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Diálogos do senhor da casa grande com o menino de engenho

Raimundo Santos - Julho 2019
 


DANTAS, Cauby. Gilberto Freyre e José Lins do Rego: diálogos do senhor da casa grande com o menino de engenho. Campina Grande: Ed. Universidade Estadual da Paraíba, 2018. 203p.

Quando nos 1920 Gilberto Freyre e José Lins do Rego começam longeva amizade, dão curso a uma relação em que cada um almeja aproximar-se do ofício do outro. Desde então, afirmam seus nomes na sociologia e na literatura brasileiras. O intelectual pernambucano conhece a fama como autor da singular interpretação do Brasil exposta em Casa grande e senzala (1933) e dos muitos livros e textos que publica sobre variados aspectos da vida nacional. O romancista paraibano projeta-se na cena literária através de uma considerável lista de livros sobre o velho mundo rural nordestino, entre os quais Menino de engenho (1932) e Fogo morto (1943).

É essa relação vivida pelos dois amigos como uma tarefa comum que nos traz Cauby Dantas no livro em questão. Resultado da sua dissertação de mestrado em sociologia defendida na Universidade Federal da Paraíba, da qual é professor, o livro impressiona pelo mergulho que Cauby Dantas faz nas vidas e nas obras de Gilberto Freyre e de José Lins do Rego, escrutinando suas vivências à volta de casa grande, senzala e engenho. Os intelectuais escrevem sobre lugares antigos, o primeiro em boa escrita, e o outro na forma literária, notando-se na apresentação de Cauby Dantas que as reminiscências contadas por cada um deles têm ênfases diferenciadas. Gilberto Freyre assenta na casa grande e na senzala a raiz da nossa formação, vendo nela marcas duradouras da civilização brasileira, ao passo que José Lins do Rego, igualmente trabalhando as recordações do seu passado e da sua região, é mais crítico do sistema social daquelas eras que estavam destinadas a desaparecer.

Assim, nos capítulos “Textos e contextos”, “Ser da sua casa para ser intensamente da humanidade”, “O pacto epistolar” e “Afinidades eletivas nos romances”, Cauby Dantas esclarece o contexto dos escritores e suas obras, dos seus temas e textos, em suma, das suas aproximações. E se fixa no diálogo direto entre Gilberto Freyre e José Lins do Rego, examinando as 238 cartas que trocam durante mais de três décadas. Por sua natureza íntima, confessional e autêntica, esses documentos constituem referência para o autor revisitar a literatura de José Lins do Rego, este interlocutor da sociologia freyriana um tanto esmaecido. Na verdade, Cauby Dantas pretende relevar a presença do romancista no também longo convívio intelectual entre os dois amigos.

São instigantes as considerações finais, nas quais o autor nos diz que: 1) esses intelectuais escrevem seus textos, cartas e romances movidos, mas não exclusivamente, pela necessidade intensa de contar suas recordações e as de suas famílias (na vida cotidiana); 2) seu relacionamento sempre [fora] aberto aos “projetos e planos mútuos” (não sendo mera coincidência que o lançamento de alguns dos seus livros se dê de forma quase simultânea); 3) suas expressões textuais contêm “algo eivado de significados sociológicos e emocionais”; 4) mas também entre eles nem tudo são afinidades eletivas. Há, por exemplo, o pessimismo de José Lins do Rego ao envolver com atmosfera de crise o mundo dos seus romances, povoado por personagens loucos, doentes, os “náufragos sociais” — como anota Cauby Dantas, usando essa noção do próprio Gilberto Freyre.

Gostaríamos de tecer comentários sobre algumas passagens do livro que nos despertam particular interesse. Primeiramente, vejamos aquelas que abordam a dimensão publicista de Gilberto Freyre, quando este se coloca politicamente em determinadas circunstâncias. Elas lembram a época da Revolução de 1930 e o subsequente exílio, ao qual, como observa Cauby Dantas, o próprio Gilberto Freyre se refere no prefácio da primeira edição de Casa grande e senzala. As passagens do livro que sublinhamos seguem mencionando a ditadura do Estado Novo, a censura dos seus artigos nos jornais locais, a invasão da sua casa com apreensão e queima de livros, a sua prisão em 1942 e a candidatura e eleição para a Constituinte em 1945.

Segundo Vamireh Chacon, essa disputa eleitoral foi apoiada pela vertente da União Democrática Nacional (UDN) conhecida como Esquerda Democrática, que logo iria formar o Partido Socialista Brasileiro (PSB). O livro de Cauby Dantas registra o apoio de Gilberto Freyre ao regime ditatorial de 1964, havendo ainda um outro momento, que deve ser aludido, em que o sociólogo, já nos inícios dos anos 1970, faz sugestões para a plataforma da Aliança Renovadora Nacional (Arena), o partido do governo de então.

Também queremos frisar outras passagens em que o autor reflete sobre o conceito de “zonas de confraternização”, com o qual Gilberto Freyre se volta para a evolução do país no século XIX. Cauby Dantas considera aquele conceito como complemento à noção de “equilíbrio dos contrários”, vendo nele a elaboração de uma interpretação “minimamente harmônica acerca dos excessos e desequilíbrios” que marcaram nossa formação. Postula que os momentos de confraternização crescem com as cidades e diz que, mesmo que o núcleo da sociologia gilbertiana continue referido à família e à residência, já não se trata da antiga família patriarcal rural, mas daquela dos residentes nos sobrados urbanos e semiurbanos.

Cauby Dantas enumera várias situações expressivas do processo de diferenciação social. Citemos apenas algumas delas: a ocupação de cargos públicos de importância por homens citadinos, a despersonalização das relações entre senhores e escravos no espaço da rua, a “desintegração de valores culturais inerentes ao mundo rural em declínio”. O alargamento da tessitura social se dá no curso das mudanças culturais trazidas pela reeuropeização do século XIX, que anuncia, prossegue o autor, “o lento mas persistente rompimento com a ‘herança rural’”. Essas transformações eram consequência do que ele denomina de revolução burguesa, fazendo a ressalva de que Gilberto Freyre não usa esse conceito. A questão a marcar nessa reflexão de Cauby Dantas é que a reeuropeização retratada em Sobrados e mocambos (1936) desenvolve um processo que nas cidades enfraquece a velha raiz fundacional lançada em Casa grande e senzala.

Relembremos que, no prefácio daquela sua segunda obra interpretativa do Brasil, Gilberto Freyre vê com muita reserva os efeitos modernizadores da Revolução Industrial ocorridos em outros países, escrevendo que, aqui, ao repercutirem em bem menor intensidade, eles não levam à solução brasileira. Opondo-se aos modelos capitalista e socialista por considerá-los despersonalizadores do indivíduo, o sociólogo atribui nas mudanças socioculturais entre nós grande protagonismo ao fator “humano”. Assim realça a figura tertius do mulato por sua função de amolecer de “maneira poderosa” os “duros antagonismos” que se arrastam do pretérito rural até as cidades. Por ser, ao mesmo tempo, “socialmente plástico” e “em certo sentido mais dinâmico”, para Gilberto Freyre, o mulato constitui elemento estratégico na diversificação da vida urbana daquela primeira metade do século XIX,uma paisagem ainda pouco pública e caótica.

As observações anteriores nos levam a fazer mais apontamentos sobre outros tempos. Em 1946, na conferência “Liberdade, ordem, mineiridade”, proferida em Belo Horizonte a convite dos estudantes e publicada em 1965, Gilberto Freyre confere grande importância política à composição de interesses e opiniões diferentes, recorrendo a Minas Gerais. Ele diz aos jovens que Minas é o lugar do centro, dos equilíbrios e da arte política (geografia da moderação que lhe convalida falar na “conveniência de conciliação de valores antagônicos”; em “relativismo político” e “relativismo social”, empregando aqui as noções do então sociólogo-parlamentar). O “quase político”, como se define, ampara na "mineiridade" o sentido do método democrático e gradualista de encaminhar os problemas nacionais que ele defende nesses anos.

Acrescentemos que o clássico também se autointitula neomarxista ao modo do fabianismo inglês e reivindica filiação a Joaquim Nabuco, a quem chama de “revolucionário conservador” e “pioneiro do trabalhismo”. É de uma perspectiva reformista que Gilberto Freyre se posiciona na segunda metade da década de 1940. E recomenda que os reformadores deviam corresponder a essa hora de “pós-marxismo” (reconhece aportes do pensamento de Marx, mas recusa o sistema soviético), chegando a citar o socialismo de Otto Bauer e de Max Adler, segundo ele ainda insuficiente, pois o considera um tanto sectário.

Seguindo nessa sua trilha neomarxista, é preciso sublinhar que, em meados dos anos 1950, Gilberto Freyre termina por formular uma “política social” para todo o país, que seria uma revolução rurbana fundada na interpenetração dos valores rurais e urbanos. Registremos, ademais, que, nesse tempo brasileiro de “pan-economismo” (desenvolvimentista), o sociólogo mira o empenho da Inglaterra “de juntar ao número a qualidade” na sua sociedade de massa e aprecia os subúrbios norte-americanos contemporâneos.

Entretanto, se no final da II Guerra Gilberto Freyre repercute no Brasil os ares da Reconstrução e milita na defesa da democracia contra o Estado Novo, logo mais, nos inícios da Guerra Fria, aparece fazendo uma espécie de giro na visão construtiva que, naqueles anos 1940, tinha da nossa esfera pública e política apesar das suas fraquezas. Em uma outra conferência proferida na Escola do Estado-Maior do Exército no dia 30 de novembro de 1948, intitulada “Exército e Nação”, e que vem a lume no ano seguinte em livro homônimo de sua autoria, ele vê nossa sociedade como uma formação invertebrada e de comodismo civil. Por isso, aduz Gilberto Freyre, a “plasticidade brasileira” ainda necessitaria ser moldada por um ente exemplar em organização: o Exército. E chega a propor a correição das debilidades da nossa sociedade civil mediante uma ação propedêutica e passageira do Exército permeada pela moral do caxiísmo.

Em artigo publicado em 1956, esse seu verticalismo recebe atualização aos tempos do “Brasil moderno” (expressão dele). Recorrendo a nossa história, comparada com a de outras nações do Continente e seus caudilhos e ditaduras “cruamente” militares, Gilberto Freyre afirma que, no Brasil, os excessos autocráticos de “subgrupos particulares da sociedade” foram controlados por um ente nacional, apresentando a Coroa do segundo império como caso emblemático. E segue dizendo que, à sombra desse protagonista exemplar em moderação, as medidas eficazes a favor dos “desprotegidos da sociedade” vêm sendo tomadas não tanto pelo parlamento, as assembleias legislativas e as câmaras municipais, mas por “estadistas de tipo executivo”, dentro de uma tradição — a de uma “monarquia democrática” —, e que tais iniciativas “pertencem ao poder executivo”. Essa tradição é preservada na República presidencialista, na qual, assim conclui Gilberto Freyre seu argumento verticalista, o Exército, à semelhança da Coroa, vem quase sempre representando aquele papel moderador. É preciso recordar que no ano de 1956, ocasião da publicação do artigo ora comentado, estávamos no início do governo de Juscelino Kubitschek, eleito democraticamente.

Ao finalizar nossos comentários, queremos marcar dois pontos. O primeiro é que as posturas políticas do intelectual de Apipucos naquelas duas eras da nossa história mais acima citadas — os anos 1930 e 1940 e após 1964 — foram atitudes adotadas de modo nítido. E o outro, que a leitura do livro de Cauby Dantas, ao relevar aporias no pensamento gilbertiano, nos estimula a formular problematizações sobre o nexo entre a obra interpretativa de Gilberto Freyre e sua condição de publicista.

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Raimundo Santos é professor-pesquisador do CPDA/UFRRJ


Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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