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Frente democrática ou frente de esquerda?

Cláudio de Oliveira - Outubro 2018
 


Nas eleições de 1982, havia uma discussão entre diferentes correntes de esquerda: qual era a frente necessária para vencer o regime ditatorial? Uma frente democrática ou uma frente de esquerda? [1]

Qual a diferença?

Frente de esquerda era uma frente formada nas décadas de 1920/30 entre socialistas e comunistas. Frente democrática era uma frente que ia além esquerda, dela também fazendo parte liberal-democratas contrários ao fascismo.

A primeira era defendida pelo PT, ele próprio a frente de esquerda, com o seu lema “Vote 3, o resto é burguês”. Na estreiteza petista, nem o PDT, de tendência social-democrata, entrava nessa frente.

Ao contrário, o antigo PCB defendia uma frente democrática. Para o então ilegal “Partidão”, o MDB se constituíra numa frente democrática, ao congregar os comunistas e remanescentes da UDN, PSD, PDC, PTB e PSB.

Se o objetivo era recuperar a democracia, era natural organizar uma frente de todos os setores interessados nela. A frente democrática deveria ter um programa comum e os seus candidatos a cargos majoritários deveriam ser sempre aqueles que melhor agregassem as suas correntes [2].

Foi o antigo MDB que derrotou o regime autoritário no Brasil com as vitórias eleitorais de 1974, 1978, 1982 e finalmente de 1985, quando então Tancredo Neves venceu Paulo Maluf no Colégio Eleitoral.

Atualmente, diante da ameaça de vitória de uma direita autoritária no Brasil, uma frente democrática deveria ter sido formada no início da campanha, com um programa comum e um candidato de consenso [3].

Acho pouco provável que setores liberais centristas e mesmo de centro-esquerda se engajem no segundo turno numa campanha do candidato da aliança PT-PCdoB e seu programa [4]. Mesmo porque tais setores veem o candidato da direita não como propriamente fascista e acreditam que as instituições democráticas poderão controlar seus pendores autoritários.

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Cláudio de Oliveira, jornalista e cartunista

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Notas

[1] Havia anteriormente denominado de Frente Popular uma frente exclusivamente de esquerda formada na década de 1930 entre socialistas e comunistas para combater o fascismo. Mas o professor Alberto Aggio me fez o seguinte alerta: “A Frente Popular dos anos 30 não era apenas entre comunistas e socialistas. Nela estiveram republicanos, como na Espanha e França, por exemplo, ou radicais e liberal-democratas, como no Chile, que foi palco da vitória da Frente nas eleições presidenciais em 1938. Uma aliança mais restrita entre comunistas e socialistas e até organizações sociais era chamada de Frente Única. Uma teorização que no movimento comunista foi ultrapassada no VII Congresso da Internacional [1935]”. Assim, achei por bem opor neste texto frente de esquerda e frente democrática.

[2] Ao defender posições de consenso dentro do MDB, o PCB tentava afastar o fantasma da experiências das Frentes Populares do Leste da Europa do pós-guerra, quando os Partidos Comunistas impuseram sua liderança. Os PCs submeteram seus aliados antifascistas ao seu programa e a ditaduras de partido único, em alguns casos com um multipartidarismo de fachada.

[3] No início da campanha eleitoral, o ex-governador da Bahia, Jaques Wagner, propôs uma frente reunindo PT, PCdoB, PSB e PDT com um programa comum em torno da candidatura de Ciro Gomes. A proposta foi detonada pela cúpula petista.

[4] Uma aliança em torno da candidatura de Marina Silva nem sequer foi cogitada, uma vez que o PT a vê como uma “neoliberal”.

Na eleição de 2006, José Dirceu deu a ordem unida: “o inimigo é o PSDB”, um partido formado por liberal-democratas, social-liberais e social-democratas de terceira via, cujos líderes foram em grande parte responsáveis pela atual Constituição.

O texto constitucional de 1988 estabeleceu as bases institucionais do Estado de Bem-Estar Social no Brasil.

A posição do PT faz lembrar os stalinistas da década de 1920 que viam a social-democracia como “irmã gêmea” do fascismo. Em 1932, ao se negar a compor um governo com o SPD, o PC alemão favoreceu o impasse que levou à nomeação do nazista Adolf Hitler como primeiro-ministro da Alemanha.

No capítulo “A Revolução Russa e o fascismo” do livro Lenin, Martov, a Revolução Russa e o Brasil, descrevo a estreiteza de Josef Stalin e a abertura de Palmiro Togliatti a um diálogo com todos os setores democráticos, inclusive durante a Guerra Fria.

Aos interessados, eis o link:

Lenin, Martov, a Revolução Russa e o Brasil

https://www.amazon.com.br/dp/B07B8WCBKT

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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