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Golpe à universidade

Lúcio Flávio Pinto - Março 2018
 


“O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil”: eis um excelente tema para um debate de grande significado na conjuntura atual do país, com a participação dos que são a favor e contra essa interpretação do impeachment da presidente Dilma Rousseff. Mas transformar esse tema em disciplina acadêmica nas universidades não é apenas um abuso e um desvio de finalidade das instituições de ensino superior, sobretudo as públicas: é uma deslavada desonestidade intelectual. Um ato partidário que avilta a autonomia universitária e viola a mais nobre razão de ser da academia.

Seguindo exemplo nada edificante de outras universidades, o movimento chegou à Faculdade de Comunicação da UFPA, segundo informa a professora Rosaly Brito a O Liberal. Nesse caso, a disciplina não resiste ao mais elementar questionamento metodológico. O título, que transforma um instrumento constitucional (o impedimento da presidente da república por crime de responsabilidade) em golpe inconteste, já atesta o desvio ideológico da disciplina, seu viés anticientífico, seu caráter totalitário, sua aversão à diversidade e pluralidade. Evidentemente, não pode ser incluído na estrutura curricular de um curso de comunicação social.

Espero que a inteligência e a honestidade intelectual provoquem o aborto assistido desta má ideia.

Ah, a democracia! 

Reproduzo a seguir uma nota de solidariedade à minha querida (ex?) amiga Rosaly Brito, colega de profissão jornalística e de mister no magistério. A solidariedade é em função do que aqui escrevi, criticando iniciativa atribuída a Rosaly. As entidades solidárias não me enviaram a nota, embora a tenham colocado em circulação. Eu a recebi de terceiros. Publico-a mesmo assim, sem comentários adicionais, para que sobre a nota se manifestem os interessados (LFP).

O Instituto de Letras e Comunicação (ILC), a Faculdade de Comunicação (Facom), o Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Cultura e Amazônia (PPGCom) e o Grupo de Pesquisa em Comunicação, Política e Amazônia (Compoa), da Universidade Federal do Pará (UFPA), manifestam-se em solidariedade à professora Rosaly Brito, mencionada de forma desrespeitosa em artigo do jornalista Lúcio Flávio Pinto, que define como “desonestidade intelectual” a proposta de criação de disciplina optativa nessa Faculdade sobre Mídia e Golpe no Brasil.

Essa iniciativa é parte de um amplo movimento das universidades públicas brasileiras em defesa da liberdade de cátedra, da autonomia universitária e da necessidade de reflexão sobre os acontecimentos políticos recentes no país. O movimento teve início após ameaça de retaliação do Ministério da Educação (MEC) ao Professor Luis Felipe Miguel, da Universidade de Brasília (UnB), por disciplina sobre esse tema ofertada no Instituto de Ciência Política da UnB. Envolve, portanto, um conjunto de professores (as) e pesquisadores (as) renomados (as), com estudos consistentes na área de Comunicação e Política e em várias outras disciplinas das humanidades.

O jornalista Lúcio Flávio Pinto tem um trabalho de reconhecida e inegável importância na defesa da Amazônia e já participou de inúmeras atividades acadêmicas na Facom, inclusive como professor. No artigo, contudo, sem demonstrar informações aprofundadas sobre a iniciativa, refere-se de modo irônico e desrespeitoso aos professores que propõem essa disciplina optativa e à própria Faculdade de Comunicação.

Reafirmamos o compromisso do ILC, da Facom, do PPGCom e do Compoa com o pensamento crítico, com a autonomia universitária e com a necessária reflexão sobre a conjuntura política atual do país, que em muitos sentidos constitui uma afronta à democracia brasileira.

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Lúcio Flávio Pinto é o editor do Jornal Pessoal, de Belém, e do blog Amazônia hoje – a nova colônia mundial. Entre outros, é autor de O jornalismo na linha de tiro (2006), Contra o poder. 20 anos de Jornal Pessoal: uma paixão amazônica (2007), Memória do cotidiano (2008) e A agressão (imprensa e violência na Amazônia) (2008).

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Fonte: Jornal Pessoal & Gramsci e o Brasil.

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