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Entre vórtices, ciclones e cavados

Fausto Matto Grosso - Fevereiro 2021
 

A política é como uma nuvem, ensinava Tancredo Neves. Em política também existem ventos em altitude, sistemas de alta e baixa pressão, vórtices, ciclones e cavados. Sem programa de governo, com governabilidade instável e precária capacidade de gestão, o governo Bolsonaro é pródigo em produzir surpresas e instabilidades.

O capitão saiu das eleições municipais de 2020 como grande derrotado. Embora tenha adotado a tática de fingir-se de morto, os candidatos por ele apoiados foram fragorosamente derrotados. Eram treze e apenas dois se elegeram. Entre os derrotados, Crivella no Rio de Janeiro e Russomano em São Paulo, bem representativos do obscurantismo bolsonarista. Os únicos eleitos foram os prefeitos de Parnaíba, no Piauí, e Ipatinga, em Minas Gerais.

As eleições municipais formam a base para as disputas nacionais, portanto é importante levá-las em conta. O partido que ainda mais elege prefeitos é o MDB, que, de qualquer forma, pouco tem contado na política nacional. No Centrão cresceram PP e PSD. Enquanto o PSDB teve grande derrota, o DEM, de Rodrigo Maia, foi vitorioso com grande salto no número de prefeitos. A esquerda e a centro-esquerda saíram também derrotadas; apenas o Cidadania aumentou o número de seus prefeitos.

As eleições dos presidentes da Câmara Federal e do Senado também afetaram profundamente o rumo da política, um verdadeiro ciclone. Bolsonaro, que já perdera os olavistas e lavajatistas, enfim se entregou ao Centrão, que prometera destruir. Com isso ganhou temporariamente uma blindagem no Congresso contra o impeachment e impôs derrotas a dois prováveis antagonistas, o DEM de Rodrigo Maia e o PSDB de Doria, rachando-os de forma humilhante. Como disse o senador Tasso Jereissati, “os partidos foram triturados no Congresso”.

Para quem tinha dúvida, o livro-entrevista do General Villas Bôas revelou que os militares de alto escalão das Forças Armadas também estão ativos no jogo político e conspiram nos bastidores. Ao mesmo tempo, Bolsonaro amplia a posse de armas e trabalha no sentido de transformar as polícias militares em milícias bolsonaristas; planta vento parecendo querer navegar em tempestade, pescador de águas turvas que é. Isso demonstra como é frágil e instável a democracia brasileira: as possibilidades de retrocessos autoritários ainda estão presentes na vida nacional. Um raio em céu azul é sempre uma possibilidade.

É com esse alto grau de indefinição política que caminha o processo eleitoral de 2022. Articulam-se também no Congresso mudanças na legislação partidária e eleitoral. É o caso do fim da cláusula de barreira e a criação da federação de partidos, para atender demandas das pequenas legendas. Também se cogita a aprovação do distritão, sistema regionalizado de voto em grandes distritos eleitorais, que valoriza o voto em chefes políticos regionais.

Enquanto isso Bolsonaro se movimenta, tentando ajustar seu discurso para passar a impressão de que a estratégia econômica continua a ser liberal, representada por Paulo Guedes; mas, no caso da Petrobras, deu uma guinada populista e estatizante para agradar a sua base eleitoral e consolidar o poder dos generais do Palácio do Planalto.

Nesse clima instável, o Presidente vaga com iniciativas populistas, armamentistas e negacionistas para atender suas bases, ao mesmo tempo que faz chantagem contra a educação e a saúde, para viabilizar recursos para o auxílio emergencial tão necessário.

Apesar disso, com as pesquisas indicando sua aprovação no patamar de 30%, para a maioria dos analistas Bolsonaro deverá estar no segundo turno nas eleições presidenciais. Falta saber quem estará com ele, quem vai encará-lo. Já estão na disputa Doria, Haddad, Ciro Gomes, Huck e Boulos, e ainda correm por fora Moro, Mandetta e o governador gaúcho Eduardo Leite. Muitas outras candidaturas ainda poderão aparecer. Não se sabe qual delas prosperará, qual terá capacidade de aglutinar uma frente ampla contra Bolsonaro, única condição de derrotá-lo.

Candidatos não faltam, mas há que se avançar numa boa articulação democrática e num programa mínimo comum para tirar o país do buraco em que se encontra.

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Engenheiro e professor aposentado da UFMS

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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