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Histórias do quem sabe e do talvez

Fausto Matto Grosso - Fevereiro 2020
 


Vivemos um tempo fantástico. É o tempo da engenharia da manipulação genética, que constrói novas vidas; da engenharia cyborg, que fabrica artefatos para serem acoplados ao corpo humano; e também da engenharia da vida inorgânica, que transfere nossos pensamentos e sentimentos para artefatos inorgânicos inteligentes, o que poderá levar o homem à eternidade.

A propósito vou contar algumas histórias inocentes. Não se trata de previsões e sim de possibilidades, coisas do quem sabe e do talvez.

Primeira história. Dois amigos de faculdade se divertiam muito com jogos eletrônicos. Passaram-se os anos e um deles apareceu no aniversário do outro, este já casado e com filhos. Levou-lhe de presente o último lançamento de games de lutas virtuais, em que os jogadores sentiam estar vivendo dentro da história. Os adversários nos games eram uma heroína loira e um lutador oriental. Depois de algum tempo, “rolou um clima” entre os lutadores, que descobriram que era melhor fazer amor do que fazer a guerra. Viciaram-se nesse prazer. Surgiu, então, a crise de identidade sexual entre os dois amigos reais. O presenteado perdeu a esposa e filhos e viveu o resto da vida viciado no jogo sexual com o amigo.

Segunda história. Buscar a alma gêmea sempre foi um desafio para as pessoas. Surgiu uma maneira para resolver esse problema. As pessoas se matriculavam em um “programa” e passavam a viver dentro de um imenso parque com moradias isoladas. O “Sistema” montava um sequência de encontros românticos entre os participantes. Através de monitoramento eram medidas todas as emoções dos pares. Programados todos os rodízios, a inteligência artificial ia armazenando informações, até que todos os pares fossem mapeados em algoritmos. Grave problema acontece quando um par já se sente contemplado com a primeira relação e não consegue fugir do jogo maluco.

Terceira história. O diagnóstico médico apresenta dificuldades quando o doente não consegue transmitir exatamente suas sensações. Um grande especialista conseguiu ser escolhido para um implante que captava todas as sensações reais dos doentes. Passou a ter um sucesso que lhe rendeu muito prestígio e dinheiro. Com o passar do tempo, o médico viciou-se em sentir as dores dos pacientes. Tornou-se um torturador e assassino cruel para alimentar o seu vício.

Quarta história. Ele era um adolescente normal que foi filmado pela câmara do seu computador quando se comprometia diante de um site pornô. Passou a ser chantageado por ameaças anônimas de divulgação da cena. O adolescente começou, então, a seguir ordens, formando uma quadrilha junto com várias pessoas que também se encontravam em situação idêntica. Foi orientado a assaltar um banco e, durante o assalto, foi preso pela polícia. Afinal de contas se sentiu aliviado, pois foi protegido da sua vergonha.

Quinta história. É cada vez maior o número de curtidas — likes — feitas pelas pessoas. Surgiu então um software que facilitava esse mister. As pessoas começaram a passar o tempo todo a pontuar o seu julgamento sobre as outras. O “Sistema” acumulava o score de cada um dos participantes, os quais passaram, então, a ser julgados e tinham seus direitos e deveres condicionados pela sua pontuação. Surgiu assim uma nova divisão da sociedade em castas de likes.

Estas pequenas histórias de ficção exploram um futuro próximo, em que a natureza humana e a tecnologia podem entrar em perigosos conflitos. O inevitável avanço da tecnologia pode ser acompanhado de uma série de efeitos colaterais numa sociedade cada vez mais dependente dos “espelhos negros” das telas das televisões, computadores, tabletes e smartphones.

As historietas aqui contadas inspiram-se na série Black Mirror. O título do artigo usa palavras do discurso do ex-deputado Alencar Furtado, durante o Governo Geisel, a respeito de viúvas e órfãos dos desaparecidos políticos, discurso que lhe valeu a cassação do mandato.

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Engenheiro civil e professor aposentado da UFMS

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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