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Tabata Amaral, Felipe Rigoni e o neostalinismo

Cláudio de Oliveira - Julho 2019
 


Oito deputados federais do PDT e onze do PSB votaram favoravelmente à reforma da Previdência apresentada pelo relator Samuel Moreira (PSDB-SP).

Todos estão ameaçados de expulsão, pois ambos os partidos, em março, fecharam questão contra a proposta de reforma apresentada pelo ministro Paulo Guedes.

Entre esses parlamentares estão Tabata Amaral (PDT-SP) e Felipe Rigoni (PSB-ES).

Recebi hoje (15/07) mensagens nas redes sociais que acusam os dois parlamentares de dupla militância, de serem de partidos clandestinos infiltrados no PDT e no PSB.

As mensagens ainda chamam a deputada Tabata Amaral de traidora, mau caráter e direitista.

Neostalinismo?

Tal conteúdo me fez lembrar a velha esquerda stalinista.

Primeiro, por difundir a mentira. Não é verdade que Tabata Amaral e Felipe Rigoni tenham se infiltrado nas duas agremiações.

Foi amplamente noticiado que diversos movimentos cívicos surgidos após as manifestações de 2013 procuraram em 2017 vários partidos para filiar seus membros com vistas às eleições de 2018 [1].

Os partidos assinaram compromissos e prometeram respeitar a autonomia política desses movimentos. Quem está traindo quem?

Em segundo lugar, essas mensagens recuperam o velho hábito stalinista de fuzilar quem não reza na sua cartilha com epítetos de traidor dos trabalhadores e de serviçal dos interesses do capital.

A reforma da Previdência de Lula

Em 2003, o PDT votou contra a reforma da Previdência do setor público do governo Luiz Inácio Lula da Silva. O PSB, o PT e o PPS votaram favoravelmente.

Nem por isso esses partidos deixaram de ser agremiações da centro-esquerda. Nem o PDT se tornou mais esquerda ao votar contra uma medida necessária ao equilíbrio das contas públicas.

Então, ao se posicionar contra a taxação dos inativos e o estabelecimento do teto do INSS para o servidores públicos federais, o PDT não estava necessariamente defendendo os trabalhadores e o interesse público, mas sim os interesses corporativos de algumas categorias.

As regras dos sistemas previdenciários dos servidores públicos da União, estados e municípios ainda hoje beneficiam principalmente a elite do serviço público, cuja média das aposentadorias chega a ser até 28 vezes superior à média das aposentadorias dos trabalhadores do setor privado.

É uma perversa concentração de renda nas mãos da elite do funcionalismo a que todo partido social-reformista que se preze deveria se opor.

Mas, com o escândalo do mensalão em 2005, Lula não regulamentou a sua reforma em troca do apoio dos sindicatos dos servidores públicos.

Somente em 2013, quando as contas públicas estouraram e a presidente Dilma Rousseff começou a utilizar artifícios fiscais, é que o Fundo de Previdência dos Servidores Públicos foi regulamentado e o teto começou a valer para quem se aposenta a partir de 2043.

Ao conter as despesas previdenciárias, a União poderia liberar recursos para as outras áreas como a educação e a saúde, bem como para o investimento em obras de infraestrutura, fundamentais ao desenvolvimento e à geração de emprego e renda.

O raciocínio vale para a reforma da Previdência de agora, principalmente depois que a Câmara dos deputados corretamente preservou boa parte dos pobres, ao manter o BPC e os benefícios rurais e garantir aposentadorias com 15 anos de contribuição.

O velho autoritarismo de esquerda

A velha esquerda, ao sacar o stalinismo do seu baú, demonstra continuar com sua dificuldade em conviver com a divergência e em resolver as diferenças pelo debate democrático. Em vez disso, usa sanções administrativas contra seus dissidentes.

Foi por essas e outras que o sistema do socialismo soviético desmoronou há 40 anos. A velha esquerda parece continuar a ignorar as lições da história.

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Jornalista e cartunista

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Notas

[1] Movimento Acredito fecha compromisso com Rede e PPS
https://tinyurl.com/y2h2xtat

Sigla de Marina Silva oferece abrigo a ‘partido da favela’ para as eleições
https://tinyurl.com/yy5fzxsm

Com regras duras de campanha, grupo quer eleger bancada suprapartidária
https://tinyurl.com/y39cpmms

O fenômeno da renovação política
https://tinyurl.com/y6czme7a

Sem partidos, Marina Silva faz aposta em alianças simbólicas
https://tinyurl.com/y6psf393

Luciano Huck fará doação ao PPS em apoio a ‘candidatos da renovação’ 
https://tinyurl.com/y52lljc9

Rede e Novo lideram ‘bancada do Renova’, que não tem candidato do PT 
https://tinyurl.com/y3zgmb9a

Novatos eleitos pelo Renova relatam xingamentos e apoios na campanha de rua
https://tinyurl.com/y5s4hxw3

 




Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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