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O cotidiano depois do coronavírus

Fausto Matto Grosso - Abril 2020
 


Normalmente contamos o tempo através do calendário. Os historiadores costumam usar outras escalas. Consideram a ocorrência de fatos significativos de inflexão na trajetória da vida da sociedade.

O historiador inglês Eric Hobsbawm, por exemplo, considerava que o “curto” século XX só começou em 1914, com a Primeira Guerra Mundial, e o seu término ocorreu em 1991, com a desintegração da União Soviética. Para a historiadora Lilia Schwarcz (USP/Princenton) e outros especialistas, faltava um símbolo mais forte para o fim do século 20. E esse marco seria a pandemia do coronavírus.

Não que a ruptura provenha diretamente da doença, mas trata-se do coroamento de um processo que já vinha amadurecendo e que explodiu com a crise. É provável que, quando tudo voltar ao normal, o normal seja outro.

Uma nova cultura se imporá, com revisão de crenças e valores. Consumir por consumir deverá sair de moda; morar perto do trabalho ou trabalhar em casa deverá ser valorizado; a cooperação em redes, em comunidades e entre vizinhos sairá fortalecida. Empresas serão mais cobradas quanto ao cumprimento das suas responsabilidades sociais e a ciência será mais valorizada em detrimento de crendices obscurantistas.

Profundas serão as mudanças nas relações de trabalho. O desemprego em massa levará ainda a maior precarização das relações entre patrões e empregados, com mais insegurança aos que vivem do trabalho. A sociedade terá que bancar os custos sociais dessas mudanças. Por isso, aumentou muito no mundo a consciência da necessidade de programas de Renda Mínima Universal. A isso se agregará a necessidade de fortes investimentos em educação, uma das principais formas de diminuição das desigualdades sociais.

Viveremos uma reconfiguração dos espaços de trabalho. O trabalho remoto ou em casa — home office —, que já é praticado por muitos, inclusive em alguns casos com desumana superexploração, se imporá avassaladoramente para os profissionais liberais e empregados de empresas, que buscarão o aumento da produtividade desse modelo. Novas regulamentações serão necessárias para essas formas de contratação do trabalho.

Haverá também impactos na estruturação das residências, nas quais se valorizará a existência de espaço para o trabalho. Nos condomínios e edifícios, espaços compartilhados (coworking) serão considerados imprescindíveis. Tudo valerá a pena para as pessoas fugirem do transporte caro e de longa distância, desconfortável e cansativo, poluidor do ambiente.

Novos modelos de negócio se imporão. Conviveremos com a ampliação das compras virtuais e com a tele-entrega. Os ambientes presenciais de bares, restaurantes, cafeterias e academias também deverão ser redesenhados para garantir maior afastamento entre as pessoas.

O fim da pandemia reforçará a discussão sobre as novas formas de aprendizagem, presencial e à distância, e demandará formulações pedagógicas que tirem essas decisões do âmbito dos interesses do ensino comercial. Ainda no plano da educação, novas formas de socialização deverão ser incrementadas, compatíveis com a realidade da sociedade em rede.

A atividade cultural durante a pandemia experimentou várias formas imersivas e deverá continuar agora a fazer uso de plataformas e mídias para shows e espetáculos on-line.

Muitas outras mudanças deverão ocorrer nas diversas áreas da atividade humana. Muitas opiniões serão quebradas e substituídas por outras. Uma delas é que o Estado não serve para nada — o SUS desmente isso. E a construção da segurança estratégica de insumos para a saúde será um novo desafio.

Após décadas de supremacia do discurso liberal, está ocorrendo uma volta à razão. O mercado serve para muita coisa, mas não consegue resolver desigualdade e insegurança social. O fato é que até críticos do Estado hoje não podem deixar de a ele recorrer, para sobreviver. Hoje, em época de crise, nenhum governo pode se dar ao luxo de ser ultraliberal.

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Engenheiro e professor aposentado da UFMS

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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