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Karl Marx e o nosso tempo

Luiz Sérgio Henriques - Maio 2018
 

Benedetto Croce, de quem se dizia ser o “papa laico” da cultura italiana e o líder intelectual do liberalismo europeu na primeira metade do século XX, costumava afirmar, apesar de seu proclamado laicismo, que “depois de Cristo todos somos cristãos”. Tratava-se de uma forma refinada de admitir o que havia de efetivamente universal no cristianismo do Novo Testamento, que interpelava a consciência de todos os homens, mais além dos círculos de proximidade tribal ou territorial. Segundo Croce, querendo ou não, a partir de então passamos a ver o mundo como cristãos, como de resto ainda o vemos, independentemente de fé ou adesão a qualquer visão transcendental do mundo.

Esta percepção não vale só para um fenômeno tão extraordinário quanto a vinda de um Deus. Pensadores notáveis, radicalmente terrenos em sua busca de explicações para os fatos da vida, à sua maneira também deixaram uma marca da qual nem sempre nos damos conta mas que está presente no espírito do tempo, moldando juízos e modos de ver até do homem comum. Karl Marx, por exemplo, cujo bicentenário ora se celebra, é um destes homens notáveis, cuja obra múltipla, fragmentada e contraditória, nascida no calor da revolução industrial movida pela máquina a vapor, parece ter sobrevivido a regimes políticos despóticos que, ainda por cima, não raro o trataram como uma espécie de oráculo infalível ou moderna divindade, capaz de resolver de uma vez por todas o enigma da história.

Inscreve-se nesta tradição desafortunada o discurso de Xi Jinping, o líder máximo chinês, por ocasião da solenidade em Beijing. O marxismo — ou melhor, uma de suas inúmeras versões burocraticamente definidas — aparece como o recurso de legitimação possível num país cujo ritmo espantoso de crescimento tem definido em grande parte a globalização, ao mesmo tempo que deixa em seu rastro índices não menos consideráveis de desigualdade. Para os que apreciam medidas objetivas, a desigualdade chinesa hoje situa-se em nível comparável ao dos Estados Unidos, o que repõe como atual o pensamento de Marx nas duas circunstâncias, desde que tomado criticamente e, portanto, afastado de qualquer ideia grosseiramente igualitária da vida social.

Este, aliás, é um ponto curioso a ser anotado em nossa época de contraposições entre opostos e combinados doutrinarismos. O Manifesto comunista — que também passa por uma destas datas redondas, publicado que foi em fevereiro de 1848 —, sem delinear a sociedade futura, imagina-a, contudo, fundamentada no livre desenvolvimento de cada indivíduo, e só a partir daí concebe o livre desenvolvimento de todos. Este caráter fundador da liberdade individual esteve evidentemente sufocado nas diversas experiências do socialismo real. E se na China contemporânea vigora a liberdade do homo oeconomicus, dando um poderoso sopro de vida aos “espíritos animais” do mercado, a esfera política continua sob o controle rígido do partido-Estado e seus “sacerdotes”. E como sempre nestes casos, o que se pode prever é uma crescente e insustentável distância entre a realidade das coisas e a retórica oficial, cada vez mais vazia e ritual. Em algum momento aquela realidade cobrará seus direitos.

O Manifesto, como já assinalado por vários estudiosos, contém passagens inteiras que, sem qualquer esforço de falsificação, soam como apologia do mundo que o capital criou e que só hoje se explicita aos nossos olhos em sua unidade repleta de problemas. Nenhuma condescendência com as formas idílicas e pastoris de um passado supostamente livre de dilaceramentos. Nenhum espaço, portanto, para qualquer forma de “anticapitalismo romântico”, e terá sido este um dos motivos pelos quais soluções buscadas em Marx — num certo Marx — seduziram os países atrasados, como a Rússia de 1917 e a China de 1949, que se viram como os “elos fracos” de uma cadeia mundial e enveredaram por caminhos — de fato, extremamente autoritários — de chegada ao mundo moderno, urbano e industrial.

Em tais contextos potencializaram-se as carências políticas da teoria marxiana, presa como estava à ideia de uma classe universal que, por meios violentos, subverteria a ordem dominante, colocando em seu lugar, mais ou menos aceleradamente, uma sociedade sem classes e sem Estado — mas com um único partido de estrutura vertical, vocacionado ao controle material e ideológico. Nas sociedades atrasadas, assim, autocracia e acumulação primitiva deram-se as mãos. E todos seriam marxistas ou, mais apropriadamente, fingiriam ser.

Contudo, nas sociedades avançadas do Ocidente, mesmo sem ter inicialmente uma noção elaborada das formas da política, o movimento operário, apoiando-se numa leitura “revisionista” do legado do filósofo, acabou por ampliar significativamente a base de massas dos Estados liberais, enriquecendo-os com novas e poderosas figuras que vigoraram por todo o século passado, a exemplo dos sindicatos e dos partidos social-democratas. Estas figuras, entre outras, deram força e sentido às modernas democracias constitucionais hoje sob ataque concentrado de autoritários de direita e de esquerda.

Houve quem afirmasse, em outra circunstância igualmente hiperideologizada, que Marx e o marxismo constituiriam o horizonte insuperável do nosso tempo, a base de uma futura civilização integral. Décadas se passaram, mudou a estrutura do mundo, ruiu a maioria dos regimes que diziam encarnar a doutrina do filósofo. Este, agora, parece readquirir o poder de inspirar uma visão do “presente como história”, contribuindo, sem exclusividade, para desbloquear a imaginação social. Mas há uma novidade: o horizonte insuperável do tempo só pode ser o Estado Democrático de Direito, que contém em si as regras — inclusive procedimentais — que devem ser plenamente assumidas por uma esquerda que saiba aprender, ou reaprender, a conjugar liberdade e igualdade.

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Luiz Sérgio Henriques é o editor de Gramsci e o Brasil/ Esquerda Democrática.

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Fonte: O Estado de S. Paulo, 20 maio 2018.

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