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A hipótese Bacurau

Luiz Werneck Vianna - Outubro 2019
 



Vive-se em tempos sombrios e arriscados, embora seja plausível a argumentação de que as condições de vida, em escala planetária, comparadas com as do passado, estejam conhecendo avanços, como sustenta o economista Thomas Piketty em sua última obra, Capital e ideologia. As ameaças às conquistas civilizatórias que o Ocidente trouxe ao mundo não teriam origem na dimensão econômica que se beneficia com a incorporação da ciência ao sistema produtivo, e sim na da política, lugar em que se manifesta uma encarniçada reação às pressões, cada vez mais generalizadas e intensas, dos ideais e lutas por igual-liberdade em maré montante em todos os quadrantes da terra. Dissemina-se a percepção de que a raiz das desigualdades reinantes provém de privilégios protegidos pelos que detém o poder.

Nesse sentido, a marcha das coisas no mundo tem sido crescentemente adversa à reprodução do sistema de dominação atualmente existente, e daí as tresloucadas iniciativas ora em curso de tentar parar o relógio da história e fazê-la recuar, negando a Renascença, o Iluminismo e as duas revoluções, a americana e a francesa, que democratizaram a política para desgosto dos que desejam nos devolver ao capitalismo vitoriano. Nesse empreendimento, os arautos do retrocesso não recuam diante dos altos riscos a que expõem a sobrevivência da espécie com a desenfreada militarização que levam a cabo e os danos ambientais que infligem à natureza. No caso, fazem lembrar a obra Dr. Fantástico do notável cineasta Stanley Kubrick, de 1964, em que um paranoico general americano dos tempos da Guerra Fria investe por sua conta contra o território da URSS, encarapitado no dorso de uma bomba atômica, precipitando uma catástrofe terminal do planeta.

Não se pode recusar que tais profetas do absurdo venham acumulando êxitos em suas delirantes pregações. O atual presidente da república do país mais poderoso do planeta, os EUA, se alinha a eles em muitos e importantes pontos da sua agenda, como em suas posições contrárias à existência da ONU, na questão ambiental, quando recusa legitimidade a essa questão, na profissão de fé em um nacionalismo cediço que nega os efeitos da globalização no sentido de ampliar e aperfeiçoar sistemas de cooperação internacional. Com o seu beneplácito tem-se visto germinar uma esquisita internacional de governos, movimentos sociais e partidos políticos, que contam inclusive com raízes em nosso país. Se o Dr. Fantástico da ficção de Kubrick agiu de modo isolado, não se pode dizer o mesmo daqueles que hoje o têm como personagem a ser emulado.

No entanto, eppur si muove, uma vez que se ampliam os clamores, já provenientes do que se pode qualificar como de uma sociedade civil mundial e que se ampara nos valores e instituições que a obra civilizatória de séculos nos deixou como legado, inclusive um regime de freios e contrapesos a limitar a vontade discricionária do poder político. Assim, as iniciativas recessivas têm encontrado trincheiras que obstam o seu avanço, entre elas a ONU, o Vaticano, os poderes congressuais do Reino Unido, dos EUA, até do Brasil, personalidades da ciência e da cultura, além da resistência dos governos, partidos e movimentos sociais democráticos, principalmente os identificados com a agenda ambiental e os que lutam contra as desigualdades entre povos e classes sociais.

No nosso caso, em que desastradamente, por graves equívocos políticos, a política se desalinhou dos trilhos democráticos que nos vinham do movimento que se opôs com sucesso ao regime militar, tem-se, hoje, um governo que se mostra estranho à história política do país, aí compreendida até mesmo a que prevaleceu em momentos daquele regime, como a do nacional-desenvolvimentismo no governo Geisel. O propósito do governo que aí está é o de uma radical ruptura com nosso passado, valores e instituições, empenhado como está em revogar a Carta de 88 que os consagra. A veneranda herança deixada, entre tantos, por Rio Branco, Ruy Barbosa, Rondon, deve ser abandonada, e um novo começo deve ser imposto sob a inspiração de um hipercapitalismo, para se usar a expressão com que Thomas Piketty se refere ao neoliberalismo.

Está aí de volta a aspiração dos nossos americanistas do século XIX, como Tavares Bastos, seguido com variações por Raymundo Faoro e tantos dessa linhagem, como boa parte da ciência social brasileira dos anos 1970, que identificaram como raiz do nosso atraso e autoritarismo político a matriz da formação ibérica do patrimonialismo, ignorando o tema de importância capital do exclusivo agrário. Com essa animação, nossos reformadores de agora, têm o propósito de liberar o terreno da sociedade e de suas instituições de quaisquer obstáculos que se anteponham ao livre movimento do capital, exemplar em sua cobiça pelas terras indígenas com que pretendem acelerar a acumulação capitalista com o nefasto negócio da mineração na Amazônia.

Delenda Carta de 88, essa a palavra-chave que singulariza a empreitada em que estão envolvidos e que está na base dos seus cálculos estratégicos para o futuro do país, pois é nela que identificam o maior obstáculo a seus desígnios. Não por acaso, uma das principais peças de sustentação política do atual governo se radica no agronegócio com as ambições territorialistas que o move. O culto ao americanismo por aqui não passa de um pasticho, uma vez que não se pode ignorar que a força do capitalismo nos EUA derivou em boa parte da conquista do Oeste como terra livre à ocupação, uma fronteira aberta para a expansão que não conhecemos.

A canhestra tentativa ora em curso de nos imprimir uma via à americana de sociedade, diante da natureza da nossa história e das nossas instituições, está destinada ao malogro se obedecer aos cânones normais. Se, no entanto, recorrer a outros expedientes, a trágica fábula do filme Bacurau, por mais enigmática que seja, talvez se torne uma infausta realidade que se imponha à vida dos brasileiros.

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Luiz Werneck Vianna é sociólogo, PUC -Rio

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Observador político 2019

 




Fonte: IHU On-Line, 8 out. 2019.

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