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Recordações de uma menina de Minas

Ivan Alves Filho - Dezembro 2020
 



Márcia Heliane Gomes. Uma menina de Minas. Tiradentes: Aquarius, 2020. 84p.

Nasce uma escritora. Anotem esse nome: Márcia Heliane Gomes. Seu talento narrativo — e isso significa concisão, clareza e simplicidade — se mescla ao fato de que a autora vivenciou uma das transições históricas mais impactantes que conheço. Ou seja, aquela da passagem de uma cidade de raízes plantadas no século XVIII quase que diretamente para o século XXI.

Pois Márcia vai descrevendo, com emoção e doçura, como a acanhada Tiradentes foi se transformando na cidade palpitante e cosmopolita de hoje. Graças à sua memória podemos mergulhar na Tiradentes de outrora. Afinal, uma Tiradentes vista pelos olhos atentos da menina que depois se fez mulher só poderia resultar em um depoimento de forte natureza poética. Márcia, como num encanto, pega o leitor pelas mãos e o leva para passear pelos logradouros de Tiradentes. Da imponente Serra de São José às sossegadas igrejas e destas às aprazíveis ruas da Matriz e Direita, tão torta que ela é. Mas, nada de ilusões: a Tiradentes descrita por Márcia é aquela das pessoas e não aquela feita apenas de pedra e cal. Nisso reside seu verdadeiro patrimônio.

A mágica da memória implica trazer o passado de volta à vida. E o que a vida ensina? Que quem tem passado tem futuro. A cidade do revolucionário Joaquim José da Silva Xavier, do botânico Frei Velloso, do músico Manoel Dias de Oliveira, do pintor Manoel Victor de Jesus, do poeta Basílio da Gama e também do historiador Basílio de Magalhães não para de nos surpreender. Pois é certo que Tiradentes continuou formando e atraindo muita gente, compondo assim um sólido grupo de artistas, músicos, literatos e intelectuais na cidade, ao qual se agrega Márcia Gomes. Formada em filosofia e trabalhando com o rico patrimônio mineiro, Márcia sabe unir o conceito à matéria, a subjetividade à objetividade, o sopro estético ao registro de corte histórico. Mas tenho para mim que a grande marca que este livro traz tem que ver com sua carga subjetiva, a força do seu relato. De rara inteireza — ou Schiller não dizia que a melhor de todas as belezas era a mulher? —, este livro vem comprovar que a Arte reconcilia o homem com a prática da felicidade. Não é por acaso que a Arte se pauta pela busca da harmonia, e isso em uma sociedade onde a harmonia se faz cada vez mais necessária. Basta olhar à nossa volta.

Mas este é também um livro de memórias, aludimos mais acima — e memórias são uma espécie de biblioteca íntima nossa. Uma reserva sensitiva. Esta obra comprova isso com louvor — os textos aqui reunidos são delicadezas impressas no papel. Márcia possui a sensibilidade à flor da pele — ou na ponta do lápis. A vida a preparou para a literatura. O trabalho (e seus problemas), o corpo (e seus mistérios), os entes queridos (e suas lutas): dir-se-ia que essência da experiência vital está aqui no livro.

A autora me disse certa vez em Tiradentes, ali onde a Rua Direita faz ângulo com a própria Rua da Câmara onde ela nasceu, que escrevia todos os dias. E eu me lembrei que Rainer Maria Rilke observou em Poemas e cartas a um jovem poeta que um autor de verdade era aquele que não poderia deixar de escrever nunca, sob pena de simplesmente sucumbir. É o caso aqui: Márcia Gomes não pode parar.

Há passagens comoventes, transbordantes de lirismo nesta obra. Cito uma delas, quando a autora fala da sua infância: “saía para comer a broa, e gostava de descer a rua, olhando as pedras, escolhendo em qual pisar com minhas sandalinhas brancas, meu vestido de algodão e minhas fitas de cetim prendendo meu cabelo”. Memórias que, como diz Márcia, “são despertadas por algum aroma especial, alguma brincadeira, uma brisa leve de verão, uma risada gostosa, um céu rosado de outono [...] uma vidraça quebrada, uma janela.” E a menina na casa da avó, olhando para “o espelho oval da penteadeira [...] pensando no que seria da minha vida, como cresceria, com que rosto, com que cabelo, com que corpo...me vislumbrava mulher”.

Isso é prosa poética extraída do cotidiano e nos faz bem como uma fruta degustada à sombra de uma árvore no quintal.

Decididamente, nasce uma escritora. Dessas que sabem reconstituir o modo de vida de toda uma época. Das páginas desse livro emerge uma Minas Gerais singela como as cantigas de roda de suas meninas. Essa neta da Dona Guimá é ouro puro brotando dos velhos córregos da região das Vertentes.

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Ivan Alves Filho é historiador

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil

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