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Pandemia e endemia: a volta do tema da corrupção

Paulo Fábio Dantas Neto - Julho 2021
 


Em artigo no seu blog essa semana (“A corrupção está aí, mas não é a questão principal”) Marco Aurélio Nogueira fez, como sempre, uma abordagem lúcida e responsável, dessa vez sobre o lugar que o tema da corrupção deve ter na agenda da oposição e, mais importante ainda, sobre sua relevância relativa num programa mais amplo de defesa, fortalecimento e renovação da nossa democracia. As ideias gerais do texto, conforme interpreto, são, primeiro, que o tema não pode ser ignorado, pelos nexos evidentes com outros temas que, a juízo do autor (e ao meu também), são mais cruciais do que ele. Segundo, que precisa ser mais bem tratado, numa agenda ampla, e ser enquadrado, politicamente, de modo a salvar a política, em vez de demonizá-la. Terceiro, que é flanco vulnerável do governo Bolsonaro — como a CPI inicialmente focada na pandemia deixa claro a cada dia — e que, como tal, não deve ser dispensado como arma política na luta contra o autocrata e sua antipolítica.  

Estou de pleno acordo com as três proposições (só evito a sugestão de salvar a política, preferindo o verbo renovar). O que pretendo acrescentar às reflexões de Marco não se refere a esse dever ser e sim a como as coisas vem sendo efetivamente conduzidas. Entendo que o tema da corrupção está sendo, de novo, o destaque principal da agenda política da mídia (o que é compreensível pelo compromisso e cumplicidade que ela guarda com o que converge ao senso comum) e da oposição — o que aí já considero um problema político sério, porque o protagonismo indisputado desse tema contraria, ou mesmo revoga, cada uma das três proposições acima. Em vez de nexos, começa-se a ver na corrupção a causa dos outros problemas, inclusive da tragédia sanitária e social. Em vez de apontar caminhos que associem justiça e política, a demagogia que transborda, na CPI e fora dela, leva água ao moinho inclemente da antipolítica, que associa justiça e polícia. E pelo efeito combinado dessas duas atitudes (a simplificação e a demagogia) acaba comprometida a eficácia, como arma política, do combate à corrupção. Em vez da desejável separação entre joio e trigo, instala-se uma guerra entre ratos pardos, como a que o dispositivo governista trava com os irmãos Miranda e vários outros ratos de navio, ora em busca de salvação do naufrágio.

O lavajatismo, com outra roupagem, está reassumindo o centro da agenda, através da CPI. Outros personagens, outros alvos, outras performances e o mesmo ethos. O trio que comanda a comissão tem distintas conexões com o ambiente que levou àquele resultado eleitoral de 2018. O senador Randolfe é um ator de tradição, vivendo um personagem consagrado pela plateia afeita a esse espetáculo. Renan Calheiros é ainda mais experiente, mas atuava na companhia rival, interpretando papel de vidraça. No de estilingue, nem sempre tem feito jus à fama de astuto. Quanto ao senador Aziz, salta aos olhos o figurante catapultado ao primeiro plano por injunções de bastidor. Às vezes os três batem cabeça, mas acabam remando na direção comum de ampliar o prazo da CPI para que o foco também se amplie, mesmo que se perca de vista, contanto que não se perca a posição.

Estamos indo a bom lugar? O desgaste eleitoral de Bolsonaro é efeito colateral benfazejo dessa CPI. Mas nem o trio diretor nem Lula — o atual líder das pesquisas de intenção de voto e potencial beneficiário desse script — podem controlar consequências de um processo desse. Parecem querer manter Bolsonaro no jogo como Geni, para fazer da eleição de 2022 um plebiscito com resultado antecipado por pesquisas, folgado a ponto de liquidar a fatura no primeiro turno. Conseguirão? Precisam combinar com Bolsonaro, não porque ele vá se reabilitar, mas porque detesta purgatório e compra bilhete para o inferno político.

Atores do establishment têm olhos para ver, cabeça para raciocinar e meios para intervir. Sabem cuidar da própria vida. Excluída a hipótese de golpe, buscarão a via eleitoral. Lula pode até ser plano B, mas por que apostariam as fichas nele desde já? Há uma avenida aberta para outras saídas democráticas, populistas ou não. Entre algum fardado do bem e um Ciro Gomes reciclado para conversar à direita, há também quadros no DEM e no PSDB. A avenida será percorrida, e é bom que seja, por dois motivos. Isso pode tirar Bolsonaro do páreo (e só isso já a justificaria) e pode ainda estabelecer um pacto entre o establishment e o centro social-democrata para a disputa eleitoral com o PT. Pluralismo nunca é ruim (é sempre melhor que hegemonias prévias), não importa em quem cada um de nós votará.

Um bom passo em direção a essa avenida é fugir do beco lamacento onde pigmeus políticos proliferam como pintos. As trombetas da caça a corruptos soam, mas, dessa vez, a caravana da política precisa passar. É bom refletir: denúncias de corrupção ajudam a derreter Bolsonaro, sim, e devem ser processadas, sem dúvida. Mas onde e por quem? Por uma Curitiba às avessas no Senado? A que serve a mudança de objeto da CPI? O grande tema da saúde pública é apequenado pelo foco na corrupção. Assim como o da saída econômica e o da proteção social tendem a ter o mesmo tratamento subordinado.

A corrupção ter sido ponto lateral da agenda política foi um diferencial positivo das eleições municipais de 2020 em comparação com as de 2016. Em parte dependem dessa lateralidade as chances de 2022 fugir à lógica de 2018. Se a reação populista lograr colocar esse tema em destaque novamente, as chances de solução política vão para o espaço. Derrotar Bolsonaro por aí é reeditar a lenda de que todo político é ladrão. “Que se vayan todos!” é o subtexto de um script assim. Abramos o olho: ele está se insinuando, de novo, usando, de modo instrumental, as trincheiras institucionais da demagogia endêmica.

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Cientista político e professor da UFBA

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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