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O “jogo duplo” de Bolsonaro e o acordo com o Congresso

Alfredo Maciel da Silveira - Fevereiro 2020
 

O “acordo” negociado nestes dias entre o Presidente do Senado Davi Alcolumbre e o Presidente Bolsonaro guarda essencialmente o mesmo conteúdo daquele acertado pelo Gen. Eduardo Ramos, em nome do governo, em fins de 2019. Pelo acordo, o Congresso renuncia à imposição do gasto orçamentário de R$30 bilhões que teria sua alocação vinculada aos próprios congressistas. Liberado desse caráter impositivo, o governo em contrapartida delega aos mesmos congressistas a decisão alocativa de metade, R$ 15 bilhões, daqueles recursos.

Mas Bolsonaro não quer reconhecer que fez acordo nem cantar vitória pela manutenção de seu veto ao caráter impositivo daqueles R$30 bilhões. Por quê?

Porque, se Bolsonaro reconhece o acordo, esvazia as manifestações previstas para o dia 15 de março. Mas ele as quer.

Elas mobilizam as forças bolsonaristas entrincheiradas nas redes sociais, empresários dispostos a financiar a “marcha sobre Brasília” e a “tigrada” encapuçada e armada das polícias e milícias, como as que no Ceará vêm de “testar” a resistência das instituições democráticas e republicanas.

O Presidente vai continuar nesse “jogo duplo”, aguardando uma nova ou reiterada crise em que possa avançar com sua “guerra de movimento” das vanguardas bolsonaristas.

E como ficam os militares, especialmente aqueles do Alto Comando do Exército, diante desse clima de desafio e ameaça reiterada às instituições, a começar pelo ambiente de sua própria corporação?

Dada a óbvia importância que os militares assumiram no presente governo, faz-se necessário, na falta de informação mais objetiva, construir cenários minimamente circunstanciados do que pode estar se passando neste flanco do jogo político.

Aqui então segue pontuadamente uma contribuição ao entendimento:

1) Se eles afrouxam na hierarquia e disciplina, sabem que estão liquidados como instituição;

2) Bolsonaro escolheu o lado errado, ao ficar com o olavismo: atacaram o Gen. Mourão, intrigaram o Gen. Santos Cruz e fizeram o cúmulo do desacato com a doença do Gen. Villas Boas;

3) O ideólogo Olavo de Carvalho vem dando “cursos” pra soldados, sargentos, etc., das PMs;

4) O Gen. Ramos assumiu há uma semana, em entrevista para a jornalista Andréa Sadi, aceitar “o que dizem”, que sua “missão” no Palácio é de “bombeiro”;

5) Mourão, após meses de low profile, voltou à ribalta; numa palestra na Federação das Indústrias de Santa Catarina, em plena crise do Ceará, combateu a beligerância das redes sociais, defendeu explicitamente a “democracia liberal”, apelou para que “tenhamos muita paciência”, condenou as associações de praças, de sargentos, de oficiais, trampolim para carreira política. E arrematou: “Quando a política entra pela porta da frente dos quartéis, a hierarquia e disciplina saem pela porta dos fundos”.

Em conclusão.

Os generais do Alto Comando precisam de uma saída para a inquietação que bate às suas portas. Não é possível aceitarem a “naturalização” dos desacatos — vindos do olavismo, com o beneplácito do Presidente — aos seus pares de alto prestígio, agora reformados. E menos ainda aceitarem a politização de seus escalões inferiores da caserna, haja vista a ostensiva insubordinação que grassa nas polícias militares. Uma das saídas seria, indo além de sua disciplina constitucional, alinharem-se politicamente a Bolsonaro e adiantarem-se às inquietações de subordinados, insufladas desde o Palácio. Dispensa explicação afirmar quão temerária seria esta “saída”.

Mas haveria uma outra, que menciono a título de especulação. A partir do próximo janeiro, após dois anos de Bolsonaro, Mourão pode assumir em definitivo a Presidência; seria uma grande saída para Alto Comando do Exército, cuja principal preocupação é justamente a hierarquia e disciplina internas à corporação, que o Presidente, por um caminho tresloucado, mesmo indireta e enviesadamente, optou por solapar.

E no Brasil, como a história recentíssima acaba de demonstrar, quem decide mesmo o “impeachment” são: CNI, CNA, CNC, CNT, Fiesp e Febraban.

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MSc. Eng. de Produção e Doutor em Economia.

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O voto em lista semiaberta
Os nomes na mesa
O fator rejeição
Será fácil destruir o conhecimento e a cultura?




Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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