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Saudades de Fernando, quatro anos depois

Luciano Oliveira - Julho 2021
 


Em algum momento, numa noite profunda entre 18 e 19 de julho de 2017, meu amigo Fernando Mota abriu o gás — deixando-me com saudades e com aquela culpa que sentem os sobreviventes dos suicidas.

Ele nasceu em 1948 — ano da morte de Monteiro Lobato — em Igarapeba, na zona da mata pernambucana, e eu em 1952 — ano da morte de Francisco Alves, o “rei da voz” —, em Itabaiana, no agreste sergipano. As datas e as notas de falecimento já dizem o quanto eu e Fernando viemos à luz num mundo que não existe mais faz tempo. Seu pai, sem ser nenhum latifundiário, era plantador de cana; o meu, comerciante. Dito isso, poderia espichar-me em imagens extraídas da literatura e dizer que Zé Lins ilustra o “menino de engenho” que ele foi, e que Graciliano Ramos ilustra a “infância” que eu tive. Acho que ele não gostaria dessa ilustração. Sempre teve um pé atrás em relação ao lado “proustiano” do romancista paraibano, responsável a seu ver por certa edulcoração da miséria social e humana reinante nos ambientes em que se criavam — juntos até que a idade e a condição social os separassem — os moleques do eito e os filhinhos de papais plantadores de cana. E reivindicaria, certamente, a visão mais sombria do memorialista alagoano sobre a “bárbara educação nordestina” como melhor descrição para seus verdes anos. De resto, muito parecidos com os meus.

Ninguém escolhe quando nem onde nascer. Nós dois nascemos quatro anos distantes no tempo e mais de 500 quilômetros distantes no espaço, mas em mundos muito parecidos. Racismo, misoginia e homofobia eram, como o oxigênio e o nitrogênio, moléculas constitutivas do ar que respirávamos. Fernando era mulato, por falar nisso. Mas, num país com um racismo bem sui generis como o do Brasil, era filho do patrão, e só descobriu que não era branco muitos anos depois, quando fez estudos doutorais na Inglaterra. No mundo da sua Igarapeba, como no da minha Itabaiana, ria-se (riamos! — por que esconder?) com chistes infames como o que dizia que preto só era gente quando estava defecando e alguém batia na porta do sanitário, e ele respondia: “tem gente”. Era um mundo em que havia “mulheres faladas”, “viados municipais”, e em que a iniciação sexual dos meninos da nossa classe geralmente se fazia com as empregadas domésticas. Gonçalves Dias, que escreveu: “Oh que saudades que tenho / da aurora da minha vida/ da minha infância querida”, também escreveu: “Meninos, eu vi!”

Fernando já era um menino crescido quando, em seguida a um drama que o privou vida afora da presença materna (outra semelhança com o Carlinhos de Menino de Engenho...), a família perdeu os haveres em Igarapeba e conheceu a pobreza no Recife, para onde se mudou. A leitura o salvou: “Os livros foram meus agentes civilizadores, também os modelos éticos incogitáveis no ambiente em que vivi” — escreveu ele em anos recentes, quando aqui mesmo nesta revista manteve a coluna “Memórias de um Leitor”, destilando textos que obreiam em fineza e erudição com os dos nossos melhores críticos. Estou medindo minhas palavras, e de modo algum cedendo a emoções de necrológio, quando digo que Fernando Mota era um crítico literário do naipe de gente como Oto Maria Carpeaux, José Guilherme Merquior e Antonio Candido — seu “imortal preferido”, como escreveu por ocasião da morte deste último.

Quando nos tornamos amigos, já nos anos 1990, descobrimos, com a alegria propiciada pelas afinidades eletivas, que nos nossos anos de formação tínhamos lido os mesmos livros! Inclusive os mesmos “romances de formação”, a exemplo de Damien de Hermann Hesse e — em seguida ao enorme sucesso do filme com o mesmo título — O Homem de Kiev, de Bernard Malamud. Foi também uma alegria saber que a nossa formação política incluía a leitura entusiasmada do liberal inglês Bertrand Russell e o frankfurtiano “americanizado” Erich Fromm — a quem nós dois e muitos da nossa geração devíamos muito, sobretudo por causa de um livro que decidiu muitas vocações, Meu encontro com Marx e Freud. Com esses e outros autores Fernando construiu uma cidadela e se barricou com livros contra os horrores do mundo. O Brasil profundo e suas iniquidades de um modo geral, e as “igarapebas” em particular, lhe davam repulsa. Gostava de citar Antônio Callado, para quem “a única vocação de grandeza do Brasil é geográfica”, e mais de uma vez, nas nossas inúmeras tertúlias lítero-político-musicais, me repetia: “Professor, o Brasil não é um país, é um bordel”.

Era um intelectual formado na tradição dos “grandes humanistas” como Shakespeare, Montaigne e Cervantes, os nomes que primeiro lhe “vieram à memória” quando publicou uma lista dos “10 Mais” listando os autores que mais lhe importaram na vida. Nela também compareciam Machado de Assis, claro, e Mário de Andrade. Mas se em relação ao primeiro nutríamos uma admiração e um amor comuns, em relação ao segundo sempre divergimos. Contrariamente a ele, nunca gostei de Macunaíma, para mim um livro muito “artificial”. Toda obra artística é um artifício — e ambos sabíamos disso, claro —, mas eu argumentava, em seu desfavor, que na “bíblia” mariana os “andaimes” estavam muito expostos. Ele não chegava a divergir de mim quanto a isso, mas argumentava, a seu favor, que era uma artificialidade proposital, já que a (vá lá!) obra-prima de Mário tinha a pretensão de ser um manifesto e um programa para o Brasil. Vá lá. Nesse ponto, nos púnhamos de acordo. Aliás, no curso desses debates mais de uma vez Fernando reconheceu que o essencial de sua admiração por Mário de Andrade residia na missão que o paulista se dera de modernizar a cultura do país, de pôr-se a serviço, como mestre e guia, dos jovens talentos. E Fernando tinha muito disso.

O adjetivo não lhe agradava, mas meu amigo era um missionário. Ele vivia numa cidadela, como disse, mas tinha pontes levadiças sempre abaixadas para quem nela quisesse entrar. Mais: ele os procurava. Fernando era um professor que, de um modo geral, detestava seus alunos enquanto massa constituída majoritariamente por sujeitos indolentes que estão ali por obrigação, indiferentes ao idiota se esgoelando na sua frente. Nesses tempos de hoje então! Alunos de bermuda, ou, pior, consultando seus smarts em plena aula, punham-no em furor. Mas desde que alguma alma perdida se interessasse pelo que ele dizia, Fernando se desfazia em entrega. Se posso reduzir isso numa fórmula, diria que Fernando não queria alunos; como Mário, ele queria discípulos. Não no sentido de seguidores em busca de uma doutrina de salvação do mundo, que ele não tinha, mas como um professor old fashion way (acho que a expressão agradaria ao anglófilo que ele era), aquele sujeito que, como o personagem alcoólatra e desabusado de Michael Caine no filme O despertar [Educating no original] de Rita, que ele adorava, era um erudito querendo iniciar as pessoas simples como Rita nos tesouros da “alta cultura” — algo de cuja existência, em oposição à “baixa cultura” da indústria cultural, ele nunca duvidou. E, mesmo se não foram legião, ele teve discípulos. Alguns, dos bons, aqueles que — como o Sidarta de Hermann Hesse, outro livro da nossa formação — superam os mestres: da UCLA, na Califórnia, à Unicamp, em São Paulo, passando pela UFPE, eles estão por aí, educando.

Mas aí a velhice (uma “humilhação”, como diz uma amiga nonagenária) o pegou, e a cidadela na qual escolheu viver só revelou-se uma armadilha. Havia a companhia de Montaigne e de Machado, certo, mas, como ensinou Tolstói (outra de suas predileções, por falar nisso) n´A Morte de Ivan Ilitch, o sujeito que sente dores precisa de alguém para acariciar seus pés. Em 2017, escreveu: “É difícil suportar a doença quando se vive só e habituado a cuidar de si próprio”. Começava a anunciar o desfecho que se daria dois anos depois. A dependência cada vez maior para ir a médicos, fisioterapeutas e acupunturistas — tudo em vão — parecia-lhe um fardo mais pesado para ele do que para os que o ajudavam, e certa vez chegou a me dizer que não iria “suportar a piedade dos amigos”. Dois dias antes de se matar publicou nesta revista um texto chamado A sensação de morrer, no qual descrevia o que sentiu quando, ainda jovem, escapou com vida de um acidente de automóvel e acordou numa sala de hospital: “De repente, tive uma estranha sensação de morte. Achei que estava morrendo. Só que essa sensação não me causou nenhum medo ou pânico. Pelo contrário, foi a maior sensação de serenidade e paz que senti na minha vida.” E foi na emergência de um hospital que nos vimos pela última vez, alguns dias antes da noite profunda.

Para lá o levei numa madrugada depois de receber uma ligação pedindo socorro. Um telefone tocando depois de dez horas da noite já é estranho; depois de meia-noite então, assusta. No outro lado da linha era ele querendo ir para o hospital porque estava com uma dor... no pé! Isso mesmo, no pé. Desculpava-se por estar me incomodando, e disse que ligou porque não tinha conseguido contatar um sobrinho que nos últimos tempos o acompanhava aos médicos e clínicas onde fazia consultas e exames inúteis. Depois que desliguei o telefone devo ter dito um impropério e pensado algo do tipo: “se fosse pelo menos uma dor no peito...” Fui socorrê-lo, e encontrei-o em estado de desolação. Reclamava das dores no pé, mas também de dormência nas pernas, e de não conseguir dormir, mesmo já tendo tomado uma dose de ansiolíticos que, a ser verdadeira, correspondia a várias vezes a dose que normalmente tomo quando a barra da realidade pesa além do necessário. Cambaleava um pouco quando saiu da cama. Mais tarde, já medicado e instalado num box do hospital, nos despedimos. O amanhecer já estava perto e eu tinha um compromisso pela manhã. Seus pés estavam frios e os acomodei numa manta extra, enquanto ele finalmente começava a dormir. Trocamos algumas palavras sobre nossa amizade e parti. Deixei um dinheiro para o taxi e instruí o enfermeiro. Mais tarde nesse mesmo dia, ele já estava em casa e nos falamos ao telefone. Estava bem. Bem...

E veio a noite do 18 de julho. Um vizinho que cruzou com Fernando disse que ele estava “muito abatido”. Sozinho no apartamento, em algum momento bateu no liquidificador um coquetel de whisky e os ansiolíticos que tinha em casa. Bebeu, deitou-se num colchão no chão da cozinha com a cabeça junto ao fogão, abriu o forno e girou o botão. Mais tarde, entre o fim da noite e o começo da madrugada, o vizinho sentiu um cheiro forte de gás. A porta da cozinha estava fechada só com o trinco. Fernando Mota estava morto.

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Professor aposentado da Universidade Federal de Pernambuco

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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