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Governo de sete faces

José Eli da Veiga - Janeiro 2019
 


Impecável o mapeamento proposto por Fernando Abrucio das forças que mais determinarão o desempenho do novo governo (“Quando o maior inimigo são os aliados”, no Valor do último dia 21). Classificação que certamente demandará ajustes, assim que for possível saber quais das já visíveis tensões internas tenderão a se cristalizar. Poucas dessas forças são coesas e algumas já começam a exibir rachaduras. Mas, por enquanto, os principais vetores são mesmo os sete retratados por Abrucio. Em ordem alfabética: BBB, filhos, Guedes, Moro, Mourão, Onyx e PSL.

Serão os descompassos e atritos entre eles que mais darão trabalho e dores de cabeça ao presidente, enquanto as oposições de esquerda e de centro continuarem atordoadas pelo nocaute sofrido em outubro. Daí ser fundamental ir um pouco além, discutindo também quais poderão ser as mais prováveis alianças entre os sete esteios.

Há consistentes identificações entre trincas que poderão gerar dois aguerridos blocos polares. De um lado, BBB-filhos-PSL; de outro, Guedes-Moro-Mourão. Cenário que até poderia oferecer um confortável papel de fiel da balança aos mais antigos aliados políticos do bolsonarismo, sob a batuta de Onyx. Todavia, os primeiros dias de governo sugerem o contrário: como bombeiros, só agravam as disputas ao se comportarem como baratas tontas.

Na Esplanada dos Ministérios, é evidente que a segunda trinca surge amplamente majoritária, pois abrange toda a Economia (inclusive Banco Central), CT&I, Defesa, Justiça, Segurança Institucional e mais duas secretarias: Geral e de Governo. Talvez também Infraestrutura, Desenvolvimento Regional, Minas, Turismo, AGU e CGU. Já a primeira só conta com Agricultura, Educação, Meio Ambiente, Mulher e Relações Exteriores, com boas chances de também arrastar Cidadania e Saúde.

Porém, como hegemonias pouco ou nada têm a ver com maiorias de gabinetes ministeriais, o que realmente interessa é saber quais os projetos de nação discerníveis nas orientações das duas trincas. Por esse prisma, também já parece nítido ser a segunda, Guedes-Moro-Mourão, a que mais promete, pois aponta para visível retomada do desenvolvimento, enquanto a primeira, BBB-filhos-PSL, só poderia postergá-la.

No fundo, o choque central tenderá a se dar muito mais entre adeptos de ideários progressistas e reacionários, do que de agendas que seriam liberais e conservadoras, como mais tem-se lido e ouvido. O rótulo de liberal é adequado à equipe econômica, mas duvidoso no caso de Moro e, mais ainda, no de Mourão. Além disso, não passa de séria ofensa aos conservadores confundi-los com desvairados fundamentalistas.

Enquanto todos os ministros estiverem caçando bruxas, algum grau de coexistência pacífica deverá prevalecer entre as duas orientações, mesmo que aos trancos e barrancos. Porém, depois de tão unânime cruzada, quando tiverem sido eliminados todos os tons de vermelho da administração pública federal, as duas trincas estarão bem mais propensas a se engalfinhar, constrangendo a Presidência a fazer duras escolhas.

Um bom exemplo está no desafio da descarbonização. As melhores das grandes empresas brasileiras aderiram à força-tarefa de Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima (TCFD), formada por corporações com ativos de US$ 100 trilhões. A iniciativa, puxada por Michael R. Bloomberg, conta com a diretora-executiva do Bradesco, Denise Pavarina, em uma de suas quatro vice-presidências. Na lista das 513 organizações que apoiam o TCFD (disponível em bit.ly/2CW5sPl) há, ao menos, 13 siglas com as quais o leitor deve estar muito bem familiarizado: B3, BTG, CNseg, CPFL, Duratex, Ekatu, Eletrobras, Fibria, GranBio, Itaú, Natura, Susep e Vale. Outras se juntaram à Ação Climática 100+ (bit.ly/2hseBqp), grupo de 310 grandes investidores com mais de US$ 32 trilhões de ativos.

Será que tudo isso poderia evaporar só porque o bloco da reação, BBB-Filhos-PSL, conseguiria se mostrar capaz de manter os atuais titulares dos Ministérios de Relações Exteriores, Meio Ambiente e Agricultura?

Pode até ser, pois o comando máximo estará condicionado a um deputado federal que ficou quase três décadas “sem passar no Enem” que o tiraria do baixo clero. Contudo, também é provável que ele próprio acabe por vislumbrar futuro melhor para seu amado Brasil “acima de tudo” em esclarecido realismo pragmático, em vez de em delirantes elucubrações sobre eventual derrocada do modelo chinês por obra e graça de imaginária coalizão do cristianismo ocidental.

Claro, é mais fácil desvendar os segredos dos sete selos do Apocalipse do que saber, hoje, quais serão os efetivos comportamentos dos 24 membros do Conselho de Governo. Pior: é absolutamente impossível prever como o presidente reagirá diante de tantas surpresas. Mesmo assim, neste momento, é preciso apostar e torcer por rápida conquista de hegemonia pelo trio Guedes-Moro-Mourão.

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José Eli da Veiga, professor de sustentabilidade na USP, mantém dois sites: www.zeeli.pro.br e www.sustentaculos.pro.br  

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Geopolítica ambígua na crônica do capitalismo
Meia dúzia de ponderações





Fonte: Valor, 11 jan. 2019.

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