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Os militares e a política

Cláudio de Oliveira - Fevereiro 2019
 


Na foto da ilustração, de 1998, autografo com prazer um exemplar do livro de charges Pittadas de Maluf para Salomão Malina, herói da FEB durante a II Guerra Mundial.

Malina combateu como oficial na Itália e ajudou a derrotar o fascismo de Benito Mussolini. Foi condecorado com a Cruz de Combate de Primeira Classe, a maior condecoração de guerra do Exército Brasileiro, por atos de bravura.

Filho de imigrantes poloneses e ainda muito jovem ligado ao PCB, foi convocado pelo Exército e por sua dupla condição de judeu e comunista se sentiu na obrigação de ir para a guerra.

De volta ao Brasil, pouco tempo depois foi para a reserva e se dedicou à militância política. Com a cassação do PCB em 1947 e diante da repressão que se abateu sobre seus militantes, Malina viveu parte de sua vida na clandestinidade.

Foi um dos encarregados do Comitê Central para o “setor militar”, que organizou os militares que aderiam ao partido em compartimentos de soldados, sargentos e até generais.

Em seu livro de memórias [1], Malina lembra que a mais exitosa luta do setor militar do PCB foi a campanha do Petróleo é Nosso, que resultou na criação da Petrobras em 1954; um dos seus maiores líderes foi o general Leônidas Cardoso, pai de Fernando Henrique Cardoso, à época ambos vinculados ao partido.

Depois do golpe de Estado de 1964, Malina continuou o seu trabalho no setor militar na mais estrita clandestinidade. Morreu em 2002 aos 80 anos de idade sem revelar o nome de qualquer oficial das Forças Armadas que tivesse tido contato com o PCB.

Malina foi o último secretário-geral do Partidão antes da mudança de nome para PPS em 1992, ao qual continuou filiado.

Escrevo este comentário ao sentir em certos setores políticos preconceitos em relação ao militares, na falsa crença de que há uma posição política única entre eles e de que todos seriam reacionários de direita.

Ora, assim como qualquer cidadão, os militares se dividem entre as diversas correntes de opinião política existentes na sociedade. E, quando na ativa, assim como membros de outras carreiras de Estado, como diplomatas, magistrados e promotores, não devem exercer atividade partidária pública. Uma vez na reserva, estão livres para exercer qualquer função pública.

É importante não confundir as Forças Armadas, instituição, com os militares que fazem parte do governo Bolsonaro. Nem todos os militares, da ativa ou da reserva, no governo ou fora dele, são bolsonaristas.

E os que fazem parte da atual administração federal têm demonstrado não ser o setor mais atrasado do governo. Eles têm agido, grosso modo, com lucidez e moderação, como no caso da presente crise da Venezuela, contrários à intervenção militar no país vizinho, como quer a extrema direita bolsonarista representada pelo chanceler Ernesto Araújo.

Com sua visão estratégica de longo prazo, esses militares podem ser a espinha dorsal do governo de Bolsonaro, sem base parlamentar definida e com um partido, o PSL, que é uma geleia que não fica de pé. Eles podem salvar o governo e o país de uma grave crise política-institucional, cuja consequência seria jogar o Brasil em mais outra grave crise econômica e social.

O importante é que, como qualquer cidadão, todos os militares permanecem no estrito cumprimento da Constituição democrática de 1988. Assim, o Brasil sairá fortalecido da crise e em boas condições de dialogar com outras nações, o que é condizente com sua posição de oitava economia do mundo.

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Jornalista e cartunista. Autor de livros de cartuns e de Lenin, Martov, a Revolução Russa e o Brasil

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Nota

[1] O último secretário – A luta de Salomão Malina. Brasília: Fundação Astrojildo Pereira, 2002.  

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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