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Meia dúzia de ponderações

José Eli da Veiga - Outubro 2018
 




Quinta, 11 de outubro de 2017

São muito preocupantes os insistentes sinais de que muitos progressistas esclarecidos estejam cogitando votar nulo no segundo turno da presidencial.

Para contrariar tendência tão nociva — mesmo que apoiada em justa rejeição aos descalabros petistas — serão insuficientes os seis parágrafos abaixo. Mas tentar algo melhor envolve alto risco de que a mensagem chegue tarde demais. Por isso, vão aqui esboçadas apenas as etapas do raciocínio, com notas de rodapé.

1) A ampla inclinação social fascista [1] que se concretizou no primeiro turno não pode ser interpretada como novidade, pois tem sido razoavelmente recorrente [2]. Muitos devem lembrar de ao menos três episódios comparáveis, sobre os quais é necessário refletir: a eleição de Jânio Quadros (1960), o golpe de 1º de abril de 1964; e a eleição de Fernando Collor (1989). Os três casos também foram situações de repúdio massivo a situações de “bagunça”, com bandeira tipo “eu quero é ordem nessa porra!”. Situações que estimularam ímpetos de “limpeza” ou “higienização” da política. No caso que teve consequências mais duradouras, a adesão das massas a tal bandeira ficou meio “escondida” por precipitação da ruptura institucional [3]. Mas a “Marcha da Família” mostrou que era bem amplo o apoio à consigna “eu quero é ordem nessa porra!”, mesmo que não tenha havido tempo para que tomasse ruas e/ou urnas.

2) Nos três episódios, os progressistas esclarecidos (maioria dos que normalmente se incluem na “esquerda” [4]) estavam bem desmoralizados. Por razões diferentes, mas todas ajudando a direita a conquistar amplos contingentes com potencial para a “moderação” (ditos “centristas”).

3) Após o golpe de 1964 demorou muito para que o campo progressista se unificasse na oposição à ditadura, principalmente porque grande parte dessa “esquerda” não tinha sólidas convicções democráticas. Foi mais o processo de erosão do campo autoritário que acabou por favorecer uma ampla união dos democratas, capaz de “arrastar” os autoritários de esquerda para algo semelhante ao que agora já emerge como “Frente Democrática” e “Pacto para a Democracia” [5].

4) Foi esse tipo de articulação que garantiu os muitos avanços posteriores ao “Diretas Já!”. Mas um fenômeno que se esgotou em doloroso processo iniciado na sucessão de Lula (2009-2010) [6] e que não parou de se intensificar. Os testemunhos mais gritantes foram as manifestações de 2013, a nojenta eleição de 2014, as revelações da Lava Jato, as eleições municipais de 2016 e o locaute do transporte rodoviário em 2017.

5) Se há uma lição a ser tirada disso tudo é que os progressistas esclarecidos (necessariamente democratas convictos) se encontram em situação bem semelhante à que enfrentaram a partir de 1964. E que só conseguiram reverter depois de duas décadas de tragédia sociopolítica combinada (até o início dos anos 1980) a grandes êxitos econômicos. Ou seja, é preciso evitar uma repetição da longa ineficiência que predominou no processo de unificação dos democratas.

6) Por isso, parece preferível que Fernando Haddad seja derrotado só por um triz [7]. Claro, esta conclusão precisa de muito mais argumentos. Mas a urgência milita pela provocação de um debate que certamente poderá demover muita gente da irracional atitude de rejeição ao voto em Haddad, mesmo que justificado por ojeriza ao Lula e ao PT. A oposição política ao governo fascista de um capitão reformado, mais seu séquito de generais da reserva, começará muito mais forte se o resultado do segundo turno mostrar que quase metade dos votos válidos a legitimam. Se a diferença entre os dois candidatos for tão grande quando mostram as pesquisas, a oposição começará bem fraquinha, respaldada em minoria.

Em suma: #nulonão!

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José Eli da Veiga, professor sênior do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP) e autor de A desgovernança mundial da sustentabilidade (Editora 34, 2013).

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Notas

[1] Há muita controvérsia sobre esse uso da noção “fascismo/fascista”. Por exemplo, o colunista Roberto Dias afirma na página 2 da Folha de S. Paulo desta quinta 11/out/18 que “a banalização do termo fascismo mostra que ignorância histórica não é monopólio da direita”. Infelizmente não há tempo nem espaço para justificar que o emprego desse termo aqui não ignora a história, muito pelo contrário.

[2] É óbvio que sempre há alguma “novidade” nos fatos históricos. Mas podem ser bem menos relevantes que movimentos profundos que se manifestam como “ondas” mundiais. A atual, que está sendo chamada de “contraliberal” pelos colunistas Rodrigo Zeidan e Clóvis Rossi, talvez seja uma quarta onda “reacionária” se a referência for um dos melhores estudos do cientista político Albert O. Hirschman, publicado em 1991: “The rhetoric of reaction”. Ver: http://www.zeeli.pro.br/5039

[3] Os milicos foram ganhos pela suspeita de que outro capitão (L.C. Prestes) preparava golpe comunista. 

[4] Remeto o leitor ao artigo “Esquerda versus direita” publicado no caderno EU&, do jornal Valor, em 11 de março de 2016: http://www.zeeli.pro.br/4938

[5] Proposta brilhantemente defendida por Rubens Ricupero na página 3 (Tendências/Debates) na Folha de S. Paulo desta quinta 11out18.  

[6] Há quem diga que até começou antes. Boa discussão, que fica para uma outra vez!

[7] É ínfima a probabilidade de vitória dos democratas e ela dependeria muito mais de eventual grave erro da campanha do capitão (como o que derreteu Russomano em 2012) do que de acertos da campanha de Fernando Haddad. As evidências estão em análise estatística realizada pela FGV, amplamente confirmada pela pesquisa Datafolha divulgada ontem, quarta 10out18. Dizer que a derrota de Haddad por um triz é melhor para as gerações futuras do que sua vitória por um triz esbarra naquela “lei” de que “o pior nunca é melhor”. Tudo depende, portanto, do que se considere pior ou melhor nesta conjuntura. A perspectiva de constituição de uma “frente democrática” para fazer oposição desde a segunda 29out18 está sendo considerada aqui o “melhor”. Mas é natural a esperança de que o “melhor” seja o cenário alternativo de um governo Haddad atacado pela metade do país sob comando fascista.




Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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