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Amazônia: o fogo chegou

Lúcio Flávio Pinto - Agosto 2019
 



Entre 2014 e 2016, São Paulo descobriu concretamente a Amazônia, até então uma referência distante, abstrata e mal assimilada, fonte de utopias e ignorâncias, idealizações e realismo massacrante. Assolada por uma estiagem (ou “crise hídrica”, no jargão politicamente correto) recorde, a maior cidade da América do Sul ficou sabendo que devia grande parte das chuvas e da umidade, sem as quais sua vida seria ainda mais difícil, à Amazônia, numa migração ecológica portentosa, que ficou conhecida como rio que voa (como Tarzan, o bwana estilizado da África).

É essa corrente de água em suspensão, conduzida pelo vento, numa criação exclusiva da natureza, uma das responsáveis por essa região da bacia do Prata e do sudeste do Brasil ser a mais rica, desenvolvida e industrializada do continente. A única nessa condição em toda a faixa do planeta na qual se localiza. Por causa desse papel essencial, a partir daí os boletins meteorológicos da mídia passaram a incluir o movimento dos rios voadores.

No último dia 19, São Paulo foi assaltada pelo lado negativo dessa migração fecunda na relação entre os homens e o meio ambiente. A noite se abateu sobre a cidade três horas mais cedo do que o normal. Veio a escuridão precoce e as toneladas de água despejadas das nuvens chegaram ao solo também turvas e mal cheirosas, como nunca antes.

A explicação técnica foi imediata: as chuvas eram a autolimpeza da natureza, que lavava a atmosfera, contaminada pelos restos das queimadas que se multiplicaram pelo país, concentradas, porém, na Amazônia. O dedo do homem modificando o processo e ameaçando destruí-lo.

Na segunda-feira passada os brasileiros tiveram a maior aula de planetarização (ou globalização) do mundo, lição impossível de ser negada e contestada pelos analistas e profetas nas margens esquerda e direita do espectro ideológico, político e científico gerado pela humanidade em milhares de anos. Não uma aula acadêmica, mas ensinamento para a vida, a de hoje e, sobretudo, a de amanhã, se queremos mesmo ter um amanhã que valha a pena.

Providencial é o elo que se estabeleceu — compulsoriamente — pela força ineludível dos fatos, visíveis a olho nu, sentidos tanto na bica da torneira sem água quanto na água poluída que caía dos céus sobre a cabeça dos paulistanos no primeiro dia útil da semana na capital que não pode parar. Água que, gerada no além, a sabedoria milenar das sociedades considerava pura como a água da fonte, se transformou em lama em suspensão.

Essa crença virou ilusão, mito concreto e não etiqueta falsa, afixada na porta do Palácio do Planalto, na insensível e, por isso, sanguinária Brasília, gestada por um comunista de estampa e alma de concreto.

Metade da água que provoca torrentes de chuvas na Amazônia vem do mar. A outra metade é produto da transpiração e evaporação daquela que ainda é a maior floresta tropical da Terra, vítima da maior destruição provocada pelo homem, em todos os tempos, em apenas 60 anos. Desflorestamento equivalente a quase quatro vezes o território de São Paulo, onde vivem 45 milhões de pessoas, do tamanho da Colômbia, o segundo país mais populoso do continente, estado detentor, numa comunidade de 27 entes federativos, de um terço da riqueza nacional.

Sem essa floresta compacta, com volumetria de madeira sem igual, copas altas, dosseis densos e a maior diversidade de vida que há, não só diminui a fotossíntese, que absorve gás carbônico, introduzido na atmosfera pelo homem, como o ciclo das chuvas passou a ser irregular, extremado e começa a escassear.

Tem valor instrutivo São Paulo ser atingida pelo efeito negativo do processo três anos depois de se ter beneficiado dele. Na sua visão “bandeirantista”, de abertura e exploração das fronteiras nacionais, como capitão do mato e preador de nativos, índios ou caboclos, a terra de Piratininga sempre considerou de justiça se apropriar dos ganhos da sua atividade no front, no hinterland, na selva selvaggia (para usar expressão de Dante Alighieri, caro à tradição paulistana), no usufruto da cidade mais cosmopolita (ou a única verdadeiramente
cosmopolita) do Brasil, esquecendo as misérias e os horrores do sertão de Guimarães Rosa (“onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade”).

A terra sem lei descrita por Delfim Netto, o mais poderoso civil da ditadura militar, na esperança de que, depois de o bandido amansar a terra, o mocinho se apresente para redimi-la. Desfecho pelo qual a região ainda espera, como ao Godot, criado por Samuel Beckett. Por ter se tornado sertão, a Amazônia é o locus por excelência da bandidagem, já que tudo, nela, está virando sertão. Bandidagem dos que matam homens e natureza com a mesma indiferença e convicção redentora.

Há um componente positivo nessa relação. Em 1976, o Skylab, satélite americano que orbitava a 930 quilômetros deste planeta azul, “fotografou” um incêndio monumental, o maior até então registrado (talvez não tenha sido ultrapassado até hoje, enquanto foco individual na fornalha atual de milhares de focos) pelo olho mecânico do homem, através da sua mais sofisticada máquina. O incêndio era no Brasil, na Amazônia, no Pará, no sul do Estado, no município de Redenção, numa fazenda, de propriedade de uma das maiores multinacionais.

Na sua carreira de 40 anos até aquela data, a Volkswagen só tinha construído fábricas para montar veículos automotores, inclusive no Brasil. Como a maioria dos bandeirantes abrindo fronteiras na corrida ao Oeste (como nos Estados Unidos, a desculpa de sempre), ao centro do quinto maior país do mundo (o útero matriz, sujeito ao estupro), a
indústria alemã, líder no seu setor na época, não instalou na Amazônia mais uma das suas fábricas de automóveis, a primeira sob a Alemanha nazista dos mil anos de Adolf Hitler.

Ao invés de colocar em ação a sua competência provada, ela decidiu abrir uma fazenda de gado. Não uma qualquer, de 139 mil hectares, por métodos antigos: trabalho braçal (até escravo) e queimadas ateadas à floresta. Era dela o fogaréu fotografado pelo Skylab.
Chocados, os cientistas da Nasa, a agência espacial americana mandaram as imagens para o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas espaciais), criado em 1961, em São José dos Campos — não por acaso, São Paulo.

O Inpe iniciara dois anos antes seu programa de monitoramento de satélites. O “presente” era indigesto. A informação vazou. O diretor de outro instituto, o Inpa, de Manaus (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), Warwick Kerr, fez a denúncia, no auditório da Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia, criada em 1966), que aprovara o projeto agropecuário da Volks dois anos antes. Só que estimou o incêndio em 1 milhão de hectares. Na verdade, a área queimada era 1% desse valor. A margem de erro levou ao descrédito a informação e ao esquecimento o assunto.

Só que, com a quantidade de mão de obra de que dispunha, sobretudo de peões maranhenses (do Estado mais pobre do país, apesar — ou por causa — de José Sarney), a Volks, por razões estritamente técnicas, jamais poderia ter posto fogo em 10 mil hectares numa única safra, que ocorre durante o verão, com menos chuvas (ou quase nenhuma, como agora se pode observar). A Jari, do milionário americano Daniel Ludwig, também no Pará, com 10 vezes mais peões do que a Volks, só conseguira pôr abaixo 12 mil hectares.

Teria a indústria alemã se valido do agente laranja, um fósforo que queimava as folhas das árvores, usado pelos Estados Unidos na guerra do Vietnã para tirar a proteção dos inimigos na floresta asiática, assemelhada à amazônica. A arma de guerra, que também atingiu civis e crianças, além dos próprios pilotos dos aviões que a despejavam, além de provocar câncer, ficou conhecido como napalm.

Não se encontrou a resposta para a dúvida porque o assunto foi arquivado, graças à boa intenção mal informada, comum entre os defensores da Amazônia que a desconhecem.

Não deixou de haver, contudo, um resultado positivo. A repercussão mundial do fato ajudou o Inpe a tornar o seu programa de monitoramento das queimadas e desmatamentos na Amazônia um dos melhores do mundo, na ponta dessa tecnologia. Nem assim conseguiu deixar de ser testemunha de um processo de destruição da natureza sem paralelo.

Quando o Skylab documentou o incêndio da Volks, o desflorestamento não chegava a 1% da sua superfície. Hoje, passou de um terço. Mensageiro da má notícia, o Inpe foi fulminado pela ira do Hades de Brasília. Seu fogo não atingiu apenas o instituto. Ricocheteando, foi parar no corpo de São Paulo.

São Paulo vai cruzar os braços e esquecer? Vai simplesmente contribuir para a nova versão da ordem imperial dos romanos do delenda est Carthago (Cartago deve ser destruída), na Amazônia? O fogo, como se viu na segunda-feira, não tem fronteira.

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Lúcio Flávio Pinto é o editor da Agenda amazônica de um jornalismo de combate. Entre outros, é autor de Na trincheira da verdade. Meio século de jornalismo na Amazônia (2017) e A tragédia de Santarém (Prelúdio do AI-5 na Amazônia).

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Fonte: Blog Amazônia Hoje & Gramsci e o Brasil.

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