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A saída pela democracia

Cristovam Buarque - Julho 2020
 



Ivan Alves Filho
. A saída pela democracia. Tiradentes-MG: Aquarius, 2020. 144p.

Este livro trata de temas fundamentais do mundo contemporâneo, sob uma visão progressista, por um autor que foi capaz de avançar seu pensamento, sem esquecer as bases teóricas que lhe formaram. Ivan Alves Filho mostra a importância das ideias marxistas na sua formação e de muitos de nossa geração, mas avança para analisar velhos e novos problemas, com linguagem e métodos novos. O livro inova ao se dedicar ao estudo de temas como democracia, cultura, gênero, Estado, classes, meio ambiente, questões étnicas, revolução tecnológica e trabalho no mundo atual.

Apesar da amplitude do pensamento de Marx, seu método e seus seguidores deram ênfase à luta de classes, deixando os demais temas como secundários ou inexistentes. Esta obra preenche um vazio, porque alguns dos seus temas não eram problemas ao tempo de Marx, outros evoluíram de formas inesperadas. Apesar disto, muitos de seus seguidores se recusam a ver a realidade, negam a ser realmente marxistas. A leitura de Marx permite encontrar citações que hoje seriam consideradas racistas: não seria marxista quem não percebe que aquelas ideias eram resultado de um eurocentrismo inaceitável nos dias de hoje, e por isto devem ser recusadas. O mundo apresenta problemas novos e Marx deixou claro que isto ocorreria ao dizer que “tudo o que é sólido se desmancha no ar”. Os ortodoxos marxistas não perceberam que a evolução no mundo exige novos problemas e novos conceitos. O historiador Ivan olha para a realidade e percebe seus novos problemas, para analisar e interpretá-los sob novos enfoques.

Um destes temas é a democracia. Os marxistas e o próprio Marx assumiam que a democracia, chamada por eles de burguesa ou liberal, era perfumaria de processo político, servindo no máximo como um meio para organizar as massas de trabalhadores na marcha para tomar o poder. O desprezo à democracia era o resultado de uma concepção moral, economicista e classista: o importante era o poder nas mãos do proletariado para ser usado por qualquer sistema político e inclusive ditadura, desde que servisse para atender aos interesses da classe trabalhadora. A história mostrou que, sem democracia, o poder socialista serviu mais à nomenclatura do partido, que cria privilégios próprios em nome dos trabalhadores.

A União Soviética e o Leste Europeu são exemplos do desprezo à democracia, diante da tarefa monumental de construir o socialismo para os trabalhadores. Não é por acaso que a eleição da Assembleia Constituinte, o primeiro e único gesto democrático da revolução de outubro de 1917, fez uma única reunião e foi dissolvida, porque os bolcheviques ficaram em minoria em relação aos partidos socialistas e liberais. A partir daí, o regime desfez um a um cada partido, cassou, matou e exilou cada líder que não se incluía no partido bolchevique, até chegar ao terror e ao governo monocrático do próprio Stalin. Na Revista Política Democrática – 100 anos da Revolução Russa, em um ótimo texto de imaginação e análise, Sérgio C. Buarque especula como teria sido a história se, em janeiro de 1918, Lenin e seus companheiros tivessem aceitado o resultado da eleição e composto um governo de unidade nacional com os deputados dos demais partidos de esquerda. Juntos teriam maioria para governar e construir o socialismo com democracia e capacidade de resiliência, para ir corrigindo os erros que ocorreriam no caminho. Ivan não apenas analisa a importância da democracia como ousadamente diz que “a saída está na democracia”.

A esquerda, no resto do mundo, seguiu em graus menores a visão bolchevista, com uma justificativa moral: só seus partidos são capazes de servir aos interesses populares. É isto que faz com que os governos de esquerda eleitos democraticamente que não têm força para um golpe, tentem se perpetuar no poder por meio de sucessivas reeleições, mesmo reformando a Constituição, já que não têm o poder que tinham os bolcheviques, em 1918, na Rússia. No íntimo, além de viciados em privilégios do poder, acham que a alternância leva a retrocessos para o povo. Por isto, temem tanto perder eleições, achando que além de lhes tirar do poder, e suas vantagens pessoais, a alternância tira direitos dos povos.

Da mesma forma, acham que só o seu partido tem pureza ideológica. Por isto, além de tentarem evitar alternância, só aceitam alianças sob sua liderança, tratando os demais partidos como inimigos ou vassalos. O medo da alternância termina amarrando de tal forma os governos de esquerda que, no lugar de corrigir seus erros, eles quebram, como aconteceu na União Soviética e nos países do Leste; ou o impeachment da Dilma e a renúncia forçada de Evo Morales.

Este instigante livro traz o tema da democracia para a agenda ideológica, não apenas para a agenda política. Em um momento, ele diz que a democracia é o tema central do livro. Aprofunda a importância dela como um vetor necessário do processo político graças à resiliência no longo prazo, flexível para não romper. Tangencia também a análise pelo lado moral que nos deve forçar a opção pela democracia. Da mesma maneira que a moral dos bolchevistas os levou a desprezar a democracia. Esta preocupação com a moral é fundamental também para a análise do futuro, quando certos valores planetários e humanistas não caberão na democracia nacional.

Da mesma forma, Ivan Alves Filho traz o tema do meio ambiente, que as forças de esquerda, baseadas em Marx, mas também no cristianismo, resistiram até recentemente. O marxismo é filho da civilização industrial, opondo o socialismo às maldades do capitalismo, mas dentro do mesmo estilo civilizatório. Apesar do esforço de muitos, os marxistas e os partidos comunistas, inclusive social-democratas, demoraram a entender a dimensão da crise ecológica. Até hoje não entenderam plenamente. No começo dos anos 80, um célebre marxista brasileiro recusou um artigo na revista que ele dirigia, sob o argumento de que “o assunto do meio ambiente e dos limites ao crescimento é uma invenção do imperialismo para barrar o desenvolvimento do Terceiro Mundo”.

Ivan traz em seu livro o tema de que hoje não está em jogo a disputa socialismo versus capitalismo, mas capitalismo e socialismo versus uma nova civilização, na qual o projeto humano leve em conta o valor da natureza. Ele avança ao trazer o meio ambiente, mas fica nos devendo um outro livro que analise a relação deste tema com a democracia: como construir uma nova civilização, planetária e humanista, com regimes democratas nacionais. Como será possível enfrentar temas como migração e meio ambiente, com o mundo dividido em 200 democracias, cujos eleitores escolhem seus governos e suas políticas com base nos interesses individuais, provincianos e imediatos.

Nós ficamos devendo ao Ivan ter nos provocado a ver o mundo de hoje com olhos de hoje.

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Professor Emérito da Universidade de Brasília e presidente do Conselho Curador da Fundação Astrojildo Pereira

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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