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A vitalidade de Antonio Gramsci

Gildo Marçal Brandão - 1998
 

Alberto Aggio (Org.). Gramsci: a vitalidade de um pensamento. São Paulo: Ed. Unesp, 1998.

Para quem tem interesse em política e em teoria política, uma boa pedida é a leitura de um novo livro sobre um autor que é um dos poucos clássicos do século XX e que, talvez por isso mesmo, resiste bravamente à decadência da influência política e intelectual do socialismo e do marxismo no mundo e no Brasil: Antonio Gramsci.

Publicado pela Editora da Unesp, a coletânea Gramsci: a vitalidade de um pensamento foi organizada pelo prof. Alberto Aggio, da Unesp de Franca, tem apresentação de Leandro Konder e reúne artigos de conhecidos estudiosos desse pensador, como Carlos Nelson Coutinho (Socialismo e Democracia: a atualidade de Gramsci), Luiz Werneck Vianna (Caminhos e descaminhos da revolução passiva à brasileira), Marco Aurélio Nogueira (Gramsci e os desafios de uma política democrática).

A coletânea agrupa textos sobre três temas: as relações do pensamento de Gramsci com a política, com os intelectuais e com a interpretação da história e da política latino-americana e brasileira. A mera relação dos ensaios demonstra o seu interesse. Além do capítulo escrito por Ivete Simionatto (O social e o político no pensamento de Gramsci), a maioria é de pessoal da própria Unesp, como Marcos Del Roio (Gramsci contra o Ocidente), José Luís Bendicho Beired (A função social dos intelectuais), Milton Lahuerta (Gramsci e os intelectuais: entre clérigos, populistas e revolucionários – modernização e anticapitalismo), José Antonio Segatto (A presença de Gramsci na política brasileira), e o próprio Aggio (A revolução passiva como hipótese interpretativa da história política latino-americana). Todos eles foram apresentados originariamente em seminário realizado em maio de 1997 em Franca.

O italiano Antonio Gramsci é um caso fora de série. Discípulo do filósofo hegeliano Benedetto Croce, fundador do Partido Comunista Italiano, prisioneiro das masmorras de Mussolini durante a longa noite do fascismo, um dos mais fecundos críticos do stalinismo e das principais soluções políticas impostas pela chamada Terceira Internacional ao movimento operário e comunista mundial, Gramsci é o autor de uma obra fragmentada e inacabada, que, não obstante, é uma das mais inovadoras de nosso tempo, influente em áreas ideológicas tão díspares como as dos católicos ou dos protestantes, entre marxistas e liberais e mesmo conservadores e esquerdistas.

Trata-se verdadeiramente de um “clássico” — como disse acima, um “clássico de nosso tempo”, se é que isso é possível. Como tal, seu pensamento conserva atualidade mesmo num contexto ideológico radicalmente modificado, como é o nosso de hoje. Como diz Carlos Nelson Coutinho no artigo que abre a coletânea, essa “atualidade” não é do mesmo tipo daquela que nos referimos quando dizemos que Maquiavel ou Hobbes são atuais. “Todo aquele que leu O Príncipe ou o Leviatã sabe que inúmeras reflexões feitas nessas obras continuam a ser importantes para compreender a política atual”. Mas, no caso de Gramsci, sua atualidade “resulta do fato de que ele foi intérprete de um mundo que, em sua essência, continua a ser o nosso mundo de hoje”. Ou na apresentação de Leandro Konder, não lemos a sua obra para “saber como foi algo, mas sim para tentarmos compreender como algo está sendo”.

Na “orelha” que escrevi para o livro, sugeri outros motivos pelos quais vale a pena ler Gramsci comparando com a ciência política que se faz nas universidades. A maioria dos meus colegas cientistas políticos são, de fato, engenheiros institucionais. No mundo inteiro produziram uma massa imensa de estudos sobre governos, elites, administração, partidos e eleições, estudos que falam de tudo, menos do que interessa: a sociedade e a história, ou o lado demoníaco do poder, isto é, a dominação.

Boa parte da força intelectual de Antonio Gramsci parece residir, ao contrário, em algo cada vez mais raro hoje em dia: ele jamais esquece que a principal fonte de conflitos políticos continua a ser a distribuição variada e desigual da propriedade. Na análise desses conflitos, entretanto, põe o acento nos problemas de direção, cultural e política. Assim, sua forma de abordar a realidade recusa separar a política da sociologia, da economia e da cultura, e confere centralidade à batalha das idéias, vista sempre em conexão com o desenvolvimento das forças sociais reais. O resultado é que é difícil encontrar alguém tão preocupado com a formação de uma (nova) elite dirigente e, provavelmente, não há ninguém que dê tanta importância para os projetos intelectuais, que se tornam centrais na luta política.

Nos anos 60, com a publicação de Maquiavel, a política e o Estado moderno, de Concepção dialética da história, Os intelectuais e a organização da cultura e Cartas do cárcere, pela Editora Civilização Brasileira, o Brasil foi um dos primeiros países a traduzir Gramsci, salvo engano antes mesmo da França, da Alemanha e dos Estados Unidos. Principal responsável por essa iniciativa, Carlos Nelson Coutinho está preparando uma nova — e desta vez completa — edição da obra. Enquanto esta não vem, livros como o organizado por Alberto Aggio mantém aceso o interesse em Antonio Gramsci.

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Gildo Marçal Brandão é professor do Departamento de Ciência Política da USP.



Fonte: Diário do Grande ABC, São Paulo, 10 nov. 1998

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