual Mato Grossos. Porém, o despacho favorável de Getúlio se perdeu pelos meandros da política e da burocracia nos governos seguintes. Jânio Quadros é quem iria decretá-lo, em 1961, porém com um décimo de seu tamanho original. Ainda assim, o Parque Indígena do Xingu se tornou um marco essencial para o indigenismo oficial brasileiro, um exemplo que foi seguido muitas outras vezes nos anos seguintes, e o indigenismo brasileiro seguiu seu caminho, ainda que aos trancos e barrancos, rumo à redenção dos povos indígenas, ou à sua “reabilitação”, como dissera 160 anos atrás, o poeta Gonçalves Dias. Só agora, diante de uma grave e perversa amnésia cultural, a política indigenista e o reconhecimento das terras indígenas vêm sendo desafiados por um Congresso Nacional que só pensa na ampliação desmesurada do agronegócio pelos cerrados e florestas do país.

O que aconteceu com Getúlio no ano de 1954 não é, evidentemente, o mesmo que está acontecendo agora, mas se parece. Só por se parecer já é um alerta para aprofundar análises e discussões sobre os nossos tempos. Não seria ocioso lembrar que em maio-junho de 1954 Getúlio sofreu um processo de impeachment, acusado de “traição à pátria”, “crime de responsabilidade por má execução orçamentária” e “improbidade administrativa”, e foi inocentado por 136 votos a 35. Os tempos são outros, as diferenças fazem a diferença, e o Brasil tem que tocar seu barco, com juízo e fé na democracia, que não era propriamente uma virtude getuliana, mas que é o que achamos importante para nós desde a redemocratização e à qual auguramos um futuro brilhante.

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Mércio Gomes é antropólogo.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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