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A nau dos insensatos: falando a sério sobre Bolsonaro

Marco Aurélio Nogueira - Agosto 2018
 


Ele consegue a proeza de unir contra si os democratas (esquerda, liberais e conservadores) e causa repulsa generalizada. Apesar disso, mantém posição de destaque na corrida eleitoral, catalisando descontentamentos, frustrações, ódios, preconceitos e ressentimentos de todo tipo.

Esmerilha uma eficiente demagogia populista. A retórica assusta, pela falta completa de responsabilidade cívica, pelo que vocifera contra a democracia, pelo irracionalismo que espalha pela sociedade.

O capitão da reserva Jair Bolsonaro ameaça passar para o segundo turno, impulsionado por um conjunto de fatores: a fragmentação das esquerdas e do centro democrático, a imagem negativa que sobrou dos governos Dilma, o horror à corrupção e à insegurança, a degradação da política e a exuberante fragilidade do governo Temer. Somados ao desalento que se abateu sobre a população e à confusão ideológica, tais fatores deram-lhe estabilidade e fôlego, ao menos até agora.

Sua função tem sido dupla: fazer o elogio da ignorância e do despreparo, que são por ele “ressignificados” para se converterem em trunfo, e dar corpo a uma direita reacionária e retrógrada que há tempo não conseguia encontrar expressão.

Ele, porém, é um fenômeno mais amplo, de caráter simbólico e cultural. Mostra à perfeição o estado de deterioração política, dissolução ética e miséria educacional a que chegamos. Dá voz à angústia de diversos segmentos sociais, que não são necessariamente de direita e estão integrados por pessoas que perderam a confiança na democracia e na política.

Seus apoiadores são pessoas que querem ver o circo pegar fogo, dar um tranco num sistema que fere suas convicções ou não os beneficia. Optam por uma “radicalização” que desorganize a vida para então reorganizá-la. O caráter misógino, racista e autoritário do candidato não lhes diz respeito nem incomoda. Também não há qualquer preocupação com eventuais prejuízos derivados de uma vitória de Bolsonaro. Gostam de seu estilo bateu-levou, debochado e arrogante.

A antipolítica é a estrela-guia deles. A nau dos insensatos

(a) O estilo rústico e agressivo do capitão, que faz graça com coisa séria, mexe com o “instinto” das pessoas, que o admiram por não levar desaforo para casa e confrontar o “politicamente correto”. Do alto de seus excessos, Bolsonaro é visto como uma espécie de “salvador” (um mito), patrono de um novo recomeço. São pessoas que querem mudar, mas que não conseguem qualificar direito o que seria a mudança. Pensam em conseguir algo “diferente”, que elimine erros e falcatruas. Acreditam que Bolsonaro fará com que a economia deslanche e os empregos voltem, injustiças sejam eliminadas e a tranquilidade retorne. Nesse grupo entram também os que são pura e simplesmente autoritários, que acreditam na virtude da força e querem a volta da “ordem” a qualquer custo. É uma forma de obscurantismo.

(b) Os que são contra a corrupção veem no capitão um político íntegro. A falta de critério e informação prevalece. Não levam em conta, por exemplo, que Bolsonaro foi uma nulidade no Congresso. Formou um pequeno bunker ao eleger os filhos como parlamentares. Além disso, integrou partidos repletos de práticas corruptas. Foi afastado do Exército por má conduta.

(c) Os que se preocupam com a insegurança e a violência impressionam-se com as falas duras de Bolsonaro, com suas ideias de redução da maioridade penal, de adoção da pena de morte, de castração química de estupradores, de liberação de armas para a população. Não levam em conta o efeito perverso que tais medidas teriam sobre a sociedade. Querem ver sangue, na linha olho por olho. Não se impressionam com as pérolas envenenadas do capitão, que contaminam os direitos humanos, a paz e a convivência democrática ao elogiarem a tortura contra adversários políticos. Acham que esse é o preço que se terá de pagar para que se recupere a moralidade perdida com a democratização. Uma nova era de trevas e fechamento não seria necessariamente um problema.

(d) Os que acreditam no “perigo comunista” acham que o capitão acabará com o predomínio das esquerdas, a quem culpam pelos dissabores da vida cotidiana, pela perda de renda familiar, pelo desemprego e pela corrupção. Bolsonaro se dedica a seduzir o eleitorado antipetista, mas também atrai parte dos eleitores que se desiludiram com o lulismo e querem se vingar do que consideram ser um “excesso” das esquerdas e do liberalismo progressista, especialmente no campo dos direitos e das postulações identitárias. A crítica à cultura e aos excessos do “politicamente correto” é uma de suas fronteiras de resistência.

Em suma, o exército de fieis que aplaudem Bolsonaro é composto por uma mistura de ingênuos, desiludidos, desinformados e protofascistas — todos mal-educados politicamente, crentes de que um braço forte no Estado fará a vida melhorar. É uma combinação entre gente que se sente desamparada, “fundamentalistas” e ressentidos, inimigos do sistema democrático e amigos da autoridade. Forma-se assim um agregado para quem a política é algo a ser desprezado e a democracia pouco importa.

O capitão pilota uma nau dos insensatos. Rusticidade argumentativa

Seu jeito de ser segue um padrão: não interagir com os interlocutores, ignorar as perguntas incômodas, repisar as mesmas teses, incansavelmente, para saturar os ouvintes. Ele é sua própria referência, não quer dialogar nem conversar com ninguém que já não tenha aderido ao seu credo. Abusando de ataques, grosserias e absurdos, ele dá ordens ao séquito, que o acompanha sem vacilação.

Daí que as críticas ideológicas a ele não têm qualquer eficácia. Não penetram, ricocheteiam. Ao contrário, quanto mais se bate nele por essa via, mais ele cresce, como se estivesse imunizado contra tentativas de “desconstrução”. Para a população que o segue, tanto faz se fala mentiras ou verdades, tanto faz se gosta de tortura e ditadura. Sua rusticidade argumentativa o faz ser entendido pela massa de eleitores, ainda que não consiga seduzi-los por inteiro.

Bolsonaro não resulta de virtudes ou talentos: é um subproduto do contexto de crise e degeneração da política, um filho torto da metamorfose que sacode as estruturas sociais. Foi sendo engordado pelos erros dos democratas, pelas políticas públicas enviesadas dos últimos governos, pela demagogia rasteira, pela entrega da esquerda a políticos salvacionistas, com seu paternalismo assistencialista e sua retórica vazia e radicalizada.

Pode não ter tempo de TV e palanques poderosos, mas tem algo que falta nos demais: redes digitais ativas, fanáticos engajados, gente que acredita nele, que se sente abandonada pelos governos sucessivos e que não está nem aí para a democracia.

Existem, porém, quatro grandes problemas que o capitão não consegue resolver.

Um está ligado ao seu programa econômico, se é que se pode chamar assim as ideias que têm circulado a esse respeito. Coordenado pelo economista Paulo Guedes, que se diz um ultraliberal em economia, o programa antes de tudo colide frontalmente com o estatismo intervencionista e autoritário do candidato. Guedes propõe coisas como recuperação do equilíbrio fiscal, novo pacto federativo, redução de dívida pública, privatizações e concessões, redução e a simplificação de impostos, regime de capitalização na Previdência e abertura da economia. Bolsonaro jura que obedecerá ao guru, que já não é mais estatista e que só deseja o bem do país. Vai com isso tentando limar resistências do mercado. É uma convivência difícil, que não promete dar frutos nem mostra viabilidade.

Outro problema é o isolamento político-partidário. O capitão foi rejeitado por todos os partidos de que tentou se aproximar e não progrediu no terreno propriamente militar. Foi relegado à condição de candidato de um só partido, sem muitos recursos de campanha. A essa altura do jogo, a escolha do vice já não mais agregará valor expressivo, posto que não aumentará o tempo de propaganda, não fornecerá novos palanques e poderá até mesmo trazer mais desqualificação e turbulência.

O terceiro problema é seu despreparo técnico e sua grosseria, discursiva e de postura. São atributos que encantam seus seguidores, mas que não deverão beneficiá-lo no debate público, quando será confrontado abertamente pelos adversários. A falta de tempo de TV agrava a situação.

Por último, há aos efeitos de sua misoginia machista. O eleitorado feminino não o assimilou e pode ser que não venha a fazê-lo, o que barrará suas pretensões eleitorais.

Fanáticos incansáveis

Para compensar suas limitações, o capitão aposta na rede de seguidores e animadores que conseguiu articular. São milhões de bolsominions, fanáticos na maioria, que se encarregam de espalhar incansavelmente slogans e mensagens que repisam os temas de campanha e alimentam a idolatria ao “mito”. Não se sabe quanto, mas é certo que conseguem alguma ressonância entre os ressentidos e os incomodados com os excessos do “politicamente correto”, além de insuflar espíritos hostis à esquerda ou decepcionados com os governos do PT e com a classe política.

Outra compensação vem, paradoxalmente, da estratégia seguida pelo PT de manter Lula no centro da disputa eleitoral, mesmo preso e alcançado pela Lei da Ficha Limpa. Quanto mais essa estratégia confronta o Judiciário e radicaliza sua narrativa, mais água despeja no moinho de Bolsonaro. De certo modo, o capitão e ex-presidente são como gêmeos xifópagos, que dependem um do outro para sobreviver.

Não dá para transferir a culpa a seus eleitores e aos que poderão ser arrastados pelas palavras do “mito” porque estão de saco cheio de tudo. O irracionalismo de extrema-direita que ele busca vocalizar tem várias determinações, que precisam ser devidamente decifradas.

Bolsonaro é um perigo real. Mesmo que perca as eleições, terá dado o seu recado e alimentado o monstro que se pensava desativado. A nau dos insensatos já está a singrar os mares.

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Marco Aurélio Nogueira é professor titular de teoria política e coordenador do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais da Unesp

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Centro, esse escorregadio objeto de desejo
Força e fraqueza das instituições
A encrenca que nos espera
Falando a sério sobre Alckmin – 1
Falando a sério sobre Alckmin – 2





Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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