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“Programa político não há. A luta de Bolsonaro é pelo poder”, diz Luiz Werneck Vianna

Luiz Werneck Vianna - Março 2020
 

O recuo do presidente Jair Bolsonaro do apoio às manifestações contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF), marcadas para o domingo, 15, não encerra a disposição do mandatário de pressionar os outros poderes, avalia o cientista político Luiz Werneck Vianna. O pesquisador vê na mobilização — temporariamente suspensa pelo presidente na quinta-feira — “uma tentativa de forçar os limites da institucionalidade, para rompê-la”.

O objetivo seria “totalizar a política brasileira por um projeto de poder”, sem objetivo. Segundo ele, diferentemente do que ocorreu no governo de Jânio Quadros (1961) e na ditadura (1964-1985), a iniciativa autoritária que atribui a Bolsonaro não tem programa. “É o poder pelo poder, para acumular poder”, diz ao Estado o intelectual, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio.

Werneck Vianna afirma que, em sua ofensiva contra as instituições, Bolsonaro apela a uma “ralé”, como descrita por Hanna Arendt (1906-1975), fração social formada por ressentidos de diferentes classes. Esse grupo social, ressalta, é uma realidade nova e pode se tornar base do presidente. O pesquisador diz que o sistema político foi muito atingido pela Operação Lava Jato e lamenta que o País não tenha líderes como foram Ulysses Guimarães (1916-1992) e Tancredo Neves (1910-1985). Diz esperar que surjam novas lideranças políticas e explica sua esperança com variação da frase de Guimarães Rosa em Sagarana: “O sapo não pula por boniteza, mas porém por precisão (necessidade)”. (Entrevista feita por Wilson Tosta)

O recuo do presidente foi apenas “físico”, por causa do coronavírus, ou foi também uma coisa política?

Foi político. Ele sentiu o esvaziamento. O coronavírus foi a sopa no mel.

O senhor acha que isso encerra o episódio ou o presidente tende a, mais adiante, retomar esse enfrentamento das instituições?

Essa coisa vai ser retomada, sim, quando ele encontrar condições favoráveis. Faz parte da natureza desse regime. É destruir as instituições da democracia política. E com apoio de massas.

Como o senhor analisa a convocação da manifestação que foi suspensa?

Há uma tentativa de forçar os limites da institucionalidade para rompê-la. Há uma estratégia por trás de tudo isso, que é a conquista do poder político total.

Seria um gesto cesarista?

Há uma tentativa de totalizar a política brasileira por um projeto de poder. Porque programa político não há. A luta é pelo poder. Ele quer todo o poder possível, acumular poder, maximizar poder. O limite do poder é o poder. Então, esse é que o leitmotiv dessa ação presidencial. Não tem programa nenhum.

Não tem finalidade?

É o poder pelo poder.

Isso tem precedente na história do Brasil?

Tem precedente sim, mas havia um programa envolvido. Agora não tem programa nenhum...

Qual seria o precedente?

O Jânio (presidente em 1961 por sete meses, até renunciar) tinha um programa. Terceiro-mundista lá, aquela época do Terceiro Mundo, naquele contexto. Do (presidente egípcio Gamal Abdel) Nasser (1918-1970), ele andava até com umas roupas… O safári…

É… O Jânio tinha um programa muito definido. Agora, não tem, Qual é o programa? O próprio regime militar, que não apelou às massas, mas quando tomou todo o poder para si tinha um programa, de modernização por cima da sociedade. Agora não tem.

O senhor acha que nesses atos o presidente poderia se dirigir diretamente às pessoas?

Acho que há, na verdade, um projeto de fascistização do poder político no Brasil. A minha conclusão é essa. Não tem programa econômico, não tem programa social, não tem programa de sociedade, de país, de nada. Quer o poder todo. Para fazer o quê? Conservar poder, mando.

E as pessoas comuns envolvidas nisso? O que as move?

Às elites econômicas interessaria o caminho de eliminação de obstáculos sociais à acumulação. Agora, mas só isso? A esta altura, não nos basta. A economia não tem andado. Não tem obstáculo nenhum, nenhum, nenhum diante dela. Ela não anda porque não anda, porque não tem agentes econômicos interessados, envolvidos, não tem sociedade para isso. Este governo não tem programa econômico algum. Tem um programa político, de extrair o máximo de poder possível de todas as fontes existentes de poder. Para fazer o quê? Para exercer o poder total.

Mas tem muitas pessoas comuns, não são empresários, são pessoas comuns, que são entusiastas do presidente. Como é que se explica que isso se mantenha, após um ano de governo de resultados questionáveis?

Essas perguntas poderiam ser feitas também à expansão do fascismo na Itália, do nazismo na Alemanha… Bom, o nazismo na Alemanha teve as compensações do emprego, da ordem... Mas essa pergunta não sei responder, entendeu? O que as pessoas estão querendo com isso, estão se deixando mobilizar por isso...

Chamar as manifestações seria uma forma de Bolsonaro manter a narrativa rebelde, de mito?

Eu não compartilho da ideia de que esse governo está tonto. Esse governo tem um projeto, o de conquistar todo o poder político para si. Quando ele conseguir isso, o que vai fazer? Vai conservar isso. Agora, para quê? Eles não sabem, não têm programa.

Com muita frequência, o presidente dá uma declaração controversa, polêmica. Aí tem uma reação, e ele se corrige, volta atrás…

Mas volta atrás sempre em um movimento de dissimulação. Porque o norte permanece. Qual é o norte? É a conquista de todo o poder político. O caso aí dessa moça (Regina Duarte) que está na Secretaria de Cultura... Está aí em uma circunstância muito particular. Mais dia, menos dia, ela vai ser ejetada.

Mas quando ele faz isso, quando vai e volta, ele hesita ou isso é um método para testar reações, do tipo “até onde eu vou”, “até onde me deixam ir”?

É um método. É um método de teste de força. Sabe? Porque o objetivo é, sempre, puramente político. Não em outra coisa qualquer. Agora, vem cá. Tem uma realidade nova no País. Tem uma ralé. Essa ralé pode ser tornar uma base social de apoio a ele. Entendeu?

O que seria essa ralé? O senhor poderia definir melhor?

Ah, são os desapropriados de tudo, não é? De tudo… Mas não é só pobre, não. É classe média também. É ressentimento, ressentimento. E falta de valores, também. A sociedade há muito tempo abdicou de valores. A sociedade se deixou perverter. Há agentes de perversão nisso.

Hannah Arendt (intelectual alemã) fala em ralé, que seriam pessoas de todas as classes, mas não deram muito certo…

Isso, isso. Olha, (falo) no sentido mesmo que Hannah Arendt fala.

Nos últimos meses, o presidente tem atacado muito a imprensa profissional, inclusive com insultos no campo pessoal e com ataques a mulheres jornalistas. A que o senhor atribui isso?

A imprensa profissional expressa interesses organizados. Ele quer desorganizar tudo. Ele precisa de um vácuo, de um vazio.

Na sua avaliação, as instituições estão ameaçadas?

Ah, estão. Tenta-se destituir as instituições. As instituições têm resistido. Há uma possibilidade de conseguirem destituir as instituições. Há a possibilidade. O fato é que a imprensa, a mídia, tem se comportado de forma muito valorosa em relação a isso. Os articulistas… A situação está cada vez mais clara. Estão pondo a nu as circunstâncias em que estamos envolvidos. Agora, depende de uma força política que interrompa essa maluquice, né?

Mas existe essa força?

Não, não existe. Por ora, não existe.

O que explica que o presidente tenha chegado lá? Foi a implosão das instituições pela Lava Jato, por tudo aquilo?

A Lava Jato ajudou muito, né? Ajudou muito.

Por quê?

Porque minou as instituições, minou os partidos, desmoralizou a política.

Esse tipo de processo, imagino, não é só brasileiro. Outros países já passaram por processos assim, não? Neles, as instituições se fragilizam e surge um outsider, digamos assim.

É, vamos ver se vai ter (Benito) Mussolini (1883-1945, ditador fascista da Itália de 1922 a 1945) aí. Não tem Mussolini.

Ainda não tem um Mussolini?

Não tem. Porque Mussolini, inclusive, era um homem preparado. E tinha programa. Aqui, é um fascismo nu.

O Brasil corre o risco de ter, se não um regime autoritário, uma democracia enfraquecida, com Congresso e Supremo Tribunal Federal sem relevância?

Mas isso não tem como ocorrer. Esse Congresso, apesar de ter uma das composições mais fracas da história republicana, resiste. Porque é o Congresso, é a política. A política é a política.

Quer dizer, há obstáculos a esse projeto autoritário: a imprensa, o Congresso. O que mais o senhor veria?

O Judiciário, setores do Judiciário. O Supremo, por exemplo.

No curto prazo, o senhor acha que a política brasileira, o nosso sistema político, teria condições de se recompor, de sair disso e se fortalecer? Ou vamos ficar na situação atual por muito tempo?

Depende de lideranças. Quer dizer, as nossas lideranças estão muito velhas. O Fernando Henrique é uma liderança muito débil. As declarações dele não ajudam. Embora ele tenha declarações diárias, elas não ajudam. Estamos muito longe de um Ulysses Guimarães, estamos muito longe de um Tancredo.

Não há lideranças novas fortes, é isso?

Não tem, ainda não tem. Vai aparecer, vai aparecer. O sapo pula por precisão, não por boniteza.

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Observador político 2020






Fonte: O Estado de S. Paulo, 14 mar 2020.

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