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Desvendando os invisíveis

Nei Lopes - Outubro 2019
 

Ivan Alves Filho. Presença negra no Brasil. Do século XVI ao início do século XXI. Brasília: Fundação Astrojildo Pereira & Ed. Verbena, 2019.

No século XIX, promulgada a Lei Áurea, as elites brasileiras empenharam-se em construir a nação europeizada que sempre pretenderam, na qual a Cultura africana e mesmo a presença negra eram indesejadas. Apesar disso, os descendentes dos antigos escravos buscaram autoafirmação e inclusão social por meio de suas práticas culturais. E, assim, malgrado o pessimismo de um José Veríssimo, por exemplo, sobre um país de “selvagens inferiores” e “negros boçais e degenerados”; apesar disso, em 1902, um cidadão, hoje reconhecido em várias fontes como afrodescendente, assumia a Presidência da República — embora tenha sido exatamente sob o comando desse afrodescendente que o Brasil começou a pôr em prática, a partir de sua capital, um programa cultural visando europeizar-se de vez.

De Rodrigues Alves a Hermes da Fonseca — passando por Nilo Peçanha, cuja iconografia parece proclamar sua origem afromestiça — a então capital federal ditou o modelo dessa pretendida transformação. Por esse tempo, João Batista de Lacerda, antropólogo físico, na condição de diretor do Museu Nacional, declarava, num congresso realizado em 1911, em Londres, que o problema do Brasil se resolveria em 100 anos, quando a população, devidamente miscigenada, já não apresentaria mais nenhum traço de africanidade.

Ironicamente, entretanto, o tempo que transcorreu da Abolição até o recenseamento da população em 1920 foi, para os criadores afrodescendentes, artistas ou intelectuais, de atividade intensa.

É nesse período que, escrevendo e atuando em dezenas de montagens teatrais, em circos cariocas e pelo Brasil, Benjamin ·de Oliveira, o “palhaço negro”, cria o teatro popular brasileiro, tão importante à época como a televisão em nossos dias. Da mesma forma, o período marca o apogeu de Eduardo das Neves, êmulo, porém amigo de Benjamin; da compositora Chiquinha Gonzaga; do compositor e regente Paulino Sacramento; do jornalista Francisco Guimarães, o Vagalume, pioneiro da crônica carnavalesca; de Zeca Patrocínio, pioneiro do cinema brasileiro; de Hemetério dos Santos, autor da primeira gramática da língua portuguesa; bem como o surgimento de Pixinguinha e Grande Otelo, para ficar só nesses exemplos. É ainda nessa época que se fortalecem e difundem, no eixo Salvador-Rio de Janeiro, através da ialorixá Mãe Aninha, as bases do culto aos orixás jeje-nagôs, o mais forte traço da africanidade brasileira. E é ainda nesse momento que os batuques bantos recriados no meio rural completam o amálgama do qual nasceu o samba.

Era a Cultura brasileira se plasmando, pelas mãos da “gente de cor”. Para logo depois, todo um universo de ações e intenções ser apropriado e mais tarde sufocado pela indústria cultural globalizada.

Avançando no tempo, vamos ver que, durante toda a década de 1950, um dos principais jornais cariocas desencadeava truculenta campanha contra as comunidades de culto afro-brasileiro iniciada com um editorial em que caracterizava nossas religiões como “infecção” que precisava ser erradicada: Meses depois, no mesmo jornal, reportagem sobre uma visita ao terreiro de Joãozinho da Gomeia, em Caxias, informava, acima de qualquer coisa, ser o local sujo e infestado de pulgas.

A partir daí, entretanto, foi que as danças rituais formataram o chamado “balé-afro”, semente da dança moderna; o samba foi a base do sucesso do teatro musicado; a capoeira foi reconhecida como desporto e compôs os currículos de educação física; o violão brasileiro saiu definitivamente das mãos dos “capadócios” e ganhou status entre as classes abastadas.

Paralelamente a essa caminhada, chegado o final da década de 2000, ante as evidências de que a população brasileira não embranquecera, tendo, pelo contrário, se tornado, em sua aparência e autoidentificação, muito menos europeia (e isto, obviamente, em seus extratos mais pobres), o racismo organizado passou a exaltar e comemorar essa mestiçagem — que ainda não incomodava, pois não mudava a configuração social que conferia aos não negros os papéis preponderantes na condução da economia e da política nacionais.

Hoje, 18 anos após a virada do Milênio, na cena cultural brasileira, pretos e mulatos somos, quando muito, coadjuvantes, contando-se nos dedos aqueles de nós que chegam ao protagonismo. E dos que chegam, boa parte tem que abrir mão de sua essência étnica, tolhidos por modernas formas de escravidão, cativos da mídia e do mercado — que ainda nos querem do jeito que a sociedade brasileira nos queria cem anos atrás. E ainda permanecemos “invisíveis”.

O grande mal que ainda nos atinge e imobiliza é, então, a invisibilidade. Que advém principalmente da estratificação da sociedade brasileira, na qual a ascensão de afrodescendentes é relativamente mais difícil que nos tempos do escravismo. Daí a presença rarefeita, ocorrendo apenas como exceção, dos representantes deste segmento nos espaços de excelência, por causa dos raros laços de relacionamento (de parentesco, escolares, laborais, etc.) com os situados nos segmentos mais favorecidos. Ao ponto de, num passado bem recente, uma personagem da vida política nacional, acaso titular do Ministério da Cultura naquele momento, questionada sobre a ausência de afrodescendentes numa delegação de literatos enviada a uma feira internacional, alegar que não sabia ou não se lembrava da existência de escritores negros no Brasil.

Eis aqui então a fundamental importância de livros como este de nosso fraterno amigo Ivan Alves Filho, laborioso historiador da africanidade no Brasil. Embora resumida, nem de leve esgotando o vastíssimo universo que a motivou (que inclui cientistas, literatos, inventores, heróis fundadores, construtores de cidades, etc.), esta obra é decisivamente mais um golpe certeiro na derrubada da odiosa parede que recalca e reduz a importância da presença afro-originada na construção da hoje solapada civilização brasileira. Que ela gere frutos! Para felicidade geral da nação.

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Advogado, autor de contos, peças teatrais e romances, dicionários e obras históricas, além de compositor popular. Texto publicado originalmente como prefácio ao livro.

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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