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Pandemias, democracias & repúblicas

Ricardo José de Azevedo Marinho - Junho 2021
 




Em memória do meu filho Ricardo Góes Magalhães Marinho (1988-2017), vítima de outra pandemia

Cólera, a despeito de algumas discussões entre nós historiadores, é geralmente aceita como uma doença inteiramente nova no século XIX, pelo menos para a Europa e a América. Tendo sida identificada em Bengala desde a Antiguidade e observada nas campanhas de Alexandre, o Grande, e depois por outros viajantes para a Índia, só veio para a Europa como resultado da abertura de novas rotas comerciais através do Afeganistão e da Pérsia após a conquista britânica do norte da Índia, saindo assim de Bengala em 1817.

Em meados da década de 1820, foi interrompido o suposto cordão sanitário militar estabelecido pelos russos, mas o comércio seguiu crescendo na região e, em 1827, a cólera estava movendo-se ao longo do Volga e chegando a São Petersburgo; daí para Alemanha em 1831 e Grã-Bretanha e França em 1832.

Assim que chegou à Europa, a cólera rapidamente se alicerçou em outro aspecto decisivo da sua expansão no século XIX. A industrialização ajudou a mover a cólera rapidamente de um lugar para outro, primeiro ao longo dos rios e canais que eram as principais artérias de transporte nas décadas de 1820 e 1830, e, em seguida, ainda mais rapidamente ao longo das linhas ferroviárias que começaram a ser construídas em toda a Europa a partir da década de 1840. Um processo que seria brilhantemente sintetizado num famoso texto de 1848 que expressou o sentimento de que “tudo que era sólido desmanchava no ar”.

A coincidência dessas grandes epidemias de cólera com períodos de guerra, agitação e revolução é muito óbvia para ser ignorada e foi observada em uma variedade de maneiras pelos contemporâneos. Em 1848-1849, ela seguiu as forças da ordem, incluindo mais uma vez as tropas russas, que ajudaram a derrotar a Primavera dos Povos. A coincidência não passou despercebida aos contemporâneos, que compararam a grande limpeza da Europa após a epidemia com o retrocesso da maré revolucionária pelas forças da reação, lideradas pela Prússia e pela Áustria.

A epidemia de 1854-1856, que de forma semelhante varreu a Europa da Rússia ao Ocidente, foi também a única que se espalhou pela Europa de Ocidente a Oriente, levada para a Turquia, Bulgária e Oriente Médio por tropas britânicas e francesas que lutaram na Guerra da Crimeia. As epidemias de 1866 e 1871 foram espalhadas pelas guerras de Bismarck para a unificação alemã. Em 1892, a cólera chegou ao oeste e depois à Europa Central com uma onda de migrantes em fuga da perseguição, em particular a perseguição antissemita na Rússia, e à procura de um novo lar na América, através do porto marítimo alemão de Hamburgo. Portanto, mais uma vez, como na história da Peste Negra, tanto a guerra quanto o comércio levaram as doenças a novas vítimas.

O miasma, como era conhecido, naturalmente apelava aos interesses de qualquer estado que estivesse particularmente preocupado com os efeitos econômicos da quarentena. Por exemplo, a cidade-estado autônoma de Hamburgo, no norte da Alemanha, o maior porto marítimo do continente europeu e o mais rico do mundo depois dos de Londres, Liverpool e Nova York. O Conselho Médico de Hamburgo, sob a poderosa influência das famílias de comerciantes, garantiu ao longo das décadas de 1870 e 1880 que nenhum médico fosse nomeado para um cargo oficial, a menos que fosse adepto da teoria do miasma sobre as doenças e sua transmissão.

Em 1890, as opiniões do médico bacteriologista Robert Koch (1843-1910) haviam conquistado o Império, refletindo a virada do governo alemão de 1879 para uma maior intervenção na economia e na sociedade. Berlim estava oficialmente apoiando a teoria do contágio da cólera, colocando em prática planos para quarentenas e medidas de desinfecção, caso a doença surgisse em qualquer parte da Alemanha. Mas os poderes do governo imperial sobre os estados federados eram limitados, tal qual numa república democrática. Berlim não poderia forçar Hamburgo a aceitar seus pontos de vista.

Em agosto de 1892 a doença chegou a Hamburgo, via Rússia, em um trem de migrantes. Logo atingiu o ponto de captação de água da cidade, espalhou-se através dos reservatórios e foi bombeada para as casas de toda a cidade, antes que as autoridades médicas viessem a tomar quaisquer medidas para diagnosticar a doença nas primeiras vítimas e/ou tomar providenciais para combatê-la ou alertar as pessoas de sua presença. Logo as vítimas estavam sendo recolhidas aos milhares em lares infectados e levadas ao hospital. Em 50% dos casos nunca mais voltaram.

A legitimidade da administração do Estado de Hamburgo foi severamente atingida pela epidemia. Koch foi enviado pelo governo nacional a Hamburgo para impor quarentena, desinfecção e outras medidas, incluindo a distribuição de água não contaminada e gratuita e instruções aos cidadãos para ferver toda a água antes de usá-la — medidas que tiveram algum impacto para o fim da epidemia. Hamburgo foi forçada a reformar seu sistema de administração e nomear os adeptos das teorias de Koch para postos-chave no serviço médico.

Foi notável em 1892 que as pessoas comuns em Hamburgo não levantassem objeções às medidas tomadas por Koch. Mas as classes trabalhadoras da cidade apoiaram esmagadoramente o Partido Social-Democrata da Alemanha, que, como movimento político progressista de massa, acreditava na legitimidade da ciência moderna e cooperou plenamente com Koch e as autoridades no combate à epidemia. Os efeitos políticos da epidemia não foram encontrados em protestos estéreis contra A ou B, mas na lembrança constante desse desastre pelos sociais-democratas, que apontaram, além disso, a pilhagem da administração do estado para servir aos interesses de uma minoria rica e negligenciar a saúde e a seguridade do cidadão comum. Nas eleições nacionais de 1893, todas as cadeiras do Reichstag da cidade foram para os sociais-democratas.

Essa é a lição que nos vem dessa experiência para que não fiquemos perdidos em agitações estéreis (de rua ou não só), sem repararmos que eppur si muove, que o movimento da Terra traz consigo a mudança das estações, que não sentimos, na frase famosa de Joaquim Nabuco. No entanto, este movimento de intelectuais-massa que aí está já não dá para não perceber.

Niteroi, 5 de junho de 2021

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Professor da Unyleya Educacional e do Instituto Devecchi

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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