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Um olhar no pensar e no agir

Gilvan Cavalcanti de Melo - Março 2019
 


A meu ver, revisitar as ideias dos clássicos do passado ajudaria a pensar o novo mundo e o Brasil em sua interconexão digital, o fenômeno mais visível das mudanças contemporâneas, e poderia evitar que se pensasse o agir político como um retorno ao velho, ao antigo, como se novo fosse.

Há um consenso de que o mundo material não é estático. Os clássicos da Grécia antiga já anunciaram: “Tudo flui e nada é permanente, exceto a mudança”. Nos tempos modernos, com o surgimento do capitalismo, outro pensador sentenciou: “Tudo que é sólido desmancha no ar”. O movimento da história já comprovou essa tendência. É incessante e permanente a mudança, inclusive na ciência e na tecnologia. No pensar e no agir político, ocorre o mesmo processo contínuo de mudança, conflito, interdependência globalista ou, como outros preferem, cosmopolita.

É o instante de pensar o nosso compromisso com o País. Isso sugere tentar desvendar essa complexa sociedade brasileira. Acredito que devemos partir dos elementos embrionários que definem o processo de afirmação do capitalismo brasileiro, seu êxito nesses longos anos de profundas modificações moleculares. Entender esse caminho facilitaria muito o nosso caminhar futuro. E só a democracia política é o porto seguro para um pensamento reformista. O caminho mais real é debruçar-nos sobre a conjuntura.

Como fazê-lo? Os clássicos da política já nos forneceram algumas sugestões, pelo menos metodológicas, para analisar e fazer previsões e perspectivas. Posso lembrar algumas: Sócrates, na antiga Grécia, nos falava de persuasão como arte política do discurso dirigida à multidão; Maquiavel nos ensinou as relações da política com sua conexão de virtù e fortuna; Hegel nos advertiu que a cidadania tinha um conhecimento defeituoso; Montesquieu nos ensinou que o senso comum dobrava-se aos pensamentos e às impressões de outrem; Tocqueville nos legou a relação circunstância e providência; Marx nos deixou as análises das relações entre estrutura e superestrutura; Lenin utilizava-se de estratégia e tática; Gramsci diferenciava o permanente e o eventual, o orgânico e o ocasional.

Essas ideias clássicas chegaram ao seu ponto mais avançado com a filosofia clássica alemã (Kant, Hegel e Feuerbach); a economia política inglesa (A. Smith e Ricardo); e o pensamento político de Maquiavel, Locke, Montesquieu, os teóricos da Revolução Francesa e Americana, o socialismo de Saint-Simon e Fourier

Marx e sua filosofia da práxis entraram em cena com a tentativa de resolver os problemas mais avançados da humanidade. Marx surgia como a continuação direta e imediata dos maiores representantes da filosofia, da economia política e do socialismo. Procurava dar aos homens uma concepção unitária do mundo, que não poderia conciliar com nenhuma superstição. Apresentava-se como o sucessor de tudo aquilo que o gênero humano criara de melhor no século XIX. É conhecida sua tese: “Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diferentes maneiras; o que importa é transformá-lo”.

Já no século XX, Gramsci, em um balanço severo, afirmou que a filosofia da práxis tinha duas tarefas: a) superar o pensamento moderno em suas formas mais refinadas; b) persuadir o senso comum, cuja cultura era medieval. Esta segunda função absorveu tanto o esforço quantitativo quanto o qualitativo. Por várias razões essa persuasão se confundiu com uma forma de cultura um pouco superior à mentalidade do senso comum, incapaz, portanto, de superar a mais alta manifestação cultural do seu tempo. Já outro italiano pôs o dedo na ferida. Nos idos de 1970, Berlinguer, então secretário do PCI, afirmava em Moscou: “A democracia é um valor permanente e universal”. O resultado da história é por demais conhecido.

No período mais recente, no final do século XX e início do XXI, com novos cenários projetaram-se novos pensamentos que se poderiam resumir assim: a) o pensamento antropológico e sociológico da Igreja pós-conciliar; b) as ideias integradoras das principais social-democracias europeias; c) o ecossocialismo; d) as tradições da não violência; e) a constituição e desenvolvimento do gênero humano inspirado na diferença sexual; f) as ideias de progresso fundadas na consciência do limite; h) o conceito de desenvolvimento sustentável e outros.

Todos eles, de uma forma ou de outra, deixaram para nós uma rica experiência para analisar conjunturas e relações de forças. Isto é, como devemos estabelecer os diferentes graus de relações de forças e nos prepararmos para uma exposição elementar sobre ciência e arte políticas. Em outras palavras, pensar como um conjunto de normas práticas de pesquisas e úteis observações singulares pode despertar o interesse pela realidade palpável e suscitar, ao mesmo tempo, faculdades de perceber, discernir ou pressentir políticas mais meticulosas e robustas.

Quais foram estes elementos metodológicos herdados, que nos permitem diferenciar diversos graus de uma situação concreta?

Em primeiro lugar, verificar uma relação de forças sociais conectada muito de perto à estrutura, que pode ser avaliada com os métodos da estatística. Com base no nível de desenvolvimento das forças materiais de produção organizam-se os agrupamentos sociais, cada um dos quais tem uma função e ocupa uma determinada posição na produção. Esta é uma relação real, concreta, rebelde. O número de estabelecimentos da indústria, comércio, bancos, escolas, de serviços, etc., e o pessoal reunido no espaço circundante, o número das cidades com as suas populações, tudo isto é um dado factual. Este elemento nos permite avaliar se, em determinada sociedade, existem as condições suficientes para as mudanças. Possibilita-nos monitorar o grau de realismo e de visibilidade das diferentes ideias que o processo gerou.

A conjuntura, como já foi dito, não é estática. Apresenta sempre algo novo, distinto. Isto porque a correlação de forças e interesses no cenário político varia. Quando esse cenário muda, a política de alianças também sofre mudança. A sociedade experimenta uma sensação de turbulência, de insegurança ou crise. Foi, mais ou menos, o cenário das eleições de 2018, quando saiu vitorioso um agrupamento político que se definia apolítico e apartidário.

Na minha opinião a questão mais importante na conjuntura mundial e no Brasil é o fenômeno do pensamento político populista e antiliberal. Atinge, simultaneamente, Estados Unidos, Europa Ocidental, Brasil, Turquia, Hungria e outros países. É um fenômeno único. É um movimento antiglobalista e nacionalista de repúdio sistemático às instituições criadas a partir dos princípios liberais — divisão dos poderes, liberdades individuais, direitos sociais e políticos, tal como desenvolvidos nos últimos tempos. Hoje proliferam movimentos populistas que defendem interesses nacionais imediatistas, solapam as liberdades e a atual ordem global.

Esse fenômeno tem sido cada vez mais visível após a vitória eleitoral de Trump e sua principal bandeira: “América primeiro”. A isso se somam a campanha do Brexit, o grito da direita francesa (“A França para os franceses”), os apelos dos atuais governantes italianos (“A Itália primeiro”), a Hungria de Orbán, sem esquecer o presidente Bolsonaro com seu “Brasil acima de tudo”.

É um movimento regressivo, não produz futuro e se protege através de uma fantasia. Foge do real e objetiva uma volta ao passado, o que é impossível. Tenta instalar o medo. E isso agrava a crise em vez de resolvê-la. Os exemplos são muitos.

A principal responsabilidade dos democratas e progressistas é enfrentar esse tema e encontrar os caminhos para derrotar essa movimentação velha querendo se apresentar como o “novo”.

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Gilvan Cavalcanti de Melo é membro do Diretório nacional do PPS

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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