ACESSA.com

Busca:     


Passado e presente. A história dos 45 cavaleiros húngaros

Antonio Gramsci - Maio 2020
 


Ettore Ciccotti, durante o Governo Giolitti de antes de 1914, costumava recordar frequentemente um episódio da Guerra dos Trinta Anos: parece que 45 cavaleiros húngaros se estabeleceram em Flandres e, como a população estava desarmada e desmoralizada pela longa guerra, conseguiram por mais de seis meses tiranizar o país. Na realidade, em toda ocasião podem surgir “45 cavaleiros húngaros” onde não existe um sistema protetor das populações indefesas, dispersas, forçadas ao trabalho para viver e, portanto, sem condições, em momento algum, de rechaçar os assaltos, as investidas, as depredações, os golpes de mão executados com um certo espírito de sistema e um mínimo de previsão “estratégica”. No entanto, a quase todos parece impossível que uma situação como esta dos “45 cavaleiros húngaros” possa jamais se verificar: e nesta “incredulidade” deve-se ver um documento de inocência política. Elementos de tal “incredulidade” são especialmente uma série de “fetichismos”, de preconceitos, primeiro dos quais aquele do “povo” sempre vibrante e generoso contra os tiranos e as opressões. Mas serão por acaso, proporcionalmente, mais numerosos os ingleses na Índia do que os cavaleiros húngaros em Flandres? Mais ainda: os ingleses têm seus seguidores entre os indianos, e não só aqueles que estão sempre com o mais forte, mas também os adeptos “informados”, conscientes, etc. Não se compreende que em toda situação política a parte ativa é sempre uma minoria, e que se esta, quando for seguida pelas multidões, não organizar estavelmente esta influência e for dispersada numa ocasião qualquer propícia à minoria adversa, todo o aparelho se desagrega e se forma um outro, novo, em que as velhas multidões nada contam e não mais podem se mover e operar. Aquilo que se chamava “massa” se pulveriza em muitos átomos sem vontade e orientação e uma nova “massa” se forma, ainda que de volume inferior à primeira, porém mais compacta e resistente, que tem a função de impedir que a primitiva massa se reconstitua e se torne eficiente. Todavia, muitos continuam a se referir a este fantasma do passado, imaginam-no sempre existente, sempre vibrante, etc. Assim, Mazzini imaginava sempre a Itália de 1848 como uma entidade permanente que só era preciso induzir com alguns artifícios a retornar às ruas, etc. O erro também está ligado a uma ausência de “experimentação”: o político realista, que conhece as dificuldades de organizar uma vontade coletiva, não é levado a crer facilmente que ela se reconstitua automaticamente depois que se desagregou. O ideólogo, que, tal como o cuco, põe ovos num ninho já preparado e não sabe construir ninhos, pensa que as vontades coletivas sejam um dado de fato naturalista, que desabrocham e se desenvolvem por razões inerentes às coisas, etc.

Cadernos do cárcere, Rio de Janeiro, Civ. Brasileira, v. 3, p. 334-336 (Cad 15, § 35)






Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

  •  
Av. Barão do Rio Branco, 2390/601 - Centro - 36.016-310 - Juiz de Fora - MG - Fone: (32)2101-2000 | (32)3691-7000 | (32) 3512-0000