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Planeta dos estranhos

José Eli da Veiga - Junho 2019
 


O maior desafio às tentativas de periodização histórica está em identificar algum padrão que claramente supere a inevitável heterogeneidade dos fatos. Ao caracterizar o Absolutismo, por exemplo, os historiadores precisam deixar de lado as gritantes diferenças entre a França de Luís XV, a Inglaterra de Elizabeth I, a Espanha de Felipe II ou a Rússia de Catarina II. Da mesma forma, ao se distinguir etapas ou fases da democracia liberal do Ocidente, é preciso “ignorar” as muitas diferenças nacionais, europeias e norte-americanas.

Por longos duzentos anos, entre o decênio da Revolução Francesa (1789-99) e a década Thatcher-Reagan (1979-80 a 1989-90), o Ocidente democrático teve três nítidos avanços, sempre seguidos de furibundas contraofensivas.

A primeira dessas três ondas reacionárias foi contra a afirmação dos direitos civis (ou do componente ‘civil’ da cidadania), em poderosos ataques à Declaração dos Direitos Humanos. A segunda — que ocupou o último terço do século XIX e as duas primeiras décadas do século XX — foi essencialmente contra o componente ‘político’ da cidadania, concentrando-se no repúdio ao sufrágio universal, particularmente na Itália, na Alemanha e na Rússia soviética. A ampla gama de avanços socioeconômicos promovida pelo Welfare State foi a vítima da terceira onda, na década de 1980. Tudo isso está minuciosamente descrito em livro de 1991, publicado pela Harvard University Press: The Rhetoric of Reaction: Perversity, Futility, Jeopardy, de Albert O. Hirschman. Pena que a tradução permaneça esgotada.

O problema é que o notável pensador de estirpe alemã, que migrou para os Estados Unidos em 1941, não teve como observar a quarta dessas ondas reacionárias — que está a pleno vapor —, pois faleceu em 2012. Ela obteve decisivo impulso em 2016, ano marcado pelo assassinato da deputada trabalhista britânica Jo Cox e pela evidência de intromissão russa nas eleições americanas. Fatos anteriores ao Brexit, à troca de Obama por Trump, à vitória da italiana ‘Lega Nord’ e à eleição do estrambótico governo brasileiro. Mas anunciados por vários fenômenos precursores, como as vitórias do turco ‘Justiça e Desenvolvimento’, do polonês ‘Lei e Justiça’, da aliança entre o ‘Movimento por uma Hungria Melhor’ e a ‘União Cívica’, ou a do filipino ‘PDP-Laban’. Sem esquecer do “pano de fundo” não-ocidental que muito favoreceu a complexa mudança de fase, ao sacudir o xadrez global em 2013-2014: a ascensão de Xi Jinping e a invasão russa da Crimeia.

A maior incógnita recai sobre o significado histórico dessa quarta onda, iniciada em meados da segunda década do século XXI. Depois dos repúdios às dimensões civil, política e socioeconômica da cidadania, o que estaria no âmago da atual contraofensiva? No futuro talvez fique mais fácil identificar o padrão característico do atual período, mas nem um pouco agora, no meio do tiroteio.

O que já dá para registrar é um gênero de “TFP Internacional” embutida em escancarado componente chauvinista. Todos os atuais discursos reacionários evocam particularismos civilizacionais e religiosos abertamente contrários à Ciência; nostalgias sobre
ultrapassados moralismos advindos da organização sexual das condições de vida e de trabalho; e a mais obscurantista e predatória visão do direito patrimonial. Pior: tudo isso carregado de profunda repulsa por qualquer coisa que possa cheirar ao novíssimo valor que é a sustentabilidade.

Talvez nem surja consenso sobre uma noção capaz de sintetizar tantas faces de um mesmo fenômeno, que se torna ainda mais confuso com desavisadas e muito frequentes misturas entre três oposições históricas distintas: conservadorismo versus liberalismo; autoritarismo versus libertarismo; e reacionarismo versus progressismo. Angu que só engrossa com o exageradíssimo emprego da noção-muleta “populismo”, especialmente quando se chega ao acinte de usá-la para se referir ao (neo)fascismo, como denuncia o filósofo Jason Stanley (Yale).

A trinca “chauvinismo-TFP-devastação” pode ter surgido justamente como tectônica reação a algo que começara a engatinhar na breve etapa histórica anterior (1980-2001), entre a Perestroika e o atentado às Torres Gêmeas: um incipiente movimento “cosmopolita”. Como o termo não é frequente, cabe esclarecer que ele é aqui usado no sentido dado pelo livro Cosmopolitanism — Ethics in a world of strangers, de Kwame Anthony Appiah, professor do Center for Human Values, da Universidade de Princeton.

Criado em Gana e educado em Cambridge, o autor procura chamar a atenção para intrigantes questões conceituais que tendem a ficar escondidas sob o manto da globalização. Ele resgata ideias surgidas há 25 séculos na Grécia para mostrar o quanto podem ajudar à compreensão do complexo mundo de hoje, em que existe supervalorização do que torna as pessoas diferentes. Ao confrontar preconceitos sobre o “Nós e Eles”, mostrando que o pivô da reflexão precisa ser a identidade comum da humanidade, o livro é um forte manifesto moral para o planeta dos estranhos.

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José Eli da Veiga, professor sênior da USP

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Fonte: Valor Econômico, 29 maio 2019.

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