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A evolução da esquerda – 3

Hamilton Garcia de Lima - Julho 2018
 


A terceira onda extremista (1963-1964), que levaria a esquerda e os movimentos sociais, mais uma vez — vide artigo anterior —, aos calabouços, não seria, infelizmente, a última. A culpa pelo mau cálculo e o subsequente desastre político, como de costume na esquerda brasileira — para a qual autocrítica não passa de uma modalidade laica de expiação de culpa —, não recairia sobre seus idealizadores/implementadores, mas sobre seus inimigos (o “imperialismo latifundista”) e sobre a parcela mais experimentada da esquerda radical, que, refletindo sobre a tortuosa trajetória, tateava uma alternativa, ainda que enredada em seus mitos e utopias.

Foi assim que o PCB assistiu, impotente, à debandada de sua juventude em direção à luta armada de inspiração cubana (foquista), a partir de 1967 — até ser esmagada pela repressão em 1974. Enquanto brizolistas, castristas e maoístas buscavam o caminho das armas, supondo estar o povo à sua espera, o PCB enveredou pela resistência pacífica, dando apoio à Frente Ampla que em 1966 uniu, no exílio, João Goulart, Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda, e, posteriormente, animando a oposição criada pela reforma partidária de 1965 (Ato Complementar n. 4), que instituíra o bipartidarismo (Arena x MDB).

O caminho democrático de resistência à ditadura se mostrou estrategicamente sólido e, embora enfrentando o ceticismo inicial da juventude e dos intelectuais, acabou por nos conduzir a uma transição pactuada em 1984 (Nova República), que uniu a oposição — excetuando o PT — e os dissidentes do regime (PFL). Apesar do sucesso da transição democrática, os louros da resistência foram colhidos pelos remanescentes do caminho revolucionário: como explicar o paradoxo?

Uma das causas do fenômeno, para além do peso do milenarismo na cultura continental, foi a relativa paralisia que tomou conta do PCB após a razia repressiva de 1974-1976, que eliminou um terço de seus dirigentes nacionais, levou o restante ao exílio e desmantelou suas conexões internas. Como consequência, os quadros remanescentes, que restaram no país, fecharam-se em extremada clandestinidade, crispando ainda mais a mentalidade de gerações formadas na adversidade da ilegalidade. Mesmo tendo Prestes rompido com o partido na volta do exílio (1979) — formalizando sua dissidência na Carta aos comunistas (1980) —, o partido prosseguiu fiel ao sovietismo e resistente à renovação de seus quadros e métodos, colocando-se a meio caminho do necessário encontro com a nova sociedade brasileira transformada pela industrialização acelerada do período 1967-1979.

A exacerbação defensiva fechou o partido para a sociedade e as novas gerações. Os jovens que se aproximavam do PCB nesse período tinham uma noção de radicalidade diversa da dos dirigentes — a maior parte deles formada nos embates dos anos 1930-1950, quando o país ainda era predominantemente rural. Enquanto para os velhos a radicalidade se confundia com períodos da própria trajetória em que predominara o sectarismo e o revolucionarismo, para os jovens ela significava uma mudança drástica nas instituições republicanas e nos organismos sociais/partidários, no sentido da aproximação com as bases por meio da pluralidade de ideias e dos métodos democráticos — inclusive internos às organizações.

Em termos práticos, a renovação inconclusa dos comunistas — uma tradição de longa data — significou a interdição efetiva de toda uma geração de novos quadros bem preparados à posição de direção, que continuaria nas mãos da geração heróica formada em condições bem mais desvantajosas e culturalmente defasada em relação ao novo país que emergia. A consequência foi o desencontro entre a nova política democrática dos comunistas e a geração radical-democrática em desacordo com seus métodos e crenças ideológicas, o que acabou por abortar as possibilidades competitivas do PCB diante de um PT que nascia encetando essas expectativas.

O encontro dos ex-guerrilheiros castro-stalinistas com o sindicalismo pastoral, em contato estreito com a classe operária — inclusive do ponto de vista ideológico (catolicismo) e, por isso mesmo, capaz de atrair seus elementos corporativistas mais avançados, aglutinados em torno do sindicalismo pragmático de São Bernardo do Campo (1969-1978) —, significaria o mais sério desafio à recuperação da influência política do PCB. Nesta convergência do pragmatismo corporativo com a teologia da libertação, surgiria a massa crítica de lideranças e público que permitiu ao velho esquerdismo se reinventar após o fracasso da luta armada. Lula e seus companheiros de greve foram catapultados à condição de lideranças operárias nacionais na esteira das mobilizações operárias de 1978-80, libertando a esquerda sectária de seus guetos ideológicos.

Enquanto a classe operária irrompia num cenário político de agitações marcadas pelo protagonismo intelectual e estudantil das classes médias renovadas, o PCB aprofundava seu hiato ideológico-social ao reagir de modo convencional aos novos desafios colocados pela agitação popular. Em novembro de 1978, por meio de sua imprensa clandestina (Voz Operária), os pecebistas afirmavam que “[…] o melhor canal para onde fazer confluir […] toda a movimentação […] em favor das soluções democráticas é o Congresso Nacional” e que “[…] estes objetivos só podem ser realizados com a […] unidade do MDB […]”, de modo que “caberá a estes parlamentares introduzir permanentemente no debate político nacional as grandes reivindicações dos movimentos populares […]”.

Apontando a via institucional concreta para a superação do regime de exceção, os comunistas, ao mesmo tempo, sem se aperceberem, colocavam em segundo plano a pressão pela renovação da política em si, que a equação parlamentar-emedebista expressava apenas em parte. Com isso, menosprezavam-se os efeitos positivos das mudanças que a frente democrática estava fadada a sofrer diante dos novos desafios sociais e da iminência da volta das velhas lideranças exiladas, entre elas Leonel Brizola, Miguel Arraes e Luís Carlos Prestes.

O novo contexto abriria as portas para a ascensão das esquerdas às estruturas de poder do Estado a partir das eleições de 1982, com a participação marginal do PCB. Mas as promessas de grandes mudanças não se realizariam, dadas as pressões centrípetas do sistema de poder vigente e o despreparo das esquerdas em encarar o desafio numa perspectiva frentista, tal como apontado pelo VI Congresso do PCB em 1967. Mas isso é assunto para o próximo artigo.

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Hamilton Garcia de Lima é cientista político e professor da Uenf–Darcy Ribeiro

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Por que somos assim?
A questão militar
A democratização do Estado
A evolução da esquerda – 1
A evolução da esquerda – 2








Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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