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De vida e de romance

Paulo Fábio Dantas Neto - Junho 2020
 


As manifestações de domingo frustraram quem desejava vê-las eclipsadas por violência política, aliviaram quem, como eu, temia por esse desfecho e animaram quem considera esse caminho válido, e até o melhor, para encaminhar as demandas de oxigênio democrático e de solução para as crises que se superpõem ao nosso redor. Escrevo, neste momento, a quem se encontra nesse último caso, na expectativa de que a lealdade talvez incômoda dos meus argumentos e opiniões sinalize uma preocupação com o destino das nossas causas em comum. 

Duas narrativas restaram fortalecidas após o dia de domingo em São Paulo. A primeira é a do governo estadual, que aplaude manifestações pacíficas e condena “vândalos”, mesmo que as evidências concretas de vandalismo sejam irrelevantes. O discurso da PM desafia as imagens quando insiste em dizer que havia vândalos invisíveis enquanto se via só manifestantes, a maioria respeitando um acordo feito com o governo estadual e uma minoria voluntarista rompendo o acordo para tentar chegar à avenida Paulista. A segunda narrativa de vitória é justamente a da parte da esquerda de dentro da qual Guilherme Boulos apresenta-se como capaz de liderar uma conflagração de grupos ideológicos, identitários e corporativos, desde movimentos negros a facções policiais. Antifascistas é como se definem para explicar o que combatem. Para explicar o que podem defender em comum, ainda não há palavra disponível no dicionário da política real porque, para esses grupos, a democracia existente não é real.

Ambas as narrativas relatam paz num treino, pois não estava em campo o adversário real de todos nós, que é o movimento bolsonarista. Detalhe que, numa análise, não se pode omitir.

A esquerda que optou pelas ruas afirma ter sido uma vitória parcial, rumo ao objetivo em vista, que é DERRUBAR Bolsonaro. O que ficaria no seu lugar? Não importa agora, isso se verá no processo — é o que parece dizer essa esquerda, ciosa de que não se ponha água no seu chopp. O que importa é o movimento, diz ela. Se ele crescer, crescer, crescer e crescer terminará certamente em alguma forma de poder popular. Quem souber o que isso significa, traduza.

No horizonte dos celebrantes parece estar algo próximo à primavera árabe. O poder que resultaria daí e o tempo que levaria para esse delírio se concretizar são problemas só para quietistas e covardes, que não sabem viver sem instituições. O povo in natura mostrará o caminho através da sua vanguarda corajosa. O movimento é a solução.

A imprudência com a pandemia foi relativizada, em face da grandeza da causa. Mas cuidados compensatórios, que foram tomados, não anulam a realidade de que esse caminho aumentou o risco de contágio ontem, pretende aumentá-lo ainda mais, em novas manifestações e promete fazê-lo por tempo indeterminado, até se alcançar o objetivo final. Tripla imprudência que, se de fato prevalecer, privará a oposição a Bolsonaro da condição moral de criticá-lo pelo desrespeito ao isolamento social, aquela que, dentre todas, é a sua conduta mais condenável.

O destino de Boulos, a longo prazo, eu não sei. Novo Lula, como ele parece querer? Um inédito Lenin, como creem os militantes mais ideológicos? Reencarnação de Conselheiro, ou de Marighella? Ou será parar numa de lista de ativistas cujo voluntarismo trivial a História torna delirantes anônimos? Bem, o mundo dá voltas. Porém, os mais prováveis vencedores reais do capítulo de ontem, aqueles que comerão as batatas, são outros. Sua estratégia traduz-se no discurso do governo de São Paulo, celebrado pela imprensa mais relevante. Simpáticos aplausos à tarde, coerentes com a posição antibolsonarista de um governador de centro-direita, e bombas à noite, cujo uso, justificado em tese, não o foi o bastante, nem pelo discurso, nem por imagens, em relação às condições objetivamente dadas naquele momento. Atos de protesto são bem-vindos se se encaixam na moldura geral da polarização com o presidente. Mas a instabilidade do contexto pode borrar limites, em geral claros, entre democracia e guardiania.

A eleição de Bolsonaro mostrou que quase tudo se torna possível, até mesmo que o improvável e o irrelevante possam acontecer juntos e dessa união resultar uma tragédia. Por que seria impossível que, em seguida à tragédia em curso, vivamos uma farsa?

Como vale qualquer aposta, dobro a minha. Boulos venceu uma batalha na sua guerra particular pelo comando da esquerda negativa. Mas a luta pública, a que realmente conta para a vida do povo, traduz-se em duas palavras formando uma equação: pandemia x democracia. No capítulo de ontem, ponto para a pandemia. Mas devemos, como consolo, celebrar que não foi por nocaute. A democracia pode seguir seu caminho e evitar o que se desenha no horizonte: o recrudescimento da pandemia levar a um caos sanitário e social que até pode, sim, produzir o efeito que é o único traço de união entre os objetivos imediatos das narrativas que se dizem vencedoras, a do governador Doria (para quem a “derrubada” é alternativa, entre outras) e a daquela esquerda que não tem plano B. Sim, a crise de desgoverno pode derrubar Bolsonaro.

O que sucederia? A primavera tabajara (grato, Werneck Vianna, pela chance da paródia), movimento intermitente que nos leve a um futuro mais inventivo e heroico que essa “oligodemocracia” (ou “necrodemocracia”)? Ou um estado de sítio, formalmente constitucional, mas politicamente forçado por um autoritarismo mais light, que prometa nos levar, em ordem, às urnas de 2022? No script da realidade valerão as palmas da tarde ou as bombas da noite ?

Em mudanças, fortes ou sutis, nas regras do jogo, pode apostar quem quiser. Persistirei defendendo a regra e a política atuais, a Carta de 88, pela qual a democracia que temos é o remédio para produzir governo e derrotar a pandemia. O governo democrático possível hoje está retratado na feliz imagem do governador Flávio Dino: presidencialismo sem presidente. Congresso, governadores e prefeitos governando com cobertura do STF e cooperação da sociedade civil, como a que ocorre agora, quando a imprensa entra em consórcio para fornecer ao público os dados sobre a pandemia que o governo sonega. Por meio dessa união entre sociedade política e sociedade civil, acumular força e, quando a curva da pandemia achatar, acertar contas com o fator Bolsonaro. Não se trata de “derrubá-lo”, como golpistas fazem com presidentes eleitos. Trata-se de impedi-lo, no tempo e no espaço da política, com as regras do jogo da democracia. Sem aventura vanguardista e sem guardiania, militar ou de qualquer tipo.

Quem quiser pode achar sem graça as emoções serenas desse script de esquerda positiva. A extrema direita não acha graça, porque ele nos protege dela. Mas também pode rejeitá-lo, ou zombar dele, quem, na esquerda, é esteticamente tentado por emoções fortes.

Seria muito bom se fosse possível aplicar, ao drama que vivemos, o magistral desfecho de O amor nos tempos do cólera. Navegando sem rumo em meio à peste, com seu navio particular, na companhia da amada com quem sonhou em vão por toda a vida, Florentino Arizza ouve o aflito condutor do navio perguntar até quando ele acreditava que poderiam ficar naquele “ir e vir do caralho”. Responde simplesmente, romanticamente, imperialmente: “por toda a vida”!

Acontece que nossa realidade não é a do belo romance. Também é de peste, mas é com ódio que lidamos em meio a ela. Falar em movimento sempre significa, para toda a vida das potenciais vítimas da peste e do ódio, condená-las a flertar com um nunca mais. Compete à política fazer o oposto. Movimento, sim, mas pensado e delimitado para mover instituições e nos levar a um porto. Ao ódio que se alia à peste, opor o amor democrático pelo mundo que há.

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Cientista político e professor da UFBA

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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