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Esquerdas e democracia

Paulo César Nascimento - Junho 2018
 



José Antonio Segatto, Milton Lahuerta e Raimundo Santos (orgs.). As esquerdas e a democracia. Brasília: Fundação Astrojildo Pereira/ Ed. Verbena, 2018.

O livro em questão é uma importante contribuição para um debate que tem sido imprescindível para a reconstituição do pensamento de esquerda no Brasil e no mundo: como avançar agendas de reformas sociais e econômicas, e, ao mesmo tempo, expandir as instituições democráticas?

A ligação entre democracia e socialismo sempre foi um tema incômodo para as esquerdas. Neste centenário da revolução russa, podemos relembrar várias experiências de construção do socialismo que terminaram gerando burocracias despóticas e ideias políticas que desprezaram a importância da democracia e suas instituições.

Por outro lado, onde a esquerda abraçou a democracia, como é o caso da social-democracia europeia, o ímpeto revolucionário acabou arrefecido por uma visão hegemônica que, se construiu um estado de bem-estar social e favoreceu a moderação na política, por outro lado há décadas vem apresentando visíveis sinais de estagnação e esgotamento. Como então navegar entre a tentação de instrumentalizar os processos democráticos e, ao mesmo tempo, resistir ao apelo à acomodação vindo do ethos das democracias contemporâneas? E mais: como incorporar certos elementos tradicionais do discurso liberal — como os direitos civis e políticos — e manter a identidade de esquerda, sem render-se à lógica triunfante dos mercados globalizados?

São tais desafios que os textos que compõem o livro ajudam a enfrentar, ao iluminarem especificamente o caso brasileiro. A escolha de “as esquerdas” no título, ao invés de “a esquerda”, não é um mero detalhe. A diversidade de esquerdas, antes entendida como um problema, agora se torna um incentivo para um debate que não se volta mais para definir quem é a “verdadeira esquerda”, mas para reconstituir o pensamento da esquerda em sua pluralidade.

Fazem parte da coletânea temas cruciais para esta reconstrução. Basta pensarmos na questão da modernização do estado brasileiro, que envolve a superação da nossa tradicional cultura patrimonialista, a definição de fronteiras mais visíveis entre o público e o privado, e o próprio papel do estado enquanto estimulador do desenvolvimento econômico e social do país. Se antes qualquer questionamento do estado, de seu “tamanho” ou funções era tido como anátema, atualmente tal discussão tornou-se mais que imprescindível nas esquerdas brasileiras.

O futuro político dos partidos políticos da esquerda brasileira é outro tema central abordado nesta coletânea. Os dois principais partidos que disputavam a hegemonia no campo da esquerda e da centro-esquerda brasileira, e que se revezaram no poder nas últimas duas décadas, mostram sinais de declínio político. Tanto o Partido dos Trabalhadores (PT), como o Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB) cederam à corrupção e a práticas patrimonialistas tradicionais, o que colocou suas identidades em xeque e abriu espaço para um possível protagonismo de outras correntes de esquerda que vierem a surgir no horizonte político brasileiro.

Daí a indagação que perpassa vários textos da coletânea: como evitar que uma esquerda renovada repita a tradicional forma de se fazer política no Brasil? Em tempos de polarização política, crise econômica e descrença nos políticos, como os que estamos vivendo atualmente no Brasil, a reflexão empreendida neste livro certamente contribuirá para o debate sobre o papel que as esquerdas devem desempenhar no cenário político nacional.

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Professor associado do Instituto de Política da UnB




Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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